CIORAN: ENTREVISTAS

Sylvie Jaudeau

Editora Sulina - 2001 - 78 págs.

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O Mau Demiurgo


“Se não escrevo mais, é por estar farto de caluniar o universo. Sou vítima de uma espécie de desgaste. A lucidez e a fadiga venceram-me - falo de uma longa fadiga filosófica tanto quanto biológica - algo se rompeu em mim. Escreve-se por necessidade, e a lassitude elimina essa necessidade. Chega um tempo em que nada disso interessa mais. Em outras palavras, freqüentei pessoas em demasia que escreveram em excesso, obstinadas pela produção, estimuladas pelo espetáculo da vida literária parisiense. Mas me parece que eu também escrevi demais. Um único livro teria bastado.”

Cioran


A Criação do tédio

A verdadeira filosofia é a literatura, a única reflaxão que não teme o escândalo da vida. Fora disso, mostra Cioran, só existem as tentativas positivistas de regular o regulável, o limitado, o racional. Mas o verdadeiro filósofo deve alimentar-se de paradoxos, de paixões, de ironial, de tempestades. "Não se evita impunemente uma crise interior", avisa Cioran.

Este livro, ENTREVISTAS, com Sylvie Jaudeau, lendo e escrevendo, último grande diálogo do mestre romeno publicado na França, revisda o pensamento de um autor impiedoso, fulminante e satírico. Para Cioran, sempre atento à sedução da forma, toda tragédia pressupõe uma comédia. Tudo é tragicômico. A morte é a última anedota da vida.

A filosofia tradicional não passaria de um exercício de opacidade verbal: "Pareceu-me que pretendiam iludir-me com palavras. Devo agradecer a Heidegger por ter conseguido, com sua prodigiosa inventividade verbal, abrir-me os olhos". Atenção: Cioran não gaba os méritos de Heidegger, mas os deméritos. A leitura de Heidegger ensinou-lhe o que não deveria repetir: a floresta densa dos conceitos inertes.

Cioran evitou as concessões. Teve sucesso sem adorar o brilho. Permaneceu libertário mesmo quando se tornou um mito, uma celebridade, um adulado. Desprezou os prêmios e as honrarias fáceis. Buscou no tédio, no vazio, na insignificância das coisas, o sabor da existência. Só há sentido na falta de sentido. Depois de ter reduzido o tudo ao nada, suspirou: "Se não escrevo mais, é por estar farto de caluniar o universo".

Quando a maioria dos pensadores estiver relegada ao silêncio empoeirado das estantes, Cioran ainda resistirá como um analista do impossível, um mestre da dúvida, um espírito da mordacidade a serviço da palavra maldita. Cioran conseguiu ser maldito sem nunca ter nada de mal dito. Era um virtuose da maldição bem dita, da fórmula insuperável. A sua insolência resistirá ao sol do tempo dando sal à impaciência dos que já não suportam a morosidade do "vitalmente correto".

Juremir Machado da Silva


SUMÁRIO

Prólogo

Entrevista

Breviário da Decomposição

Silogismos da amargura

A tentação de existir

Ensaio sobre o pensamento reacionário: a propósito de Joseph de Maistre

História e utopia

A queda no tempo

O mau demiurgo

Do inconsciente de ter nascido

Despedaçamento

Exercícios de admiração

Confissões e anátemas

Lágrimas e santor

No auge do desespero

Referências bibliográficas

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