LINHO DE URTIGAS

Isabela Fernandes


7 Letras - 87 págs. - 2000


“ Linho de Urtigas, de Isabela fernandes, já começa acertando ao optar, numa época de facilitarismo travestido de simplicidade, eplo caminho mais difícil: assumir a contemporaneidade e reconhecer as crises e as limitações da escrita (‘tudo em palavras ocas / como a parede sem reboco/ os paáeis amarelados’, lê-se em um poema). Assim se evita, já de entrada, a impostura do poeta que se pretende senhor do Verbo e dos Mistérios, do poeta que se pretende último reduto da ordem e da totalidade num mundo fragmentado e caótico. Já nas primeiras linhas do livro percebemos que, reduzido o reflexo a ruínas (pois a representação é uma miragem), o discurso lírico é, no máximo, a voz de um ‘eu’ que só pode narrar a si mesmo enquanto vago vestígio, face apagada, auto-retrato em estilhaços. Poesia com o que sobrou. E o que sobrou? Para o poeta de talento, menos reflexo e mais reflexão. E Isabela tem um talento genuíno, como demonstra, largamente, o belíssimo poema que se inicia com o verso ‘passo batom lilás’, poema de esxtrema sensualidade que, entretanto, não perde de vista ‘além da vidraça / já o tempo se desfazendo/ em borras violáceas / (...) / como se tudo que restasse / fosse tua boca frouxa / contra o céu ardente’. Talento mais evidente na cuidada autocopnsciência (que não deixa a sensualidade desvirtuar-se em perverso narcisismo ao incorporar ao processo narrativo a inelutável passagem do tempo) do que em algum tipo de virtuosismo técnico. Talento ainda mais evidente na liberadade de imaginação da poeta, consciente de que o único compromisso da posia é com seu próprio impulso criador. É o que se vai ler no poema que diz: 'cristalinos / da janela / dois meninos / soltos sobre a relva / contemplam o horizonte / onde peregrinos, / numa matilha de nuvens / em chamas / passeiam, distraídos, / os elefantes’. A janela, a contemplação, elementos que comumente anunciam um processos descritivo realista, são contaminadas aqui pela liberdade do olhar infantil (‘soltos sobre a relva’) e acabam nos oferecendo a linha surrealista (mais que pelo choque de elementos tão disparatados do que por qualquer atmosfera onírica e diluída) imagem da matilha de nuvens em chamas onde passeiam elefantes peregrinos. Não sei o que se pode pedir mais de um livro de estréia, mas Linho de Urtigas ainda tem mais coisas a oferecer. Fica, entretanto, a partir de agora, reservado ao leitor o prazer de descobrir ele mesmo as nuances e novidades dessa autora que tem a habilidade de só se mostrar ‘fora de foco’, jovem autora que, numa época sedenta de revelações de intimidades, brinca de afirmar ‘eu sobro / no que foi carne / antes da imagem’.”

“Isabela Fernandes Soares Leite nasceu no Rio de Janeiro, em 1959. Completou os cursos de Graduação, mestrado e Doutorado em Literatura pela PUC-RJ, onde leciona desde 1990 na área de Letras Clássicas, Linho de Urtigas é uma homenagem aos mitos e contos de fadas, que rechearam toda a sua infância e tanto influenciaram em sua trajetória poética e profissional.”

SUMÁRIO

A garota do conto de fadas

I. NAS RUÍNAS DO REFLEXO
Gênesis
Escova os cachos
Todo encanto
Gosto de tudo um pouco
Tudo em aplavras ocas
A grafia árida do medo
Depois da ceia
Passo batom lilás
O céu carregado de estilhaços
Sob a frágil luz
Perfura papéis
Barata tonta
Colagem deseja os dias
O que nunca vou saber
Perder a lembrança
Tento criar-me enigma
Até que enfim o reflexo
Rastro incandescente
Beijo teu rosto ondulante
Decifra vampiros
Depois que perdi toda a memória

II. OS OLHOS VAZADOS
Cuidado com os pfofetas
Palavras
Em vão dedilhava a tarde
Desvia o olhar
Sozinha estou sob a terra
Ao longe, no oceano ardente
O pai
A avó
A página aberta na noite
Cristalinos
O que ainda não é
Quando eu descer às trevas como um vulto
Desembaça óculos
Limpa a neve da vidraça
Contemplo o tecido negro
Toda visão
Signos cintilam equívocos
Mirar-se com olhos de armadura
O espelho reflete a imensidão

III. A MEMÓRIA
No princípio
Quando vago pelos desertos
No velho pátio da igreja
No espaço vago
Transpor o estado nulo das coisas
Então solta as longas tranças
Não gravei teu nome nas areias
Mensagem 1
Mensagem 2
Incêncio da vidraça
O silêncio da multidão
Infância I
Infância II
Tanto tempo gasto
Do antigo mundo de festas
Gesto proibido
Sob o luar
São seis horas
Por que perguntas sempre por mim?
Hoje é como sempre
O soberano dos rios e dos bosques
Lento
A névoa

IV. ÊXODO
A dura mão que escreve palavras

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