www.rubedo.psc.br | Poesia | © José Maria Bezerril
 

JOSÉ MARIA BEZERRIL

 

 

TEOREMA

 

A laranja
é uma esfera em cima da mesa.

A faca
veio transgredir esta verdade.

A laranja
virou metade.

 

A QUEDA DE FAETONTE

 

A Ursa Maior treme de febre e medo na noite gelada.
Teme o destino de Faetonte no carro de Apolo.
Os meninos nus brincam de espetar a lua no rochedo.
Uma a uma baixam as estrelas até a palma da mão.
E o astro de cabeleira em chamas atiça o fogo entre os mortais.
Mais e mais e mais e mais estrelas cadentes
nascem da vulva do caminho de São Tiago.
E de cada janela, cada homem, cada mulher,
vence o medo e a coragem de viver e morrer.

 

IRAQUE SOB O BOMBARDEIO OU A PAZ DA ONU

A brisa de espinhos imolou a cabeça culpada.
A flor de sal consumou o ódio.
É a herança colonial esquizofrênica do Império surdo,
na insólita maneira de convencer seu desigual.
Presenciei o relógio do milênio ferido nesta guerra,
que passo a passo explode em abismo de nêutron.

Cegos são gargantas sem grito,
braços sem força
e olhos sem vontade.

Vi os cadáveres exibidos como paisagem semeada na TV.
Vi o sopro do espinho nas veias jugulares dos jovens soldados.
Vi os caramujos ressequidos nas chagas do Homem.
Vi os refulgentes asteróides hermafroditas cairem
como buquês de calêndola numa grande festa nupcial.
Vi muitos sóis rolando num só
na noite espetacular da tempestade tecnológica.

Eu vi o horror! Eu vi o horror!

 

UTOPIA

 

No buraco da agulha
guardei sonhos idéias utópicas,
para que mais tarde germinem pássaros
nos vãos das janelas.
Com ela devo bordar um grito,
desfazer desertos alccolizar sombras.
E depois nenhum silêncio poupará as trevas.
Nenhum cardume isolará o espaço.
E as montanhas tocarão o pico so sol
lançando vespas no amanhã.

 

TEMPOS MODERNOS

Grandes são as cidades!
Tóquio São Paulo Nova Yorque.

Os homens respirando o vômito da rosa
de dióxido de carbono
e lavando o sangue em droga e ácido.

Vôo de câncer nos corpos.
Aids matando o amor.

O sol não é mais sol.
A lua não é mais lua.

CFC lambendo as feridas do ozônio
onde abelhas de fogo vem beber o néctar na pele.

Grandes são as cidades.
Ai, Tóquio!
Ai, São Paulo!

Arre, Nova Yorque!
Prostituta venérea da Wall Street,
que incha de percevejo a Bolsa.

O campo não é mais campo.
O mar nem é mais mar.

E o poviléu mordendo o agrotóxico
para não morrer de fome.

Enquanto os peixes e os paquidermes voam sob nossas narinas
e os porcos engordam nas vitrinas.

Grandes são as cidades!
Tóquio São Paulo Nova Iorque.

A tevê exibe como show de cantores POP
o ego da violência.
E os homens coaxam e uivam para as pedras
com os seus sexos à mostra
como animaizinhos de estimação sodomizados.

Grandes são as cidades.
Ai, Tóquio!
Ai, Nova Iorque!
Ai, São Paulo!

 

A NOITE DADA DE PAUL ELUARD

Esquartejo a noite no fundo dos meus olhos.
Mas meus dez dedos de cabeça sem juízo assassinam a lua.
Agora sujo meu sentimento nesta esquina abafada,
e vejo em cada homem que passa a imagem do filho.
A noite supura.
Sob meus pés a calçada voa.

Dorme neném!

 

TODAS AS COISAS SÃO INÚTEIS

até a mosca à borda da taça de cristal,
ao rebrilho da luz do salão rococó, é um diamante.
Mesmo o teu sorriso nessa redoma de sinceridade
é banal.
A mão do cego também é inútil
na fina flor do seio da moça.
O pianista que toca Mozart não advinha
o silêncio do ouvido de Mozart. É inútil
trançar os cabelos do rio e fender o mar com um punhal.
Cheirar as flores sem perfumar as axilas.
São inúteis em suas utilidades as máscaras,
as fisionomias de pedra, as paredes dos quartos,
o espelho nu na recôndita inocência da casa burguesa.

Inútil o volume da gota d'água na sede da boca.
Inútil a morte na vida do morto.


RUMO DOS VENTOS

 

Na incerteza do rumo
os homens aspiram a rosa-dos-ventos.
Imantam seus corações em tristeza,
e secam seus olhos nas mãos cortadas.
Iventam mandalas de sóis que repousam sonhar.
Cunham rota lunática;
pressagiam miragens bíblicas;
deserto de profetas dementes
e caos de astrolábios inflamados.

Na incerteza do rumo
os homens se alcoolizam à noite e se amorfam.
E em seus lares aves agoureiras criam ninhos
debaixo dos travesseiros.
E os homens bons misturam-se aos homens maus.
Riscam com giz um xis
a travessia da boa esperança.

 

José Mária Bezerril é poeta e roteirista.
Rua Esteves Júnior, 32/204
Flamengo, Rio de Janeiro
Tel.: (021) 225-1928

 

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