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ORFEU

Carlos Bernardi



A paixão entre Orfeu e Eurídice, seus encontros e desencontros, suas alegrias e tristezas, é um dos meus enredos favoritos. A ele tenho retornado com alguma freqüência, em diversas ocasiões, nestes últimos tempos. Sem contar o fato de serem personagens que, obsessivamente, assombram o espaço clínico. Por isso fui convocado a assistir ao novo filme de Cacá Diégues, cujo título é, simplesmente, "Orfeu". Isto não quer dizer, contudo, que ser Orfeu seja simples, como também não é simples ser atravessado pela poética e retórica de qualquer um dos grandes personagens da literatura.

Baseado na peça "Orfeu da Conceição" de Vinícius de Moraes, o filme mantém pontos de aproximação e distanciamento com a mesma. Não há nenhum problema nisto. O "ser baseado em" está muito mais próximo da ordem do diálogo, ou dialogismo, do que de uma lei de pura e simples repetição, se é que isto é possível. Portanto, o Orfeu de Cacá Diégues não é a passagem do drama teatral para o cinema. Nada obriga o casal grego, uma vez consolidada sua mudança para um morro do Rio de Janeiro, na década de cinqüenta, a permanecer no mesmo morro, mesmo porque os morros já não são mais os mesmos. É isto que o filósofo Jacques Derrida chama de iterabilidade das marcas e dos traços: a capacidade de ser fiél a um contexto e, ao mesmo tempo, ser capaz de escapar dele. Podemos falar de Orfeu sem mencionarmos suas outras encarnações na grécia antiga e na peça de Vinicius. Cada encarnação, ao mesmo tempo, respeita as diferentes formas e significados históricos do amar e do sofrer, revelando a especifidade e singularidade do contexto em questão e, igualmente, algo da condição humana que é atravessada pelo desumano.


Murilo Benício (Lucinho), Cacá Diégues (diretor)
e Toni Garrido (Orfeu)

O contexto em questão é um morro atual do Rio de Janeiro. Não é e nem precisa ser nomeado, pois há uma constância que se repete e habita todos os morros da cidade. O morro é o plano no qual a multiplicidade de estratégias, tipos, recursos, sonhos, anseios, possibilidades, impossibilidades, hábitos, regras, etc., são retratados. Escreve Cacá Diégues:

Nossa adaptação da peça para os dias de hoje trata de ser fiél a seu espírito de contemporaneidade (seguindo assim instruções de rubrica do próprio Vinicius, na introdução de Orfeu da Conceição), fiel portanto à cultura e aos dramas dos morros cariocas, uma teia complexa de relações sociais e criatividade. O paradoxo é que, sendo a favela uma vergonha social para o país, o resultado de um regime de exclusão que gera miséria e injustiça, ela é também um tesouro cultural e de relações humanas cada vez mais vivo, que precisa ser descoberto e estimulado. (material de divulgação da Warner).

O Orfeu desse morro é um Orfeu "moderno", cheio de bugingangas eletrônicas-tecnológicas celular, lap-top, etc. tudo que sonhamos possuir. Essas coisas revelam exatamente isso: que elas nos fazem sonhar. É no jogo (caricatural?) entre o supérfluo e o necessário, muito bem representado pelo tênis desejado (e conseguido) por Maicol, jogo que habita todos nós, moradores literais ou não dos morros, que os contrastes são amplificados, criando um espelho onde cada um de nós, consumidores, podemos nos reconhecer. Na realidade, todos querem realizar seus sonhos, mesmo através de um tênis. Nós, seres humanos, sofremos dessa errância metonímica. O que muda são as maneiras e objetos que buscamos.

Orfeu é através da música. Lucinho, através do tráfico. Afinal de contas, todo mundo quer ser bom em alguma coisa. A forte rivalidade entre Orfeu e Lucinho é um dos grandes destaques do filme. Eurídice é apenas um dos ingredientes desta rivalidade. É uma relação de amor, que existia desde a infância, que degenerou em ódio em função dos caminhos opostos que os dois tomaram. Orfeu, pelos seus dons musicais, realiza seus sonhos e desejos de forma legítima. Lucinho teve de buscar um dom para realizar os seus, mesmo se este dom for considerado "ilegítimo". Dentro das possibilidades que a sociedade concede, Lucinho fez sua escolha: líder do tráfico de drogas, aquelas substâncias sem as quais as vidas de muitas pessoas ficariam insuportáveis, revelando, por sua vez, o lado insuportável da vida. Por isso, todos nós, assim como Maicol, em nossa frágil e persistente busca pela felicidade, precisamos daquele tênis especial, igual ao daquele artista ou jogador. Somos todos antropófagos, comemos e ingerimos o outro, ou partes do outro. A única diferença está na qualidade da comida, ou em quem julga a qualidade da comida.

Este insuportável é atacado através de várias estratégias. Eurídice fugindo do Acre, outra grande metáfora nacional de abandono e injustiça; Lucinho e seu bando de poderosos; Orfeu com sua música sedutora; Orfeu e Eurídice com sua paixão desenfreada; Inácio, o pai de Orfeu, que, para fugir de um vício exclusivo, trocou-o por outro igualmente exclusivo; o sargento Pacheco e seu bando de poderosos; Maicol (novamente) e seu tênis; Mira e seu sonho de ser o grande amor de Orfeu; Conceição com sua suave e passiva aceitação e conformação. A estas estratégias podemos acrescentar uma outra: a Escola de Samba Unidos da Carioca. É fácil perceber a situação paradoxal, em meio a tanta pobreza, sofrimento e conflito, grande quantidade de tempo e dinheiro ser gasto com fantasias, carros alegóricos e desfiles. Um certo discurso racional condena, veementemente, esta estratégia e a chama de alienação. Mas não. Somos apaixonados. Em meio à tragédia, há espaço para a vida. É isso que nos move. É isso o que nos ajuda a suportá-la. Nem devemos esquecer que o santo padroeiro do carnaval é Dioniso, o princípio divino-arquetípico que celebra a vitória da vida sobre a morte, ou, falando de outro modo, mesmo com toda a morte, diz que a vida é indestrutível. Dioniso é a pequena planta que brota em meio ao muro, de onde nada deveríamos esperar. Vida e morte, morte e vida, vida-morte, morte-vida. As várias mortes de Dioniso. As várias vidas de Dioniso. O velho e obscuro Heráclito já havia nos ensinado: Dioniso e Hades são o mesmo.

É no centro deste furacão de forças antagônicas, que Orfeu e Eurídice se encontram e se apaixonam de maneira exclusiva. Finalmente, alguém consegue prender Orfeu, aquele que havia amado quase todas as mulheres do morro. Seu Inácio sentencia: todo mundo quer ser amado sem nenhuma concorrência. E acrescenta: "Até Deus". Para a mãe de Orfeu, é exatamente aí que mora o perigo. Grandes paixões podem gerar grandes ódios, grandes ciúmes, grandes invejas. Orfeu, numa típica atitude infantil de apaixonado, para impressionar Eurídice, desafia Lucinho e o íntima a deixar o morro. É a atitude heróica que faltava para conquistar de vez sua amada. É a atitude insensata que faltava para colocar Orfeu e Lucinho em posições extremas opostas. Como diz Jung, os opostos em posição extrema geram grande tensão e grande perigo, havendo pouco espaço para diálogo, convivência e conciliação. Os ingredientes para a tragédia já estão disponíveis. Nas palavras de Be Happy, a mulher que pertence ao grupo de Lucinho, "viver faz mal à saúde".

Num encontro casual entre Eurídice e Lucinho, este, irritado, atira para o chão. A bala ricocheteia e atinge Eurídice. Orfeu, neste momento, está em pleno desfile de carnaval comandando, junto com Joãozinho Trinta, sua escola. Personagens e pessoas reais se misturam, assim como ficção e realidade. Mas, não é isso, justamente, aquilo que chamamos vida?

Morta por uma bala perdida, uma das que passam zumbindo pelos céus da cidade, fazendo-nos lembrar do Aristeu grego e o zumbido de suas abelhas, Eurídice é jogada do alto do morro no mundo dos mortos: o lixão. Fantasias velhas, corpos, mesas, carros velhos, pedaços de alegorias, etc., compõem este sinistro mundo. É lá que Orfeu, um Orfeu enlouquecido, vai buscar o corpo morto de sua amada. A intensidade dramática desta última parte do filme é bastante elevada. Orfeu, com o corpo de Eurídice no colo, sobe o morro. Diante de Mira e de outras passistas da escola de samba, pronuncia o nome de Eurídice ininterruptamente. Mira, envenenada pela inveja, perfura Orfeu com um ferro que mantém levantadas as janelas do botequim (uma solução bastante engenhosa). Várias pessoas se aproximam. Maicol grita desesperado. Seu Inácio, em uma cena muito comovente, assopra seu apito do tempo em que era mestre de bateria. Ao mesmo tempo, a televisão anuncia: a Escola de Samba Unidos da Carioca foi a campeã do carnaval. Era quarta-feira de cinzas.

O filme termina com Orfeu e Eurídice dançando alegremente no desfile de carnaval da Unidos da Carioca. Segundo Cacá Diégues, esta cena é uma homenagem à ópera "Orfeu e Eurídice" de Gluck, na qual o casal é ressuscitado por Zeus e participa de um baile de deuses e bem-aventurados. Temos aqui o rastro do movimento Órfico antigo: uma preocupação muito maior com a vida após a morte do que um interesse pela nossa vida no morro, com suas contradições, alegrias, tristezas, realizações e tragédias.

Considero o filme de Cacá Diégues um bom filme. Fotografia bonita, som de qualidade, excelente e variada trilha sonora. Vinicius de Moraes, na seção dos grandes poetas nos Campos Elísios, certamente ficou satisfeito.

FICHA TÉCNICA DE ORFEU (1999)

Elenco
Toni Garrido (Orfeu)
Patrícia França (Eurídice)
Murilo Benício (Lucinho)
Zezé Motta (Conceição)
Milton Gonçalves (Inácio)
Isabel Fillardis (Mira)
Maria Ceiça (Carmen)
Stepan Nercessian (Pacheco)
Maurício Gonçalves (Pecê)
Lucio Andrei (Piaba)
Mari Sheila (Be Happy)
Eliezer Mota (Stalone)
Sergio Loroza (Coice)
Silvio Guindane (Maicol)
Castrinho (Oswaldo)
Maria Ribeiro (Joana)
Gustavo Gasparini (Mano)
Paula Assunção (Deise)
Alexandre Handerson (Ronie)
Andréa Marques (Sheila)
Nelson Sargento (Nelson Sargento)
Maria Luiza Jobim (a menina que canta "A Felicidade")
Cássio Gabus Mendes (Pedro)
Ivan Albuquerque (He-Man)
Léa Garcia (Mãe de Maicol)
Escola de Samba Unidos do Viradouro

Roteiro Final
Carlos Diégues
com a colaboração de Hermano Vianna, Hamilton Vaz Pereira,
Paulo Lins e João Emanuel Carneiro

Fotografia: Affonso Beato
Direção de Arte: Clóvis Bueno
Montagem: Sérgio Mekler
Música: Caetano Veloso
Figurinos: Emília Duncan
Carnavalesco: Joãozinho Trinta
Som direto: Mark van der Willigen
Câmera: Gustavo Hadba
Edição de som: Tom Paul
Efeitos especiais: Gene Warren Jr.
Diretor-assistente: Vicente Amorim
Direção de produção: Tereza Gonzalez e Marcelo Torres
Produção de pós-produção: James McQuaide
Produtor delegado: Flávio Tambellini
Produtor associado: Daniel Filho
Co-produção: Globo Filmes
Produzido por: Renata de Almeida Magalhães e Paula Lavigne (Rio Vermelho Filmes)

Dirigido por: Carlos Diegues

A Rubedo agradece a Warner pelo material cedido.

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