TUDO REGADO A MUITO SORVETE


Carlos Bernardi

 

De certa maneira, o ritual de se adentrar a sala escura de um cinema — onde os dramas humanos são expostos, muitas vezes, com grande crueza — requer seus cuidados.

Por isso, o cinema, como a arte em geral (ou, melhor dito, o cinema como uma forma de arte), cria uma distância protetora para que possamos suportar aquilo que estamos vendo. Aquilo que estamos vendo não é verdade, mas há verdade naquilo que estamos vendo. Tal como Perseu com seu escudo, cuja superfície polida lhe permitia olhar a imagem da Medusa e, dessa forma, não ficar petrificado, a arte nos permite olhar o insuportável.

Quando vemos o cartaz de um filme, cujo título é "Felicidade" (Happiness), ilustrado com um desenho do rosto dos vários atores, sentimo-nos confiantes para comprar o ingresso e assistí-lo. E se o filme se chamasse "Infelicidade"? Entraríamos? Pois, até mesmo as imagens de um filme podem ser igualmente insuportáveis. Não é o caso de "Felicidade". Seu clima de comédia (não seria a tragédia humana também uma comédia?) faz com que não percebamos, imediatamente, que estão nos injetando, gota a gota, doses significativas de angústia. Os risos da platéia, no início do filme, revelam-se, posteriormente, como sendo um "riso nervoso": estamos nos reconhecendo ali! O que percebemos? Que a felicidade não é garantida; que, quando obtida, é, muitas vezes, à custa de alto preço; que ela é fugaz como uma esporrada, pelo menos a primeira.

O filma inicía-se com um término: o do namoro ou projeto de namoro entre Andy e Joy, esta última, quase que a principal infeliz do filme. Entre ambos não havia possibilidade de amor, embora buscassem ardentemente a felicidade. Andy pergunta a Joy se é por causa de outra pessoa que ela quer desmanchar o namoro. Sua resposta é direta e dura, como a verdade: "Não, é você." Andy continua chorando. De repente aparece com um pacote embrulhado para presente e o entrega a Joy. É um cinzeiro valioso com seu nome gravado. Emocionada, diz ela que vai guardar o presente com todo carinho. Nesse momento, Andy muda de emoção, do choro e tristeza passa para a raiva e agressão. Arranca o cinzeiro da mão de Joy e diz que o presente não era para ela, mas para a mulher que o amar do jeito que ele é. Inverte sua situação e termina dizendo que ela era, Joy, a merda, e não ele. A cena se encerra com os dois em silêncio, abatidos e derrotados, destruídos, sob o fardo de mais uma tentativa frustrada de se obter a tal felicidade.

Diante de nós que, neste exato momento, formamos a platéia, os telespectadores, aqueles que veêm de longe, felizes comendo pipoca, com os dedos entrelaçados nos da amada ou do amado, ou mesmo, profundamente infelizes e angustiados, devido a uma rápida e inevitável identificação com os personagens, a cena do restaurante atua como uma espécie de rito de entrada ao processo iniciático que nos quer conduzir o diretor: o jogo entre a busca incessante pela felicidade, força que instigou e instiga os seres humanos em todas as épocas e lugares, merecedora, portanto, do adjetivo junguiano qualificador de universalidade: arquetípico. Retomando. O filme nos inicia no jogo entre uma busca arquetípica pela felicidade e uma lei, igualmente arquetípica, que não garante absolutamente o sucesso do empreendimento. Isto me faz recordar Nelson Rodrigues que, certa vez, falou que o homem sofre não porque morre, mas porque vive.

A partir desta cena de abertura, o filme vai apresentando seus personagens e suas vicissitudes. A maioria são membros de uma única e típica família moderna. Elemento perturbador do filme, pois a família sempre foi "vendida" como um lugar garantido de felicidade e compreensão. Portanto, utilizar uma família — que possui todos os truques e artefatos que utilizamos para mascarar a infelicidade —, para revelar justamente estas máscaras, é o próprio gesto desconstrucionista de inversão de hierarquias, para gerar uma leitura ao mesmo tempo mais profunda e marginal de um texto, com a intenção de problematizá-lo. O texto em questão é o mito (como impossibilidade) da família como locus da felicidade. No final do filme, a família aparecerá novamente reunida, mas agora, nós da platéia, já iniciados, sabemos que tudo não passa de máscara, falta de coragem de tomar decisões e ser autênticos.

A segunda cena nos mostra a intimidade de uma sessão de psicoterapia. Local onde analista e paciente entram em contato com as profundezas da alma! Vamos falar primeiro do paciente que, em quaisquer circunstâncias, é sempre o movimento mais fácil.

Seu discurso é explícito. Quer trepar ferozmente com a vizinha. Vai esporrar tanto, litros, em sua imaginação, que vai sair pelos ouvidos. Na verdade, tudo não passa de uma grande compensação a seu vazio sexual. Não trepa nem selvagem, nem pacificamente: o famoso papai-mamãe, a única posição do Kama Sutra que imaginamos (ou permitimos) papai e mamãe fazendo. Depois reconhece: se acha chato, sem atrativos, inseguro. O contato com a sensual vizinha não será possível. O silêncio no encontro no elevador e sua respiração angustiada serão prova disso. A única conseqüência desse encontro será uma punheta, ferozmente tocada, cujo gozo servirá para colar mais um cartão-postal que enfeitará sua parede.

O analista, por sua vez, escutava atentamente, não o paciente, mas a lista de tarefas domésticas que refazia cuidadosa e sonolentamente em sua cabeça. Dever de casa que não podia deixar de cumprir sob o risco da verdade ser descoberta: que eram uma família formal, cuja intensidade perdida era compensada pela posse de uma infinidade de aparelhos eletrodomésticos, produtos maravilhosos da modernidade.

Antes, porém, de cumprir seu dever de chefe de família, vai ao seu analista. Conta um sonho. Está em um parque público. Casais de várias idades e tendências sexuais caminham e namoram, todos felizes. Ele tira uma metralhadora e simplesmente atira nas pessoas. O sonho termina deixando uma sensação muito boa no sonhador. Mas logo fica deprimido, pois vive na realidade. Como ser feliz quando nossos sonhos podem ser tão estranhos e incompreensíveis?

É na parada no mercado que o analista tem chance de realizar, mesmo que sob a forma do estranho suplemento da masturbação, seu grande sonho e desejo: ter relações com jovens adolescentes. A compulsão é tanta que se masturba no estacionamento do mercado. Satisfeito, pelo menos parcialmente, vai ao encontro de sua querida esposa e de seus adorados filhos.


Trish feliz com seu marido

Sua esposa chama-se Trish, irmã de Joy e de Helen, a escritora. O diálogo com a irmã é a quintessência do auto-engano. Abrigada em seu mandala familiar caseiro, protegida por frágeis paredes que separam o interior dos riscos do mundo exterior, não tem noção de que, em breve, tudo irá desabar. Esta possibilidade não consta de seus cálculos., muito menos imaginará que a culpa de tudo será, justamente, o desejo de felicidade. Seu sorriso eterno nos lábios é até sincero, acredita mesmo que tudo está bem, agora e definitivamente. Tem que ouvir, compadecida, Joy chorar e reclamar: sente tanta hostilidade contra ela! Mas, logo em seguida, a persona é restaurada: "estou feliz". A irmã, que não pode abrir uma brecha sequer para o risco da verdade, aceita o jogo de auto-engano e emenda: toda a família achava que ela (Joy) nunca chegaria a lugar algum, que estava destinada ao fracasso, mas agora que confessava estar feliz, mesmo depois de ter chorado, percebia que estavam todos enganados.

O marido chega em casa. Sua esposa diz que o menino mais velho, de uns onze anos, está deprimido e preocupado. Não é como ela que está sempre feliz. O filho pergunta ao pai o que é a porra. Aqui, mostra-se todo a relação ambivalente entre pai e filho. Fica difícil, senão impossível, separar movimentos de orientação e de realização de desejo do pai em relação ao filho. Por exemplo, quando pergunta ao filho se quer que ele se masturbe para ensinar-lo; ou, em outra cena, quando o filho faz perguntas sobre o tamanho do pênis, o pai se oferece para mostrar o seu. Mais adiante retornaremos a esta questão.

A próxima a surgir na tela é a mãe das três filhas. Ao levantar para procurar seu valium atende o telefone de uma delas. Vai logo dizendo que seu pai não a amava mais e que iria pedir o divórcio. O pai exaltado pergunta: "Eu disse divórcio? Você me ouviu dizer a palavra divórcio". Não. Ele só queria ficar sozinho. Só queria ir embora, mas não queria pedir o divórcio. Situação radical que requer coragem, sua capacidade de mudança não ia tão longe. Não. Não falou a palavra divórcio. Queria uma nova vida, mas não queria pedir o divórcio. A mulher, xingando-o, pergunta por que não fizera esse pedido há 20 anos, pois agora precisaria fazer uma plástica.

Aparentemente a única pessoa feliz é uma das irmãs, Helen. Escritora bem sucedida, vive cheia de compromissos, cheia de homens musculosos, cheia de sexo, mas tudo vazio, segundo ela própria. Fala de experiências intensas em seu livro, mas nunca foi estuprada. Aproveita os telefonemas anônimos de um homem, que liga dizendo que vai fodê-la ferozmente, para tentar por em prática seu plano de ser estuprada. Não sabia que era o vizinho que ligava para ela. Quando descobre quem é descobre, também, que será impossível ser estuprada por aquele homem.

Uma outra personagem, também sua vizinha, tem uma função de destaque na trama. É o oposto da escritora: tímida, gorda, sem nenhuma confiança e sensualidade. Procura aquele vizinho com insistência. Pergunta se soube da morte de Pedro, o porteiro. O vizinho diz que não. Ela lhe convida a ir assistir um jogo, ele também recusa. Em outra ocasião conta mais detalhes da morte de Pedro. Foi esquartejado e seu pênis colocado no congelador. Finalmente, numa outra tentativa, ele aceita sair com ela. Passeiam, dançam, se divertem. Ele chega a confessar: "gosto de você". Numa lanchonete, enquanto ele toma um refrigerante e ela toma uma taça de sorvete, um segredo é revelado: Pedro, o porteiro, foi assasssinado por ela. Ela narra como foi. Chegando, atrapalhada, com sacolas de compras, Pedro a ajuda a levar as compras para o apartamento. Ele pede um pouco do sorvete de morango que ela havia comprado. Depois do sorvete ele tenta agarrá-la e beijá-la. Ela finge que concorda, mas sua intenção é outra. Ela mata-o torcendo seu pescoço. Parte o corpo em pedaços e guarda na geladeira. Fez isso porque odeia sexo. Pergunta se ainda podem ser amigos e conclui: "sou uma mulher de paixão". A cena termina mostrando os dois em silêncio: ele bebendo seu refrigerante, ela terminando seu sorvete.

Joy passa por várias experiências desagradáveis. Descobre que Andy se suicidara. Sua mãe a acusa: "veja o que fez com meu filho"; é enganada e roubada por um aluno russo e outras mazelas mais. Não é de se estranhar porque compôs a música Happiness (Felicidade).


Joy e seu aluno russo

It seems the things I've wanted in
My life I've never had.
So it's no surprise that living
Only leaves me sad.

Happiness, where are you?
I've searched so long for you.
Happiness, where are you?
I haven't got a clue.
Happiness, why do you have to stay
So far away . . . from me?

When I'm in despair and life has
Turned into a mess,
I know that I don't dare to end my
Search for happiness

Happiness, where are you......etc.

Happiness, sometimes I think
I see you from afar.
When I run to catch you, though,
That's just not where you are.

Happiness, you know I'll get a hold of
You some way.
Until I do you know I'll keep on
Searching every day.

Happiness, where are you . . . etc.

Gonna find it, gonna find it,
Gonna find my happiness.
Gonna find it, gonna find it,
Gonna find my happiness.

When I'm in despair and life has
Turned into a mess - gonna find it -
I know that I don't dare to end my
Search for happiness - gonna find my . . .

Happiness, where are you?

I'm gonna get to you.
Happiness, where are you?
I'll know before I'm through.
Happiness, you know you just can't stay
So far away . . . from me.

Gonna find my - Happiness where are you?
Gonna find it - I'm gonna get to you.
Gonna find my - Happiness what are you?
Gonna find it - I'll know before I'm through.

Parece que as coisas que desejei em
Minha vida nunca obtive.
Assim, não é surpresa que viver
Apenas me deixa triste.

Felicidade, onde está você?
Há muito que te busco.
Felicidade, onde está você?
Não tenho nenhuma pista.
Felicidade, por que você tem de ficar
Tão distante... de mim?

Quando estou desesperada e a vida
Transformou-se numa confusão,
Sei que não ouso terminar minha
Busca pela felicidade

Felicidade, onde esta você.......etc.

Felicidade, algumas vezes penso
Que te vejo ao longe.
Quando corro para te pegar, contudo,
É exatamente onde você não está.

Felicidade, você sabe que pegarei
Você de alguma maneira.
Até que o consiga continuarei
Buscando diariamente.

Felicidade, onde esta você.......etc.

Eu a encontrarei, a encontrarei,
Encontrarei minha felicidade.
Eu a encontrarei, a encontrarei,
Encontrarei minha felicidade.

Quando estou desesperada e a vida se
Tornou uma confusão - a encontrarei -
Sei que não ouso terminar minha
Busca pela felicidade - acharei minha...

Felicidade, onde está você?

Vou alcançar você.
Felicidade, onde está você?
Saberei antes que não tenha mais oportunidade.
Felicidade, você sabe que não pode ficar
Tão distante ... de mim.

Acharei minha - Felicidade onde está voce?
Encontrarei-a - Alcançarei você.
Encontrarei minha - Felicidade o que é você?
Encontrarei-a - Eu saberei antes que não tenha mais oportunidade

A letra revela a grande tensão que nos acomete em nosso caminhar pelo mundo: a incerteza de se obter a felicidade e a incapacidade de desistir de buscá-la. Infelizmente, não há pistas seguras. O filme retrata exatamente nossas buscas; nossos encontos e desencontros; nossos enganos e ilusões; nosso medo de ver a realidade; nossa insegurança de abrir mão de situações que não fazem mais sentido; e, por último, os efeitos destrutivos que nossos desejos de felicidade podem comportar. Para exemplificar, vamos comentar mais duas cenas.

Já vimos que o pai da família nuclear do filme estava com enfado da vida que levava em seu casamento. Embora a mulher tenha falado a palavra correta, divórcio, ele se recusava a pronunciá-la: "você me ouviu falar a palavra divórcio"? Realmente não disse (ou disse?). Se não disse é porque faltou coragem. Partir definitivamente para realizar seus desejos é, como também já vimos, tarefa incerta. Por isso, em caso de fracasso ou em momentos de angústia era absolutamente necessário ter um lugar e uma companhia para poder se refugiar. Este é, portanto, o motivo que o impede de pronunciar a palavra divórcio: um caminho de regresso deveria permanecer aberto e disponível. Com esta garantia no bolso, partiu para a vida. Jogando golfe, testemunhou um ataque cardíaco. Imediatamente foi ao médico. Seus novos empreendimentos exigiriam uma saúde perfeita. Ele a possuía. O médico, inclusive aconselha: só não pode abusar do sal. Mas, não somos nós o sal da terra? E o próprio filme, não trata justamente de nossas amarguras? Quantas lágrimas salgadas foram derramadas pelos personagens! Voltanto ao nosso não-divorciado, ele sonha com mulheres jovens, vendo-as passar, acompanhando-as com o girar da cabeça, esttando elas, ao mesmo tempo, próximas e distantes. Não são para ele. Restava-lhe uma antiga conhecida. Após terem transado ao som de algo que se assemelhava a um samba, ela pergunta se ele sentia culpado. Responde, sinceramente, que não. Mais sinceramente ainda complementa: "não sinto nada". Ainda bem que não se divorciou!

Por último, retornando ao psiquiatra analista, vamos comentar sua forma de se sentir feliz: estuprando jovens adolescentes. Já comentei a relação ambivalente entre pai e filho no tocante à orientação sexual requisitada por este. Pois, foi justamente com dois colegas de filho que o pai concretizou seu desejo. O primeiro a ser estuprado foi o filho do treinador de baseball que compartilhou, com o próprio psiquiatra, sua desconfiança de que o filho era afeminado. Convidando-o a passar um final de semana em sua casa, o psiquiatra não teve dificuldades em realizar seu plano. Ofereceu um lanche para todos e os recheou com alta dose de sonífero. Com todos dormindo profundamente, inclusive o garoto, teve a liberdade e a tranqüilidade de que precisava. O segundo foi uma dica do próprio filho: um colega de colégio estava sozinho em casa, pois seus pais haviam viajado. Outra situação ideal para os anseios do psiquiatra. Ingenuamente dominado por seus desejos foi facilmente descoberto pela polícia. Numa conversa sincera com o filho, onde, novamente, percebemos sua ambigüidade, responde todas as perguntas. "O que sentiu? Foi ótimo! Faria isso de novo? Faria! Faria isso comigo? Não, só me masturbaria." Pai e filho começam a chorar. Mais lágrimas, mais amarguras, mais sal. Quão terrível pode ser a face do desejo!

No final do filme vemos a família reunida para o almoço. A irmã escritora planejando arrumar namorados para todas. Para a mãe diz que está difícil. O pai abre mão da ajuda, enquanto derrama boa quantidade de sal na comida, aquela substância que o médico havia proibido dele ingerir se quisesse durar mais. Parece que já não quer, mesmo não tendo se divorciado.

Enquanto isso, o adolescente, vendo uma bela peituda, consegue finalmente gozar. Chega na sala e proclama, todo feliz: "eu gozei, eu gozei!". No cinema todos riem, afinal de contas, era uma comédia. Ou não?

bernardi@rubedo.psc.br

Ficha Técnica:
Felicidade (Happiness), Estados Unidos, 1998 - 134 min.
Direção: Todd Solondz
Elenco: Ben Gazarra, Lara Flynn Boyle, Jane Adams, Elizabeth Ashley, Dylan Baker,
Jared Harris, Philip Seymour Hoffman, Louise Lasser, Jon Lovitz, Marla Maples,
Rufus Read e Cynthia Stevenson.

Prêmio de melhor filme da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - 1998

Para obter mais informações sobre o filme, o diretor, os atores e, inclusive, um pequeno trecho da música "Happiness", visite o sítio do filme na internet:
http:www.happinessthemovie.com

A Rubedo agradece a Pandora Filmes (011 530-0839), distribuidora do filme, pelo material gentilmente cedido.

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