www.rubedo.psc.br | Poesia | © Rogério Malaquias

Um homem sentado à sombra de uma árvore
Além do cansaço, da fome e dos insetos, o que pode um homem
descobrir no campo, sozinho, sentado à sombra de uma árvore?
O salto do gafanhoto foi interrompido em pleno ar!
Como é possível?
Eu vi os homens passando por todas as portas da cidade,
comeram tudo e choraram amargamente os seus mortos,
furaram-se mutuamente em seus próprios olhos.
Um meteoro não desapareceu no espaço!
O traço de fogo uniu eternamente duas estrelas. Como é possível?
A multidão é um bando de lobos sempre famintos,
um homem apenas cria todo o Universo. Ele traz fogo aos homens.
Só, no alto da montanha, contempla a cidade onde vive, ouve
o burburinho das vidas e vê as rochas.
Ele detém a roda do mundo
e a roda do mundo não pode ser detida. Como é possível?
O pensamento esteve correndo apaixonadamente pelos campos
e, subitamente, a frase rompeu-se!
A natureza da mente foi surpreendida em sua intimidade...
Tudo foi visto.
Quem atingiu o inatingível?
Quem viu face a face o invisível?
Quem pôde prever o inesperado?
Não é o trabalho do herói fazer coisas possíveis.
Onde está a luz cheia de trevas?
Onde estão os olhos que podem ver-se a si mesmos?
Eu ouvi a voz daquele que não fala e que posso agora dizer
aos homens?
Que de repente houve uma chama que tornou-se chama por si mesma
e queima-se a si mesma e é sua própria luz?
Que há um homem no meio do campo, sozinho,
sentado à sombra de uma árvore,
percebendo o vento, as flores e ao mesmo tempo o drama inscrito
no coração de todos os seres?
Os oito caminhos são um só: o não-caminho.
Que argumentos irão provar a existência do chão?
Depois de uma curva monótona, a longa estrada acaba bruscamente.
Apenas a paisagem...
Uns perguntarão: onde está o tesouro?
Outros dirão: fomos enganados!
Muitos penetrarão na paisagem e prosseguirão tristes por toda a eternidade
a abrir novas estradas. Quem receberá a mensagem?
O encontro se dá sempre no meio da estrada.
Eu percebi o reino das folhas verdes e a inutilidade de todos os caminhos,
nessa terra fértil deitei minhas raízes
e deixei escrito ao longo da fronteira:
DOIS PASSOS EXISTEM PARA A SABEDORIA:
O PRIMEIRO PASSO É TODA UMA CAMINHADA
O SEGUNDO PASSO NÃO É UM PASSO.
Rogério Malaquias
74/Niterói