NIETZSCHE... (DOS “COMPANHEIROS”)

Carlos Henrique Escobar

7 LETRAS - 2000 - 396 págs.


“É famoso o texto de Nietzsche sobre si mesmo em que ele diz: ‘A felicidade da minha existência, sua unidade talvez, reside na sua fatalidade’, e para a exprimir sob a forma de um enigma: ‘entanto que meu pai já estou morto, entanto que minha mãe, eu vivo ainda e envelheço’. Nietzsche continua, e designa então as origens (‘esta dupla origem’) como o mais elevado e o mais abismal. Isto á, pensa o ‘percurso’ afirmador como um sisifismo esmerado (as metamorfoses que a música do eterno retorno ‘sabe’ politicamente impor). Escreve ele: ‘Esta dupla origem, por assim dizer, remontando ao mais elevado e ao mais fundo da vida - afundando e começando sempre - eis aí algo (...) Que explica esta neutralidade, esta livre imparcialidade por respeito ao conjunto do problema da vida que talvez me caracterize...’”

“Uma ‘leitura’ de Nietzsche conseqüente passa hoje por um questionamento da noção de ‘tragédia’. É nesta a problematização que o encontramos e jamais como um filósofo isolado ou uma filosofia a mais na história da filosofia. Nietzsche é um engajamento nos valores trágicos que o desbordam e cuja genealogia ele mesmo empreendeu. Nietzsche se aspira - como ‘cena Nietzsche’ e nos testemunhos da ‘cena Zaratustra’ e, enfim, do Ecce Homo - como subversão radical (e como saber trágico) frente aos ‘valores do capital’. Se a genealogia dos valores configura uma luta, e nesta luta como ‘passado’ o êxito dos valores do capital, ela se abre criticamente aos mundos que daí resultam (nas tradições criadas e na história) como um combate militante aos valores hegemônicos. Nietzsche não é apenas a crítica destes valores - onde o capitalismo é somente um momento - mas também a urgência de um outro corpo e de outros povos pela radicalidade da sua ‘paixão’ (o bando bacante, o demonismo, os ‘animais de Zaratustra’, etc.) Como corporeidade acordada e celebração tendencial ‘daquilo que se trata’,
A destragização ‘compulsiva’ das leituras que ele sofreu - G. Brandes, Peter Gast, Elizabeth Förster Nietzsche, Lou Salomé, Jaspers, Lowith, a dos seus editores, inclusive as de Colli e Montinari, a leitura, enfim, de intelectuais do nacional-socialismo, de Heidegger e da geração de Deleuze na França - obriga-nos a uma revisão crítica das interpretações que suas noções mais constantes sofreram. Evidentemente isso não nos levou às mediocridades das ‘Introduções’ a Nietzsche, ou à mesquinhez quase policial dos ‘especialistas’ e germanistas (em Nietzsche), tal como hoje se dá na aridez das Academias.”

“Carlos Henrique escobar é filósofo, poeta e dramaturgo. Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autor, entre outros livros, de Marx Trágico (A filosofia de Marx) e Marx: Filósofo da Potência (ambos publicados pela editora Taurus).”

SUMÁRIO

Introdução
I PARTE
Vontade de potência
Corpo e cultura
A “morte de Deus”
Niilismo e valores
II PARTE
O “eterno retorno do mesmo”
III PARTE
Da tragédia
Política trágica
Bibliografia

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