www.rubedo.psc.br | Poesia | © Ricardo Ramos da Silva

 

DOCE MARIANA

RICARDO RAMOS DA SILVA

 

Velocidade total
Êxtase de vidro e ferro
Paisagem mortal em curto pela janela
E eu já não quero mais controle

Cumplicidade letal
Estrada de vento cego
Pensando na mão do Crucificado
E aquele maldito prego

Eu vou fugir da morte
Dentro de um carrão
Voando nun dia lindo
E só falta você me lançar a maldição
Olhando para mim sorrindo

Há sulcos e fendas
As marcas do passado
Nos degraus de minha azienda

Há cacos e lendas esquecidas
Cheias de velhas teias tecidas
Como fantasmas assombrando minha mente
Com suas caras tremendas

Há a dor do nunca mais
Dito por minha adorada
Em uma noite apavorante
E o torpor como tenaz
Hirto em minha ossada
Minha sorte agonizante

Mas eu sou uma espécie de soldado morto
De uma guerra antiga
Você só conhece meu nome
Mas não vê o gelo negro de minha farda
Meus olhos tês uma coleção de cores
Para esconder minha paixão

E minhas mãos enluvadas
Para cumprimentar minha agonia
Minha emoção blindada
Para suportar a tua voz
Agora fria


Tuas mãos me impressionam
São magras, alvas e leves
E aqui nestes isolados momentos
Tocar em uma delas não ouso
Prefiro olhar seus movimentos
Sutis como gaivotas no pouso

Dentro da casa escurecida
Eu posso sonhar
Quando imagino seus passos
Que já vão chegar

E na sala toda apagada
E por tua fragância impregnada
Um sobressalto, um susto
Bem ali na minha frente
Teu semblante
Reluzente
O teu lívio busto
E como num flash insólito
Em um amplexo atônito
Respirei teu hálito

Mas quando a música pára
E tua altivez
tão rara
Aceito
Sei que com você
Só posso ser amável
Porque além
De meu amor confesso
Meu respeito por você
É
Inexorável

Minhas mãos
As tuas não alcançam
Os teu dedos esguios
Duas vidas, duas margens
Como dois rios

E no mar de minha existência
Os formalismos te escondem
Com seus mantos frios
Juntos e à distância
Nos mantém
Como o nevoeiro
Que separa dois navios

Meu amor por você
É como o amargo escondido
Do fel que se vê
Na taça
Só amarga
O trago sorvido

Porque escolho
Este gosto cruel
E o uso que dele faço
Como o suicida
Atraído pelo punhal
E seu carisma de aço

Quando vem a madrugada
E as estrelas
Entram em seu zênite
Lembro bem de minha amada
E sua pele de leite
E no silêncio da sacada
Sua figura emoldurada
Pela abóbada celeste

E a relva triste num repente
Me traz de volta a razão
Nos jardins do meu amor
Só há rosas de ilusão

Cruzando o túnel
Eu vou morrer
E do outro lado da tarde
O sol que arde
Não vai mais me ver

E a névoa suave do outro dia
Beijo tua face
E minha mão gélida como a neve
Te afaga
Como se te tocasse

Morto agora eu poderia
Em tuas desventuras interferir
Prá você não se magoar
E quando a noite viesse
E no leito você se deitasse
Bem perto do seu travesseiro
Eu,
Como fiel escudeiro,
Ia teu sono guardar

Suspensa na galáxia
Roda a Terra em volta de seu eixo
E sozinho andando na praia
Eu recolho um seixo

Porque não posso te abraçar
E pairar em outros mundos
E continuo perdido na metrópole
Sangrando cortes profundos

Porque imagino teu corpo longelíneo
Envolto em um tecido
Puro clássico e virginal
Como que por um
Artista esculpido

Tenho o relógio por inimigo
No turno que passo
Em teu abrigo
Pois o urgir das horas
Como um algoz
A máquina marca impiedosa
A cada sílaba de tua voz

E a manhã é testemunha
De minha ânsia e minha adoração
Quando busco tua essência
E corro na multidão

E o tráfego engarrafado
Como medusa
Ri de mim
E de minha musa

Não quero o sol e as luzes alegres
Dos shoppings
Prefiro a chuva e a intempéride das estepes
E a sensualidade das mulheres nesses bares
Prefiro o tiro ágil dos trovões
E a dramaticidade nos temporais em altos mares

Não quero o adultério trocado em olhares
Numa mesa
Prefiro a devoção e entregar meu coração
A uma moça com certeza

Não quero a luxíria e o gosto
De um orgasmo profundo
Prefiro afagar teu rosto
E me negar pro mundo

Não quero os lábios de mel
De uma Afrodite, de uma deusa
Prefiro o fel da solidão
E o teu amor esquivo, tua pureza

E é por isso que quando te vejo
O véu da noite fica mais amargo
E é por isso que com o céu insone
Te espero
Te sonho
Te aguardo

Cirros-estratos
Se adensam e se espalham
No róseo cenário aéreo
Enquanto dois astros
No sangue cálido do crepúsculo
Insinuam um romance etéreo

Mas uma aflição
Estremece
As entranhas de minh'alma
E toda a beleza
Do firmamento
Essa agonia
Não acalma

Porque à vêzes
Lentamente
O seu perfil se move
E a direção de suas pupilas
Quando me fitam
Porque às vêzes
O intenso vórtice delas
Me absorve
E em minha negação a tua presença
Se infiltram

Olhos claros
Em tons eternos
As nuvens na serra
Lembram seus gestos
E ainda vago na fuligem
Adeus nocivo dos veículos

Olhos claros e tão perto
Faróis para meus passos incertos

E otrem descarrilhado segue pro despenhadeiro
E a fumaça tênue do cigarro
Esconde meu desespero

Uma vendedora de flores sorri
No frio da avenida
Tua face na dela
Num instante me engana
E o som do vento insiste em teu nome
Mariana

Eu fico olhando o outeiro inexpugnável
A fortaleza singela
De tua postura insondável

Como um castelo onde as portas e janelas
Se soldaram
E minhas flechas de afeto
Nunca alcançaram

Eu fico olhando o átrio vazio de meu desejo
Onde tua estátua está erguida magnífica
E fico imaginando o atrito aflito
De minhas carícias
Em tuas linhas
Inebriantes
E fixas

Agora depois de um longo tempo
Descubro que meu peito te guarda
E retarda algum efeito

Nos dias que te vejo de perto
É certo como um cume ecorreito
Que depois do encontro defeito
Alguma coisa de ti vem junto a mim

É como um alcalóide forte
De ação prolongada
É como a imagem de um canyon
No celulóide
Ao fundo revelada

Agora depois de um longo tempo
Descubro que minha razão te conserva
E adia
Algum sentido
Como marinheiros a deriva
Sob a trovoada
Recordando a enseada
E o porto partido

Na penumbra lúgubre de minha alma pálida
Existe uma escotilha para o paraíso
A escolha lúcida de sua visão cálida

Porque o desenho esguio de seu rosto encantado
Espraia o desfiladeiro do meu rastro atormentado

Uma tonalidade cortês parte às vezes
De seus doces lábios
Que alimentam a insensatez
De meus sentimentos
Pretensamente sábios

Outro dia você sorriu prá mim
Com seu brilho delicado
E sem querer tirou do paredão
Um coração
Quase fuzilado

Ai de meus poemas infantis
Que descrevem suas mechas de madona
Ai de minhas estrofes senis
Que trazem minha mademoiselle à tona
Ai de mim figura escondida em calabouço
Ai de minha loucura que amo uma fada
Ai de minha sombra no espelho
Meu esboço
Que estertoro trespassado
Por espada

Eu tenho três expressões escondidas
Em minhas veias três emoções impedidas
Porque como um jardineiro louco
Plantei uma flor no concreto estéril
Eu tenho três decisões proibidas
Três atitudes punidas
Porque como um rei insano
Inventei meu próprio império

Mas eu não tenho culpa
Se a poeira do destino
Esculpiu você
Como uma torre sem escadas
E se as ameias de tua beleza
Não podem ser por mim
Escaladas

Eu tinha três jarras enchidas
Eu te amo
Agora derramadas

A safira escura de tuas íris herméticas
Inquietantes luzinhas como fagulhas estéticas
Vagueiam nos meus sonhos
Mas no liame lânguido de teu risco hipnótico
Se dissolvem as lágrimas de meu pranto cético
Porque sei que estas jóias não possuo
Porque sei que o anseio
Que insinuo
São vazios pros seus olhos
Abertos

Palavras molhadas escorrendo no convés
Como letras de uma história do passado
O marujo sonha com uma lady e seus anéis
E vai transportando seus pesados fardos

Porque eu transpirava devaneios de um beijo de hortelã
Enquanto empilhava sacos de centeio e caixas de maçã

Porque eu sou uma espécie
De lobo louco
À procura de um filhote
Uma espécie que uiva acossado
Um coiote

Porque eu sou o monarca de meus delírios
O príncipe consorte

Música porque ela vai voltar
E o ar vai ficar cheio de gotinhas amarelas
Vendo a pose dela quando se sentar
E o par de joelhinhos
Lisinhos como velas

Você viu aquele filme,
Aquele que eu não estava no cinema?
Você viu aquele beijo,
Aquele que eu não entro em cena?
Você tomou aquele drink,
Aquele que eu tomei sozinho?
Você pegou aquela rota,
Aquela que corta meu caminho?

Ansiedade azul
Paixão rubra
Advinha o que eu penso
Não quero que você descubra

Você está no quarto
E eu na varanda
Uso meu melhor sapato
E o perfume lavanda
Eu crio cada encontro
De um dia que nunca existiu
E busco cada traço
Que denota tua tua candura
Um vestido um brinco
Um laço na cintura
Eu toco a campainha
E você já se vestiu
Mas é tudo tolice minha
Porque sempre fui o seu não
Direto e gentil

Silêncio de ermo esquecido
Neste quarto mudo
E uma cama num canto
Desarrumada
Entre quatro paredes
E nada
Entristece tudo

Mas meu coração se alegra
Inebriado
Quando te recordo sozinho
Flor fiel
De meu ser apaixonado
Tu me és vinho

 

E.mail para o autor
martachagas@rubedo.psc.br

 

www.rubedo.psc.br | início | poesia | correio