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BELEZA AMERICANA
(American Beauty)

A vida, não podemos negar, é habitada por momentos mágicos e belos. Lembro-me, por exemplo, com grande satisfação, do primeiro disco inédito dos Beatles que comprei. O dinheiro que sobrou da mesada mais o reforço de última hora de uns trocados dados pela avó me levaram direto à loja de discos para buscar o objeto desejado: o bolachão "Abbey Road". Sua primeira música já tirava o fôlego. Ao final de suas dezessete canções o felizardo ouvinte se sentia orgulhosamente uma testemunha da história: havia presenciado o lançamento de um evento musical.

Porém, nem esta doce associação me fez sorrir, foi deslocada por um outro evento. Neste momento, com "Because" ao fundo, estava paralizado, preso à poltrona sob o impacto da realidade mediada pela ficção. Esta sensação foi oposta àquela que tive quando percebi os primeiros acordes de "American Woman". Um diminuto sorriso quase que autônomo intrometeu-se em um canto de minha boca, prova de que nossas experiências e lembranças comandam nossos músculos, acompanhado de uma também diminuta lágrima, lágrima de felicidade unida a uma violenta sensação de nostalgia.

Estas sensações foram inevitáveis, pois "Beleza Americana" nos faz oscilar entre pólos da existência que nem precisamos exaustivamente nomear, mas que podem ser pensados através de duas categorias junguianas que James Hillman com tanta propriedade estudou: o senex e o puer. Embora a pompa latina dos termos possa assustar, eles se referem ao conflito arquetípico entre o velho e o novo. Sobrecarregado por anos de rotina, condicionamentos sociais, preocupação com os objetos materiais que acumulamos durante a nossa existência e com aqueles que ainda não conseguimos adquirir, esquecemos, muitas vezes, do entusiamo de viver. Ficamos enrigecidos em fórmulas que não são capazes de nos alegrar verdadeiramente. Senex e puer não mais se estimulam, se anulam.

O filme é comandado por uma retórica póstuma. A história é narrada pelo personagem morto, que vê tudo do alto, nos convidando a olhar a vida (e a morte) a partir dessa perspectiva. Os alquimistas chamavam isso de
sublimatio (sublimação), que é, de certa forma, o traço marcante de qualquer expressão artística. Esta retórica pos-mortem me fez recordar de um outro defunto narrador, o nosso Brás Cubas de Machado de Assis. Não é apenas a capacidade de narrar a partir de um outro lugar que os une. Ambos preocuparam-se em como tornar a vida mais agradável, buscando soluções, transformações e saídas da teia envolvente da rotina, embora o projeto sonhado por Brás Cubas tenha sido mais radical. Desejou inventar um emplasto, "um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade". Infelizmente, para nosso eterno desespero, Brás Cubas não apenas foi mal-sucedido em seu empenho como o próprio desejo do invento foi a causa da sua morte. Fina ironia machadiana! Esta rápida menção deste grande romance já basta para meus propósitos, gostaria apenas de recomendar a leitura do capítulo 7, intitulado "O Delírio". Vamos largar o livro e retornar ao cinema.

"Beleza Americana" retrata um desejo de transformação. Aos 42 anos Lester Burnham (interpretado por Kevin Spacey) coloca este desejo em movimento, ou. [e colocado em movimento pelo desejo. Em certo sentido, é bem sucedido, especialmente se abdicarmos da idéia de longa duração como parâmetro da felicidade. Isto o filme nos obrigará a refletir. Para entendermos tudo é preciso que Lester nos conte sua história, isto ele faz, como já disse, postumamente.

O filme inicia com sua filha se queixando ao namorado: queria ter um pai que fosse um exemplo, não aquele que ficava excitado quando ela levava uma colega para casa. O namorado se oferece para matá-lo. Começa então a narrativa do pai. Confessa direta e francamente: a vida que estava levando fazia de sua masturbação matinal o melhor momento do dia. É pouco, muito pouco. Ficava exausto em ver a mulher, não se entendia com a filha adolescente, se via e era visto por ambas como um perdedor, tinha um trabalho burocrático e pouco excitante. Além do mais, estava prestes a ser despedido. Como recuperar a alegria e o prazer de viver, perdidos e enrigecidos sob o peso da mesmice de sua vida cotidiana?

Foi na apresentação de sua filha Jane no grupo de coreografia esportiva que
ele vislumbrou uma saída. Apaixonou-se instantaneamente por uma amiga de sua filha. Angela Hayes fazia o papel da jovem linda, sedutora e experiente. Queria ser modelo, pois não suportaria ser uma pessoa comum. Dava conselhos e orientações, especialmente a Jane. O desejo que despertou no pai da amiga foi plenamente aceito e fomentado por ela. Lester, profundamente abalado pela beleza e jovialidade de Angela, imaginava-a coberta de pétalas de rosas de cor carmim, mistura explosiva de delicadeza, sensualidade e desejo. Estamos diante do que Jung descreveu como a paixão por uma figura de anima juvenil, maneira que uma estrutura envelhecida encontra para tentar se renovar. O vigor de Angela foi um receptáculo fácil para o recebimento da projeção desta figura.

Mas Lester não desejou somente uma adolescente, virou literalmente adolescente. Resolveu seu primeiro problema, que era o trabalho (ou o dinheiro que nele ganhava). Ao ser pura e simplesmente despedido, depois de anos de dedicação, como se fosse uma mesa quebrada, não titubeou, chantageou o executivozinho contratado pelo dono da empresa para equanimizar custos, ou seja, ganhar mais e empregar menos. Com dinheiro
suficiente partiu para realizar velhos sonhos. Comprou um mustang vermelho; foi trabalhar numa lanchonete, como nos velhos tempos; passou a fazer musculação (Angela gostava de homens musculosos); voltou a fumar maconha; passou a ouvir as antigas músicas de sucesso; deu um basta aos jantares monótonos e formais com sua esposa e filha; até comprou um carrinho de controle remoto, isso mesmo, um carrinho de brinquedo!

Literalmente, portanto, voltou à adolescência. Gostaria de me deter mais um pouco nesta questão. Um ponto muito importante na psicologia de Jung e na leitura efetivada por James Hillman gira em torno do conflito entre o literal e o metafórico. Como escreveu Jung, "não devemos concretizar nossas fantasias" (O Eu e o Inconsciente, par. 352), não deixando de acrescentar que há em todos nós uma propensão para fazer exatamente isso. O movimento idealizado pela psicologia seria o da compreensão simbólica do que estava passando em sua alma, buscando evitar a concretização e a projeção dos conteúdos psíquicos. Hillman, contudo, nos adverte quanto ao risco de criarmos uma psicologia fundamentalista, ou seja, uma psicologia cega ao mundo e fixada (literalmente) na realidade psíquica enquanto vivência interna. Esquecemos que situações concretas causam conflitos e que situações concretas ajudam a resolver conflitos. A isto podemos acrescentar o que escreveu Wolfgang Giegerich: ao invés de retirarmos as projeções, muitas vezes devemos correr atrás dos projéteis. Foi isto o que aconteceu com Lester. Para renovar seu estilo de vida envelhecido, teve de se perder numa adolescência tardia, despertarda grandemente por Angela, aquela que, à princípio, associamos o título do filme, beleza americana. Isso, ela própria achava de si mesma.

O mesmo não achava o filho do vizinho com sua inseperável filmadora de mão. Para Ricky Fitts era Jane e não Angela que lhe despertava beleza. Filmava-a todo tempo. Em nenhum momento Angela atravessou suas lentes. Era como se estivesse o tempo todo confrontando a artificialidade desta última com a bela e tímida naturalidade de Jane. Ele a filmava porque buscava captar com sua câmera a beleza dos acontecimentos, como demonstra na cena do saco plástico voando ao vento. O que entra pelas lentes da câmara, independentemente de seu conteúdo, é algo dígno de ser visto e revisto, algo digno de ser percebido e registrado. A isto podemos chamar de beleza: merece ser lembrado.

Ricky era filho do Coronel Fitts, ex-mariner. Homem duro, agressivo, extremamente preocupado com o filho, por temer que pudesse voltar a se drogar. Exercia sobre ele um controle intenso, com pedidos constantes de exame de urina para averiguar se continuava com seu vício. Ricky continuava. A urina que entregava ao pai era de outra pessoa. Naturalmente a rigidez do pai não era apenas por esse motivo. O clima de quartel que criou em sua casa, cheio de regras a serem obedecidas por Ricky e por sua mãe, fazia da vida em comum um verdadeiro estado de sítio. Esta rigidez é fruto de um estado neurótico de profunda dissociação, que será responsável pelo desfecho trágico da estória.

É importante falarmos um pouco da mulher de Lester, Carolyn (interpretada por Annette Bening). Ela encarna outro tipo de beleza americana ou uma outra forma americana de viver a beleza. Suas rosas, suas roupas, sua casa, seu prestígio, seus móveis, seu sofá, seus jantares, seu sucesso, eram
maneiras de se sentir em harmonia com as exigências sociais. Mas quando começa a perceber as transformações do marido, se desestrutura e não sabe direito o que fazer. Acaba se envolvendo com um corretor bem sucedido que se achava o máximo. Este envolvimento, a princípio, lhe faz bem, pois aumenta sua estima que se encontrava abalada por ela própria não ser uma corretora de sucesso e pela crise conjugal. Ao ser flagrada no carro com o amante por Lester, fica profundamente abalada, sentindo-se culpada e envergonhada. Com a "ajuda" de uma fita cassete de auto-ajuda, repete o tempo todo: "recuso-me a ser uma vítima". Parte, então, decidida a matar o marido. Não o matou. Mataram-no antes. Embora tarde demais, Carolyn e Lester se descobriram gostando um do outro. Se perderam, mas não tiveram tempo de se acharem. Não tiveram tempo para um diálogo. Se tivessem tido, ela encontraria Lester já se afastando de sua beleza americana. Ao ser comunicado pela sedutora Angela que era virgem, ele percebe a distância que os separa. Afasta-se de sua paixão adolescente. Provavelmente, a partir desse momento, começaria a aproximar suas fantasias adolescentes de sua idade atual. Não saberemos nunca. Contemplando, com olhar carinhoso, um retrato da família, ícone que durante todo o filme apontava para a verdade mais profunda de todos eles, não percebe que seu assassino se aproximava inesperadamente. A causa da morte de Lester? Justamente a incapacidade de confrontar a verdade mais profunda: Lester foi morto pela dissociação neurótica do Coronel Fitts.

Para entendermos melhor este fato vamos retornar ao começo da estória. Ricky Fitts, como sabemos, desejava a filha de Lester. Independentemente desse fato tornou-se seu amigo. Era seu fornecedor de maconha. Por outro lado, seu pai, o Coronel Fitts, controlava os passos do filho com medo que se envolvesse novamente com drogas. Desconhecia, assim, que seu filho não apenas continuava consumindo como também traficava. Certo dia, observando o vizinho da janela de seu filho, viu Lester e Ricky conversando. Pelo ângulo de visão pensou que os dois estivessem se relacionando sexualmente. Não verdade, Ricky estava preparando um cigarro de maconha. Ao chegar em casa, o pai o esperava. Indagado sobre o que fazia com Lester, preferiu fingir que era homessexual do que contar que continuava se envolvendo com drogas. Depois de ter sido espancado pelo pai, gesto que foi registrado por sua câmera de filmar beleza, foi expulso de casa. Algum tempo depois, Lester, que estava fazendo musculação na garagem, é procurado pelo
Coronel Lester. Profundamente atordoado, tenta beijar Lester, que recusa dizendo que não era sua opção. O Coronel Fitts se afasta chorando, numa mistura de tranqüilidade (provavelmente por ter descoberto que se enganara com o filho) e vergonha, por ter entrando em contato com um desejo seu tão escondido. Talvez isto explique sua rigidez. Talvez o homossexualismo fosse uma maneira de ser mais afetivo com as pessoas, especialmente com os homens (no começo do filme um casal homossexual foi saudá-los por terem se mudado, mas foram mal recebidos). De qualquer maneira, não foi capaz de integrar ou elaborar sua ação. Para restaurar regressivamente sua persona, deveria eliminar qualquer testemunha do ocorrido, no caso, o único envolvido, Lester.

Lester é morto com um tiro na nuca, contemplando a foto da família. Com o barulho do tiro, Jane e Ricky, que estavam no quarto, desceram para ver o que havia ocorrido. Vêem Lester morto sobre a mesa. Ricky pega sua câmera e filma, afinal de contas, até a morte tem sua beleza, principalmente se o morto, mesmo enquanto morto, ainda estampa em seus lábios a felicidade e a satisfação dos que tentam fazer algo para transformar a própria existência.

Apesar do fim triste e dos desencontros vejo Beleza Americana como um filme muito positivo, pois o que fica de mais intenso é a busca de uma vida mais plena, mais significativa, menos robotizada pelas convenções e hábitos da sociedade. Lester morreu, é verdade, mas de certa maneira, já estava morto antes. No fundo, aceitou os riscos para poder viver.

Carlos Bernardi

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