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Arendt jamais apreciou ser chamada de filósofa. Respondendo
a um entrevistador na televisão, em 1964, ela declarou:
"Não sou uma filósofa. Minha profissão -
se pode ser chamada assim - é a teoria política. Eu me despedi irreversivelmente da filosofia. Como
você sabe, estudei, sim, filosofia, mas isso não quer dizer que permaneci nela... A razão,
por si mesma, a faculdade de pensar que possuo, tem necessidade de atualizar-se. Os filósofos e os metafísicos
monopolizaram essa capacidade. E isso trouxe várias conseqüências importantes. Mas também
acarretou coisas desagradáveis - já esquecemos que todo o ser humano tem a necessidade de pensar
e não de pensar abstratamente, não de responder às questões extremas sobre Deus, imortalidade
e liberdade, nada mais do que continuar pensando, enquanto viver."
Hannah Arendt
Intransigente, sempre ansiosa por despertar polêmicas, temerária - para os padrões acadêmicos
-, a ponto de não acautelar-se por trás de relativizações, nem de fugir ao categórico,
ou mesmo, segundo alguns de seus críticos, de abusar do direito à inconsistência. Orgulhosa,
nunca se retratando, mesmo quando obrigada a revisar seus pontos de vista e a suprimir trechos de seus ensaios
ou reescrevê-los. Mas sempre se expondo, fazendo questão de ocupar a linha de frente dos debates mais
candentes.
Dificilmente haveria uma intelectual do nosso século com um perfil tão instigante. Mas ainda que
Hannah Arendt, em poucas décadas e ainda em vida, passou de figura de ponta do pensamento intelectual progressista
ao, quase, ostracismo.
Hannah nasceu em 1906, em Hannover, filha de uma típica família judia de classe média, procurando
meios de inserir-se na sociedade patrícia alemã. Perdeu o pai e o avô paterno no mesmo ano,
1913, o que trouxe uma sensação de desamparo para si e sua família. Entre os 18 e os 19 anos,
tornou-se amante de uma das lendas intelectuais do meio acadêmico, o filósofo Martin Heidegger. O
affair durou alguns meses, e Hannah logo compreendeu que Heidegger não abandonaria seu casamento.
Celebrando o final do romance, escreveu As sombras, um ensaio autobiográfico que, segundo sua mãe,
marcaria a transformação daquela criança radiante em uma figura introspectiva e inclemente
no exercício da crítica.
Quando o nazismo toma conta da Alemanha e começa a se espalhar, Hannah inicia um longo périplo de
fuga, que vai de 32, passando por paris, até a chegada em Nova York, em 1940, onde é recebida com
entusiasmo, como a eminência do pensamento antitotalitarista.
Mas sua lua-de-mel com a intelligentsia, principalmente a judaica, não duraria para sempre. Eichmann em
Jerusalém, publicado em 63, em que comenta - e condena - a maneira como foi julgado e setenciado o oficial
nazista, numa corte de Israel, marca um já doloroso processo de distanciamento de Hannah em relação
às posições fundamentalistas do sionismo interncaional.
Hannah foi casada com Heinrich Blücher por mais de 30 anos. Reconheceria a contribuição do marido
à sua obra. Ele morreria em 1970, subitamente, levando Hannah a entregar-se, então, de modo integral
ao trabalho - tinha o mesmo projeto de rever ou suplementar alguns de seus estudos. Mas não conseguiu dar
cabo de sua tarefa. Viria a falecer em 1975, de um ataque cardíaco, em seu apartamento em Nova York.
Pensadora multipluralista - que tinha como inspiradores tanto Kant quanto Santo Agostinho -, Hannah Arendt consegue
até hoje ora agradar ora despertar a rejeição de públicos variados. Rebelde, irrequieta,
sua trajetória não poderia ter diferente impacto no pensamento filosófico e político
contemporâneo. É o que mesmo os seus muitos críticos reconhecem, seu vigor, a capacidade corrosiva
de suas idéias, indispensável para nos situarmos diante do complexo desenrolar da história
de nosso tempo.
David Watson é diretor da Universidade de Brighton. Anteriormente, lecionou em Crewe, na Alsager College
of Higher Education e na Oxford Polytechnic. Publicou diversos artigos e ensaios sobre temas vinculados à
história das idéias e sobre política de ensino superior. Escreveu Margaret Fuller: An American
Romantic (1998), Managing the Modular Course (1989) e Developing professional education (1992).
SUMÁRIO
Agradecimentos
prefácio
PARTE I - Europa: vivenciando o totalitarismo
1. Primeiros Anos
2. Educação Universitária
3. Fugindo do Nazismo
PARTE II - Israel: A necessidade política do sionismo
4. Arendt e o sionismo
5. Eichmann em Jerusalém
PARTE III - América: da teoria política à filosofia
6. Arendt e a República Americana
7. A vida do espírito
Pós-escrito
Notas
Bibliografia
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