
FREUD & NIETZSCHE
SEMELHANÇAS E DESSEMELHANÇAS
Paul-Laurent Assoun
1989 - 313 págs.
Embora a conjunção Freud e Noetzsche tenha sido percebida
há muito tempo - desde a própria origem da psicanálise, quando as ressonâncias entre
uma e outra obra se fizeram escutar - as relações mantidas entre ambos não passaram de simples
intuições, suspeitas e análises parciais. Paul-Laurent Assoun examina neste livro o conteúdo
e o sentido das afinidades, os ecos, os vasos comunicantes que entrelaçam as vidas e as obras de Nietzsche
e Freud. Em primeira instância o autor recorre à contemporaneidade histórica dos personagens,
o que lhe permite relacionar estes dois nomes e respectivos pensamento - desde as reflexões sobre Nietzsche
efetuadas nas famosas quartas-feiras na Sociedade Psicanalítica de Viena, até a amizade que ambos
mantiveram com Lou-Andreas Salomé. O caminho que leva Assoun de Freud a Nietzsche e vice-versa conclui com
a descoberta dessas afinidades entre os dois pensadores, entre a genealogia da moral e a arqueologia do inconsciente,
entre as revoluções neocopernianas propugnadas por eles e entre seus dois discursos colocados frente
a frente que, apesar de seus diferentes códigos e suas vhaves distintas, recorrem às mesmas zonas
de linguagem, determinando formas, radicais a seu modo, de subversão. Mais do que a simples sedução
exercida por esta analogia, o projeto proposto por Assoun pretende tornar explícito o tema ‘nietzsche-freudiano’
sem cair na imprecisão das sugestões nem ceder ao artificialismo das semelhanças retóricas.
"A versão intelectualmente dominante da psicanálise contemporânea decretou a pornografia
da vida. Se o inconsciente é ‘estruturado como linguagem’, só interessará ao saber psicanalítico
o que pode ser organizado sob forma sistemática. E será preciso ignorar o que é múltiplo,
que se coloca como diversidade.
Abandono dos afetos, recusa dos concretos das vivências: eles só existiriam desde sua transformação
em significantes. Significantes achatados e sem intensidade, organizados sob a forma de matemas, que só
têm valor enquanto postos em sistema. E o sistema só valendo desde que seja enunciado por um discurso
adequado e centralizador. Para isto, psicanalistas e analisandos que se inscrevem nesta ordem discursiva terão
que se submeter à dessubjetivação, afastando a espessura da vida e colocando como meta o impossível:
o vazio, a Palavra que ainda não foi dita.
Freud recusou-se colocar a Psicanálise em sistema. Isto nunca o impediu de pesquisar aquilo que sistematizaria
o inconsciente: na sua primeira Tópica, pensou o sistema inconsciente enquanto algo substantivado. Depois
de 1923 (O Eu e o isto), afirma um ‘isto’ inconsciente, que não tem características exatas (isto
é, que se possam colocar em sistema), mas rigorosas. E também, a partir da postulação
do ‘isto’ será impossível sustentar o psiquismo apoiado nas pulsões de auto-conservação.
Se as pulsões passam a ser pensadas como manifestação plurais, o psiquismo não pode
se assujeitar a uma economia restritiva do pensamento. Aprenderemos com Freud a necessidade de restabelecer o delicado
equilíbrio entre o pensamento e a vida, tema importante em Nietzsche (por exemplo, A Gaia Ciência).
A aposta na teoria psicanalítica tem que respeitar as pulsões e sua expansão e produção
permanentes.
Não há em Freud um Real inalcançável como alvo fálico, pois o isto sempre é
alguma coisa. Quando se o toma, é produto diferencial das pulsões e dos sistemas organizados que
experimentam capturá-lo. O ‘isto’ se deixa organizar sistematicamente (pelas três Urphantasien: sedução,
cena primária, castração), mas esta organização não é nem permanente,
nem universal (é isto que se aprende, incisivamente, com Psicologia das massas e Análises do Eu).
Porém, na medida em que nós psicanalistas nos colocamos enquanto agentes de mudanças (oferecendo
transformações para quem escutamos, pois escutamos alguém que deseja mudar), trabalhamos com
um saber restringente, que não pode aceitar inteiramente todas as expressões pulsionais; que precisa,
por isto mesmo, colocar-se sob a forma isntitucional. As expressões da ordem psicanalítica regem-se
sob um contrato - que perpassa a análise individual, fundando-se desde a teoria até a pertinência
institucional - que sempre estabelece possibilidades e limites: a vida terá condições especiais
de dialogar com a inteligência.
Na Psicanálise, o sofrimento procura formas de apaziguamento, e a loucura (convertida em ‘psicose’) terá
que estabelecer modos de conversar com produções psíquicas incontroláveis. É
necessário, mas não suficiente para a Psicanálise caracterizar o sofrimento e loucura como
formas positivas de expressão. Sem exceção, as psicanálises se produzem sempre com
algum conceito de cura.
Dado isto, como compatibilizar a obra freudiana com a de Nietzsche? Acho que para o leitor freudiano de Nietzsche
esta é a questão mais importante.”
Chaim Samuel Katz
SUMÁRIO
Introdução
PRIMEIRA PARTE - FREUDE E NIETZSCHE
1. Freud frente a Nietzsche: gênese de um encontro
2. Nietzsche no discurso freudiano
SEGUNDA PARTE - NIETZSCHE E FREUD
Introdução
Livro Primeiro - Os Fundamentos
1. Instinto e pulsão
2. Psicologia nietzschiana e psicanálise freudiana
3. Princípios pulsionais
Livro Segundo - Os Temas
1. Amor e sexualidade
2. Inconsciente e consicência
3. O sonho e o simbolismo
Livro Terceiro - Os problemas
1. Neurose e moralidade
2. Cultura e civilização
3. A terapêutica
Conclusão
Índice Temático
|
www.rubedo.psc.br | Início | Revista de Literatura | Correio |