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“Friedrich Nietzsche, um dos mais influentes filósofos dos
tempos modernos, morreu em Weimar no ano de 1900, aos 55 anos de idade, quase doze depois de deixar sua querida
Turim pela última vez. Nietzsche foi levado de volta à Alemanha pelo amigo Franz Overbeck, após
um decisivo colapso físico e mental decorrente da infecção sifilítica de que era portador,
provavelmente desde a juventude.
Neste livro surpreendente, Lesley Chamberlain reúne a pesquisa biográfica e o exame da correspondência
pessoal do pensador-artista em seu último ano de vida produtiva para realizar uma apaixonada investigação
dos motivos que fazem de sua obra - a despeito do que está expresso no mais autobiográfico de seus
livros: ‘Eu sou uma coisa, meus escritos são outra’ (Ecce Homo) - um amálgama singular de personalidade
e visão de mundo.
Chamberlain caminha ao lado de Nietzsche sob as arcadas da capital piemontesa, em longos passeios pelas margens
do rio Pó e em excursões às altas montanhas da Engadinha; assiste-o em seus temores neuróticos
e crises solitárias de enxaqueca e vômitos; participa, com eventuais interlocutores, de seus momentos
de iluminação criadora; e acompanha a trajetória de sua produção literária
madura, com o assumido propósito de tomar o seu partido face a um terrível destino filosófico:
‘Nem bem havia morrido, em 1900, não-filósofos de todos os tipos aparecem para usurpar a sua criação
intelectual e desviá-la para finalidades não-filosóficas. Sua irmã Elisabeth, uma bizarra
combinação de lealdade intermitente, incessante tráfico de poder e total fatuidade, em que
o autoconhecimento faltava na mesma medida em que sobrava no irmão, foi uma criminosa renomada, inventando
em Nietzsche méritos que agradassem aos nacional-socialista.’
Este encontro ‘tardio’ de Lesley Chamberlain com Friedrich Nietzsche em Turim, ‘não o primeiro mas o mais
substancial’, aconteceu numa pequena praça onde ela se deteve para ler as cartas do ano de 1888. A correspondência
regular com a mãe e a irmã, além de um punhado de amigos e editores é então
para Nietzsche - o viandante solitário, arauto europeu da decadência do homem moderno irremediavelmente
infectado pelo virtuoso niilismo da compaixão cristã - a única forma remanescente de relacionamento
humano.
Incompatibilizado com o establishment literário alemão desde a publicação de O nascimento
da tragédia, 1872, e afastado da Universidade da Basiléia desde 1879 devido à saúde
debilitada, ou movido talvez por um implacável sentido de missão filosófica, Nietzsche estabelecera
um padrão de vida itinerante e ascético, vivendo e escrevendo suas obras sob as mais duras condições
em lugares diversos da Suíça e da Riviera italiana (O viandante e sua sombra, 1880; Aurora, 1881;
A gaia ciência, 1882; Assim falou Zaratustra, 1883-5; Além do bem e do mal, 1886; A genealogia da
moral, 1887-8). Nos anos 1882-85, o casamento de sua irmã Elisabeth, o despedaçamento de suas esperanças
amorosas em relação a Lou Salomé e a morte de Richard Wagner - com quem mantivera uma íntima
amizade pessoal e intelectual nos anos de 1869076, definitivamente rompida em 1878 - foram para Nietzsche verdadeiros
desastres ‘que levaram Overbeck a temer pelo bem-estar do amigo, largado num enorme deserto emocional ainda antes
de completar quarenta anos de idade’. Turim, ‘ o primeiro lugar onde eu sou possível’, é, em 1888,
a ‘pessoa’ amada a quem Nietzsche irá dedicar a sua afetividade e sua pulsão criativa, ao som de
Carmen, de Bizet, antítese mediterrânea do romantismo debilitante de Wagner.
Sentindo aproximar-se o desenlace de sua enfermidade, Nietzsche decide ‘delimitar o passado, recapitular suas realizações
e consumar a mensagem que elas continham com uma nova obra, ou obras, que transvalorassem todos os valores’. Concluída
A genealogia da moral no mês de julho, Nietzsche se lança com todas as suas forças à
elaboração de O caso Wagner, O anticristo, Ecce Homo e Ditirambos dionisíacos, até
o colapso final, no início de janeiro de 1889.
Seguindo as trilhas paralelas das cartas e da produção literária do ano de 1888, Chamberlain
consegue desvelar, com rara sensibilidade, a trama formada pelos temas de Nietzsche - o trágico, o dionisíaco,
a vontade de potência, o super-homem - e sua história familiar, suas frustrações afetivas
e sua luta pela saúde e pela vida, desincumbindo-se brilhantemente da tarefa autodesignada de ‘biógrafa
do autobiógrafo’. O problema que tem em mãos é ‘compreender as lacunas entre a experiência
de Nietzsche e sua reflexão, e entre estes e seu texto para publicação, para assim reconstruir,
ainda que aproximadamente, o processo de sua auto-superação’.
‘A contribuição de Nietzsche à filosofia foi, em certo sentido, devastadoramente simples;
ele fez tremer as cathedrae. Levantou a questão de se a filosofia ocidental desde Platão tinha algum
sentido diante das forças absurdas e irracionais subjacentes à vida humana, simbolizadas por Dioniso.
No início de Crepúsculo dos Ídolos, sob o título Os quatro grandes erros, está
a resposta de que não há respostas, somente erros. Mas eram interessantes esses erros, brincadeiras
decorativas que iam ganhando sentido ao longo do caminho. Este fato simples sugere o motivo pelo qual o filósofo
deve se tornar um escritor, um artista, um estilista, para sobreviver ao colapso da verdade que o rodeia. Era,
pelo menos, o caminho que o filósofo Friedrich Nietzsche tinha de trilhar’.”
Pedro Jorgensen Jr.
“Este é simplesmente o melhor livro que li sobre o maior filósofo
dos tempos modernos.”
John Banville, The Irish Times
“Este livro brilhante será, com certeza, um grande alívio para as pessoas condenadas a ler todos
os comentários contemporâneos sobre Nietzsche... uma introdução difícil de imaginar
superada a paixão e lucidez. A obra acompanha [Nietzsche] ao longo do ano de 1888, o último de sua
vida sã... uma combinação de comovente narrativa biográfica, evocação
de lugares e estados de ânimo e relatos de escritos daquele ano que é um tour de force de sensibilidade.
Mais que qualquer livro que já li, o de Chamberlain consegue fazer justiça ao complexo relacionamento
entre Nietzsche e Wagner... e mostrar por que ele é tão importante.”
Michael Tanner, The Times
“Lesley Chamberlain estudou alemão e russo em Exeter e Oxford,
trabalhou como jornalista em Moscou e finalmente se estabeleceu em Londres para escrever e lecionar. É autora
de vários livros que abordam temas que vão da comida à filosofia. Colabora regularmente no
The Times e The Times Literary Suplement. Dedica o tempo livre à filha, à música e à
jardinagem.”
SUMÁRIO
Vida e Obra de Nietzsche - Uma cronologia comparativa
Prefácio
1. Quarenta e Três Anos Atrás de Mim e Tão Só Como Quando Era Criança
2. O Começo do Futuro: O Primeiro Lugar Onde Eu Sou Possível
3. Uma Intimidade Indescritivelmente Estreita
4. O Espírito da Música e a Construção de Nietzsche
5. O Futuro da Arte: O Caso Contra Wagner
6. Novas Partidas e Altas Montanhas
7. Hereditariedade e Tempo Emprestado
8. O Brâmane da Superabundância e o Professor Louco
9. Ecce Homo
10. Dioniso Desce o Rio Pó
11. O Colapso para o Além
Botas
Bibliografia
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