O MIGRANTE NA REDE DO OUTRO
Ensaios Sobre Alteridade e Subjetividade

Ademir Pacelli Ferreira

166 págs. 1999
Te Corá Editora
tecora@net.em.com.br

E-mail do autor:pacelli@uerj.br

Leia o prefácio

SOMOS TODOS MIGRANTES

de Benilton Bezerra Jr.


Desde o final do século XIX vêm sendo sedimentadas em nossas subjetividades certas características modelares sobre determinados segmentos que constituem a pobreza em nossas cidades, como aspectos inerentes à essência desses mesmos segmentos.

Inicialmente são os negros, mulatos, mestiços e, posteriormente, todos aqueles que habitando os chamados “territórios dos pobres”, passam a ser classificados como diferentes, carentes, incapazes e potencialmente perigosos. Em especial, nos anos Cinqüenta, tornou-se significativo entre a população pobre dos mais importantes e maiores centros urbanos brasileiros um outro segmento: os migrantes.

Da mesma forma que as teorias racistas e eugênicas produziram/fortaleceram subjetividades sobre os negros, mulatos e mestiços, que o movimento higienista forjou imagens sobre a pobreza, os migrantes também tiveram competentes criações sobre suas vidas e seus modos de existência. Vistos como despreparados e incapazes na adaptação à vida urbana, formando guetos, sendo pessimistas e fatalistas e demonstrando ineficiência para planejar o futuro, dentre outros estigmas - percebidos como naturais - os migrantes, em especial os nordestinos, passam a fazer parte da imensa parcela da população brasileira excluída de quaisquer direitos e segregada sistematicamente.

Pensar estas exclusões e segregações sofridas pelos migrantes e a manifestação de surtos psicóticos em alguns trabalhadores nordestinos, em especial, os da construção civil, que vieram ao encontro do autor nas emergências psiquiátricas do Rio de Janeiro, é o que se propõe este livro.

De forma delicada, poética mesmo, Pacelli - utilizando-se da literatura e do cinema - coloca em análise as produções do migrante e da loucura. Percebidos como coisas estranhas - visto o primeiro ser “alguém de fora” e o segundo como “algo fora da razão”- passam a ocupar o “lugar da ininteligibilidade”, como bem vai demonstrando esta “afirmação severina”.

Análise, portanto, instigante e fundamental para todos os profissionais “psi” que procuram pensar suas práticas cotidianas, em especial, nos territórios da saúde mental. Importante, ainda para todos aqueles que tentam desconstruir conceitos reificados por muitos que se dizem “promotores da saúde mental” em nosso país.

Enfim, no presente livro encontram-se questões que chamam nossa atenção não só para a cruel realidade do migrante nordestino, mas para as lutas que cotidianamente e, por vezes, microscopicamente as classes subalternizadas travam para que possam ser consideradas e tratadas como cidadãs.

Cecília M. B. Coimbra
(Professora Adjunta da Universidade Federal Fluminense, Psicóloga, Pós-Doutora pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ)

O autor parte do estudo do deslocamento geográfico enfocando a experiência migrante para pensar a relação com o outro, com o estranho ou com a diferença. Toma como referência de estudo o migrante nordestino por surgir como marca emblemática do migrante brasileiro. Através de um enfoque dialógico procura traçar considerações visando a compreensão da xenofobia, da discriminação racista e do papel representado pelo estranho na dinâmica da subjetividade. A dimensão da estranheza na clínica acompanha toda a obra. Ao enfocar seu momento mais drástico na relação do migrante recente com a psicose reativa aguda, ou surto psicótico, o autor demonstra uma situação de subvertimento do sujeito no estranhamento e na estranheza quando o eu é tomado pelo outro. Mas, mesmo estes efeitos podem produzir abertura no sujeito, pois se este supera a crise, possibilita desdobramentos onde a diferenciação pode encaminhar-se para o enriquecimento e não acarretar a paralisação do sujeito. Na análise do filme de João Batista, o Homem que Virou Suco, e da Hora da Estrela de Clarice Lispector, estes efeitos de espelhamentos são bem demarcados. Macabéa, a estranha e defasada nordestina frente ao burguês urbano, produz neste um impacto, um real que exige trabalho e metabolização. Capturado por esta imagem, o escritor é obrigado a narrar para ganhar distância e desvencilhar-se da estranheza e do vazio em suas entranhas.

Há uma linha de base no tecido nesta obra, trata-se de uma reflexão ética que ao reconhecer a especificidade da diversidade humana, chama nossa atenção para a construção de condições e princípios de convivência do eu e do outro, simultânea e concomitantemente, para que possamos habitar um mesmo espaço como eu e como outro e enquanto sujeitos de nossos desejos e não como objetos de gozo de outras instâncias.

Sobre o autor
Nascido no Município de Piedade dos Gerais, Minas Gerais, o autor chegou ao Rio de Janeiro em 1969, cursou Psicologia na UERJ, Mestrado na UFRJ e Doutorado em Psicologia Clínica na PUC-RJ. Desde 1979 é professor do Instituto de Psicologia da UERJ, onde leciona psicopatologia, é supervisor de clínica junto ao Serviço de Psiquiatria do HUPE, onde coordena o Espaço de Atividades e Convivência Nise da Silveira e a Residência em Psicologia. Integra ainda o corpo docente do recém-criado Mestrado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise.

SUMÁRIO

PREFÁCIO - Benilton Bezerra Jr.

Introdução

Parte I - A Reflexividade Migrante

1. Um desafio migrante: a circulação no campo do outro

1 O Eu e o Outro: Espaços Alterativos e Subjetivos

2. O migrante, suas pedas e o drama da reancoragem

1 O Lançar-se ao Outro: um Desafio Migrante

2 A Loucura no Caminho da Alteridade Migrante

3 O Drama do Migrante ou a Encarnação do Fantasma do Outro

4 A Crise: Narrativa e Reconstrução do Eu

3. O migrante no cinema: espelhamentos da diferença

1 Duplicação e Desdobramento Migrante: uma Construção Contra a Loucura

2 Identificação e Desidentificação: Metabolização da Experiência Migrante

3 Narrativa Epistolar: Reconstrução da Intersubjetividade Migrante

4. A migrante de Clarice: a luta da palavra no terreno da estranheza e do vazio

1 História de Macabéa: um Instante de Esplendor

2 "A Hora da Estrela": o Estilhaçamento do Ser na Ótica do Outro

Parte II - O Tempo e o Espaço no Desdobramento Migrante

5. O migrante e o devaneio lírico: memória e obliteração do passado

6. Espaços de alteridade e desdobramentos migrantes: o campo e a cidade

Desdobramentos e Considerações Finais

Bibliografia

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