“Marquinhos, Alex, a Vendedora De Roupas Jovens Da Boutique De Roupas
Jovens e a Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, dentro do carro negro, importado do Japão, de Marquinhos,
atravessando todos os sinais vermelhos do caminho, já que, de madrugada, ninguém pára nos
sinais vermelhos mesmo, foram para o Motel Le Petit Palais, que era melhor do que o Motel L’Amour, onde a Gorda
Com Cheiro De Perfume Avon acabara de chegar com o Chefe Da Expedição Da Firma, mas não tão
bom quanto o Motel Taj Mahal, onde a Gorda Com Cheiro De Perfume Avon seria lambida pelo Japonês Da IBM,
se ela, Gorda Com Cheiro De Perfume Avon estivesse nas bancas de revistas, em frente ao shopping center, no momento
em que o Japonês Da IBM atravessou a larga avenida, em frente ao shopping center, e entrou, discretamente,
na banca de revistas, em frente ao shopping center.”
“Ler Sexo é uma faca de dois gumes. Por um lado desfrutaremos, inevitavelmente, o prazer e a alegria que
nascem da certeza de estarmos diante de um verdadeiro escritor, daqueles destinados a deixar marcas em seus leitores,
mas também em seus companheiros de ofício. Esse prazer, que para alguns surgirá com um sabor
de descoberta, para outros, que já o conheciam o autor desde o quase secreto e cultuado Amor (1998), será
a confirmação do talento anunciado. Mas o trágico é o outro gume dessa faca. Como chegar
ao final da leitura deste livro sem reconhecer que o realismo mais cru, para dar conta da barra pesada dos nossos
tempos, deve tingir-se com os tons do absurdo mais cruel? Como esquivar-se ao fato de que a falta de heróis
ou gestos e falas imprevisíveis em Sexo corresponde a uma sociedade desdramatizada, composta de autômatos?
Como não perceber que a falta de profundidade dos personagens (que em tempos manos sombrios poderia ser
indício de imperícia do romancista) hoje é um retrato do nosso próprio achatamento
e prova contundente da desassombrada capacidade narrativa de André Sant’Anna.
Apesar de ser tentador vincular todo autor novo a alguma linha literária (Céline? Henry Miller?),
é inútil tentar incluir a escrita de André Sant’Anna em qualquer escaninho já catalogado
pelos estudos literários. Sexo se desenvolve num fluxo muito original e não só para os padrões
atuais da literatura brasileira. Mas com certeza é no extremo oposto aos esteticismos, de vanguarda ou outros,
que se inscreve essa voz, voz de grande escritor.”
“André Sant’Anna nasceu em 64, em Belo Horizonte. Morou no Rio, tocou no grupo Tao e Qual de 80 a 90, atualmente
mora em São Paulo e trabalha como redator de publicidade. É autor de Amor (Dubolso, 98).”
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