www.rubedo.psc.br | Poesia | © Rogério Malaquias

Retirando a última máscara (conversa com o monge Annurudha)

Quis falar-lhe sobre a essência de todas as coisas
dizendo que a sabedoria dos monges estava só nas palavras
mas sorrindo ele me disse:
“Tua sabedoria está só nas palavras”.

Disse-lhe que a vida era simples
e complicados demais eram os símbolos budistas
mas, no entanto, ele retrucou tranqüilo:
“Sim, é verdade, mas tu não sabes”.

Interrompi o seu discurso para falar sobre o estado de atenção
mas com firmeza ele me fez calar, dizendo:
“Atenção! primeiro você ouve,
depois você fala”.

Exaltei-me, falei do apego às convenções
mas carinhosamente ele me falou assim: “Para um homem simples
está bem se ele tira os sapatos ao entrar na casa do amigo
e está bem se ele não tira os sapatos.Quem se importa com os sapatos?”

Eu lhe perguntei, então, (não sem ironia)
se ele era um Iluminado
e, surpreso,respondeu-me assim:
“Eu? ah, ainda estou muito longe da Iluminação!”

Tive que reconhecer, enfim, todo o meu orgulho e vaidade.
Enfim? Todo? Mas como, se mesmo agora ao reconhecer isto, vejo
que estou tentando ser humilde, que ainda estou vaidoso?
(e o que eu quero mesmo é ainda mostrar-me sábio à sua vista).

((Mas nem mesmo agora, ao reconhecer também isto, eu fui sincero
que ainda resiste em mim a vaidade oculta de ser modesto)).
(((Mas também agora existiu orgulho em minhas palavras,
ainda teima a vaidade sutil e não consigo terminar o poema))).

((((E também agora houve orgulho)))).
(((((E também agora))))).
((((((E agora)))))).
(((((((E agora)))))))...?!

Andarei velado pela eternidade afora
sempre a tirar de mim uma última máscara?
Acaso serei eu mesmo essa máscara?
... Um demônio inacreditavelmente oculto?

Rogério Malaquias
71/Rio de Janeiro