www.rubedo.psc.br | Poesia | © Sérgio Nazar David



SÉRGIO NAZAR DAVID

Noite no Estige

Não o corpo diabólico,
o teológico,
mas o que
dentro da língua declina:
o inútil amor,
músculos do fim,
as fibras quebrando-se,
a força bruta que diz
pagarei com a carne
o ponto sem luvas,
a febre de julho nas vértebras,
a cela que faz morrer
na margem do Estige.
O sujo, o insensato
fora da Lâmina.
Temos vivido assim.
Mas não sabemos ainda viver.
Hoje mesmo guardei
onze moedas de chumbo
das ondas mais quentes
de Copacabana.

2.

O pior agora são os verbos no passado.
As frases tortas...
E algo aqui também - torto, fundo,
com vontade de ficar dentro.
Mas hoje é outro dia.
E eu também
um pobre homem do caminho velho.
O rumo estreita a vista,
corta o raio do placar,
e diferente do que se divisa
é o ponto, a parte,
que nenhum olho mira,
e que depois de tanto tê-lo
ou tê-la também escorre
e desce pelos dedos,
pelos pêlos, pela barriga.
Eu sei que dá vontade de chorar
ver que toda carne, toda cinza
é isto que vês: abismo,
selva, fonte, fogo,
com seu rosto de vento
e renúncia, seu destino
de rosa ao abrigo.

3.

Amanhã
talvez queira ser de novo
um pequeno deus
ou quem sabe ainda
hoje mesmo,
mas mais tarde,
eu
mergulhe
nas horas sucessivas
que o relógio de metal grava.

Amanhã, ou sei lá depois
de amanhã, eu talvez pense
de novo que a vida entrou pela porta
fazendo de mim o que quis -
uma inverdade, diga-se,
já que não sabemos
suas reais intenções
naquele exato momento de entrada, ou,
quem saberá?, se de saída,
se porventura não quis (ela, a vida)
fazer mais, fazer tudo,
pela boca, pela buça, pelo cu,
ou ainda fazer menos, uma pequena brisa
apenas roçando a sobrancelha,
se os intuitos (da vida) não foram
interrompidos por um cigarro, uma bala
de chupar, um guarda-chuva
respectivos, ou, perdoem, a circunstância
do poema exige que diga, se existe
isto que chamamos vida,
sendo neste caso a vida lupanar.
Sim, não sabemos, repito. Agora
me entrego dentro de um carro,
soletro meu nome,
a pele no canto dos dedos arrancada
por alicate...
Fechando o vidro, penso:
sim,
sim,
a gente nunca pensa
que é
tarde.

4.

Ninfa,
de amassar sombras
no vão de um arranha-céu,
feri meus olhos
com cartas marcadas.
E adormeci.

Há um Vesúvio
no sangue quase morto
de ternura antiga
que ainda me trouxe a esta cadeira
com o que restou do mundo
e o que de inaudito queria, Ninfa,
dizer-te.
Mas
pouco posso mais
do que este ato absurdo:
furo o ar com o oleoduto,
que em mim treme,
como se fosse a ti, só a ti, que quisesse,
e às escuras assim fosse beber
teu corpo,
como antes, sem frases,
fui bebido.

As noites sonhadas
mais do que as vividas
beiram o inumano
ou talvez rompam a divisa
à qual pareço estar pregado.
Às vezes rasgo com a mão a couraça
e fico lambendo o vidro
fosco, impreciso,
retocando com mercúrio a dor.



Absinto

Estou perto, mas não dentro do corpo.
Longe,
a voz é sempre um outro porto.
Assim a pele fina,
que quase não se visita,
a mais sozinha, a mais intranqüila...
O coração ainda em chamas
(pra onde irá?),
o retrato que não tiramos...
Luna que se quiebra...

Serão minhas por completo
estas sementes?, que ora mastigo
morrendo
(e dou num beijo),
ora no subsolo do umbigo
fermento,
querendo lançá-las,
sorvê-las, explodi-las mesmo
por dentro,
nos aparelhos do corpo,
chicote, punhal,
punho
enfiado ao pescoço?

Noite,
sempre por se deter...
Nunca de todo minha...
Sinto saudade de ti...
Das taças quentes
que no teu pote
de barro e silêncio
bebi.
O sangue infrene, a mancha
de ouro, fora e dentro
do céu...
Noite, noite,
repetir teu nome
nem sempre é dizer
sim.
Depois de muito morrer,
vi
que tu
morrias também por mim.


Fuga

Vou sobre estas águas...
Morcego,
não tenho presas, nem garras.
Vim só pra namorar a lua.
Não a do céu, mas
a que cubro no lago
com minha sombra,
e levo,
no frio depois
do dente,
pra se deitar comigo e
ser platônica.

7.

Faz parte do poema este mundo
que entra nele.
Vejo muito bem
a cor dos carros quando passam
antes que eu suba a escada,
tórrido, satânico,
a mulher-gato.
Eu sou o que ficou,
depois fugi,
o segredo no papel,
a cópia guardada
das chaves,
o coração
depois do almoço.
Faz parte do poema
isto que vi.
Mas não ando
atrás de literatura.
O corpo está vermelho
e fora da vida.
Ardeu na tarde quando
o moço loiro de Macedo
de aliança e tudo
comeu-lhe os ossos
do pescoço.



Decalque

Este romance de asas
onde fomos dormir e esquecer...
A vida tão doce...
A temperatura da lâmina...
O não sentir...
Oh, rios de Heráclito, haverá
um sinal antes do fim?
Rasgue teu sexo impuro na minha
pele de vamp sem sonhos, doida
de rímel, álcool e mandrix.
O santo que um dia
trouxe voltando pra casa
seus primeiros restos de amor
ainda está aqui marcado no contragolpe
da capa.
Perdão. Nada mais importa.
Começam a salgar-me os ossos.

9.

A poesia é impura.
Não posso escrever
sem saber que não sei escrever,
nem o que os homens pegam nas palavras
pra depois sair por aí
respondendo, comprando,
atravessando noites de vidro
e rios geométricos de silêncio.
Paro na janela dos meus cinco anos
ou ainda menos,
e lá está o meu pai
no volante do Chevrolet,
o cabrito que dependuraram sem cabeça
no galho da mangueira da casa da Elza
do Armandinho, onde fomos morar,
e o sangue no chão,
as minhas irmãs penteando cabelo
com aquelas escovas redondas,
a vitrola de pilha que punham pra tocar
as músicas que não dançávamos...
A poesia é impura, senhores.
Uma onda de tristeza...
Uma sombra de tristeza...
Um beijo
de manchas invisíveis
neste céu fundo...
Quero esquecer seu chamado.
E nem mesmo assim
escrever de fato.

10.

Meu pai morreu quinze vezes.
Da última vez, acordei cedo
e me lembro que antes,
ainda úmido,
eu escrevia um poema, sonhando.
No poema
tive que pagar
a uma velha que enfiou o dinheiro
no sutiã
e não enterrou o
meu pai.
Eu vi o dinheiro entrando no vão
dos seios,
o que tinha que ser,
as flores vermelhas...
Eu estava do lado de cá do vidro.
Fiquei me lembrando do café que tínhamos
tomado juntos há pouco
olhando o campo de futebol vazio,
as árvores verdes
e os desenhos do sol no chão da varanda.
Não foi preciso dizer:
sabíamos que ele
ia morrer logo depois.
Mesmo assim as goladas foram quentes
e a despedida sem gestos de cinema.

O que muito me surpreendeu foi
na morte do pai haver
quem receba
pelo que não vai fazer.
O que muito me surpreendeu foi que
deixei pra trás o corpo insepulto,
sentei no meio-fio da Barão de Mesquita com Major Ávila
e fiquei escrevendo um poema
do mesmo jeito que brincava com
o meu velocípede, longe do mundo,
sozinho na calçada,
inventando com a boca um som de motor.

11.

Destaquei um rosto por alguns minutos.
Talvez o álcool tenha ajudado.
Só pude gelar o corpo na tarde aberta de maio.
Quis correr atrás do tempo, chegar perto
o mais rápido possível.
O melhor
foi que tudo se deu num instante.
“Você já almoçou?”
Não almocei. Apenas observei e tentei fazer o momento parar.
A mesa me ajudou. Fiquei afastado,
olhando as pintas, os mapas lunares. A orelha também.

Um muro de palavras nos protege,
e a dor não fica de fora quando
alguém sorri adiando a busca
que fazemos
às províncias distantes do corpo:
o braço dividido,
a língua gasta,
a palma da mão, deserto onde nenhum beduíno ancoraria,
os olhos ainda querendo não sonhar mais,
os fios do cérebro estalando em ilhas...

Fiquei ainda ali alguns dias
a brutalidade do coração
rádio buscando vozes
pautas musicais tocando-se.

Tudo foi se apagando...
simples
até perder-se o rosto,
e sua beleza dentro dos óculos.
(Talvez a noite trouxesse alguma sombra tocando melhor os lábios,
as mãos, entre dois laços.)

Ficou tudo em fotogramas.
“O tempo está perfeito. Você viu?”


Cinza

Já disse em outro poema: guardei o que perdi
no coração ferido.
Quero repetir agora,
não o poema, nem o verso,
mas a metáfora surrada -
das que de mão em mão cortam
o vidro dos olhos e nos esperam
para o quanto também somos tolos.
Há um lirismo delgado sempre perdendo-se.
Tudo bem. Meus amigos ainda trocam
cartas de meio de madrugada,
e andam pela rua buscando intimidade.
Intimidade...
Andrea Campos põe flores na varanda do apartamento
do terceiro andar da rue du Plâtre,
retirada.
Passa horas olhando o pequeno céu.
Um outro amigo, que não quis suicidar-se,
disse-me em carta de 23 de novembro
que não pensava em pagar
mas se tivesse que pagar pagava:
muitas moedas, quantas tivesse,
e outras esquecidas, num maciço
sobre o qual se ergue ermo bosque,
num lago,
de um embrulho antigo, desenhadas no plástico,
e até as mortas dentro de uma moita de bambus
(se tivesse mãos).
Dormir em Veneza
era impossível, então dormiu na
porta da igreja mesmo. Dorme-se sempre cada um
como consegue.
O carnaval tá chegando.
Pode ser que eu morra de novo no meio
moço tarado pede cloretilo
sempre há um filho-da-puta com braços de pirata
ou olhos de ressaca
nunca estamos salvos
mas podemos gritar dentro do lenço
chorar dentro cu
amo este meu mundo inacabado
na minha mão
no sorvete
quando vai anoitecendo
e não sou mais aquele que passou


Anfíbio

Dois poetas vêem um clarão
da cabine da aeronave -
que é Belo Horizonte.
Há, entretanto, quem não queira ver nada.
Alguns querem
queimar tudo, acabar de uma vez com o
que há e haverá,
para que não reste sinal ou possibilidade
de se beber mais sangue
além deste turvo e podre
que agora se bebe e
explode
em ondas.
Os gritos serão de anfíbio
ancorado à dor, como pedra.
Ainda esperamos a liberdade
(não somos limpos).

Rodrigo me disse que cheira, traga,
transa
sem preservativo.
Está vivo.
E um outro amigo
gritou no escuro que pouco se fodia
que ardessem cinzas,
o céu visto quando era cedo,
duas noites de batismo com os punhos
descendo estrelas
da face interna das coxas.
Não venha alguém agora
com unhas de seda lembrar-me
do que fui.
Deixo aqui escrito este risco,
porque não quis a vida.
O que era excesso
entrou-me nos nervos.
Mas agora não.
Mesmo sorrindo,
não se enganem na descida.

Poemas selecionados de Onze moedas de chumbo publicado pela Editora 7 Letras, 2001

Sobre o autor
Sérgio Nazar David nasceu em 1964. Passou a infância e início da adolescência em Minas Gerais, nas cidades de Volta Grande, Além Paraíba e Juiz de Fora. Em 1978, mudou-se para o Rio de Janeiro. Poeta, ensaísta e cronista, é autor de O romance do corpo (Sette Letras, 1997), e organizador e co-autor de Paixão e revolução (EdUERJ, 1996), de O que é um pai? (EdUERJ, 1997) e de Ainda o amor (EdUERJ, 1999). Onze moedas de chumbo (7 Letras, 2001) é o seu segundo livro de poemas.

www.rubedo.psc.br | Início | Poesia | Correio