HANNAH ARENDT

David Watson


144 págs. - 2001


Difel


Arendt jamais apreciou ser chamada de filósofa. Respondendo a um entrevistador na televisão, em 1964, ela declarou:

"Não sou uma filósofa. Minha profissão - se pode ser chamada assim - é a teoria política. Eu me despedi irreversivelmente da filosofia. Como você sabe, estudei, sim, filosofia, mas isso não quer dizer que permaneci nela... A razão, por si mesma, a faculdade de pensar que possuo, tem necessidade de atualizar-se. Os filósofos e os metafísicos monopolizaram essa capacidade. E isso trouxe várias conseqüências importantes. Mas também acarretou coisas desagradáveis - já esquecemos que todo o ser humano tem a necessidade de pensar e não de pensar abstratamente, não de responder às questões extremas sobre Deus, imortalidade e liberdade, nada mais do que continuar pensando, enquanto viver."

Hannah Arendt


Intransigente, sempre ansiosa por despertar polêmicas, temerária - para os padrões acadêmicos -, a ponto de não acautelar-se por trás de relativizações, nem de fugir ao categórico, ou mesmo, segundo alguns de seus críticos, de abusar do direito à inconsistência. Orgulhosa, nunca se retratando, mesmo quando obrigada a revisar seus pontos de vista e a suprimir trechos de seus ensaios ou reescrevê-los. Mas sempre se expondo, fazendo questão de ocupar a linha de frente dos debates mais candentes.

Dificilmente haveria uma intelectual do nosso século com um perfil tão instigante. Mas ainda que Hannah Arendt, em poucas décadas e ainda em vida, passou de figura de ponta do pensamento intelectual progressista ao, quase, ostracismo.
Hannah nasceu em 1906, em Hannover, filha de uma típica família judia de classe média, procurando meios de inserir-se na sociedade patrícia alemã. Perdeu o pai e o avô paterno no mesmo ano, 1913, o que trouxe uma sensação de desamparo para si e sua família. Entre os 18 e os 19 anos, tornou-se amante de uma das lendas intelectuais do meio acadêmico, o filósofo Martin Heidegger. O affair durou alguns meses, e Hannah logo compreendeu que Heidegger não abandonaria seu casamento.

Celebrando o final do romance, escreveu As sombras, um ensaio autobiográfico que, segundo sua mãe, marcaria a transformação daquela criança radiante em uma figura introspectiva e inclemente no exercício da crítica.

Quando o nazismo toma conta da Alemanha e começa a se espalhar, Hannah inicia um longo périplo de fuga, que vai de 32, passando por paris, até a chegada em Nova York, em 1940, onde é recebida com entusiasmo, como a eminência do pensamento antitotalitarista.

Mas sua lua-de-mel com a intelligentsia, principalmente a judaica, não duraria para sempre. Eichmann em Jerusalém, publicado em 63, em que comenta - e condena - a maneira como foi julgado e setenciado o oficial nazista, numa corte de Israel, marca um já doloroso processo de distanciamento de Hannah em relação às posições fundamentalistas do sionismo interncaional.

Hannah foi casada com Heinrich Blücher por mais de 30 anos. Reconheceria a contribuição do marido à sua obra. Ele morreria em 1970, subitamente, levando Hannah a entregar-se, então, de modo integral ao trabalho - tinha o mesmo projeto de rever ou suplementar alguns de seus estudos. Mas não conseguiu dar cabo de sua tarefa. Viria a falecer em 1975, de um ataque cardíaco, em seu apartamento em Nova York.

Pensadora multipluralista - que tinha como inspiradores tanto Kant quanto Santo Agostinho -, Hannah Arendt consegue até hoje ora agradar ora despertar a rejeição de públicos variados. Rebelde, irrequieta, sua trajetória não poderia ter diferente impacto no pensamento filosófico e político contemporâneo. É o que mesmo os seus muitos críticos reconhecem, seu vigor, a capacidade corrosiva de suas idéias, indispensável para nos situarmos diante do complexo desenrolar da história de nosso tempo.

David Watson é diretor da Universidade de Brighton. Anteriormente, lecionou em Crewe, na Alsager College of Higher Education e na Oxford Polytechnic. Publicou diversos artigos e ensaios sobre temas vinculados à história das idéias e sobre política de ensino superior. Escreveu Margaret Fuller: An American Romantic (1998), Managing the Modular Course (1989) e Developing professional education (1992).

SUMÁRIO

Agradecimentos
prefácio

PARTE I - Europa: vivenciando o totalitarismo
1. Primeiros Anos
2. Educação Universitária
3. Fugindo do Nazismo

PARTE II - Israel: A necessidade política do sionismo
4. Arendt e o sionismo
5. Eichmann em Jerusalém

PARTE III - América: da teoria política à filosofia
6. Arendt e a República Americana
7. A vida do espírito

Pós-escrito

Notas
Bibliografia


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