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Desde o final do século XIX vêm sendo sedimentadas em
nossas subjetividades certas características modelares sobre determinados segmentos que constituem a pobreza
em nossas cidades, como aspectos inerentes à essência desses mesmos segmentos.
Inicialmente são os negros, mulatos, mestiços e, posteriormente, todos aqueles que habitando os chamados
“territórios dos pobres”, passam a ser classificados como diferentes, carentes, incapazes e potencialmente
perigosos. Em especial, nos anos Cinqüenta, tornou-se significativo entre a população pobre
dos mais importantes e maiores centros urbanos brasileiros um outro segmento: os migrantes.
Da mesma forma que as teorias racistas e eugênicas produziram/fortaleceram subjetividades sobre os negros,
mulatos e mestiços, que o movimento higienista forjou imagens sobre a pobreza, os migrantes também
tiveram competentes criações sobre suas vidas e seus modos de existência. Vistos como despreparados
e incapazes na adaptação à vida urbana, formando guetos, sendo pessimistas e fatalistas e
demonstrando ineficiência para planejar o futuro, dentre outros estigmas - percebidos como naturais - os
migrantes, em especial os nordestinos, passam a fazer parte da imensa parcela da população brasileira
excluída de quaisquer direitos e segregada sistematicamente.
Pensar estas exclusões e segregações sofridas pelos migrantes e a manifestação
de surtos psicóticos em alguns trabalhadores nordestinos, em especial, os da construção civil,
que vieram ao encontro do autor nas emergências psiquiátricas do Rio de Janeiro, é o que se
propõe este livro.
De forma delicada, poética mesmo, Pacelli - utilizando-se da literatura e do cinema - coloca em análise
as produções do migrante e da loucura. Percebidos como coisas estranhas - visto o primeiro ser “alguém
de fora” e o segundo como “algo fora da razão”- passam a ocupar o “lugar da ininteligibilidade”, como bem
vai demonstrando esta “afirmação severina”.
Análise, portanto, instigante e fundamental para todos os profissionais “psi” que procuram pensar suas práticas
cotidianas, em especial, nos territórios da saúde mental. Importante, ainda para todos aqueles que
tentam desconstruir conceitos reificados por muitos que se dizem “promotores da saúde mental” em nosso país.
Enfim, no presente livro encontram-se questões que chamam nossa atenção não só
para a cruel realidade do migrante nordestino, mas para as lutas que cotidianamente e, por vezes, microscopicamente
as classes subalternizadas travam para que possam ser consideradas e tratadas como cidadãs.
Cecília M. B. Coimbra
(Professora Adjunta da Universidade Federal Fluminense, Psicóloga, Pós-Doutora pelo Núcleo
de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ)
O autor parte do estudo do deslocamento geográfico enfocando
a experiência migrante para pensar a relação com o outro, com o estranho ou com a diferença.
Toma como referência de estudo o migrante nordestino por surgir como marca emblemática do migrante
brasileiro. Através de um enfoque dialógico procura traçar considerações visando
a compreensão da xenofobia, da discriminação racista e do papel representado pelo estranho
na dinâmica da subjetividade. A dimensão da estranheza na clínica acompanha toda a obra. Ao
enfocar seu momento mais drástico na relação do migrante recente com a psicose reativa aguda,
ou surto psicótico, o autor demonstra uma situação de subvertimento do sujeito no estranhamento
e na estranheza quando o eu é tomado pelo outro. Mas, mesmo estes efeitos podem produzir abertura no sujeito,
pois se este supera a crise, possibilita desdobramentos onde a diferenciação pode encaminhar-se para
o enriquecimento e não acarretar a paralisação do sujeito. Na análise do filme de João
Batista, o Homem que Virou Suco, e da Hora da Estrela de Clarice Lispector, estes efeitos de espelhamentos são
bem demarcados. Macabéa, a estranha e defasada nordestina frente ao burguês urbano, produz neste um
impacto, um real que exige trabalho e metabolização. Capturado por esta imagem, o escritor é
obrigado a narrar para ganhar distância e desvencilhar-se da estranheza e do vazio em suas entranhas.
Há uma linha de base no tecido nesta obra, trata-se de uma reflexão ética que ao reconhecer
a especificidade da diversidade humana, chama nossa atenção para a construção de condições
e princípios de convivência do eu e do outro, simultânea e concomitantemente, para que possamos
habitar um mesmo espaço como eu e como outro e enquanto sujeitos de nossos desejos e não como objetos
de gozo de outras instâncias.
Sobre o autor
Nascido no Município de Piedade dos Gerais, Minas Gerais, o autor chegou ao Rio de Janeiro em 1969, cursou
Psicologia na UERJ, Mestrado na UFRJ e Doutorado em Psicologia Clínica na PUC-RJ. Desde 1979 é professor
do Instituto de Psicologia da UERJ, onde leciona psicopatologia, é supervisor de clínica junto ao
Serviço de Psiquiatria do HUPE, onde coordena o Espaço de Atividades e Convivência Nise da
Silveira e a Residência em Psicologia. Integra ainda o corpo docente do recém-criado Mestrado em Pesquisa
e Clínica em Psicanálise.
SUMÁRIO
PREFÁCIO - Benilton Bezerra Jr.
Introdução
Parte I - A Reflexividade Migrante
1. Um desafio migrante: a circulação no campo do outro
1 O Eu e o Outro: Espaços Alterativos e Subjetivos
2. O migrante, suas pedas e o drama da reancoragem
1 O Lançar-se ao Outro: um Desafio Migrante
2 A Loucura no Caminho da Alteridade Migrante
3 O Drama do Migrante ou a Encarnação do Fantasma do
Outro
4 A Crise: Narrativa e Reconstrução do Eu
3. O migrante no cinema: espelhamentos da diferença
1 Duplicação e Desdobramento Migrante: uma Construção
Contra a Loucura
2 Identificação e Desidentificação: Metabolização
da Experiência Migrante
3 Narrativa Epistolar: Reconstrução da Intersubjetividade
Migrante
4. A migrante de Clarice: a luta da palavra no terreno da estranheza
e do vazio
1 História de Macabéa: um Instante de Esplendor
2 "A Hora da Estrela": o Estilhaçamento do Ser na
Ótica do Outro
Parte II - O Tempo e o Espaço no Desdobramento Migrante
5. O migrante e o devaneio lírico: memória e obliteração
do passado
6. Espaços de alteridade e desdobramentos migrantes: o campo
e a cidade
Desdobramentos e Considerações Finais
Bibliografia
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