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Malaquias
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ROGÉRIO MALAQUIAS
POEMAS III
Na carne as transformações do nada
Distraiu-se o nada:
esqueceu que não tinha rumo,
tropeçou no tempo
e caiu dentro da carne.Transformou-se o nada de repente
num rebento fecundo
a se arrebentar mais tarde
em sementes diversas.Transformou-se o nada
num segundo
em grãos de intermináveis promessas
em mãos traçando infinitos resumos.79/Cataguazes
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A carne é um tumulto entre as pedras
A carne é um tumulto
que arde à noite entre as pedras
e é tarde que acabe esse vulto:
não se revoga mais o sangue derramado na terra.
Insiste a loucura em seu ensaio:
a carne é um raio
que não se vai, persiste
demora-se um pouco mais esse relâmpago triste.79/Ubá
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Posto que fica o osso e não o rosto
Posto que fica o osso
e não o rosto
gasto da carne o que posso
e gosto do alvoroço.Com arte e muito gosto
faço a minha parte
fácil sempre e bem disposto
esbanjo a minha face.Que amanhã não serei
amplo e solto
estarei num canto
morto e sem disfarce.79/Maricá
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A gosma
Nós, os sapiens homens, já não somos mais capazes de fazer voar no espaço
um som de garganta, há uma baba viscosa e cheia de nomes
a escorrer de um dos cantos da nossa boca.
Velha gosma onisciente
que tudo agarra e cola e gruda e guarda em sua matéria densa e louca!Essa ameba se arrasta do lado de fora paralisando a frase em qualquer altura,
ronda a nossa boca mentindo a nossa história mais pura.
Um tocaia atento, e que jamais se afasta,
espreita como um vento, uma brisa eterna, a toca, a entrada escura,
estreita, dessa caverna vasta onde a palavra mora.Geléia nojenta que pensa e sabe que não é pouca
aguarda sem pressa
a hora em que saia a sua presa.
Caldo sem forma e sem cabeça, baba imunda
bêbada pasta que dura sempre e não se gasta, não se acaba nunca.79/Miracema
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Uma mulher e sua âncora de ferro
Escolhida não foste, restaste
e vives não do vento que sopraste
e amas não o teu rosto.
Levas dentro do corpo (teu barco) um berro imerso no sangue,
um ódio, um marco, uma âncora de ferro.Justo agora sempre é o nunca mais,
uma hora qualquer é cheia de cortes.
Importa pouco andar à frente ou atrás,
zombar do corpo
é confundir-lhe a morte.Desmancha a cama, o quarto, a casa
e entra pro lado de fora das coisas!
Fica quieta durante um século
e ouve o eco do teu corpo ricocheteando nas pedras,
deste abismo àquele abismo, desde há muitos e muitos anos...Visita a infância ao meio dia,
inventa a praça (que não havia) e diz teu preço, tua palavra à toa.
Obriga o medo (que nunca passa)
a desistir do segredo que te amaldiçoa
e some do enredo na fumaça sem contorno.E amar, mulher, o quanto puder e não dar sossego ao corpo!
79/Ervália
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Vejo alegres moças que se casam
Desta barraca provisória
armada no meio da praça
vou vendo tudo o que se passa
e vagarinho flui a hora.Vejo alegres moças que se casam,
tão noivas, tão cheias de glória.
Que tanta graça é que elas acham?
ou não sabem o fim da estória?Não passa o tempo, as moças passam,
são elas que vêm e vão embora.
Estão contentes... talvez não saibam,
ou apenas saibam de memória.79/Viçosa
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Um homem e uma mulher se olham
Desde o início
já não éramos apenas vizinhos
olhavam-se os nossos olhos sozinhos
e nada tínhamos com isso.Ao precipício
éramos arrastados
mutuamente hipnotizados?
ou era um nosso vício?A razão não importa, basta o que é.
Pra quê tornar difícil
a um homem e uma mulher
o seu ofício?79/Niterói
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Mulher é música
Posso tocar um instrumento
sua matéria vibrar
mas não posso tocar
na melodia que invento.Meus dedos tocam seu corpo
e pegam o pouco que apanham
mas sabem e não se enganam
que há um mundo e um outro.Pois é assim a mulher:
o homem a faz vibrar
mas é impossível tocar
naquilo que ela mais é.79/Araruama
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Uma mulher se esconde
Sei onde você fica: em cima do monte, no alto da rocha
uma pequena cidade, fria, de amplo horizonte, chuvosa
mas nada sei do povo que lhe habita.Gente arredia? talvez
ou talvez a rua de pedras lisas e oleosas
que de tão perigosas, mesmo você não pisa.Lua. Neblina. Velhos muros. Úmidas paredes e hera e musgo
e ventania. Chaminés. Casas brancas e verdes.
Algum fogo. Mas povo não se via.79/Araruama
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Uma mulher inventa os seus caminhos
Roubar do barro e da pedra o poder
de condensar o nada embaixo das rodas de um carro:
Inventar o chão da estrada!
Convocar espaços tempos e energias
e tramar com esses fios invisíveis uma paisagem de pó.De repente arrancar desde o ferro
um berro qualquer, uma gargalhada, um espirro forte
e passar um dia inteiro pensando na morte
a fumar os teus erros
num cigarro de palha... Só.Largar o barco as pernas o corpo de mulher
e descer o rio num sorriso largo.
O vento é gostoso em teu vestido claro, tua vela é branca.
Ranger os dentes durante a noite e diante das cachoeiras tremer
de frio medo e raiva qual um bicho amarrado.Morder loucamente as cordas da frente, as de trás
e as do companheiro ao lado
e roer lentamente esses nós, desatar mãos já quase mortas
e rir dançar chorar embriagada, esperando
que essas mãos desamarradas venham de repente abrir as tuas portas.79/Saquarema
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Mulher é um tudo que eu não tiver
Mulher é um berro
que eu não souber falar
é espaço
e coisas que eu não puder
é um laço
que eu não quiser dar.
A mulher é um barco
se eu não tiver mar...79/Araruama
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Nossas sombras mais distantes
No chão, sobre a terra, projeta-se o lado sem luz de nossos corpos
nossas sombras mais imediatas.
Menos nossos, outros rastros
existem dentro das pedras: ossos (peixes, cobras, lagartos)
e conchas compenetradas.
Os homens assistem nervosos a esses restos
tranqüilos imóveis largados como os astros
aparentemente quietos.Mas de dentro das rochas
parece escapar os gritos aprisionados:
de repente corre outra vez um sangue antigo...
Passos novamente em perigo!Ecos dolorosos resistem a um passado imenso,
caem sobre os nossos ombros fardos tão difíceis,
sinais de outros seres mais fáceis
porque sem obras,
notícias de outros seres mais sóbrios
e constantes, mais dóceis
porque sem sonhos.
Nossas sombras mais distantes, mais fósseis.79/Macaé
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Meu caminho obscuro
Prossigo em meu caminho obscuro
pra mim suficientemente claro
e que não me assombra
embora seja, de fato
não um caminho que leve a Roma.79/Papucaia
Para enviar correspondência ao poeta
malaquias@rubedo.psc.br