HOMEM DE BRANCO EM NOITE ESCURA

Valdir de Aquino Ximenes


2000 - 225 págs.


“Os colegas continuavam consultando. Onze da manhã. A máquina de datilografar não parava de soar, fazendo novas fichas, na sua sinfonia enjoativa de todo dia, domingo a domingo, o ano inteiro. Quarenta crianças ainda aguardando a vez. Quarenta nomes, quarenta fichas, quarenta minutos... A medicina ali era aquilo, uma luta contínua e nervosa contra o tempo, onde a objetividade e a síntese eram moedas de trabalho de alto valor, e onde não havia espaço para sofisticações de diagnóstico e exames requintados.

Ali se praticava o feijão-com-arroz. Se bem-feito, já seria muito, livraria o país de muitos males. E era também uma situação comum a muitos outros hospitais, que praticavam uma medicina básica, onde pontificavam os simples hemogramas e chapas de tórax, e se prescrevia para quase tudo a manjada Benzetacil. Exames como biópsias, sorologias e culturas representavam uma realidade de livro, contida apenas nos volumes médicos taludos. Era somente matéria para concursos, longe do que pulsava nos corredores hospitalares.”

“A noite escura dos plantões médicos, do excesso de doentes para a escassez de recursos, a longa noite que encobre as crises do sistema de saúde do Brasil, é esta a noite em questão. Ela é acompanhada passo a passo, página a página, por um médico que se vê impotente diante do tempo que leva embora seus ideais da formatura.

Esta noite escura é também metáfora da vida de Juliano, o médico protagonista do romance, que viaja pela Europa em busca de alguma emoção nova, enquanto questiona os rumos de sua vida profissional e de seu relacionamento com a ex-mulher Helena.

É no equilíbrio entre o personagem em crise e os valores que norteiam a escolha da profissão de médico que o livro ganha força. As lembranças do hospital, dos plantões, das urgências, e mesmo de alguns procedimentos às vezes duvidosos no tratamento dos doentes, compõem um painel muito acurado da difícil realidade de um médico brasileiro nos dias atuais. Juliano vivencia esta realidade a ponto de tornar-se ele próprio uma peça da engrenagem que tanto questionava.
O homem de branco se vê no escuro, no labirinto dos corredores, e as férias e a viagem não servem como fuga de si mesmo. O olhar do viajante não deixa de ser o olhar de um médico. Talvez seja um mundo doente, talvez sem remédio. E o contraste exposto no título se desvanece pelas tardes cinzentas da Europa, pelas surpresas que podem surgir em um encontro inesperado. E os signos muitas vezes se invertem. A noite escura é também a noite branca dos corredores infinitos, da luz fria que ilumina os plantões, do sono acordado. E dentro dela, mas não imune, o homem de branco permanece no escuro, um enigma.”

“Valdir de Aquino Ximenes tem 38 anos. É médico-pediatra. Nasceu em Fortaleza, e reside em Brasília há 25 anos. É autor dos livros O homem submerso (1993) e A solidão da carne (1995), ambos de poesia, e membro da ANE (Associação Nacional dos Escritores) e da UBE (União Brasileira dos Escritores). Homem de branco em noite escura é seu romance de estréia.”

www.rubedo.psc.br | Início | Revista de Literatura | 7 Letras | Correio