www.rubedo.psc.br | Poesia | © Verônica Cavalcante Bernardi

Verônica Cavalcante Bernardi



O sofá

Cada um se senta na ponta
do sofá
cada um tomba pro lado
oposto do outro
cada um está cansado,
está muito cansado
de alguma coisa qualquer.
A TV fala
enquanto eles calam
Separados, não estão tão separados
quanto estão, quando estão
juntos.
Longe, não estão tão sós
quanto estão, quando estão
perto.
E a TV, no meio dos dois,
tenta preencher um vazio
no meio do sofá.
Tenta deixar despercebido
o encontro que já não há.

Vento

Veio um vento
e esvaziou minha face
procurei-me onde não a via
e onde nada havia
avistei a vista
do mar
paguei a vista
a viagem
e parti
e partida fiquei
saudosa do porto inseguro
do porto que segurei
ferida pelo vento
estive a procura da cura
da procura curada
deixo a fronte
ao vento
para me acariciar
a face
que se revela
a ela que sou
eu.

Tempo

Tão rápido se veste
Com tanta pressa
se levanta e se arruma
Não espante o tempo
que se esqueceu de passar
que suspendeu a dor
da perda
Não acorde o tempo
que se esticou e fez dessa hora
tantas cenas novas
desses minutos poucos
multiplicados poemas
Tire rápido o relógio
deixe na cabeceira
perca a hora
a compostura
se atrase pro compromisso
pra missa
vamos brincar com o tempo
mais uma vez.

Carência Erótica

Por ti
morro a cada dia
de uma carência erótica
de uma boca aberta
sem beijá-lo
de uns olhos abertos
sem vê-lo
de umas pernas abertas
sem recebê-lo

Pelas fendas de meu corpo
pelas frestas das minhas defesas
te espero
numa carência erótica
que "só" se satisfaz em ti
nas fendas do seu corpo
na sua boca aberta
no seu olhar voraz
no seu sexo
a me invadir o corpo
a me inventar a alma.

Um beijo

Um beijo grande
de língua enrolado
que desliza pros seios
entorna da boca
em torno do pescoço
Um beijo de bocas
que rasgam os lábios
e enrola nos cabelos
nos pêlos
esgueirando nas pernas
em pequenos detalhes
em todos os entalhes
que fraz girar, gemer
e lambuza a blusa

Um beijo de línguas
que se mete e intromete
no meio dos decotes
que se inverte
que abre botões
e o zíper
que abre a boca e as pernas
que fecha os olhos e a porta
faz querer e temer
faz tremer
e acalma a alma
na beira da cama
no silêncio cansado
das bocas e línguas

Sem fim

Triste o fim
do que não tem meio
nem começo
ponto antes da frase
espasmo antes da dor
parto antes do filho
despedida sem chegada
morte sem vida

Triste o fim
do que não tem história
lembrança sem memória
rima sem verso
viagem sem partida
futuro sem passado
saudade sem momentos

Triste o fim do que nunca foi
pois não é
nem será
perdido ficou
no que um dia seria.

Trabalho da Preta Dió

Chama o nome dele
treis veiz,
treis veiz da a volta no Santo
e acende treis vela
uma de cada tamanho.
Acende a primeira e apaga,
que é pra afastá os mau olho.
Acende a segunda que é ele
e acende a terceira que é tu.
Ajunta essas vela menina,
ajunta essas vela e vela
que elas revelam a sorte.
Até o dia amanhace claro,
chama o nome dele treis veiz.
Treis veiz repete o seu,
tu vai ver se ele num vem!
Tries noites dispois desse dia
reza treis Ave-Maria
e pede a mãe
que ela intende.
Num fica cum medo não,
ela é mulhé ela intende.
Robá home das outra
né pecado não,
robá mulhé é que é.

Atéia Cabocla Beata

Ai, se eu tivesse poderes
Se acreditasse em Deus
Eu diria uma prece
Do nome seu

Se minha fé fosse forte
E eu acreditasse em magia
Encomendava um trabalho
E o caboclo o trazia

Se eu soubesse rezar
Pedia a Virgem Maria
Pedia a Santo Expedito
A Santo Antônio, Santa Luzia

Se eu acreditasse
Se eu tivesse fé, fervor
Rogava ao Pai Nosso
O nome do meu amor

Santa Maria perdoa
Eu pedir pra pecar
Mas me concede a graça
De na cama dele acordar.

Do desvio

Mãos que se tocam
palavras que afastam
até encontrar...
Um desvio
que abre aspas na fala
e delineia outra cena.
Outros sons entoam
sons do arfar desviante
no meu peito aprisionado
Encontros sem seguro de vida
autoria do desvio
do acaso declarado
do insano que persegue
o cálculo
frágil ardil humano
diante da força desviante
do querer de uma mulher.

Letra de amor

Não escreverei
poesias de papel
quero escrever com meu corpo
marcar no seu corpo
meu querer
e que traços do seu desejo
fiquem escritos em mim:
meus seios
adornados por suas mãos
sua boca
perdida na minha boca
minhas mãos
ciganas em seu corpo nú
as suas
ávidas de me percorrer.
Poesia do corpo
"nú" corpo
na superfície da pele
nas profundesas do sexo
nos movimentos que tecem
palavras "sentidos"
no espasmo, no espanto
na letra de amor.

Rumor

O telefone toca
mas não é você
nunca é

O carro que passa
parece o seu
mas não é

O homem da fila do banco
que usa uma roupa
tão parecida...
não é você

O encontro fortuito
no elevador
O homem que me canta
no calçadão
não é você


O olhar capturado
pelo meu corpo
não é o seu
não é


O perfume que uso...
O decote ousado...
As pernas trêmulas...
Mas não é você

O batom,
colares e brincos
brincadeiras
jogos e promessas
que precisam de você...


Vestidos de alcinhas
dietas
cores e unhas
que precisam de você...


Sandálias, saltos
calcinhas, suspiros
botões e blusinhas
risos e músicas
que precisam de você...


Buscam...
Olhar
que se perde sem rumo
pois ruma a você


E seu rumo
perdeu
E fica um rumor
de seu nome
rondando meu dia-a-dia.

Oco da boca

Boca sua
Que quero na minha
Passeando no oco
Do meu beijo só
Boca sua
Que quero na minha
Calando sua voz
Colando na minha
Boca sua
Que quero na minha
Deixando um riso
Onde há só dó

Rebolado

Quero escrever versos
poemar a vida
e no inverso
da rima
desviar o som
revirar o tom
e enganar a reta

Palavras

Quando saem de sua boca
as palavras são mais que sons
são toques
têm peso
têm corpo

São presenças
astutas, diabólicas
a me enlouquecer
São longos traços
que me abraçam

As palavras quando entornam
de seus lábios
propagam-se sobre mim
e fazem rituais mágicos e secretos
no meu ouvido

E assim, minhas palavras
pulam de mim
riem de mim.
E, bobas, dançam para você
lângüidas, convidam as suas
E assim, se tocam e se cruzam
e se puxam...

Até que nossas bocas se encostam
e as palavras transfiguram-se,
em uma performance carnal,
são beijos, gemidos, risos,
olhares, sexo,
são corpos a se dizer.

Para enviar e-mail para a autora
Verônica Cavalcante Bernardi
verobernardi@rubedo.psc.br

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