www.rubedo.psc.br | Poesia | © Rogério Malaquias

É uma coisa de herói estar sempre contra o vento

Incomodava-me o vento sempre a desmanchar o meu topete,
esse símbolo de arrogância,
mas que hoje eu não trago mais...
pois ainda quando criança,
tomei uma sábia decisão:
para estar contra o vento, como os heróis sempre estão,
passei a pentear o meu cabelo pra trás!

Com uma toalha amarrada ao pescoço, eu já fui o Batman,
o Super-homem, o Capitão Marvel, o Zorro,
e também já fui Moisés no alto do Sinai (no alto de um morro)
com seu cabelo branco e a longa barba,
tranqüilo, em sua túnica ao vento, como no filme de Cecil de Miller.

Me lembro de ter andado às proas das lanchas
entre Rio e Niterói
como se fosse a própria vitória de Samotrácia.
Mas hoje, após tantos erros e covardias,
imaginar-me herói
é muito mais difícil e já nem tem tanta graça.

No entanto, ainda me pego, às vezes,
à gostar do casaco balançando nos ombros,
permitindo uma leve impressão de que estou vencendo, avançando,
resistindo apesar de tudo.
E se tenho, então, comigo, um guarda-chuva...ah!
ainda vem, lá de não sei onde, um ar de heróis românticos com suas capas e espadas.

Rogério Malaquias
74/Niterói