www.rubedo.psc.br | Poesia | © Isabela Fernandes



ISABELA FERNANDES

passo batom lilás
vestida de longo
desabo no sofá
assim descabelada
sem uma gota sequer
no fundo da palavra
corro de meias sem pernas
verto a paisagem tinta
no sulco entreaberto
da tarde

chego atrasada à página
sempre
este torpor dourado
além da vidraça
já o tempo se desfazendo
em borras violáceas
no poente
como se tudo que restasse
fosse tua boca frouxa
contra o céu ardente



beijo teu rosto ondulante
nesta fonte
a orla vã
a superfície apenas
de folhas mortas
o toque
que se esvai
na luz que doura os ramos
submersos

a lâmina de água nos separa
mas o espelho alonga o gesto
até o infindo foco
do outro lado
onde uma outra falha
a cintilante face
esvanece

e resta molhar os dedos
no fundo negro
onde tua eterna ausência
permanece


quando eu descer às trevas como um vulto
cerrarei os olhos entre o musgo
e tudo será imenso, vazio, nítido
mas levarei teus óculos ao túmulo
para que tenhas a visão do infindo
e assim possas morrer junto comigo


desembaça óculos
veste o mito
e inscreve-se
na visionária hora
que sobra
do não visto


limpa a neve da vidraça
arranca com unhas ávidas
o gelo
o reboco dos olhos
para que vejas na nítida várzea
a tarde enfileirada
em postes de luz baça
e o rastro nevoento dos fantasmas
na branca eternidade da calçada


o espelho reflete a imensidão
da sala vazia
o longo movimento das cortinas
roçando a pele morta das paredes

o vidro da janela
e pra lá da janela
a eternidade negra das estrelas

quando vago pelos desertos
levo comigo palavras
o lento sulco das areias
no empoeirado mapa
dos olhos
entre camadas de mundos apagados
quando vago
na erma procura de relíquias
e templos soterrados


no velho pátio da igreja
entre imagens de granito
procura um nome gravado
sob o musgo apodrecido

entre as gretas e as urtigas
sob o horizonte em chamas
procura o túmulo antigo
de uma esquecida criança


transpor o estado nulo das coisas
seguir a trilha nevoenta do oráculo
o lume dos penhascos
curvar a fronte concentrada
na busca errante de relíquias
e equívocas palavras

então asas de bronze te contemplam
a estátua híbrida dos mortos
nas encruzilhadas

nada a fazer senão
vestir enfim o delírio
tua coroa de espinhos
vagar diante de espelhos
com três pernas vacilantes
e olhos vazados


então solta longas tranças
rasga pesadas escamas
no gesto duplo
de anfíbio
escorrega lenta e fria
pelo cetim puído
entre o cristal e os frascos
e tece milênios em fios
lustra a lâmina afiada
dos caninos
enquanto goteja o sangue
pelos cantos
dos lábios finos



Mensagem 2

retornam, pouco a pouco, as caravelas
vazias
indecisas no horizonte aceso
ninguém sobreviveu para contar
da imensidão

restam
um manuscrito perdido numa garrafa
o olhar fixo
de esfinges soterradas

nada a decifrar
na névoa morna deste todo mar
que me deixaste


incêndio da vidraça
ave maria ardendo
em rendas violáceas
na tarde

o jantar pronto
cerro as cortinas
acendo os candelabros
aguardo o silêncio dos retratos

lá em cima
no sótão
em despovoados corredores
os passos trôpegos
de uma velha morta
vão recomeçar

tanto tempo gasto
tudo permanece literal
correto e igual
como o espiral dos átomos

dois e dois são quatro
e passo os dias da eternidade
acumulando ossos
tirando poeira dos olhos
raspando o limo da estátua
contando buracos nos dentes
de pontas afiadas


lento
o tempo completa o ciclo
o rio de novo inunda
a curva dos labirintos
a espiga se ergue dourada
pequena e úmida
por entre o linho esgarçado
da múmia



Poemas do livro Linho de Urtigas
Publicado pela 7 Letras
Rubedo agradece a gentileza da autora por ter autorizado sua reprodução



Para entrar em contato com a autora
isafel@domain.com.br

www.rubedo.psc.br | Início | Poesia | Correio