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ZWEIG E FREUD

Dominique Bona

Este texto faz parte do livro Stefan Zweig, Uma Biografia, de Dominique Bona, reproduzido aqui com a autorização da Editora Record.

Nos anos vinte, o Dr. Freud goza de notoriedade mundial, e o escritor Elias Canetti lhe rende esta curiosa homenagem: ele é, juntamente com Albert Einstein, o judeu mais famoso do planeta! Nascido em 1856, caminha no alto de seus setenta anos com ar enérgico e sereno de bom pai de família, ar que espantava os que o viam pela primeira vez e, por causa de sua reputação, o imaginavam uma espécie de Mefistófeles. Freud, desde que começou a exercer a medicina, mora com a mulher e a ultima filha (ele teve seis filhos) na Berggasse, n° 19, em Viena, onde leva vida regrada, tranqüila, totalmente dedicada ao trabalho. Fundou a Sociedade Internacional de Psicanálise, em 1910, e publicou antes da guerra, provocando escândalo e atraindo para si faíscas e raios da academia, seus livros capitais: dos primeiros Estudos sobre a histeria, que lhe valeram junto aos colegas psiquiatras o rótulo de ridículo e infame, A interpretação dos sonhos (1900), dois Ensaios sobre a teoria da sexualidade( 1905) a Totem e tabu ( 1913), passando pelas Lições de psicanálise, nenhuma de suas obras, escritas em prosa clara e incisiva qual bisturi, deixou de provocar tempestade nos meios por que ele passou, como cisne num lago, impermeável às ameaças e refratário a qualquer concessão. Freud manteve-se firme, e, se conta ainda, particularmente em Viena mas também na Europa e até na América, muitos inimigos e detratores que o chamam de charlatão, louco ou obcecado por sexo, e se dedicam a denegrir-llhe a ciência, se a universidade o ignora e se recusa a considerar-lhe seriamente as pesquisas, as idéias, elas seguem adiante e continuam sobrepujando o obscurantismo e os preconceitos. O que Zweig admira acima de tudo em Freud é sua força—seguro de sua mensagem, Freud avança contra ventos e marés, e faz o mundo avançar com ele, trazendo para o domínio do conhecimento humano, o único que interessa a ele, decisivo progresso. Freud, aos olhos do romancista que Zweig é, vale também pela maneira tranqüila de dizer as coisas sem desvios, de chamá-las pelo nome, ainda que sejam tabus, de encará-las sempre. A verdade, diante de que a maioria das pessoas esconde o rosto, porque as ofusca ou assusta, é aliada desse sábio, o mais persistente, o mais corajoso dos homens. Freud conseguiu, diz Zweig, pôr fim ao reino da hipocrisia. Com ele o dia nasce, enfim, sobre os abismos onde se nos escondem as feridas, ocultação de que resultam nossos males.

"Professor extraordinário entre professores ordinários": assim Zweig o chama em um dos capítulos de A cura pelo espirito, brincando com os títulos universitários que lhe foram recusados ao longo de toda a vida: o professor extraordinarius é, sabe-se, pouca coisa em Viena, comparado ao professor ordinarius. Zweig dá-lhe extrema importância aos trabalhos, e não esperou o fim da guerra para render-lhe homenagem. Desde 1908, o ano de Tersites, envia a Freud seus livros, todos com dedicatória, para provar-lhe sua admiração e fidelidade. Poucos escritores podem como Zweig declarar-se amigos de Freud desde a primeira hora, antes mesmo da fundação da Sociedade Internacional de Psicanálise. Zweig jamais duvidou da dimensão da mensagem freudiana nem de sua verdade. Em 1920, data do primeiro encontro dos dois na Berggasse, na célebre antecâmara, ano da publicação de Para além do princípio de prazer, uma das mais controversas obras do autor, Zweig dirige a Freud as seguintes palavras: "Pertenço a esta geração de espíritos que não tem dívida para com praticamente ninguém além do senhor em matéria de conhecimento, e sinto, com esta geração, que está próximo o momento em que sua investigação da alma, de tão considerável importância, se tornará um bem universal."

Ele lhe dedicará um exemplar de Três mestres: "Ao Grande Guia do Inconsciente", e o livro A luta contra o demônio, que é entre todos os seus o mais íntimo, o mais suscetível de interessar a um psicanalista: "Ao professor Sigmund Freud, ao espírito perspicaz, ao criador e inspirador." Ele o visitará muitas vezes, sozinho ou com amigos que leva consigo, como Romain Rolland e Jules Romains, ou depois Salvador Dalí. Escrever-lhe-á regularmente, e Freud responderá a cada uma das cartas, como retribuirá cada uma das visitas, com palavras corteses, não raro calorosas, e Zweig, fiel até o fim, pronunciará um dia, em Londres, uma oração fúnebre sobre o túmulo do psicanalista. Mas ele jamais se deitará no célebre divã do Dr. Freud. Ainda que—e talvez porque...—certamente tivesse muito que dizer.

A Jules Romains, que ele trata informalmente e que é, de todos os seus amigos europeus, o mais próximo pela idade e pelo coração, e o felicitava por A luta contra o demônio, e relevava não sem malícia o parentesco do autor com seus modelos prestigiosos, Zweig confia: "Sou no fundo um homem terrivelmente apaixonado, presa de todos os tipos de sentimentos violentos. Só com muito esforço consigo controlar-me e manter comportamento mais ou menos sensato." É confissão das mais raras e das mais surpreendentes, se lhe conhecemos o caráter reservado. E ela não teria sido possível se não houvesse entre ele e o interlocutor grande intimidade. Zweig é de extremo pudor, fala pouco de si e esforça-se por passar a imagem de homem controlado.

Seus conflitos são violentos e amiúde reprimidos—termo que, Zweig sabe, é uma das chaves do método freudiano. Ele próprio o reconhece: é vitima, como toda a sua geração, de uma moral repressiva e hipócrita que, fundada no axioma naturalia sunt turpia (as coisas naturais são vergonhosas), condena à clandestinidade todo e qualquer ímpeto vital, sexual, fora do casamento. Em suas memórias, dedicará longo capitulo, "Eros Matutinus", a seus arrependimentos, a seus rancores: lamenta-se ainda, aos 60 anos, dos constrangimentos que lhe pesaram na juventude, entravando-lhe a liberdade, obrigando-o a dissimulações, a um jogo de esconde-esconde, e tornando-o adulto cheio de complexos. Reprovará à sua educação e à sociedade de sua época 0 ter-lhe ditado mil proibições e, ao oprimi-lo, o ter-lhe recusado esta coisa capital, de que jamais gozará: "o sentimento de confiança em si e de segurança interior". As angustias de Stefan Zweig, o que ele chama sua inquietude fundamental, evidentemente têm por fonte sua adolescência burguesa. Ele jamais se libertará da tutela moral da época e do meio. Os princípios de sua juventude o marcaram a ferro e fogo, e, se se revolta contra qualquer tentativa de limitar-lhe a liberdade, tão arduamente conseguida, Zweig tem a sensação de travar combate perdido por antecipação contra o que está profundamente inscrito nele. Sua vontade lhe ordena livrar-se dos grilhões e dar livre curso a seus sonhos, a seus desejos. Por mais lúcido que esteja, não consegue fazê-lo no domínio do amor. Tem tantas inibições que só consegue exprimir-se em segredo. Há nele verdadeira dualidade, de que tem consciência mas não consegue resolver. Apaixonado, entusiasta e muitíssimo sensível, sufoca seus ímpetos, joga água fria em seus desejos e oferece às pessoas a imagem de homem impecável, perfeitamente estruturado, de cavalheiro algo frio como manda o figurino, cuja vida e modos, pensamentos, atos e moral são necessariamente irrepreensíveis.

Sem sequer submetê-la a uma psicanálise literária completa, sem procurar a origem de certo complexo de Édipo e de certa neurose narcisista, mas já que ele mesmo nos indicou sua intensa inquietude e seus flagrantes traços de repressão, sua obra bastaria para ilustrar-lhe o drama. Que pena o Dr. Freud não ter estudado o caso Zweig! Pois o tema principal das novelas que ele não pára de escrever e que lhe dão ritmo à vida desde os 20 anos, o que um músico chamaria motif, ou seja, a nota recorrente, não é senão o segredo. Em alemão, Geheimnis. A palavra mereceria ser contabilizada na obra. Salvo erro nosso—pois que não nos pretendemos exegeta—, a palavra aparece apenas uma vez em título, acompanhada de um adjetivo que lhe cai como uma luva: Segredo ardente (Brennendes Geheimnis). Mas está presente muitas e muitas vezes, incansavelmente repetida, no cocarão de suas histórias, que repousam todas, com efeito, em um segredo ardente. Sem exceção ele tortura as personagens fictícias. Que homem ou que mulher não é, segundo a celebre fórmula de Malraux, um miserável montinho de segredos? Ninguém é completamente direto nem franco. Mas em Zweig, no mundo opaco e úmido de suas novelas, cada indivíduo é um mártir que carrega em seu âmago o próprio carrasco. O segredo não é acessório: é a chave. Cada uma de suas personagens se debate em algo inconfessado, não formulado, oculto no mais profundo de Zweig, onde ele julga tê-lo esquecido, algo que, todavia, acaba por voltar à superfície, ameaçando um equilíbrio precário ou miraculoso.

Nas novelas que Zweig escreve nos anos 20, o segredo é, portanto, Leitmotiv. Em O medo (1920) uma jovem mulher acha que o marido lhe descobriu o segredo da dupla vida amorosa. Presa de pânico ao ponto de perder a própria identidade, despossuída de seu segredo, cruelmente revelado, vê-se ameaçada pela loucura, e, embora tudo termine bem, a sombra da violência mental percorre o livro. O medo vem da possibilidade de que o véu que encobre o mistério seja retirado brutalmente. Em Amok( 1922) um médico, voltando da Malásia, confia seu segredo a um passageiro anônimo, que narrará sua história: ele provocou a morte de uma jovem por quem estava perdidamente apaixonado ao recusar-se a fazer-lhe o aborto da criança de outro homem. Ela se entregou aos cuidados de uma feiticeira chinesa e, após fazê-lo jurar que não a trairia, morreu em seus braços, levando consigo o segredo. Em Carta de uma desconhecida ( 1922) uma jovem prestes a se suicidar confessa a um escritor de sucesso—tanto com as mulheres quanto no mercado literário—, sedutor e mundano, que ela o ama há quase vinte anos e que teve um filho dele, um menino que ele não reconheceria se com ela cruzasse na rua. Ela passou ao largo de sua vida sem que ele sequer a reparasse, e lhe agradece a felicidade ilícita que ele lhe proporcionou e que ela não partilhou com ninguém. O menino morreu. Despossuída de tudo (outra palavra importante da obra de Zweig: despossuir), e após o destino lhe ter arrancado o maravilhoso pedaço de vida com que ele a havia involuntariamente presenteado, a jovem decide deixar o mundo, não sem escrever-lhe tudo o que tinha para dizer—seu belo e mortal segredo. Não lhe diz sequer o nome do menino. Em Vinte e quatro horas da vida de uma mulher (1927) um rapaz não consegue largar o jogo. Vive em cassinos e, na última noite, em Monte Carlo, antes do gesto fatal, ele se confessa com uma mulher, solitária e infeliz, a quem seu segredo transforma e anima de maneira estranha, ao revelar-lhe o amor. Mas é certamente Confusão dos sentimentos (1927) que melhor mostra o papel do segredo na vida humana. A novela conta a história ambígua—delicada, diz Zweig ao editor—, de um jovem e de seu professor, especialista em teatro elisabetano, cuja homossexualidade, improvável, depois sugerida, e enfim revelada. Zweig, que não tem medo de escolher um assunto tabu no primeiro terço de século, descreve a atracão entre os dois homens, inocente e sem consciência do pecado por parte de Roland, mais perversa e mais dolorosa por parte do professor. O drama se desenrola em progressão implacável, e em uma atmosfera cada vez mais pesada, cada vez mais sufocante, com tentativas de fuga, com jogos de mascaramento e dissimulação, na presença de uma mulher calorosa e ardente—a jovem mulher do professor. Ela não passa de contraponto ao verdadeiro amor, que se revela na mais total "confusão de sentimentos".

No soneto que abre Amok, Zweig, que não renunciou à poesia, diz as seguintes palavras:

Somente a paixão que encontra seu abismo
Sabe pôr em brasa teu ser ate' o fundo;
Somente quem se perde por inteiro e' dado a si mesmo.

Então, incendeia-te! Somente se tu te inflamas
conhererás o mundo no mais profundo de ti!
Porque apenas no lagar onde age o segredo começa também a vida.

O segredo conduz os heróis de Zweig a essa "dualidade" que ele confessava a si mesmo, termo a que Freud preferia "ambivalência". "Há em ti dois homens", declara a Desconhecida em sua carta: "um jovem ardente, alegre, totalmente entregue ao jogo e à aventura, e, ao mesmo tempo, em tua arte, uma personalidade de seriedade implacável, fiel ao dever, largamente culto e refinado... Levas vida dupla, vida que tem uma face clara, francamente voltada pata o mundo, enquanto a outra, mergulhada na sombra, não é conhecida senão de ti mesmo." Não é possível expressá-lo melhor. Essa profunda dualidade, sem dúvida o segredo de Zweig e a chave de suas personagens, funda-lhe a personalidade e rege-lhe toda a obra. Há de um lado a face clara do escritor: a vida de conferencista, de ensaísta, de biógrafo, até de dramaturgo, voltada para os outros e para sua época, curiosa de inovações e de conhecimentos, erudita e perfeitamente controlada; e de outro a face sombria, que se presta a sonhos e interpretações, a de que é testemunho extremamente sutil e refinado o conjunto de seus relatos, de seus romances e de suas novelas, que ele chama com amor de suas criações. Na obra ele se deixa perceber, com suas angustias, fraquezas, vertigens e tentações. Se o homem sofre de ambivalência, o escritor é claramente desdobrado. À escrita serena e luminosa das biografias, dos artigos e das conferencias opõe-se a das criações, mais acariciante, mais vibrante contra um fundo de noite ou de neblina.

A verdade das primeiras é de ordem objetiva, histórica, explicativa. A das segundas é de ordem subjetiva, sensível ou divinatória. Mas é a que esta mais próxima do segredo de Zweig. Freud não se enganou a esse respeito. Enquanto responde em duas ou três linhas, polidas mas indiferentes, ao envio dos ensaios e das biografias—somente Dostoievski arranca do médico uma longa carta, porque ele não concorda com a interpretação que Zweig dá da histeria do biografado e lhe recusa o direito de falar de epilepsia—, Freud se apaixona pelas novelas. E, como é sempre sincero, até a brutalidade, ele diz exatamente o que lhe agrada e o que lhe desagrada. Zweig se livra de seus demônios escrevendo, como outros se livram deles deitando-se no diva e falando. Vinte e quatro horas da vida de uma mulher é a novela preferida de Freud. Nela descobre uma "fixação libidinal" da parte da heroína, e substitutos de "onanismo" e de "masturbação"... Na carta de 4 de setembro de 1926, confessa-se igualmente interessado, embora menos que pela precedente, por Confusão dos sentimentos, e revela a Zweig algumas reflexões que a história lhe inspira a respeito do amor de um homem por outro: "A natureza humana é bissexual", escreve. Ele quer sobretudo render homenagem à fineza e à sinceridade do autor. "Essa demonstração se faz com tanta arte, franqueza e amor à verdade, está tão livre de mentira e do sentimentalismo próprio de nossa época, que reconheço de boa vontade não poder imaginar nada mais bem-sucedido."

Freud se aborrecerá com só uma obra de Zweig: precisamente o Freud, que figura com Mesmer e Mary Baker-Eddy na trilogia A cara pelo espírito. Coabitação incômoda, simplificações próximas, segundo ele, da caricatura—"o homem é mais complicado!, protesta em carta ao autor—e o desejo de popularizar a psicanálise desagradaram a Freud. Ele o censura principalmente por não ter falado do procedimento da livre associação, que é "a inovação mais notável da psicanálise", mas acaba por perdoar a Zweig todos esses defeitos, pois sua intenção, afinal de contas, não era senão fazer as pessoas compreenderem melhor e apreciarem mais o incompreendido. "Que as pessoas não gostem de seus próprios retratos ou que não se reconheçam neles", escreve Freud a Zweig, "não passa de fato banal e sabido." Eles continuarão a manter relações amigáveis, marcadas pela "profunda e fiel admiração" de Zweig. O Sr. Professor— Herr Professor—não responde senão "cordialmente".

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