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ANDRÉ JAMUS

 


À queda d'água

Uma por uma,
gota por gota,
forma-se a correnteza

Busca-se o mar e, de onde vem?
Do alto... de longe ou de perto, não importa.
Importa que ela vai...
... gota a gota,
correnteza ao mar.

O mar... ele ainda está bem distante mas
Assim mesmo elas vão...
...gota a gota,
correnteza.

Monte Verde, 13/04/99

Montanha

Lá no alto da montanha,
A mais alta da vizinhança; eu subi.
Ímpeto total,
Entusiasmo real,
Força descomunal.

Quando porém, lá em cima cheguei
Um pouco de tristeza demonstrei.
Esperava ver mais, muito mais.
E então me perguntei:
"O que esperava ver?"
Não soube responder...

Monte Verde, 13/04/99

A Violoncelista

Meus olhos estavam fixos no seu rosto
Único a brilhar no palco dos sons idílicos.
Nele vi mãos certeiras e braços suaves
Um perfil de perfeição entre a testa suave
O nariz singelo e reto de curvas amenas
A boca deliciosa a tremer, fechar e abrir.

Naquela posição, conduzindo o seu instrumento
Imaginei-me ser tocado com tão grande ternura
Desejei ser e estar no teu meio a entrever-te
Com o sabor dos acordes tocados livremente
Em ti e em mim por meio de nós mesmos.

Quisera que o meu sonho fosse o sabor
De uma orquestra a tocar só para nós
No meu, no nosso quarto, alcova única
Do amor cantante de mulher e homem
Lúcidos e embriagados de tanto som.

Do amor, nem se fala...

O Mar, as Ondas, a Rocha e Eu

Manhã, tarde ou noite, não importa;
O Mar está sempre ali.
As Ondas, ora calmas, ora altas, ora baixas, ora ora.
A Rocha firme aceita açoites delicados ou não.
E eu, ali, de fora, apenas olhando.

Agora vêm novas ondas; tarde já é.
O Mar está bravio
A Rocha recebe impactos impiedosos
E eu, ali, de fora, apenas prestando atenção.

É noite e a rocha se esconde
O Mar passeia feliz, parece livre
As Ondas beijam a areia.
E eu, ali, de fora, sentindo frio.

O sol permite que o mar se enfeite de azul
As Ondas, prontamente, se acalmam.
A Rocha deu flor
E eu, ali, banhado, parte de tudo.

9/junho/1996

Leveza

Ao vir sorrateira acalmar ao meu lado
Ao vir pousar docemente em mim
Trouxeste, sem o saber, uma historia
E se ainda não estou firmado...não é por ti.

És branca, mas isto não importa
Importa sim, olhá-la e, nesta cumplicidade amá-la
Porque sei, sem tristeza, donde vens.
Não és daqui, seu pouso é outro.

Vou ficar feliz de saber que não és propriedade
Mas um ir e vir assim, assim.
E eis que já se foi...

03.Novembro. 1996

Na direção do infinito...Rosana

Parte ou toda
Longe ou perto
Meus olhos, infelizes, te espreitam

Até que os teus encontrem os meus
E após olharmos, cúmplices, um ao outro
Buscarmos a mesma direção.

04. Junho.1997

O coração e o olhar

Os ingredientes de um poeta são
Seu próprio coração e os seus olhos.
Nada além disso pode ser determinante,
Mesmo o vinho e a amada não são mais
Que momentos da angústia exteriorizados
Nas penas do que escreve ou canta.

Todo o poeta pretende com os seus olhos
Antecipar o que o coração já se encheu
Graças a ajuda do vinho e da amada.
Porém, tanto o vinho, como a amada
Ficam em estado de torpor sereno
Até que o coração e o olhar os tragam à vida

14.Julho.1997

Rubayates

A atriz

A atriz é sempre infeliz
Enquanto foge ao real
Tendo por papel o surreal
Perto de todos nós

Eu mesmo

Caí na rede com furos tão
Pequenos de pescadores ferozes
Fui subtraído do meu habitat
Para ser, debochadamente, atirado fora

Nestas linhas

Nestas linhas tanto tortas ou até
Tanto plenas de sumária inspiração
Atravessa-me o desejo de expressão
Como a falta de um bem-me-quer.

Quis a inspiração faltar-me à lida
E nessa falta de inspiração e vida
Cego os olhos que me restam
Nas linhas pouco retas que me atravessam.

Gosto de algo que estou por sentir
Cheiro de você que não me escapa
Visão da divina esperança enfim por vir
Tatear-te do início ao fim com minhas mãos aptas.
Vai ao céu o gozo do amor.

29.Julho.1999

Nas tardes de sol

Nas tardes de sol do mês de agosto
Sentado a olhar a janela da sala
De uma poltrona confortável
Feliz e deslumbrada está a minh'alma.

E olho e turva a vista, à vista dos raios
De sol que vem de fora e, de novo,
Por demais embaçados, continuam meus
Olhos a olhar sem ver. Mas para que ver?

Se o que importa é o que os
Raios me permitiram sentir
E aqui de novo, às quatro da tarde, sentado,
Olho e olho...
E aí então, sou eu mesmo.

03.Agosto.1997

Bailarinas

Naquelas nuvens do céu, cor de azul,
Enxergo, com olhos abertos e pés descalços
Uns como que dançarinos que alçam seus
Voos sublimes e nem se preocupam com
Os olhares inquietos dos homens que ,
Cá de baixo, não sabem se olham ou se batem palmas...
... De fora é muito mais difícil !

5.Outubro.1997

Rimas, Rumos e Ritmos

Não quero me preocupar com rimas pois sou livre.
Preciso que não rime nada, para não ficar sem ritmo.
Quando rimo, perco o prumo e fujo do rumo.
Sou poeta sem rima, mas com rumo e ritmo.

Não sou capaz de rimar a vida como muitos fazem.
Não porque não goste, mas porque não me basta.
Ir além da rima e perder-se no rumo do além
Neste jogo, sem rima, mas com rumo, vou.
Quando o rumo eu perder, então sim, de-me a rima.

5.Outubro.1997

E-mail do autor
aljamus@nitnet.com.br

 

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