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Qual a vocação de uma tese de doutorado que, desde o princípio
e até as páginas finais, afirma não ter o seu sujet (sujeito e assunto, retomo a ambigüidade na língua francesa muitas
vezes salientada em Derrida e a Literatura) uma cadeira na instituição universitária? Faço a pergunta
avançando de maneira despudorada o substantivo vocação, tão pouco atual na boca da
elite profissional brasileira. Uso esse substantivo pelo gosto do anacronismo e porque ele, ao nos desviar do pragmático
profissionalização ou do faceiro ufa! Mais uma etapa vencida, heranças respectivas da sociedade
neoliberal e competitiva e da sociedade alternativa e cínica decorrente de maio de 68, esse substantivo,
repito, ao nos desviar do competitivo e do cínico, nos remete para as duas pontas da forte experiência
de uma tese escrita no meio acadêmico e nele apresentada e defendida com intuito maior de solicitá-lo,
emprestando ao verbo solicitar o sentido que tem em latim e em Derrida, sollus-citare, abalar o todo. A situação
de defesa de tese em que a Universidade nos coloca hoje [...], caso vista não pelo ângulo da seriedade,
mas pelo da paródia a que nos induz Nietzsche, visa a abalar o todo da experiência tese, da experiência
disciplinar e da experiência universitária, como está um pouco por toda parte em Derrida e a Literatura [...].
As duas pontas da experiência intelectual solicitante se traduzem pelas idéias de chamado e de destino
que, se bem consultado o dicionário, lá estão em vocação, e mais ainda por esta
outra idéia que também lá está, se se ousar levantar — neste momento dramático
do rito final da iniciação acadêmica de Evando — o véu que a recobre. Levantando o véu,
ali se descobre o que está evidente desde o momento do chamado: o talento singular de um pensante (no atual
contexto, pensante é mais apropriado do que doutorando, colega ou mesmo crítico literário).
Silviano Santiago
ÍNDICE GERAL
QUESTÕES DE PRINCÍPIO
O protocolo de leitura
Outras leituras de Derrida
PARTE I - O MIMETOLOGISMO LITERÁRIO
1 LITERATURA E VERDADE
Nomes
As "notas" de literatura e filosofia
Uma "dupla sessão"
A nota da mímesis
A cena de literatura d'A República
2 TEATRO E METAFÍSICA
O mimetologismo literário e os dois conceitos de verdade
(adequatio ou homoiosis e alétheia)
A ordem da "representação"
A teoria e o teatro
A tese e o valor de exemplo
A crítica e a clínica
O subjétil (subjectile) e uma "revisão"
das duas fases
Mallarmé e a cena literária: a re-marca (re-marque),
o enxerto (greffe) o encetamento (entame)
O hymen entre Platão e Mallarmé
Os indecidíveis
O double bind
PARTE II - A DUPLA CENA DA ESCRITA
1 ESCRITA E GRAMATOLOGIA
A escrita-phármakon
A memória (mnéme) e a rememoração (hypómnesis)
A exterioridade e a série opositiva
A metafísica do signo
O preconceito fonologocêntrico: Husserl e o querer-dizer
O fechamento do livro, o signo e o símbolo
O logocentrismo do Crátilo
Saussure e a teoria do signo
A escrita usurpadora
A gramatologia, o rastro imotivado e a arquiescrita
A différance: a temporização, a temporalização
e o espaçamento
Austin e os enunciados constativos e performativos
As infelicidades: o parasitismo, a citação
Os atos locutórios, ilocutórios e perlocutórios
A iterabilidade, o acontecimento ou evento (événement),
a restância (restance), a deiscência (déhiscence)
2 SENTIDO E DISSEMINAÇÃO
Freud e a violência da abertura do caminho como facilitação
(Bahnung, frayage), o arrombamento (effraction)
A memória e o rastro mnésico (trace, Spur):
posteriormente (après-coup, nachträglich)
A vida a morte e a lógica do suplemento: descentramentos
A disseminação: o valor e o sentido
A economia geral, a economia restrita e a inquietante estranheza
(Unheimlichkeit)
PARTE III - UMA LITERATURA PENSANTE
1 FECHAMENTO E ÉPOCA
Heidegger: a Destruktion e a desconstrução
A temporalidade e as duas formas de dissimulação
O traço da dissimulação como retirada do
ser
A "agoridade" (maintenance, Jetzt) do tempo
A rasura do tempo: o imperfeito e o "futuro anterior"
O rastro do rastro: différance(s)
O ser, o tempo, o dom e o esquecimento radical
A cinza e o queima-tudo (brûle-tout)
O Ereignis, a vontade de potência e o esquecimento ativo
Os limites, o fechamento (clôture), a aporia e o
párergon
O schibboleth, o signo e o símbolo
O mochlós, os nomes, o gl e o valor de série
Os limites fronteiriços e o trançado (tresse)
das problemáticas antropológicas
A teologia negativa
O para-além-da-enteidade e a khóra
2 LITERATURA E PENSAMENTO
A hipótese do trabalho
As origens do nome "literatura"
O relato ou a narrativa (récit)
O génos e o gênero
O fechamento da época (clôture) e a "dupla
invaginação quiasmática das bordas"
A literatura e a escrita em geral, a contra-assinatura
A (auto)biografia
A re-invenção do outro, o indecidível para
além do indecidível
A metonímia e a metáfora, a economímesis
Nietzsche e a (auto)destruição da metáfora
Ser justo (com) Nietzsche
PrincÌpio do fim
3 LIMITES DE ALEGRIA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
De Jacques Derrida
Sobre Jacques Derrida
Outros autores
ANEXO: "La Double séance"
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