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“É preciso sermos gratos a Alvaro de Gouvêa, que situou
suas práticas terapêuticas e suas pesquisas teóricas nesse movimento antiintelectualista, que
sabe dar a primazia ao gesto sobre a palavra, aos objetos materiais sobre as fantasias, à imaginação
criadora sobre o imaginário neurótico. Aceder ao outro, compreendê-lo e assisti-lo em seu sofrimento,
não pode reduzir-se ao despertar de reminiscências arcaicas confessadas num divã. Entre o terapeuta
e seu paciente é preciso ainda interpor um terceiro mundo, onde este último recria um mundo, o ‘seu’
mundo, com seu corpo, suas mãos, seus desejos...
Mas o mérito de Alvaro Gouvêa não reside apenas na renovação de técnicas
terapêuticas. Ele contribui de maneira original para uma teoria de sua prática.
Com seu trabalho sobre o ob-jeu, ele não confirma apenas a riqueza de um termo tomado de Fédida.
Em contato com poetas como Ponge, de artistas como Beuys e de filósofos como Bachelard, Alvaro de Gouvêa
lança as bases de uma ciência ainda inédita de ‘matérias-formas’, reais e fictícias,
que constituem verdadeiras matrizes da imaginação pessoal. Desse modo, o ob-jeu vem a ser uma categoria
tópica insubstituível que possibilita compreender como o Eu se reencontra no Não-Eu, nas sensações
das coisas, e como a realidade externa renuncia à sua estranheza para se prestar a uma subjetivação.
Entre o sujeito e o mundo há, portanto, lugar para seres mesclados, bipartidos, que não são
simples projeções do inconsciente nem realidades objetivas, enclausuradas em sua identidade substancial,
mas que se tornam espaços do jogo, onde a imagem toma o corpo para se enriquecer de possíveis. Assim
abre-se um novo campo de investigação destinado a resgatar as condições empíricas
e transcendentais desses mediadores, que não são mais verdadeiramente objetos nem coisas, mas catalisadores
alquímicos que permitem reatar interior e exterior, espírito e matéria.
O Centro Gaston Bachelard de Pesquisas sobre o Imaginários a Racionalidade, da Universidade de Borgonha,
que teve o prazer de acolher Alvaro de Gouvêa por ocasião da gestação deste seu trabalho,
sente-se honrado por estes primeiros resultados que forçam a adesão, e feliz por incluí-lo
entre seus colaboradores.”
JEAN-JACQUES WUNENBURGER
Diretor do “Centre Gaston Bachelard de Recherches sur l’Imaginaire et
la Rationalité”. Université de Bourgogne (Dijon - França).
“Esse trabalho tem como objetivo principal permitir ao analista imprimir
uma nova dinâmica ao setting analítico. A partir da utilização de um objeto concreto
como instrumental de trabalho analítico, repensamos o tema da relação ‘sujeito-objeto’ em
psicanálise, a fim de livrar a práxis analítica de uma cadeia lingüística que
a nosso ver limita e aprisiona das Ding (a coisa). Por meio da estrada de um terceiro elemento como o objeto do
jogo analítico, o setting se amplia e ao analista cumprirá se interrogar sobre o estatuto da palavra
objeto na teoria e na prática psicanalítica. Infelizmente, em psicanálise, a dita relação
de objeto tem se transformado numa relação de sujeito, isolando o objeto real e transformando a relação
sujeito-objeto numa relação sujeito-idéia.
A rigor, procuramos estabelecer um novo campo para a atividade analítica, estruturado em torno da noção
de Objeu e do que denominamos relação de objeu. Aqui, ao liberar o gestual reprimido do analisando
pela inclusão de um objeto material como o terceiro termo do brincar analítico, busca-se atingir,
para a teoria e práxis analítica, o equilíbrio técnico do objeto.
O nosso propósito é de progressivamente dar a conhecer que determinados objetos concretos podem vir
a ser a matéria-prima que, ao formar a imagem-ação, concorreria para a fabricação
do símbolo vivo, criando condições para a integração da imaginação
sensorial à imaginação verbal. Sendo assim, ao interagir com os sentidos, com a intuição,
com os sentimentos, com as sensações e emoções, com o circuito desejo/prazer e com
o próprio pensamento, a relação de objeu mobilizaria novas representações (representação
de objeu). Assim, ao “abrirmos o verbo” com a ajuda do objeto concreto, começamos a manusear e a dar uma
forma concreta às produções fantasmáticas do analisando.
Desse modo, através da tridimensionalidade própria à relação de objeu, o objeto
antes circunscrito no imaginário do analisando apenas como objeto verbal será também capturado
pelas mãos, liberando o ato analítico do predomínio da imaginação verbal. Portanto,
quando a práxis analítica é guiada através da relação de objeu, são
as mãos que capturam a função simbólica no inconsciente que, pela via da tríade
“analista - objeu - analisando”, conduzem o analisando ao manusear das palavras, ajudando-o no discernimento de
suas emoções e, consequentemente, na construção de sua subjetividade.
A palavra Objeu foi inventada pelo poeta francês Francis Ponge. Hoje, na França, a psicanálise
vem recorrendo ao termo objeu para reinventar o jogo analítico, conforme o notável estudo feito por
Pierre Fédida (ver capítulo VIII - L’objeu - Objet, jeu et enfance - L’espace psychothérapique;
FÉDIDA, P.; L’absence, Paris, Gallimard, 1978, p.97 segs.). Na falta de uma palavra em português que
pudesse ajustar-se com precisão e sonoridade ao termo objeu (talvez ‘objogo’), optamos por manter a palavra
inventada por Ponge. Acresce o fato de que a palavra objeu não é propriamente uma palavra francesa.
Trata-se de um neologismo que, ao nosso ver, se adapta bem ao português, respeitando, é claro, a liberdade
de ajustá-la à pronúncia brasileira. De qualquer maneira, o leitor está livre para
utilizar a tradução ‘objogo’, caso lhe pareça melhor.”
ALVARO DE PINHEIRO GOUVÊA - Doutor em Psicologia Clínica, PUC/Rio; DEA em Filosofia, Centro G. Bachelard
de Pesquisas sobre o Imaginário e a Racionalidade, Universidade da Borgonha - França; Professor do
Departamento de Psicologia, PUC/Rio.
SUMÁRIO:
Apresentação - Jean-Jacques Wunenburger
Prefácio - Angela Baraf Podkameni
Introdução
Capítulo I - Além da Relação de Objeto
1. O Buraco Semiológico: uma questão de linguagem
2. Uma psicanálise em busca de objetos
A voragem da pulsão
Lacan: por um objeto perdido
Winnicott: por um objeto transicional
3. Pelo Retorno do Carretel
Das ding ao alcance das mãos
Capítulo II - A Relação de Objeu
1. Objeu: uma referência lúdica
O objeu e a linguagem da presença
Da consciência da brecha à noção de relação de objeu
2. O jogo do divã
A função do divã na relação de objeu
3. A relação de objeu de uma perspectiva junguiana
4. A lógica das imagens
O cenário analítico: uma zona intermediária para o objeu
A marca significante das mãos
A dimensão sensorial da representação de objeu
Capítulo III - O Objeto do Jogo
1. A imaginação sensorial pela via da argila
1.1 - Fort-da-fort-da: a redescoberta do prazer sensorial
Contradições, conflitos e soluções: a lógica do desejo
1.2 - O fort-da como modelo psicoterápico
A gênese do modelo
1.3 - A argila entra como mediadora
1.4 - Do-jo-go-do-ob-jet-do-ob-jeu
1.5 - Possessão: o caráter arbitrário da projeção
2. O método
2.1 - O pensar do método
Da expressão conduzida à expressão livre
Do código manual ao código verbal
2.2 - Intervenção e cura
Da intervenção e da processo de cura
Da interpretação de objeu
Conclusão
Bibliografia básica
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