www.rubedo.psc.br | Poesia | © Paula Glenadel


PAULA GLENADEL

DIREÇÕES 

Para construir uma casa,
um quadrado onde viver,
em tropismo, do nascente
(o sol) ao poente (o solo):

a porta para um mítico oriente,
a janela para o correto norte,
a alcova para o sul profundo,
o jardim para o ocidente sombrio.

Ralo consolo, as quatro
(que eclodem em outras quatro)
direções ideais talvez
pudessem mudar a sorte -

por sorte, se entende
a direção da corrente.

INFIXIDEZ

 sou (e/u) e
não sou

não sei
se
sou

só sou
se saio

MIRAGEM

Nenhum mistério insondável
na (embora difícil) arte
do equilíbrio no meio das gentes,

apenas sintonia fina,
ajuste na freqüência,
medida no andamento.

Mas totalmente improvável
é a chegada à terra prometida
que, à distância, miragem, se oferece
no brilho de uma oscilação ritmada.

ENTRE 

Quem pudesse parar o tempo
veria, talvez, na fronteira móvel
entre ontem e hoje,
uma simultaneamente
plácida e mórbida confusão vegetal,
folhas de limbo branco-esverdeadas,
fosforescências, reviramento, germinação.

SONO 

Suave vibração ritmada,
um quase imperceptível movimento
caminha envolto em polpas de sono,
em brumas irisadas de violeta,
em penumbras de pálpebras.

 

Poemas do livro A Vida Espiralada (ed. Caetés, 1999).
A autora é professora de literatura francesa da UFF, e vem desenvolvendo pesquisas sobre poesia francesa e brasileira, numa perspectiva de relação com a filosofia.


paulag@uol.com.br

 

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