O acaso trágico ou a tragédia do acaso
em Match-point de Woody Allen
Carlos Bernardi
Embora seja uma possibilidade intrínseca do jogo, o fato da bola bater na fita da rede é, no tênis, ao mesmo tempo, algo inesperado, pois desvia e altera completamente a provável direção da bola. Se ela cai no campo do adversário, o ponto vai para o próprio jogador. Se cair no seu próprio campo, ele perde, com a sensação de que por pouco poderia ter marcado um ponto a seu favor. Muitas vezes este ponto é acompanhado por explícitos pedidos de desculpas ao adversário. Ele é sentido ou vivido como se fosse um ponto ilegítimo, quase vergonhoso, um ponto que não foi obtido através do esforço e da habilidade, mas fruto do próprio acaso. Esta sensação de ilegitimidade se potencializaria ainda mais caso este ponto fosse o ponto final da partida (match-point). Fazer a bola bater na fita da rede não faz parte, conseqüentemente, do repertório intencional de jogadas do tênis, mas como disse, é uma pura possibilidade, um puro acaso que, dependendo do caso, pode ser sorte ou ser azar.
Esta é a situação que Woody Allen usou para ilustrar as nossas situações de vida em seu novo filme Match-point, Ponto Final, o ponto que decide o término de uma partida de tênis. Esta situação da bola batendo na fita da rede abre o filme, como se fosse uma espécie de epígrafe, com a cena congelada para criar suspense e para nos levar a refletir. De que lado a bola cairá?
Em Match-point, Woody Allen dá prosseguimento a uma temática constante em seus últimos filmes (quiçá em toda sua filmografia): a proximidade e, talvez, a indecidibilidade entre a comédia e a tragédia. Em Poderosa Afrodite os personagens ou heróis trágicos são glamurosamente derrotados: assistem da platéia o coro dançar e cantar jazzisticamente When you’re smiling. Para citar um outro filme mais recente, Melinda e Melinda, inicia-se com um grupo de amigos conversando em um restaurante, cujo assunto era: a essência da vida é trágica ou cômica? As duas possibilidades são defendidas veementemente até que um dos participantes resolve contar uma história para decidirem se ela é cômica ou trágica. Match-point, por sua vez, é explicitamente trágico.
A personagem principal é Chris Wilton, um ex-jogador profissional de tênis, mas não suficientemente talentoso ou perseverante para se destacar nesse mundo fortemente competitivo. Não
possuía muita vontade e talento, afirma a própria personagem. Não foi páreo para Agassi, embora guarde na lembrança a partida que disputou com o vitorioso americano. Só o derrotaria com muita sorte, quem sabe com um número absurdamente grande de bolas que batem na fita e que caem no campo do adversário. No jogo "normal", em condições normais, não era páreo para o supercampeão.
Para conseguir viver do tênis sem disputar campeonatos, deslocou seu talento e competitividade para outras áreas. De início, dar aulas de tênis, atividade que ele não planejava exercer por muito tempo.
O acaso (de que lado a bola cairá?) o coloca em contato com um rico empresário, Tom Hewett, que se tornou seu aluno. Além do tênis, compartilhavam uma outra paixão, a ópera, o teatro das grandes tragédias amorosas. Foi através do convite para assistir La Traviata que ele se aproximou da família do empresário, logo despertando a atenção da irmã de Tom, Chloe Hewett.
Convidado para uma festa na casa dos Hewetts, Chris vê uma linda mulher jogando tênis de mesa, Nola Rice. Imediatamente se encanta por ela, para logo descobrir que era noiva de Tom. Americana, tentava se estabelecer como atriz em Londres. Como Chris, eram estrangeiros na cidade e no mundo milionário dos Hewetts. A mãe de Tom, Eleanor Hewett nutria uma aberta antipatia por ela;
tinha outras mulheres em mente para o filho. Achava Nola uma fracassada, opinião que constantemente gerava atritos entre mãe e filho.
Por sua vez, Chris e Chloe começaram a namorar. Fica claro, entretanto, que era por Nola que sentia desejo e paixão. Mesmo assim, Chris e Chloe resolvem se casar. Ganham de presente um deslumbrante apartamento com vista para o Tamisa, capaz de afastar qualquer dúvida em quem desejava subir na vida de maneira rápida e fugir da mediocridade. Além do apartamento, Chris obteve do sogro, Alec Hewett, uma indicação de emprego para obter um salário maior do que o de professor de tênis, além da recomendação de cursar engenharia econômica. Nas
palavras de Nola: estava sendo preparado para entrar na família.
Sua paixão por Nola, contudo, não desaparece, especialmente porque sua relação com Chloe não era das mais estimulantes. Sua esposa estava obcecada em engravidar, o que custou a ocorrer. A causa era a pouca mobilidade dos espermatozóides de Chris, diagnóstico tornado público numa reunião de família.
Chris e Nola formavam uma espécie de aliança de fracassados: os que não tinham dinheiro, que queriam se estabelecer na cara Londres e que se relacionavam com pessoas milionárias. Mas Nola sempre conseguia se defender dos voleios, lobs, drop shots, saques e smashes de Chris, até que, fragilizada e ofendida por uma discussão com a futura sogra ela cede ao winner de Chris: amam-se no campo debaixo da chuva, cena clássica que revela as circunstâncias onde o desejo é mais forte que a prudência. Com o término do noivado entre Tom e Nola, Chris teve a chance que precisava: ambos tornaram-se amantes.
Porém, a trilha sonora operística não deixa dúvidas, Woody Allen vai colocar uma boa dose de tragédia na história.
Mesmo prometendo separar-se da esposa para viver com Nola, isso não era algo que ele realmente desejava fazer. No mínimo, estava dividido. De um lado da rede, a esposa que lhe dava carinho e garantia sua ascensão social. Do outro lado, a amante que lhe dava prazer e intensidade sexual. Ele próprio sentencia: o que estava vivendo era a diferença entre amor e luxúria. Até quando iria durar este jogo?
Vem então a tragédia: Nola engravida. Apesar do desejo de Chris de interromper a gravidez, Nola não apenas recusa, mas começa a fazer forte pressão para ele, finalmente, se separar de Chloe. Neste momento ele descobre que não conseguiria fazer isso. Neste momento descobre que teria que buscar uma outra solução. Resolve, assim, assassinar Nola.
Além das óperas, Woody Allen nos indica uma outra narrativa com a qual Match Point dialoga em sua intertextualidade: os romances de Dostoiévski. No início do filme, com Chris sozinho em seu
pequeno e caro apartamento alugado, ele aparece lendo o autor russo. A câmera focaliza a capa do livro com o intuito de nos informar que este romance é importante para o entendimento da narrativa. Primeiro, Crime e Castigo, romance de Dostoiévski que fala do plano da igualmente frustrada e ambiciosa personagem Rodion Raskólnikov assassinar uma mulher e depois se culpabilizar por esta morte (que foi, na realidade, uma dupla morte). Chris abandona a leitura deste livro e pega um outro, também de Dostoiévski. Não é um romance específico, mas uma dessas coletâneas com vários trechos de um autor. Podemos especular qual parte Chris estaria lendo: O jogador? Memórias do subsolo? Não importa. Os três títulos atravessam a vida de Chris.
Inspirado ou não pelo romancista russo, trama assassinar Nola dando a impressão, para a polícia, que foi algum viciado em drogas desesperado por dinheiro que cometeu o crime. Para isso, mata, em primeiro lugar, a vizinha de Nola, uma senhora que vivia sozinha. Rouba suas jóias e alguns medicamentos. Depois espera Nola na escada, sugerindo que ela havia sido morta apenas por ter visto o assassino. Tudo isso com grande sofrimento. Chris não tinha, até esse momento, consciência do que era capaz de fazer em nome de sua ambição. Já Aristóteles conceituava as paixões como “todos aqueles sentimentos que, causando mudança nas pessoas, fazem variar seus julgamentos, e são seguidos de tristeza e prazer...” (Aristóteles, A Retórica das Paixões, pág. 5). Em Memórias do Subsolo, o narrador confessa:
Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é “belo e sublime”, tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo. Porém o traço principal estava em que tudo isso parecia ocorrer-me não como que por acaso, mas como algo que tinha de ser. Dir-se-ia que este era o meu estado normal e que não se tratava de doença, de um defeito, de modo que, por fim, perdi até a vontade de lutar com este defeito. Finalmente, quase acreditei (e talvez tenha acreditado realmente) que o meu estado normal era esse. E, no início, quanto não sofri nessa luta! Não acreditava que o mesmo acontecesse a outrem e, por isso, mantive-o em segredo a vida toda. (Dostoiévski, Memórias do Subsolo, pág. 19)
Em linguagem junguiana, estamos diante da dolorosa experiência de reconhecimento ou mesmo de conhecer que possuímos uma sombra, que não somos as pessoas maravilhosas e corretíssimas que julgamos ser. Jung compara isto com o encontro perturbador entre o Zaratustra de Nietzsche e o mais feio dos homens. Em seu livro Mysterium Coniunctionis, Jung, ao comentar sobre os excessos de uma consciência masculina identificada com o sol e excessivamente unilateral, fala de forma contundente sobre este encontro:
Nesta idéia costuma faltar a sombra. Primeiro, porque ninguém admite de bom grado algo de inferior para si-próprio; segundo, porque a lógica proíbe denominar de preta uma coisa que é branca. O homem bom tem boas qualidades, e apenas o mau tem más qualidades. A respeito do prestígio e da fama nos calaremos completamente. Exemplo acertado e conhecido de todos para o preconceito masculino constitui o super-homem de Nietzsche e a “besta loura”, o animal solar que brilha como o ouro, isto é, o leão, que no Cristianismo, é uma allegoria diaboli e um símbolo do paganismo (por isso aparece formando a base das colunas!) e na alquimia representa a etapa dos animais de sangue quente, que se atinge após a morte do drago mercurialis, símbolo da concupiscentia desenfreada (razão pela qual lhe são cortadas as patas!). O super-homem se revolta contra a misericórdia e contra o “homem horrendo”, que significa o homem comum que é cada um de nós. A sombra não pode existir, mas deve ser negada, reprimida e modificada em algo extraordinário. O Sol brilha sempre e tudo reflete a sua luz. Nenhum lugar foi deixado para a fraqueza capaz de impedir o prestígio e a fama. Por isso em nenhum lugar se enxerga o sol niger. Apenas nas horas solitárias é que se teme que ele exista. (Jung, Mysterium Coniunctionis, vol. I, par. 324).
Alguns comentários fazem-se necessários. A identificação com o sol conduz a uma hipertrofia da consciência. Este estado era chamado pelos gregos de hybris, que alguns traduzem por descomedimento, enquanto outros traduzem por orgulho. De qualquer maneira, um homem orgulhoso é um homem descomedido, sempre vítima de seus próprios excessos. Esta consciência inflada impede
o reconhecimento da presença de elementos “inferiores” que formam a estrutura mental de todos nós. A melhor forma, talvez a única, de lidar com esta inferioridade, obviamente não é eliminando-a (isto acarretaria um prejuízo à personalidade como um todo), mas tendo consciência de sua existência, o que permitiria por em movimento um processo de negociação.[1] Jung amplifica suas idéias associando-as com o dragão e o leão alquímico. Ambos estão sujeitos a uma ação sem reflexão, ao enxofre, elemento ígneo por excelência. Por este motivo, para se negociar com esta dupla animalidade, com a intenção de transformá-la, muitas vezes, as patas do leão são cortadas, como mostra a gravura ao lado. O leão está vivo, seu desejo sulfúrico de concretizar-se em alguma ação preservado, mas ele não pode agir, não tem como se mover, conseqüentemente, surgirá a possibilidade de pensar em outras formas de se lidar com o problema ou com o desejo. Por este motivo, Jung menciona a experiência do fracasso, experiência única que faz diminuir o sentimento de superioridade de cada um de nós. O homem horrendo não nos deixa esquecer que não somos este super-homem que gostaríamos de ser ou que julgamos ser. O homem horrendo, contudo, quando compreendido, quando encarado e recebido em toda sua fealdade, tem o efeito de nos aproximar da humanidade, dos nossos semelhantes. Em outro lugar, Jung retoma a discussão com o homem mais feio.
A palavra “humano”, que parece soar tão bela, se bem entendida não vem a ser nada de tão belo, tão virtuoso ou inteligente, mas justamente uma média por baixo. É o passo que Zaratustra não conseguiu dar, o passo em direção ao “homem mais feio”, repelente, o verdadeiro homem. Nossa resistência de dar esse passo e nosso medo mostram quão grande é a atração e a força de sedução do que está embaixo. Tentar separar-se completamente desse embaixo não é a solução. Seria mera ilusão, um essencial desconhecimento de seu valor e seu sentido. Pois, como se poderia conceber a altura sem a profundidade, e como poderia haver luz sem projetar sombras? Nenhum bem pode crescer sem que um mal se lhe venha opor. “Ninguém pode ser redimido de um pecado que não cometeu”, dizia Carpócrates. Palavra profunda para quem quiser compreendê-la, e também ocasião propícia para quem quiser tirar falsas conclusões. O plano inferior que pede para conviver com o homem mais consciente e por isso mais perfeito não é aquilo que trará prazer, mas aquilo que ele teme. (Jung, Civilização em Transição, Mulher na Europa, par. 271).
Aqui podemos perceber a importância do reconhecimento deste plano inferior no equilíbrio psíquico. Não é sua existência que tráz problemas, mas o seu não reconhecimento, ou seja, a inconsciência da própria sombra.
A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com considerável resistência. Enquanto, por um lado, o autoconhecimento é um expediente terapêutico, por outro lado implica, muitas vezes, um trabalho árduo que pode se estender por um largo espaço de tempo. (Jung, Aion, par. 14).
Nietzsche compreendeu muito bem esta realidade psicológica, por isso não hesitou em fazer seu Zaratustra falar após o encontro com o homem horrendo: “Quão pobre é o homem!, pensava em seu coração, quão feio, quão arquejante, quão cheio de vergonha escondida!” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, pág. 314).
Podemos perceber que tudo isso passou bem longe de Chris. O leão de sua ganância não teve suas partas cortadas, levando-o a se tornar um assassino, um duplo assassino. Contudo, o plano, a princípio, foi bem sucedido. Dirige-se depois às margens do rio Tâmisa e joga fora as jóias e os medicamentos, com o intuito de eliminar as provas do crime. Porém, sem perceber, ocorre um acaso, um desvio, um clinamen: a aliança da mulher, gravada com seu nome ou de seu marido, bate na cerca de ferro e não cai no rio, mas cai no chão. Como a bola que bate na fita da rede e cai no próprio campo, Woody Allen introduz aqui o elemento de suspense que irá nos conduzir até o final do filme, supondo que este filme possua um ponto final. Este evento, este desvio, este fato que Chris não apenas não perceberá, mas que nem passará por sua cabeça como uma possibilidade, irá jogar com seu destino daqui para sempre. Sorte ou má-sorte? Uma citação a Sófocles parece anunciar esta última possibilidade. Chris se lamenta e fala: "melhor seria não haver nascido". Este verso é de Édipo em Colono de Sófocles, é pronunciado pelo coro em meio à tensão de Édipo quando sua filha Antígona anuncia a aproximação de um estranho. Vale a pena transcrever todo o trecho, visto que ele retrata o próprio destino de Chris.
Quem não se satisfaz com um quinhão
normal de vida e deseja um maior,
parece-me em verdade um insensato.
Dias sem número nunca reservam
a ninguém nada mais que dissabores
mais próximos da dor que da alegria.
Quanto aos prazeres, não os discernimos
e nossa vista os buscará em vão
logo que para nossa desventura
chegamos ao limite pré-fixado.
E desde então o nosso alívio único
será aquele que dará a todos
o mesmo fim, na hora de chegar
de súbito o destino procedente
do tenebroso reino onde não há
cantos nem, liras, onde não há danças
- ou seja, a Morte, epílogo de tudo.
Melhor seria não haver nascido;
como segunda escolha bom seria
voltar logo depois de ver a luz
à mesma região de onde se veio.
Desde o momento em que nos abandona
a juventude, levando consigo a inconsciência fácil dessa idade,
que dor não nos atinge de algum modo?
Que sofrimentos nos serão poupados?
Rixas, rivalidades, mortandade,
lutas, inveja, e como mal dos males
a velhice execrável, impotente,
insociável, inimiga, enfim,
na qual se juntam todas as desditas.
Não é apenas meu esse destino.
Vede este infortunado semelhante
a um promontório defrontando o norte,
açoitado em todas as direções
por altas ondas e duras tormentas.
Este infeliz também é flagelado
sem tréguas por desventuras horríveis,
como se fossem vagalhões, uns vindo
lá do Poente, outros lá do Levante,
outros lá de onde o sol lança seus raios
ao meio-dia, outros do alto Ripeu
sempre coberto pela noite escura.
(Sófocles, A trilogia tebana, págs, 167-168, Jorge Zahar Editor).Esta visão trágica, com seu desejo de morte, ou mesmo, de retorno incestuoso ao útero materno, à região de onde se veio, lança um tom de gravidade tanto ao destino de Édipo quanto ao de Chris. O primeiro, fruto de um destino que ele não escolheu, como demonstra muito claramente Jean Pierre Vernant em seu texto Édipo sem complexo; já em relação a Chris, o mesmo não pode ser dito. Houve, é claro, também inconsciência de sua parte, mas inconsciência da sua sombra, pois esta contém, em potencial, como que adormecidos, todos os pecados capitais. Como escreve Anne Maguire, autora de um importantíssimo livro que lança luz em nossa sombra a partir da lista de pecados a que estamos sujeitos: “Os sete pecados capitais são tão antigos quanto a própria humanidade, e suas manifestações tão onipresentes, fazendo parte de nossa vida cotidiana, que ninguém pode verdadeiramente afirmar que esta livre deles.” (Anne Maguire, Seven deadly sins, pág. 216). No caso de Chris, foram a luxúria, a ganância e, até mesmo, a preguiça que tomaram conta de sua alma. Uma vez invocados, Chris não foi capaz de lidar com esses demônios de forma criativa.
Retornando ao filme. Podemos esperar o pior, visto que uma das provas do crime não desapareceu. Mas os acontecimentos nos filmes de Woody Allen não são tão óbvios assim. De qualquer maneira, a investigação chega em Chris. Chamado à polícia e perguntado se conhecia Nola ele tenta se esquivar dizendo que haviam se visto poucas vezes e há muito tempo. O que Chris não contava era com o fato que Nola mantinha um diário onde anotava detalhes de sua relação. Chris acaba confessando o romance, mas pede discrição à polícia por causa do seu casamento. A princípio sua versão convence a polícia, mas uma sombra é lançada em seu nome: ele passa ao rol dos suspeitos.
Neste ínterim, sua esposa Chloe fica finalmente grávida, para a alegria de toda a família Hewett, mas o sentimento de culpa de Chris o persegue. Persegue tanto que, numa noite de insônia, ao ouvir barulhos na cozinha, acaba se deparando com Nola e a vizinha. Típica cena de realismo fantástico, tão característica de Woody Allen. Elas personificam a culpa de Chris, como se este estivesse viajando pelo mundo subterrâneo, pelo mundo dos mortos, encontrando as imagens das falecidas, como acreditavam os antigos Gregos. De agora em diante, elas serão suas companheiras. Estarão onde ele estiver, aparecerão nos momentos mais impróprios. Serão suas companheiras por toda a sua existência.
A situação como um todo não permite a Chris compartilhar a felicidade da família com o nascimento do tão desejado filho, visto que, além da culpa, o medo de ser descoberto também o assombra e persegue. Nós sabemos, mas Chris não (uma das vantagens que temos sobre as personagens, nós que acompanhamos o desenrolar de uma narrativa), que a aliança da assassinada não caiu no rio, mas passou a ser uma prova material acessível a quem a descobrisse. Não é à toa que Woody Allen pensou nesta possibilidade. De qualquer maneira, em uma narrativa, nada é irrelevante. Esta aliança voltará à cena.
Porém, um dos investigadores do caso tem todo o esquema dos assassinatos revelado num sonho. Chris matou primeiro a vizinha, roubou os remédios e as jóias para sugerir que fora algum viciado e esperou a amante nas escadas, para dar a impressão de uma morte casual, por ela ter visto o assassino fugindo. Nós sabemos que foi exatamente isso que aconteceu. O investigador chega na delegacia com esta revelação. Seu companheiro, incrédulo, ao que parece, com a possibilidade dos sonhos fazerem revelações dessa espécie, anuncia a solução do caso: um viciado foi preso carregando a aliança da vizinha assassinada. Para a polícia, Chris era inocente. A aliança que poderia condená-lo, na verdade, o inocentou. Alguém iria pagar pelo seu crime. Caso encerrado.
Termina o filme. Woody Allen não dá nenhuma indicação sobre o futuro das personagens, mas dá algumas pistas acerca do futuro, visto que, no meu entender, duas narrativas assombram a história. A primeira é fornecida pelo próprio diretor. A alusão a Crime e Castigo de Dostoiévski, que percorre todo o filme, como se Match-point fosse um grande palimpsesto do grande romance. Só para recordar: Match-point termina com a chegada de toda a família ao apartamento de Chris e Chloe com o tão desejado bebê que é paparicado, adorado, e seu futuro sucesso cantado e profetizado por todos, menos pelo pai. A expressão de Chris é de desolação. Primeiro, talvez, por perceber que faz parte de uma engrenagem poderosa, que conta com seu papel de reprodutor e de provedor. “Aposto que o próximo será uma menina”, lhe sussurra a esposa ao ouvido. A desolação, contudo, vem com certeza da conscientização do seu ato. Só agora ela chegou. Isso me faz lembrar do eloqüente título que Adolf Guggenbühl-Craig deu ao seu estudo sobre os atos psicopáticos: Eros sobre muletas. O deus que voa às vezes chega tarde demais. Como vai lidar com estes assassinatos daqui para frente? Como irá lidar com sua culpa? Não podemos esquecer, Chris Wilton não é um bandido frio e calculista, mas um bom rapaz, pelo menos aparentemente, por isso sujeito a sentimentos de culpa e de arrependimento. O mesmo podemos dizer de Raskólnikov, o herói de Crime e Castigo. Atormentado pela culpa resolve se entregar à polícia e confessar seu crime para receber seu merecido castigo.
- Ah-ah-ah! O senhor outra vez! Esqueceu alguma coisa? ... Mas o que o senhor tem?
Com os lábios pálidos e um olhar estático Raskólnikov aproximou-se dele devagarinho, chegou-se bem à mesa, apoiou-se nela com uma das mãos, quis dizer alguma coisa, mas não pôde; ouviram-se apenas alguns sons desconexos.
- O senhor está se sentindo mal, uma cadeira. Sente-se na cadeira, sente-se! Água!
Raskólnikov arriou na cadeira mas sem tirar os olhos do rosto de Iliá Pietróvitch, que sorria de um modo muito desagradável. ambos passaram em torno de um minuto se olhando e aguardando. Trouxeram água.
- Fui eu... - começou Raskólnikov.
- Beba água.
Raskólnikov afastou a água com a mão e pronunciou baixinho, pausadamente mas com nitidez:
- Fui eu que matei com um machado a velha viúva do funcionário e sua irmã Lisavieta e a roubei.
Iliá Pietróvitch ficou boquiaberto. De todos os cantos acorreu gente.
Raskólnikov repetiu o seu testemunho... (Dostoiévski, Crime e Castigo, pág. 539).Chris fará o mesmo? Se entregará a polícia e confessará seu crime. Se prestarmos atenção na grande metáfora que percorre o filme, da bola bater na fita da rede no jogo de tênis, podemos perceber que ao jogar a aliança no rio e esta bater na grade de proteção e cair na calçada, Chris, se fosse num jogo de tênis, não marcaria o ponto, visto que a aliança caiu em seu próprio campo. Ou seja, o que foi aparentemente uma sorte, constitui-se um grande azar. Os espectros de Nola e da vizinha irão perseguí-lo, tal como as Erínias fizeram com Orestes, por toda sua existência.
Falei de duas narrativas que assombram o filme de Woody Allen. A primeira foi esta que acabei de descrever. As pistas de sua existência foram fornecidas pelo próprio Woody Allen.
A segunda narrativa eu mesmo buscarei. Senti falta dela, embora Woody Allen também me tenha feito recordar dela. É igualmente de Sófocles. Também ligada ao destino de Édipo, igualmente ligada ao coro. Se a menção ao trágico grego presente no filme fala que melhor seria não haver nascido, esta outra aponta para o caráter aberto do destino humano. Fala o Corifeu ao final de Édipo Rei, na verdade, os últimos versos da tragédia:
Vede bem, habitantes de Tebas, meus concidadãos!
Este é Édipo, decifrador dos enigmas famosos;
ele foi um senhor poderoso e por certo o invejastes
em seus dias passados de prosperidade invulgar.
Em que abismos de imensa desdita ele agora caiu!
Sendo assim, até o dia fatal de cerrarmos os olhos
não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade
Antes dele cruzar as fronteiras da vida inconstante
sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento!
(Sófocles, Trilogia Tebana, pág. 96).Destaquei os versos que mais me interessam. Juntando as duas citações a Sófocles podemos dizer que, caso não tenha conseguido não ter nascido, pois esta não é uma decisão que esteja em nossas mãos, como muitas outras, nós só poderemos, com segurança, falar que fomos felizes, justamente no dia da nossa morte, pois estamos sujeitos ao acaso trágico ou a tragédia do acaso. Mas é aqui também, em nossa existência, que temos a chance de sermos felizes, para seguir a lição de Nietzsche, mesmo tendo que conviver com o homem mais feio.
Definitivamente, Match-point não tem ponto final
[1] Por processo de negociação refiro-me ao conceito junguiano de confronto dos opostos. Baseando-me em Jacques Derrida, prefiro falar em negociação, do latim, neg + otio, sem descanso. A negociação enfatiza o caráter inesgotável do confronto entre os opstos, especialmente entre consciente e inconsciente.
Bibliografia
Dostoiévski, Fiódor. Memórias do Subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo. Editora 34. 5ª edição. 2004.
Dostoiévski, Fiódor. Crime e Castigo. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo. Editora 34. 4ª edição. 2002
Maguire, Anne. Seven Deadly Sins: the Dark Companions of the Soul. London. Free Association Books. 1ª edição, 2004
Nietzsche, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo. Círculo do Livro. 1ª edição. S.d.
Sófocles. A Trilogia Tebana. Tradução Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 8ª edição. 1998.
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