AMIZADE E ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA EM FOUCAULT

Francisco Ortega

Graal - 1999 - 184 págs.


“Inúmeras questões surgem quando lemos o belo livro de Francisco Ortega. Não se trata de apontar para os limites do que ele fez; trata-se de mostrar como ele foi bem-sucedido na empreitada intelectual que assumiu. Pois, pensar como Foucault é jamais parar de pensar. É perguntar, sempre e uma vez mais: por que tem de ser assim? Por que não poderia ser de outra maneira? Por que devemos acreditar no que nos dizem , agora, se, antes, já nos disseram tantas coisas, tantas vezes, tão diferentes? O grande mérito de Ortega é que ele é foucaultiano porque é Francisco Ortega no modo de pensar, de se inquietar e de nos levar a querer ser outra coisa, depois de ouvi-lo falar sobre o prazer e a amizade em Michel Foucault. Não vejo que maior elogio poderia ser feito a seu trabalho.” Jurandir Freire Costa

“O trabalho de Francisco Ortega sobre Foucault é único na produção brasileira. O autor se centra na noção de amizade, típica da última etapa do pensamento foucaultiano. A pretensão de Foucault, diz ele, era dupla: primeiro definir a filosofia como estilo de vida e não como posse da habilidade argumentativa com vistas à descoberta da ‘verdade’; segundo, rediscutir a noção de ética, desvinculando-a dos tradicionais problemas morais. Em síntese, trata-se de conceber um modo de vido no qual o Bem e o Bom não se contradigam e o Um e o Outro não se sujeitem à heteronomia de um Grande Outro que oculta suas origens mundanas, sob regras transcendentais, princípios formais ou universalidades racionais apriorísticas.
A amizade seria o meio, digamos, institucional de atingir essa meta. Mas os termos ‘amizade’ e ‘institucional’ não nos devem confundir. No vocabulário foucaultiano, amizade não tem o mesmo sentido dado à palavra na língua corrente. Do mesmo modo, institucional pouco tem a ver com a rede de prescrições, interdições e permissões que nos tornam sujeitos da vida privada ou pública. Amizade não é um artifício compensatório, um ornamento afetivo ao qual reservamos um lugar espremido e residual entre as obsessões amoroso-sexuais e os deveres cívicos. Institucional, por outro lado, não significa receitar códigos morais que nos tornam burgueses, na vida familiar, e cidadãos, nos regimes democráticos.
Foucault faz pouco caso dessas distinções. Sua preocupação é com a ética, com o que rompe as fronteiras das morais vigentes e leva o sujeito a se transformar, estilizando sua existência na presença do outro. A amizade seria o quadro relacional dessa constante recriação de si. Donde as sucessivas tentativas de defini-la, de forma a se contrapor aos sentidos literalizados com os quais nos familiarizamos. Assim, a amizade é descrita como uma ‘forma de subjetivação coletiva’ e uma ‘forma de vida’ que permite a ‘criação de espaços intermediários capazes de fomentar tanto necessidades individuais, quanto objetivos coletivos’. Ela é, continua Ortega, ‘um convite, um apelo à experimentação de novas formas de vida e de comunidade. Reabilitá-la representa introduzir movimento e fantasia nas rígidas relações sociais, estabelecer uma tentativa de pensar e repensar as formas de relacionamento existentes em nossa sociedade que são poucas e simplificadas’.”
Do prefácio de Jurandir Freire Costa

SUMÁRIO

Prefácio - Jurandir Freire Costa
Introdução
1. Dobra, Re-dobra, des-dobra
Apêndice. Michel Foucault e Max Weber sobre governo e direção da vida
2. Em busca de uma nova noção de filosofia
3. Autoconstituição do sujeito
4. As confissões da carne segundo Peter Brown e Michel Foucault
5. Estética da existência no Renascimento e no dandismo
6. A vida como escândalo da verdade
7. O si mesmo e os outros
8. Resistência sexual
9. Ética e política da amizade
Bibliografia



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