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POEMAS DE ROGÉRIO MALAQUIAS (II)

Dias existem de duvidar

Ouve-me tu, que buscando a verdade,
na passarela dos deuses encontraste o homem;
e tu, que para o frio a congelar teus impulsos
parece não haver agasalhos mais sobre a Terra;
e tu, cuja garganta falou tanto do Sol e das vias de luz
mas que nestas horas vacila, por estes dias se cala:

Dias existem de duvidar!

Ouça-me todo aquele que fez-se ao mar sozinho
e distante de aplausos remou sem tambores um suor sem medalhas;
e aqueles outros,
que se aprontam a descansar junto ao poço
sabendo apenas da pele vermelha, as dores no corpo
e o caminho de volta:

Dias existem de duvidar!

Dias de raiva e penetrar o ferro e as raízes,
de arrebentar as forças, romper os focos de energia;
dias de rasgar as fórmulas, rever os planos, renegar as vozes;
dias de estranhar as flores no campo, pisar os trevos;
dias de tremer os nervos!
deter os lábios após as palavras... e ouvi-las;
dias de não saber o caminho;
dias e dias de duvidar até das dúvidas com que duvidamos!

Sim, esses dias existem.

70/Niterói

Todos nós, os tuaregues

Quem somos nós, homens do deserto,
filhos do sol e da areia,
que olhamos sobre as ruínas rios e mares?

Nossas tendas e turbantes,
nossos cantis e camelos,
nossos passos no mesmo deserto!

Quem somos nós, homens do deserto,
filhos do sol e da areia,
que olhamos sobre as ruínas rios e mares?

70/Pedra da Gávea

O espantalho

Vim revogar versos errados e resumir as frases,
cultivar a Nova Ciência
que envolverá desde até os confins do Universo
e, em verdade, cansado rodo em torno apenas de mim mesmo.
Em meio às bússolas, diante da Porta,
debaixo mesmo das setas que apontam todos os caminhos.

Vim, através do fogo e da fumaça
desfazer os focos do inferno
mas vejo que os homens se foram todos,
afastaram-se todos e não me ouviram,
fugiram todos
como fogem todos de mim os passarinhos.

Subi aos picos do mundo em busca dos homens
e eis que durante a subida
escaparam à noite por entre os meus dedos.
Posso tirar das árvores ninhos e mais ninhos
mas que me adiantam palhas, velhas folhas e secas
se fogem todos de mim os passarinhos?

Tento abraçar montanhas? Corro atrás de horizontes?
Luto uma carne frágil frente a um minério frio, inerte e inconsequente?

Eu berro a plenos pulmões e de punhos cerrados
a minha revolta!
Onde estão os que me convidaram?
Por que no endereço certo a casa vazia?
De onde esses ventos velozes e furiosos perturbam
os lagos tranquilos do meu ser?
Quem me arrastou um cego desfiladeiro acima?
para encontrar no alto de um monte... apenas céu e horizontes.

Muito pobre, em verdade, é o poeta
se desmanchando em lágrimas sobre as rochas, preenchendo
P E D R A S.

Talvez não baste à sabedoria dos homens estar sobre os picos do mundo.

68/Nova Friburgo

Parado na pedra um abrute

Parado na pedra um abutre
é coisa velha e permanente.
Essa imagem que não se quebra
eternamente onde se nutre?

68/Niterói


Está certamente e não está nos livros

A verdade está nos livros, eterna e distante?
ou não está nos livros a verdade e erra a todo instante?

A verdade é sempre chocante, pertence ao mundo dos vivos:
está certamente e não está nos livros!

Não deixa lá de ter suas vaidades
mas também não é besta de ficar mofando nas estantes...

72/Rio de Janeiro

Frutos do deserto

Pêssegos na Síria, serpente nas pedras
areia, papiros, palmeiras, águas do Nilo

peles da Líbia,ovelhas no pasto
velhos, mulheres de véu

crianças de leite, pão e mel
e tâmaras na Arábia, tuaregues na fonte

túmulos, ruínas e ratos
desertos: homens e deuses, rochas, flores e flautas.

72/Niterói

Matéria. Espírito. Tempo. Eternidade.

O que sobe, desce.
O que não sobe, desce também.
O que sobe, jamais descerá.
O que não sobe, jamais também.

72/Niterói

Uma voz ao crepúsculo

Em teu mundo a minha luz é o princípio ativo
todos os dias tiro das pedras um corpo vivo.

O que procuras? sou eu o centro de tudo o que se fez,
a todo momento penetro em teus olhos e não me vês.

Cego! sem minha luz deixarias de ver tudo o que tens visto,
só à noite percebes medroso que eu existo.

Muitos me negam.Hoje os mostrei a ti e acreditaste neles.
Outros me amam.Hoje os mostrei a ti e amaste a eles.

Andaste em minha luz durante todo o dia e não me viste,
agora vou-me embora... um pouco triste.

71/Niterói

Lua à deriva

Caso os homens se explodam todos em nome da humanidade,
que arqueólogos do futuro saberão dos asteróides entre Vênus e Marte?

Que os homens fiquem atentos!
Talvez em tempos de amor, além das Plêiades
haja um pálido triste e misterioso astro fugindo da luz de um velho Sol,
mensageiro mudo e involuntário de antigo e lendário mundo...
Lá em outro cosmo e gravidades, outro tempo e dimensões,
outras lendas e galáxia,
em meio a estranhas ciências, outros povos saberão captar mensagens.
Os arqueólogos de um futuro mais claro saberão, por certo
compreender toda a história das alunagens.

As frases de ouro serão decifradas, que em letras
não mais se atrapalharão aqueles seres acima de humanos.
Longe de nossos sons e ruídos restarão os claros sinais, e haverá
a perfeita visão dos sábios
sobre estes dias de agora, então os da mais alta antiguidade,
e os rumos trágicos
daquela gente que veio
in peace for all mankind.

Que os homens fiquem atentos!
É possível, além das Plêiades, que haja amor em outros tempos.

E que em pleno espaço negro sideral uma esfera irrevogada gire solta,
livre demais nas trevas do Sem-Apoio Absoluto, um satélite banal
mas sem planeta,um corpo frio, pedra nua, envergonhada,

abandonada e louca, derivando na noite que há entre as estrelas
sem seu campo materno gravitacional
e irritada por não ter braços, mãos e garras
pra arrancar da pele e com raiva o mentiroso inseto de metal!

Que os homens fiquem atentos, e já envergonhados também!
Talvez sejamos hipócritas por todos os séculos dos séculos além...

Para a eterna vergonha dos homens (se os tempos não forem de amor),
é possível que os arqueólogos do futuro deixem o astro enlouquecido
atravessar, qual um museu, todo o espaço-tempo do universo
levando na testa, de modo inocente,
gravado a frio, ferro e ouro o fato definitivo,
a prova derradeira
da impiedosa mentira de uma humanidade inteira.

71/Niterói

No asfalto uma rosa de plástico

Todos estão sorrindo: mas é o sol.
Um carro passou ligeiro,
um caroço caiu na estrada
e morreu na calçada procurando a terra.
No asfalto há uma rosa de plástico
que ao menos é uma rosa.

71/Nova Friburgo

Se um cego não viu o abismo...

Simples, sem refinos é a lei da gravidade, não é difícil:
não é mais gentil com os velhos, ou mais cruel com os ladrões e assassinos,
não é mais reverente com os reis, ou mais bondosa, sequer com as crianças.

Desde o início não há quaisquer esperanças,
e há sempre um caminho que leva ao precipício...
Cuidado! essa lei jamais se engana.

Assim também é o pecado:
se um cego não viu o abismo... ele se dana!
Que visse, ou não subisse a montanha.

71/Pedra da Gávea

Canção de Natal pro vovô e a vovó

Vai, vovô! vai ver vovó viver, vai ver e ouvir...
Vai, vovó! vai ver vovô viver, vai ver e ouvir...
Vai, vô!
Vai, vó!

71/Niterói

Meditação sobre a onipresença de Deus

Deus Supremo é o que habita o coração amoroso de Cristo
e o cagalhão de um verme.

71/Niterói

Rogério Malaquias
malaquias@rubedo.psc.br

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