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Caminho do Meio
Tudo sob controle. O corpo, a cabeça, a emoção cronometrada. A vida dele cabia todinha
na ponta da caneta, agendava sentimentos com os pacientes, seu ofício era o escutar de 9 às 12, depois
um tempo, um buraco para se esconder até às 16 quando novamente entraria no túnel do escutar
a preços mais ou menos módicos. Psicanalista. Mas ele mesmo era seu caso mais grave. Escutar, só
o outro. Não gostava de ouvir seu próprio grito, abafado, lobo ferido no alto da montanha. Caminhante
solitário sempre acompanhado. Mas seu caminho era tão estreito, mal cabia ele, abarrotado das próprias
angústias, tropeçando em suas botas mesmas nos seus passos inexatos de não levá-lo
a lugar nenhum
Sua vida era pautada nesse lugar – NENHUM -- ,embora estivesse freqüentemente em muitos lugares e situações
ao mesmo tempo. Um pôr-de-sol aqui, uma tempestade acolá, um maremoto alhures, um vale de lágrimas
sabe Deus onde, um coração palpitando no bar da esquina, um beijo demorado efêmero no hotel
barato da 2ª quadra da encruzilhada do seu desejo...De manhã era outra história. O passo apressado,
a eterna agenda debaixo do braço, as despedidas superficiais. Despedia-se do amor de ontem já metade
entregue ao amor de hoje. Amor? Se algum sentir mais profundo penetrasse em seu íntimo possuía a
incrível maestria de retirar o sentimento à pinça. Como um espinho no pé. Serpente
escondida à mostra nos balcões dos botequins, pronta para o bote.
Tudo sob controle. O orgasmo, para não engravidar nenhuma mulher, sentia os ovulares das fêmeas pelo
cheiro. Para se relacionar com o amor seu coração usava preservativo. Lubrificado para um entra e
sai constante sem vestígios.
Até que outra serpente surgiu de onde qual caminho? Certamente não era o do meio, aquele trilhado
por ele a vida inteira. Caminho do Meio. O escolhido, o mais preciso. Não ficar retido em nenhuma margem,
se desprender nas enxurradas. Jamais escorregar nos bueiros entupidos de emoção dos caminhos cruzados...
Mas ali estava ela, a maldita, olho no olho, veneno no veneno, não chegara mesmo do meio, Seu caminhar era
enviesado, deixara em cada bifurcação dos tormentos um pedaço. Sobrevivente das beiradas dos
caminhos. Nem parecia. Tão inteira ali para ele, exposta, destrambelhada, imprecisa, desatada... mas inteira.
E serpente. Rápida na primeira noite a picada no beijo distraído. O veneno ele logo sentiu, invadiu-lhe
a veia, imediato torniquete. Dali não passaria. Como as outras. Apesar de caminhar sempre pelo meio não
queria ninguém no meio do seu caminho. Muito menos ela. Fora de padrão, dançava na rua, dona
de si, falava até com o garçom, gostava muito de ficar por cima dele fazendo amor, gozava com cada
coisa estranha, tarada, desenquadrada, anarquista... mas de vez em quando chorava, e se enroscava serpentina na
palma da mão dele, ou num cantinho do abraço. Serpente-serpentina. Não era mulher para ele.
Fugia ao seu controle. Mas por onde andasse, e era sempre tão longe dela, lhe comoviam as canções,
eram o jeito dela, e o coração tagarelava, mas ele muito hábil abotoava depressa todos os
botões da camisa. Assim ninguém ouviria nada. Nem ele. Escutar só o coração
dos outros. Apreços mais ou menos módicos. Escutar o seu lhe custaria muito caro: os olhos da alma.
E sairia do caminho do meio, ficaria à margem, à deriva na enxurrada do amor. E certamente perderia
alguns pedaços.
Dayse Mary de Andrade
30/06/93
