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Alguns
Poemas Sentidos
Leandro Jardim
QUEDA
A queda faz
o pulsar das horas transgredir. Assim como o caminho, as vontades
subvertem-se. Invertem-se os sentidos e os motivos não divertem.
Ruir, o resultado
indesejado com seu gosto amargo. Inintensionalmente vai sendo
saboreado. A digestão é lenta, asiática, requer paciência.
Mas ao desgosto
cabe também o destino de todos: morrer, desde o nascimento,
aos poucos.

EQUILÍBRIO
Oh utópico equilíbrio, Daqui
dos trópicos oro pra ti. Como se fostes um Deus antigo, e
eterno, e amigo. Onipresente escondido, à minha mente sempre
bem-vindo.
Minha estimada
moeda que não pára em pé, de lado. Minha cenoura na frente presa
à cabeça por um cabo. Sou um reles mortal: é na urgência da cura
que serás lembrado. Pois quando te esqueço é que sou inspirado.
Sabe, minha
assimetria é meu cartão de visitas, minha boa-ação e meu pecado. O
que em mim aos outros intriga é justamente a parte esquisita. Portanto
aqui, de bom grado, sigo desequilibrado. Desejando, sempre, que
sejas louvado!

ANGÚSTIA
Às vezes eu
quero chorar, e não consigo. Isso é pior que chorar. Lágrimas
carregam males, esvaziam o corpo da tristeza.
Aí eu arregalo
bem os olhos, sem piscar, mas não choro. Aquela ardência
lubrifica a minha retina, mas gota não vira. E a angústia
continua ali, retida.
Daí o lápis
e a escrita, mas não há nada como uma lágrima escorrida.

O
PENSA-DOR
Pressionar as
têmporas Não pára o tempo Mas tem poder De deixar pensar
Pressão é vento E
o tenso, biruta Vê movimento mas dentro não escuta É intenso
mas não sai do lugar
Preso pelo eixo
no meio Independente do mundo a rodar Se queixa se o quisto
não veio Que meio lhe pode apontar?
Mas se meio
caído pra frente Com pálpebras e dentes a cerrar Não cai no
conto da mente, que mente Sente, não ri, mas palavras faz rimar

TRILOGIA
ÀS PALAVRAS
I. Encha-me
de palavras, que só falarei quando transbordar.
II. De
agora, sim, só me entorpecerei de sentimentos, evacoarei
palavras, e secarei por fora e dentro. Me ofereço
às favas.
III. Qualquer
palavra que esteja saindo que leve essa sensação consigo. Não
tema qualquer perigo e cumpra o papel, amiga, de documento
do que há em vida e prova de que há saída.


RISCOS
...
e lá vai ele, só. Passados 30, não mais brinca. Recorda,
não se arrepende e corresponde. Só, como um martelo
na sua cabeça, tão resolvida. Então resolveu experimentar
outra marca de pão. E seguiu, administrando bem suas
finanças.
Lá vem
ela... não se conhecem, bem que poderiam quase esbarram,
nem se viram. Firme em seus objetivos ela segue em
foco a vida, e sem fuga à rota mas falta companhia,
às vezes apenas, no apagar dos dias sem chope.
E eu,
que observo, me pergunto: Onde chegam tais vidas de hoje
amanhã? Se tudo é tão plural e cada um tão singular, se
tudo é só refrão e não há tempo para estrofes, se tudo
é comprimido, emoção botão on/off, qual será o risco
de não se comprar uns outros discos?

PUXA
VIDA
Puxa
vida, Mal começou o dia, e vocês já estão aí, a puxar
a vida... pra lá e pra cá, arrastando-a pra desejos
longínquos de alegria E se realmente os atingissem, já
pensaram? Seriam felizes? A mão no fogo poriam?
Eu vejo
um sorriso quando vocês me olham. Tão simples e bom... Mas
quando se entreolham parece assombração!
Eu,
quando acordo, abro os olhos pro dia, e ele está lá...
e vocês estão lá, que maravilha! E é só o que eu quero: curtir
cada momento da minha aprazível rotina.
Não
sei porque vocês querem tanto: O maior amor, a grande
quantia, Temor, aventura, constante hedonia.
Já eu,
mal espero e logo chega a hora do almoço. Do cochilo
da tarde nem preciso sentir saudade. Ah, mas eu também
quero prazer! Por isso não deixo de me espreguiçar, pois
lá ele está, pode reparar.
Talvez
seja por isso que peço tanto por atenção, vocês precisam
reparar melhor no meu estado de espírito. Mesmo sendo
eu apenas o cachorrinho de estimação, vejam como balanço
o raboe o sentido disso!


VELOZ
Tudo
acontece tão rápido: uma espiral furacônica de acontecimentos. Não
há como não ficar arfante, e angustiar-se por, apesar,
pouco ter saído do lugar.
Tudo
acontece tão rápido: minha cabeça deu mil voltas ao mundo
no último minuto. Da janela do meio de transporte uma
constelação de palavras
[e
universos de anúncios, a cada página.
Só não
acontece o que eu quero: e se acontecer será daqui a
tanto tempo que não quero mais. Jamais é agora e sempre
é tarde demais. Mistério.
Só não
acontece o que eu quero: pelo menos é o que minha mente
diz. E às vezes desmente rindo de mim com sua grave voz, que
reveza veloz entre o que tenho e o que quis.

SONHAR
acordar
é abrir os olhos mais valia um bom sono que uma noite
intensa de sonhos que se dirá do dia?
sonhar
é viajar no tempo mais valia um par de pés a caminhar
no chão que uma cabeça iludida em vão quem não pode
ser vazia é a vida
caminhar
é seguir calma a mente mais valia chegar ao destino que
se apressar - distraída mente! - e tropeçar o caminho o
que vale a pena mesmo é não viver dormindo

GÊNIOS
E LOUCOS
Com
quantos gênios e loucos a gente não cruza por aí o tempo
todo? Sem saber... Quanto valor não se esconde atrás
de tanto rosto fugaz...
Pra
onde é que toda essa gente vai? Irrealizar seus desejos
e deveres, aparecer.
Será
que pelo menos alguém desses não quer algo mais do que tem? Nada
além do que os braços alcançam? E se estão bem, que razão
há de haver? E se estão a me ver, o que pensam?
Gênio
ou louco? Ou pior, mais um como todos. A irrealizar
meus desejos e deveres. E pior, querendo aparecer.

TUDO
Meus
desejos pesam, meus pensamentos retratam, meus impulsos
travam, e meus atos revelam.
Mas
continuo intensamente mudo. E continua tenso esse meu
mundo. Contigo tento, mas não mudo. Pois meu lamento
é tudo.

COLO
A vida
é presente e queremos o futuro, eu sei. Mas meu
coração é burro, não entende, é fraco e quer ser
rei, mas tem medo do fracasso. Não se arrepende mas
é nulo, e hoje não é diferente, arrasado como um buraco. Mas
você tem razão, há que se ter pra frente. Porém, o
peito continua apertado, como um porão mas menos,
te falo. E meu alento já é seu resultado. E sou
grato, meu bem. Fraco que sou, sou também farto, e
o sou por ter o seu agrado. E assim se faz o meu obrigado. Pelo
bem estar, porque tristeza há, e há de se justificar. Tal
pena, pela pena vira poema. Pois mal, temo que sempre
haverá, mas passa. E se for assim, me abraça, que
o faz ameno a mim.

MÁGOAS
quando
o motivo é mágoa tudo é tão relativo que toda palavra
perde o sentido e ao professá-las é tempo perdido
me havia
esquecido o mal do não dito por isso redigo revendo
o previsto
o peso
escondido no não digerido no não exprimido no impulso
contido é algo esquisito que castra o espírito
mais
vale olhar o umbigo e falar ao ouvido o que vai ser
suprimido
pois
é o entornar daquilo que há de tornar reavido o velho
sorriso

EU
E VOCÊ
Eu leio
um livro que você gosta, mas você não está lá.
Eu ouço
nossa música, mas clichês não podem teletransportar.
Eu tomo
um banho, mas alma não se lava com água .
Eu me
vejo no espelho e me lembro dos momentos antes de te
encontrar.
Eu boto
meu perfume, mas parece que estou a respirar você.
Eu escolho
outra roupa e abro uma lata mesmo em casa: alegria
à fórceps, que seja! E que não seja pouca
Eu chego
em qualquer tal lugar, amigos vejo, ao contrário. Ao
contrário de tudo procuro o que não hei de encontrar,
sei.
Meu
pensamento é você, mas eu não sei pensar.

NA
ESPERA
Nêspera,
nêspera, nêspera Fruta que desconheço Ao contrário
do desespero Liberta-me com sabor doce Preencha-me
como se fosse Mulher Lambuja-me como sem talher Colha-me
colher de flor E seja meu bem-me-quer Ou faz-se se
o não for

MIRAGEM
VIRTUAL
Quem
é você? Bela numa foto e no que ouço dizer Quem
é você? Triste nas canções em que tive prazer Quem
é você? Alegre nas palavras que se faz esconder
Se
de tantos outros modos eu já reiventei Se
num desejo prontinho já lhe ofereci encaixe Se
sei, nunca será o que quer que eu ache...
Num
mundo de tantos "não-eus" Onde cada um atrás
do seu quase Onde cada um uma cidade Que outros enganos
provocam os meus?

INTRIGANTE
O que
mais me intriga é a saudade das mulheres que nunca tive. Ah!
Como sonhar com elas era orgásmico... Nenhuma outra guarda
tanto mistério (esse outro fundamental) como elas. Têm,
e só elas, a capacidade de nunca decepcionar. (E que
me desculpem as que se deixam conhecer por inteiro)
Nessa
ardente tarde tenho saudade de criá-las e recriá-las, despi-las, ao
meu bel prazer.
Me faz
falta aquela apreensão, da possibilidade. Sou um homem
de emoções fortes, sabe, E é emocionante não as ter conquistado, desnudado, ainda...

SINTO
POR VOCÊ
O amor
que sinto por você é inútil. É inútil porque amor é para
ser força motriz. E a impossibilidade da nossa relação
é uma inevitabilidade. Mas por que então? Gostar do
que não se pode ter... Um exercício involuntário de masoquismo. E
se tal coisa há de haver, que seja no poeta. Esse
esquisito esteta da dor. Pois é isso que tudo isso manifesta.
A dor
que sinto por você é pueril. É pueril porque é feita
de sonhos sua matriz. E a inevitabilidade dessa conclusão
faz a tal impossibilidade. E por que então? Querer
o que não se pode ter... Um exercício voluntário de ilusionismo. Mas
se tal coisa há de haver, que seja no poeta. Esse
cínico esteta do amor. Pois é isso que nisso tudo se
manifesta.
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