Pleno deserto
As árvores caídas
Não deixam nenhuma dúvida
As árvores caídas
São sarcófagos do Livro,
Barco novo prestes
A se dar qualquer direção.
Fique ébrio, leitor
O livro espera por você
Sob o tantã da floresta.
Parte Um
Sob o tantã da floresta
Ele tangia
Sua intensa fome
De ver, de chegar lá
Naquela imensidão
De madeira abatida
Sempre há um lugar
De se chegar
Pode ser um palanque
Em que muitos se esbarram
Pedindo diretas
Pode ser uma avenida
Qualquer do mundo.
Mas naquela imensidão
Acontecia a encarnação
Concreta do Livro:
Colunas da simetria.
Ele andava andava
E havia o espaço morto
De toras estendidas:
Vertiginoso tapete
Que não acabava mais
Ele seguia em frente
Olhando
Não sentindo os pés velozes
O seu desejo era chegar lá
Embaixo
Gozar a experiencia
De tocar a pele
Do segredo
Das mil inscrições prometidas
Porque elas estavam ali
À espera
Mas o passo passava
E havia a vertigem
De nunca chegar
Enquanto andava
As fibras das árvores deitadas
Começaram a percutir
Pelos tendões
Como se fossem
Fantasmas
II. RETÓRICA DO VENTO
Aquele homem conhecia a floresta de pé
O vento vociferava
Litanias de março
E persuadia arvores tombadas
A permanecerem ali
Transformando-se
Em puro tambor para os pés.
Árvores deitadas
Não podiam reencontrar árvores
Erécteis
Piedosas sacerdotisas
Do controle do caminho.
No entanto o espectro soerguia-se
E confraternizava
Foi então que
sobreveio o frêmito
O pássaro
A coisa danada
O estouro dos pregos
A perna bambeou
E começou a dançar
Seguindo o registro
De antigos costumes
Começou a dançar
E o livro
O livro
Era ele mesmo
O livro era ali mesmo
O espaço
O ser
O dentro de tudo.
III
O LIVRO INSANO
O livro dançava por entre livros excitados
Perambulava
Perlustrava
Este inédito espaço
Bibliófilo
Talvez fosse ali o palco
Das antecipações
A prometer novas delícias
A cada ponto
Novo fragmento
Nova parada
Houve o estalar da madeira
Ferida pela inscrição
De pregos e do plano
Porque havia o plano do arquiteto
Não chegar ao ponto seria lutar
Contra o arquiteto
Ou talvez
Mais uma forma
De tornar o plano
Mais consistente e previsível
Estaria havendo ali uma performance?
Houve o estalar da madeira
Regido pela memória do batuque
De muito longe chegavam alaridos
Vivências
Ele queria agora
Acelerar
Chegar lá
Mais perto
Para realizar o sonho do arquiteto
Chegar lá embaixo
Ou lá em cima
Ou à altura das mesas adequadas ao toque
Da pele transfigurada da floresta,
Lugar do encontro
Lá em cima
Lá fora
Continuava andando
Nova intensidade já parecia eterna
Reciclando o tempo
O que encontraria afinal
Seria o acesso a novas alegrias?
Houve um instante
Em que todas as árvores
Soergueram-se
Como voláteis lázaros
Os livros nas mãos dobravam-se
E paginavam-se sozinhos
Todos os leitores sabiam
Do que se tratava
E esperavam a mensagem
As árvores acariciavam a penugem
De outras árvores
Que formavam o jardim
Das sacerdotisas
E houve a trégua por instantes
Foi o momento
Do desaparecimento
Do grande plano
Havia mesmo
O grande balé dos elementos
O encanto da água do rio
Do vento
Da cor
Ele se descobriu
Em êxtase
Porque atingiu a velocidade
Da coisa
Revelada no seu abismo
Mas isso seria de novo
O projeto do arquiteto?
Começou a surgir
Uma pequena multidão
De folhas
Todos os tipos de tapetes florais
Das ruas mineiras
A folha seca outonal
A folha seca de Nelson Cavaquinho
A folha projetada
Na memória do tronco
A folha caída
A folha evoluindo na avenida
De toras deitadas
Desdobrando o contorno
De nossos fantasmas
O leitor folheava o nada
Nesse instante
Reconheceu o êxtase
E o gozo da palavra
lançada
Ao acaso na boca
Naquele instante em que se fala
Antes de se ir
Para o outro lado
Outro lugar
Alhures
Assim ele encontrou
O mantra,
O som
O samba.
FIM
Parte Dois
VIA LÁCTEA DOS PERGAMINHOS
Nada sabemos e traduzimos o outro
Passeamos de um lado para o outro
Em busca de ar
Passeamos
Sentimo-nos seguros
Na trilha traçada por muitos
Que também vão.
Há paradas
Há desvios
Há pausas profundas
E instantes mortos
Às vezes o fluxo vence
No entanto os caminhos já traçados
São mais seguros
2
Levanta o véu da pele
E surpreenda
O ser arrepiado
Transido de nada
Com medo
De sair de si
De nunca mais
Voltar para casa
3
A viagem que se faz
Não é por muitos lugares
Talvez se ande em semicírculos
Talvez a terra da infância
Ainda esteja nos pés
O cheiro
A dor dos espinhos
E a poeira
O mapa não é muito vasto:
geografia de partículas.
Viajar seria rastrear algum elo
De um cheiro antes
De uma passada outrora
4
Quem é próximo?
Quem é esse
Que a gente acha que vai topar?
A outra metade, nosso ouvinte,
Aquele cúmplice
Aquele oráculo
De nossas vazias litanias?
O próximo está longe
Vive a distância
No brilho da coisa
5
Quem viaja não está mais
Em lugar nenhum
Já não planta mais
A velha raiz
Ora, não lamente priscas eras
O seu ônibus portátil
Está passando
Entre e saia por aí
6
Língua louca
A língua passa a perder seu controle
Desde o instante
A língua passa perdendo-se
A língua passa
A língua lambe
E tudo passa
7
Mapa
O único mapa de se encontrar
É o corpo da amada
Todas as direções
Sobretudo as inumeráveis
Todos os cantos
E novos túneis
Em que a língua possa
Perder-se
Quando a língua enlouquece
Em plena velocidade
O trem dispara
8
De repente houve o vivo sinal
De que somos
Uma grande poeira
De infinita alegria
9
Congresso
Eles todos vieram vindo
De muitos cantos
Os textos lidos por vários olhos
Desde a infância
Os textos se reuniram
Num congresso esponjoso
10
Van Gogh em Auvers sur Oise
Ele chegou e queria mais
Vinha de exasperadas disputas
Consigo mesmo e com todos
Mas queria mais
Chegou e queria mais
Subiu aquele caminho entre árvores
Que pareceia levar até lá
E encontrou a imensa planície
Recortada por ondas de amarelo
E ficou ali tangendo ausências
Traduzindo aquele perder sem fim
Da vista, nos domínios do trigo
A mão abrindo o mar por entre cores
Dispersando o traço do vento
Do fantasma do mar
Que habitava aquele toque
Tudo ali ficou mais parecido com a infância
Era um fundador e não sabia
Não havia chegado para ele
A palavra do outro.
Decifrava sozinho o labirinto.
FIM ?
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