cenas & bastidores
... de amor
I
a escorrer
pela face
gosto de sangue
uma bela maçã
deixou-me
com água na boca
a polpa
doce demais
a casca
amarga demais
o excesso
está por dentro
ou por fora?II
no mais puro ardor
queimo em brasas
rasgo-me em chagas
no mais puro ardor
a espera de um Senhor
sou serva do amor
no mais puro ardor
suplico votos de amor
deliro de gozo e de dorIII
És, como as parcas que tecem os fios,
a fonte de todos meus martírios.
Enlouqueço, só de pensar
teu vulto, ao canto, sem me amar.
E quando ris, sem piedade de mim,
mais te quero e tanto só para mim.
Um dia, homem sem alma,
virás com a plácida calma
dos príncipes antecipados.
E com o mais terrível dos venenos,
eu te matarei com dentes afiados.
Oh Desfigurado amante,
que triste é tua sorte!
Por que não permaneceste sacrificado,
sem nunca te ofereceres pra ser decifrado?
... da Existência
NA SALA DE JANTAR
... no fim da sala
a varanda
janelas iluminadas
som estridente de rock
carros importados ao luarda presença ao lado
a respiração ofegante
de um corpo frágil
a rua que passa
separa como um rio
a estória de nossas vidasde seu semblante
a sombra da morte
de seu corpo
a lassidão dos gestos
de sua boca
uma voz taciturnade seus olhos
um brilho travessoe a ternura
quase imprevista
traz o desejo
de deitar a cabeça
em seu colo
esquecendo
os limites e as marcas
do tempoentre o desejo e o ato
alguma coisa se quebra
e eu
malabarista exímia
fico sem equilíbrio
diante do vazio
que irrompe
do seu olhar
todas as palavras
foram surrupiadas
pelo vento
sem dar um passo a mais
volto para o fim da sala... no fim da sala
a varanda
janelas iluminadas
som estridente de rock
carros importados ao luar
POESIA EM TEMPOS DE CÓLERA
todos sentados
em torno da roda
tecida de versos
e lacres narcisos
as palavras
clamam a dor
do ato de escrita
os poetas
gritam seus versos
para críticos surdos
de sorrisos amarelos
os poetas
gritam seus versos
para homens mudos
de olhos rasos
os poetas
gritam seus versos
para ouvidos têxteis
de pulsos fortes
e de muito longe
irrompem tambores
que ferem os tímpanos
que abrem feridas
que sangram as almas
e as almas que sangram
sem esperança
pulsam
o ritmo da verdade
ANTROPOFAGIA
todas as manhãs
um deus cruel
e sem face
vem escarrar
na minha cara
o pólen das vítimas
dizimadas