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A PAIXÃO

Dayse Mary de Andrade

 

Meu quarto cheira a paixão por todo canto, meu peito transborda e ela se derrama pela casa toda, encho todos os frascos, recipientes, vasilhas, pias, banheiras, tanques, armários, cômodos, prédios, ruas, bairros, mas ela transborda...

Como é cheirosa a paixão, flor da noite, freqüentadora de esquinas pouco movimentadas de madrugada, a paixão não consegue conter excessos, os orgasmos do corpo e alma de frente pra lua, não dá tempo e se encosta nos postes elétricos sem fio-terra e não toma choque, se deita nas calçadas, abre as pernas para o céu, a paixão é um útero-coração que salta do corpo e vai se contorcendo pelo chão cheinho de contrações-palpitações amorosas, é uma mulher com boca eternamente pintada de vermelho e gargalhando, mesmo quando chora; vai ao supermercado empurrando carrinho de delírios-mantimentos, e se ruboriza suada de pensamentos, esfregando as pernas entre as coxas, monte de Vênus e latas de leite em pó nas prateleiras de ofertas tentadoras e possíveis ao seu orçamento de afeto e contabilidade complicada.

A paixão é feminina, não há absorvente que segure esta hemorragia diária, sem ciclos, climatérios, a paixão não tem critérios, é um vestido longo, de mangas compridas, gola alta, mas aberto na frente, com todos os botões arrancados entre beijos, línguas, sabores e cheiros exalados da química dos corpos que se querem.

A paixão desfia meias de tramas indesfiáveis, de nylon à prova de unhas e dentes de vampiros sedentos de amor, desamarra sandálias difíceis num pé só, desmarca capítulos de livro de cabeceira, arranha disco raro que toca "aquela canção", desalinha penteados, entorta gravatas, fura preservativo importado, esgota as fichas da máquina de música romântica, fecha todos os bares da cidade, esvazia as garrafas de licores esquecidos, molha os xaxins com regadores antigos e infantis, enterra todos os dedos, cabeça, tronco e membros nos terrenos minados do corpo para explodir de prazer e encantamento. Então, a paixão grita, mesmo de boca tampada, ela escancara, até os vizinhos chamarem os bombeiros. Um escândalo!

A paixão não almoça, não janta, só bebe, bebe, tem muita sede. Ah... e também não dorme, fica acordada até tarde recitando versos, relembrando letras de músicas, mordendo os lábios, passando creme no corpo todo. A paixão perde a hora do analista escolhendo lingerie vermelha, preta e roxa, porque ela não se deita no divã, nem precisa, a não ser que o objeto da paixão seja ele, o analista, então sim, ela se deita. Com ele. E se amam sem horário na agenda. Jung na sala de espera se cansa e vai embora.

Ela faz o mágico arrancar da cartola, aos pedaços, o próprio coração e entregá-lo inteiro, refeito, só Deus sabe como, sem parecer que foi dilacerado, novinho em folha, à primeira bailarina que tropeçar e cair no dia da estréia. De paixão por ele.

Ela é uma torneira, que, no início dos tempos, o primeiro apaixonado esqueceu aberta, e que vai inundando o mundo. Hoje, ela me afoga no apartamento como um apocalipse. Minha única saída é trancar a porta, respirar fundo, mas muito fundo, num exercício yogue, e sair correndo antes que ela me mate de ilusão nesta segunda-feira. Segunda-feira da Paixão.

1992

Dayse Mary de Andrade
Rua Santos Moreira 52 casa 6
Santa Rosa, Niterói, RJ

 

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