BEIJO
Bocadoce
Bocario
Bocagris
Bocasfixia
Bocarícia
Bocálida
Bocarinho
Carmim
Caminho.

CONSUMAÇÃO
O fogo que incendeia o corpo,
arde nos flancos derrotados,
faz da esperança, em tom fosco,
não tingir o coração alagado,
dum lodo espesso, viscoso,
misto de resto e pecado,
cintilando como óleo pesado,
sangue de talha, defeituoso.
O combustível que não cessa,
fósseis da ilusão e do fracasso,
alimenta e refaz a peça,
gosma a gosma, braço a braço,
e não há Deus, ou pretenso
recurso que se livre o bagaço
deste consumo intenso,
nem a Sísifo de seu cansaço.
O mistério de algum mundo,
quando o pó for pulverizado,
recai no breu sem fundo,
surdo, oco, teso, calado,
onde gritos são perdidos,
nenhum profeta anunciado;
quando tudo, um nada contido,
e o nada, um caminho fechado.
ESPERA
Você pediu uma poesia
daquelas de outrora,
quando a paixão ardia
nos flancos insanos da aurora;
uma, talvez, jocosa,
repleta de ternura,
na paz fabulosa
da mútua mordedura.
Não faço mais versos
desnudos ou acabados,
não teço a harmonia
do que, um dia, foi intensa alegria.
Mas danço sua canção
no compasso de quem espera,
como sangue ao coração,
o inverno voltar a sorrir primavera.

SENSAÇÕES
Não sei o que me dá quando você passa,
um tremor, lívida sensação de brancura,
nessa dupla falta, a do ar e da sua,
misto de beleza, volúpia e graça,
dessas curvas doces, um novo jasmim,
desconhecido como aquela praça,
que fiz cenário para vê-la quando embarca
numa viagem de desejos sem fim.
Não sei o que me dá quando você vem:
se loucura, êxtase ou algum conflito,
se minha razão, para o mal ou bem,
mantém você às bordas do infinito,
roubando-me o que a mim mais importa:
a tranqüilidade do céu mais bonito,
as nuvens da noite e da aurora,
o outono e esse meu viver corrido.
Não sei o que acontece quando você vai,
se toda a forma construída se distrai
num trôpego soluço que se esvai
dessa saudade imensa que não sai,
nem por decretos presidenciais,
nem por súplica dos ancestrais.
É força vinda dos mistérios universais,
que insiste, que não quer voar jamais.

TRAÇOS
Não sei fazer poemas acabados,
nem pisar em ovos sobre arames farpados.
Não sei pentear canaviais rítmicos,
nem entreolhar mares que os espreitam, sísmicos.
Não sei desvendar intenções disfarçadas,
nem vislumbrar elipses, ceifar fachadas.
Não sei contar piadas desconcertantes,
nem rir dos mistérios aos falantes.
Não sei bailar em noite estrelada,
nem caçar o beijo bandido da madrugada.
Não sei entregar pulsos do coração
para um porto calmo, seguro,
nem aferir o voraz maremoto,
ondas de um pranto mais puro.
Não sei se sei ser o mero comedido,
chato, indecente, louco, nem sofrido;
poliglota do eu te amo, crivo:
meio sempre - fim de quem ama - morto
meio sempre - fim de quem vive - vivo.
Marlos Degani, autor de "Ad Nutum" de 1992,
participa do grupo "Desmaio Públiko",
signatário de diversos projetos culturais na Baixada Fluminense. Foi premiado no
Concurso Nacional de Poesias do Governo do Estado do Paraná. Atualmente, prepara
para meados de 2002 seu segundo livro de poesias.
Para entrar em contato com o autor:
degamimarlos@hotmail.com
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