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VIAGEM À SEMENTE (Capítulo Doze)
Dasso Saldívar
| Este texto faz parte do livro Gabriel García Márquez: Viagem à Semente, uma Biografia, de Dasso Saldívar, reproduzido aqui com a autorização da Editora Record. |
Finalmente, depois de Ter imaginado desde a infância como ela seria, agora a tinha ali, diante dos olhos – a "infeliz Caracas" de Bolívar, que era também a feliz Caracas dos contos de fadas de Juana de Freites. Mas ele não viu nada enquanto a atravessava de ponta a ponta naquela calorosa tarde do dia 23 de dezembro. Muito sério, perguntou a Plinio e a sua irmã Soledad Mendoza, que haviam ido buscá-lo em um pequeno MG conversível, onde estava a cidade. Embora ela não seja fácil de ser avistada por causa dos meandros da sua topografia, talvez ele estivesse trazendo Paris e Londres superpostas na nostalgia, ou talvez carregasse demasiado nítido no coração o berço mítico do Libertador, Simón Bolívar e a fantástica cidade de Juana de Freites. No entanto, muito em breve começaria a descobrir a verdadeira e contraditória capital venezuelana, feita de campo e cidade, que na madrugada de 23 de janeiro de 1958 ele veria como o ditador Marcos Pérez Jiménez fugia para o exílio.
Sua relação com Caracas tinha começado desde a infância, escutando as lições escolares sobre Simón Bolívar e as histórias dos exilados venezuelanos que haviam chegado a Aracataca atraídos pelo festim da exploração dos bananais, como os Barbosa, os Freites, os Leoni e os Betancourt. Mas foi a esposa do general marcos Freites, antigo opositor ao ditador Juán Vicente Gómez, que o contagiou com a memória nostálgica e literária de Caracas graças aos contos infantis de sempre, que ela narrava uma e outra vez nas tardes de Aracataca, mas que aconteciam na Caracas da sua memória. A própria Juana de Freites tinha sido também a providencial parteira da mãe do escritos, salvando os dois de uma morte que parecia certa. Assim, quando García Márquez chegou a Caracas na véspera do Natal de 1957, estava ali não apenas porque Plinio Mendoza havia conseguido um trabalho para ele na revista Momento, mas por obedecer àquela recôndita chamada de seu destino, que agora, como tantas outras vezes, lhe permitia continuar conhecendo e atando os fios soltos de sua vida e sua obra.
Naquela tarde, Plinio Mendoza levou-o diretamente à redação da revista e García Márquez tomou posse de sua mesa na ampla sala sem janelas, iluminada por lâmpadas de néon, onde ele iria passar a maior parte de seus cinco primeiros meses em Caracas. Carlos Ramírez MacGregor, o dono da revista, ignorou-o solenemente. Da mesma forma que o dono do jornal El Espectador fizera quatro anos antes, para ele era impossível conciliar a figura esquálida e malvestida do caribenho recém chegado com a do grande escritor e jornalista que Plinio Mendoza havia anunciado para ele. Aliás, o próprio García Márquez recordaria que o "louco do Ramírez MacGregor" sequer respondeu ao primeiro cumprimento que ele fez. Consciente, como sempre, de que só somos aquilo que somos fazendo o que somos, García Márquez ficou em silêncio e no dia seguinte trancou-se durante uma semana com Plinio Mendoza, preparando o número monográfico da revista daquele fim de ano. Os dois moravam no bairro de San Bernardino: García Márquez numa pensão de imigrantes italianos, que exalava o odor de talharins cozidos e Plinio mendoza num cômodo apartamento na parte alta do bairro, onde as cigarras e os grilos deixavam ouvir, a toda hora, a nostalgia viva do campo. Quase ao amanhecer ele passava para apanhar o amigo no MG conversível e devolvia-o altas horas da noite.
Durante as festas de Natal e Ano Novo, o escritor teve a oportunidade de se reencontrar com o sabor da goiaba, nas festas abertas e intermináveis dos caraquenhos. Mas só teve o primeiro dia de descanso no primeiro de janeiro, quando Plinio Mendoza decidiu que fossem para a praia, para que seu amigo perdesse a cor lívida dos maus tempos de Paris. Naquele dia, porém, García Márquez amanheceu com os ares premonitórios de sua avó Tranquilina Iguarán Cotes, ou talvez com os tempos de fábula de Juana Freites, pois de repente, como o personagem do filme Presságio, comentou pela manhã com Plinio Mendoza que tinha a impressão de que alguma coisa aconteceria naquele dia, algo que os faria sair correndo. Minutos mais tarde estavam ele e seus amigos e toda a vizinhança nas janelas e nos tetos dos edifícios vendo os vôos rasantes dos bombardeiros, enquanto ouviam as batidas secas e desordenadas das metralhadoras: a base aérea de Maracay tinha se amotinado e estava bombardeando o palácio presidencial de Miraflores, na primeira tentativa séria de derrubar o ditador Marcos Pérez Jiménez. O levante foi finalmente debelado pelas tropas leais ao ditador, mas Pérez Jiménez, que havia gozado de seus anos de poder absoluto, foi derrubado três semanas mais tarde.
Aquelas foram semanas de intensa angústia para Caracas e para a Venezuela inteira. Desatou-se uma avalanche de repressões, fugas, esconderijos e reuniões de conspiradores. As pessoas ferviam entre proclamas, panfletos clandestinos, boatos e desmentidos. Em todas as partes percebia-se a pressão popular contra os muros da ditadura, que estavam a ponto de desabar. Os serviços de segurança, mais inseguros que nunca, faziam rondas pela cidade levando políticos, sacerdotes, intelectuais e jornalistas. Certa tarde, enquanto García Márquez e Plinio Mendoza estavam fora, chegaram na revista Momento e levaram a redação inteira para o edifício da Segurança Nacional. Sem saber o que fazer e com o diretor da revista em Nova York, os dois amigos percorreram a cidade no MG conversível até a hora do toque de recolher, atravessando ruas e avenidas cheias de sirenes, correrias, panfletos que caíam das janelas e um rumor popular que parecia o de um rio crescente.
Foram três semanas de muito pouco sono e na noite do dia 22 para 23 de janeiro já não foi possível fechar os olhos. García Márquez e Plinio Mendoza ficaram velando ao pé do rádio no apartamento de San Bernardino até que, lá pelas três da madrugada, viram como se elevavam sobre a noite de Caracas as luzes do avião no qual fugia para São Domingos o ditador Marcos Perez Jiménez. Duas horas depois, eles estavam na redação da Momento convocando pelo rádio os redatores e trabalhadores. Sem descanso, mantendo-se na base de cafés concentrados, trabalhavam de enfiada até conseguirem terminar a edição do dia seguinte, na qual publicaram um editorial (o primeiro da revista ) e uma curta reportagem a quatro mãos, saudando a recuperação da democracia e contando as últimas horas e a queda da ditadura. Sem consultar o diretor da revista, mandaram rodar uma tiragem exorbitante de cem mil exemplares, que foram vendidos em poucas horas e converteram Momento na revista mais popular e difundida de Caracas.
Três dias mais tarde, enquanto os jovens e febris jornalistas esperavam ao lado de outros colegas na ante-sala presidencial do Palácio de Miraflores, aconteceu uma coisa que, sem saber, o escritor de Aracataca tinha ido buscar na cidade natal de Bolívar, guiado pelos radares fantásticos da inesquecível Juana de Freites.
Eram quase quatro da manhã e os militares, entre democratas e golpistas, tinham passado a noite inteira discutindo a formação da Junta de Governo. De repente, a sala do poder foi aberta e saiu dela um dos militares perdedores, apontando uma metralhadora enquanto caminhava de costas. Suas botas de campanha deixaram um rastro de barro nos tapetes do palácio, antes de prosseguir para o exílio. Esta seria uma imagem fértil na memória de García Márquez, pois naquele exato instante, recordaria ele mais tarde, teve pela primeira vez a consciência clara de escrever O outono do patriarca, o romance do ditador latino-americano: "Foi naquele instante, no momento em que aquele militar saía de uma sala onde se discutia como seria formado definitivamente o novo governo, que tive a intuição do poder, do mistério do poder." A idéia seria reforçada dias depois, durante uma longa conversa que ele e Plinio Mendoza tiveram com o mordomo do palácio presidencial. Em seus cinqüenta anos de trabalho ele havia servido a todos os presidentes, militares e civis, ditadores e democratas, desde os primeiros tempos de Juan Vicente Gómez, o modelo principal de O outono do patriarca e o ditador que havia mandado seu opositor Marcos Freites para o exílio de Aracataca, onde sua esposa, Juana de Freites, se transformaria na parteira natal e literária de García Márquez.
No entanto, o processo do ditador da obra de García Márquez deve ter começado a ser gestado em agosto do ano anterior (ou talvez durante os primeiros anos da ditadura de Rojas Pinilla ), quando o escritor contemplou no mausoléu da Praça Vermelha de Moscou o corpo embalsamado de Stalin. Os traços que dedicou a ele em suas reportagens sobre a União Soviética são claramente um esboço daquele que seria o patriarca de seu romance. A percepção pré-consciente do poder e da solidão do poder, porém, têm suas raízes na própria infância do escritor, à sombra do avô, dos veteranos de guerra e dos ilustres exilados que padeciam na poeirenta Aracataca. Não é à toa que a imagem do poder na obra de García Márquez geralmente esteja associada ao caudilho e à bota militar. É uma coisa que, para ele, veio do mundo e da memória do avô. A lenda militar e o prestígio civil e moral do coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía e dos generais José Rosario Durán e Marcos Freites, entre outros, constituíram a primeira idéia do poder que García Márquez teve na infância e essas mesmas figuras, esquecidas ou exiladas em sua velhice, constituíram também o reverso dessa idéia germinal do poder: a solidão do poder. Além disso, também foi importante a figura derrotada e moribunda de Bolívar na fazenda de San Pedro Alejandrino, santuário pátrio que o menino visitou levado pelo avô, quando tinha sete ou oito anos de idade.
Assim, quando o escritor interessou-se deliberadamente pelo poder e pelo ditador latino-americano como temas para um romance, naquela madrugada do dia 25 ou 26 de janeiro de 1958, foi porque, como vinha acontecendo com todos os grandes temas de sua obra, já os havia estado incubando desde a infância. Plinio Mendoza recordaria que naqueles dias seu amigo dedicou-se a mergulhar nas vidas dos ditadores latino-americanos. A cada dia, enquanto almoçavam numa cantina de trabalhadores perto da revista Momento ou jantavam em sua casa, ele ia contando os episódios mais insólitos que havia encontrado em suas biografias: muitos deles estavam condicionados pela orfandade paterna, a dependência exclusiva de suas mães e de suas ambições. De suas leituras (por aqueles dias leu pela primeira vez Los idus de marzo), buscas e reflexões, ficaria nele uma imagem fundamental: a de "um ditador muito velho, inconcebivelmente velho, que fica sozinho num palácio cheio de vacas". Foi então que Plinio Mendoza escutou-o falar reiteradamente do projeto de escrever, algum dia, um romance sobre o mítico ditador latino-americano.
Essa é a mesma confidência que García Márquez faria a Mercedes Barcha Pardo, dois meses mais tarde, em sua lua de mel, enquanto voavam de Barranquilla a Caracas. A ela, porém, fez mais duas revelações: iria escrever um romance chamado La casa e aos quarenta anos (acabava de completar 31) escreveria a "obra-prima" de sua vida. Ela acreditou, da mesma forma que sempre acreditara em tudo que ele dizia: tinha consciência do alcance de seus esforços literários e conhecia muito bem sua teimosia sem tréguas. Afinal, quando ela tinha apenas treze anos e ele começou a cortejá-la na distante Sucre da adolescência, Mercedes ouviu-o comentando com o pai: "Já sei com quem vou me casar". Mercedes acabava de terminar o curso primário e ele, a Quarta série ginasial. Na mesma noite em que se conheceram, num baile de estudantes, ele pediu-a em casamento, sem maiores rodeios, conforme contaria na sua Crônica de uma morte anunciada. E embora Gabriel sempre tenha tido certeza de que aquele seria um casamento seguro, a verdade é que a menina não lhe prestou maior atenção no começo (como Remedios Moscote haveria de fazer com Aureliano Buendía), pois talvez tenha visto no rapaz apenas um gavião dando voltas ao redor de sua idade inverossímil.
Mercedes Raquel Barcha Pardo nasceu no dia 6 de novembro de 1932, em Magangué, uma cidade ardente, plana e espalhada, rodeada de pântanos e de um braço do rio Magdalena. Filha de Demetrio Barcha e de Raquel Pardo, em Mercedes conflui um fio de sangue oriental das Mil e uma noites: seu bisavô tinha nascido na Síria e seu avô, Elias Barcha, na Alexandria e, por isso, no final de Cem anos de solidão, o escritor atribuía à sua mulher "a misteriosa beleza de uma serpente do Nilo". O avô Elias chegou com o pai à Colômbia no começo do século, adotando a nacionalidade colombiana no ano em que Mercedes nasceu. Viveu quase cem anos e sua verdadeira vocação, além do comércio, era ler o destino dos homens na borra do café.
Demetrio Barcha, o pai de Mercedes, formou parte de uma histórica geração de árabes colombianos empreendedores e onde quer que tenha se estabelecido, aplicou o mesmo espírito de seu próprio pai na farmácia e no negócio de armarinhos. Nômades como os García Márquez, os Barcha Pardo moraram em Magangué, Majagual, Sucre e Barranquilla. Enquanto isso, Mercedes, a mais velha de oito irmãos, era educada no Colégio de Los Niños de la Cruz de Magangué, no Colégio do Sagrado Coração de Jesus Mompox, no Colégio de la Presentación de Envigado e no María Auxiliadora de Medellín, onde terminou o colegial em 1952. Embora tenha querido estudar bacteriologia e seu noivo a tenha estimulado, dando-lhe de presente um monumental livro sobre micróbios, a perspectiva do casamento, que então parecia iminente, foi adiando de forma indefinida sua carreira universitária. No final dos anos 40, nos momentos mais difíceis da chamada Violência, os Barcha Pardo se mudaram de Sucre, onde haviam vivido cinco anos de estreita amizade com os García Márquez e foram para Barranquilla, onde o pai de Mercedes montou uma farmácia, a mesma de sempre, na esquina da Avenida Vinte de Julho com a rua 65. Ali, ela recebia as serenatas com flauta que seu noivo oferecia enquanto esteve trabalhando em El Heraldo e El Nacional. Estes foram os únicos anos em que viveram seu namoro de perto. Depois, quando ele foi embora, ela continuou escrevendo-lhe cartas impregnadas de valeriana a Bogotá, Roma e Paris. Eram cartas espaçadas, seguras e tranqüilas como as dele, pois eram dois namorados tão antigos e estavam tão certos da inevitabilidade de seu casamento, que na verdade se portavam com a consciência dos esposos longevos que terminam amando-se como namorados.
Diferente de outros, esse namoro, submetido aos vaivéns da profissão viajante dele, nunca foi atrapalhado pelo tempo e pela distância. Pelo contrário: parecia fortalecido. As amigas e os casos amorosos que o escritor teve antes de casar não foram em momento nenhum substituições da noiva distante, mas meras pontes no tempo para voltar para ela, de tal maneira que se tornavam mais perecíveis quanto mais sólidas pareciam, como foi o caso de sua louca relação com Tachia Quintana, a "basca temerária" que o ajudou nos tempos difíceis de Paris. A "misteriosa beleza" oriental, a inteligência de sentimentos, a magia, a discrição, o arrojo e a paciência ursulina de Mercedes Barcha Pardo se tornavam para ele mais necessárias quanto mais distante dela se sentia. E foi isso que disse à basca quando se despediu em Paris, rumo a Caracas: que ia se casar com sua noiva de Magangué, com a filha do boticário Demetrio Barcha. E tem mais: num momento em que ela ainda não queria regressar para a América, este era o único motivo consciente que tinha para fixar residência fixa em Caracas, aproveitando o pretexto do trabalho que Plinio Mendoza conseguira para ele na revista Momento.
E foi assim que, três meses depois, pediu uma licença de quatro dias e voou rapidamente para Barranquilla, onde Mercedes o esperava com a segurança e a paciência de sempre, para casar-se na sexta-feira, 21 de março, às onze da manhã, quatro anos depois de ter ficado noivo e treze anos depois de ter andado atiçando aquele namoro a fogo lento, sem pressa e sem pausa.
Nas naus da igreja do Perpétuo Socorro, rodeando o casal e seus pais, estavam é claro, os amigos de sempre, os impenitentes "mamadores de galo de la Cueva". Depois de quase quatro anos de ausência, eles tinham tornado a encontrar o Gabito de sempre, mas lhes pareceu um pouco transformado pela solenidade do momento e por sua extrema magreza: parecia sempre de perfil, embora estivesse de frente. Nunca o haviam visto tão sério, enfiado num terno escuro e exibindo um nó perfeito na gravata; sobretudo, nunca o tinham visto aguardando com a intensa e calada espera com que recebeu a noiva, que, pela mão do pai, chegou finalmente com o véu nupcial e um vestido azul. Afonso Fuenmayor recordaria sobretudo sua "espera intensa", uma espera quase desesperada. O pai do noivo, Gabriel Eligio García, deve Ter recordado sua própria espera trinta e dois anos antes, na Catedral de Santa Marta e o próprio García Márquez deve Ter recordado naquele anônimo barranquillero que ele havia visto oito anos antes no mercado da mesma cidade e que seria uma das imagens originais de Ninguém escreve ao coronel.
A breve licença que havia conseguido na revista não havia sido suficiente para as longas celebrações que seus familiares e amigos tinham pensado fazer e no dia seguinte os recém casados foram para Caracas, com uma breve escala em Maracaibo. Foi então, no céu compartilhado pelos dois países, que García Márquez falou à sua esposa dos seus sonhos mais caros (exatamente como fariam Amarante Úrsula e o belga Gastón, a "500 metros de altura, no ar dominical dos baldios"): que escreveria um romance chamado La casa e outro sobre o ditador e que sua obra prima seria produzida quando ele tivesse 40 anos. Ela acreditou porque precisava acreditar: aquilo era tudo o que ele podia lhe oferecer, um todo que seria mais que tudo, porque haveria de ser o fruto maduro de sua persistência e de seu talento descomunal.
E acreditou, além do mais, porque ela sabia, desde antes, que seu casamento seria uma associação não apenas a serviço do amor, mas também da literatura. Na constelação de amigos do seu marido, que tanta felicidade e apoio tinham dado a ele, ela viria a ser o centro, a referência zenital que faltava para que uma das maiores façanhas literárias deste século continuasse crescendo e amadurecendo em toda sua envergadura. Mas Mercedes seria, além disso, uma das mulheres essenciais na vida e na obra de García Márquez. Como na cosmovisão dos antigos babilônios, ela vinha para completar o número de plenitude, da ordem completa: o sete, depois de Luisa Santiaga Márquez, a mãe que lhe deu a vida; Tranquilina Iguarán Cotes, a avó que o sufocou de histórias fantásticas e emprestou para ele sua "cara de pau" para narrar; Francisca Cimodesa Mejía, a tia que praticamente o criou e lhe deu olhos para ver a cultura popular; Juana de Freites, a caraquenha que salvou-lhe a vida e contaminou-o de contos de fadas; Rosa Elena Fergusson, a professora que o ensinou a ler e a amar a poesia; e Virginia Woolf, a dama inglesa que lhe deu tantas chaves secretas e essenciais para conceber seu universo literário. Mas a única à qual iria dever a maioria de seus livros seria Mercedes Barcha Pardo, a filha do boticário, incorporando-a com sua própria identidade em três deles e dedicando-lhe outros dois.
Claro que, como recordaria Plinio Mendoza, as primeiras experiências culinárias de Mercedes não foram muito animadoras: o arroz queimava, impregnando o ar da vizinhança e os ovos e bifes tampouco saíam muito favorecidos. Mesmo assim, num instante ela tomou as rédeas do lar com o mesmo caráter de Úrsula Iguarán e pôs ordem no exíguo apartamento que haviam alugado no mesmo bairro de Sán Bernardino. Organizando a "desordem organizada" do marido, encontrou de tudo: originais e recortes de artigos e reportagens, o romance novinho em folha Ninguém escreve ao coronel, o eterno tijolaço La casa, alguns contos recentes e um fardo de umas quinhentas folhas amarrado com uma gravata azul de listras amarelas, que ainda não tinha título. Ela perguntou o que era aquilo e ele pediu que tomasse cuidado, pois era "o romance dos panfletos" de Sucre, começado dois anos antes em Paris e que o guardasse bem porque agora ele tinha muito trabalho na revista Momento e outras prioridades literárias.
Na realidade, as prioridades literárias eram as mesmas do romance dos panfletos, pois desde Londres havia trabalhado em alguns contos que tinham se soltado do universo daquele livro, da mesma forma que antes se soltara o coronel a quem ninguém escrevia. Com Mercedes à frente da casa, agora ele podia dedicar-se durante a noite e fins de semana a trabalhar nos contos que conformariam o volume de Os funerais da Mamãe Grande. Durante a Semana Santa, Plinio Mendoza lhe propôs a travessura de ganhar os concursos de contos e jornalismo que o Jornal El Nacional, o principal do país, dirigido pelo escritor Miguel Otero Silva, acabara de convocar. Mais que divertido, García Márquez achou que seria fácil e pôs mãos à obra. Então, voltando ao mundo de O enterro do diabo e de "Um dia depois do Sábado", escreveu quase que de uma vez só seu quarto relato de Macondo: "A sesta da terça feira". Era o desenvolvimento de uma imagem que o perseguia desde a infância de Aracataca. Um dia, através do pó e do sol ardente, havia chegado ao povoado uma mulher com um ramo de flores numa mão e uma menina agarrada na outra. O rumor, como o calor, propagou-se de imediato pela aldeia toda: "a mãe do ladrão está vindo aí". A imagem daquela mãe tão digna (que bem poderia ser uma transposição da lembrança do próprio García Márquez caminhando com sua mãe pelas ruas de Aracataca quando foram vender a casa de seu avô), vestida de um negro rigoroso, com a menina e o ramo de flores até o cemitério para visitar a tumba do filho assassinado poucos dias antes, não se apagaria jamais, permitindo-lhe escrever naquela Semana Santa um de seus melhores contos. "O melhor", diria ele. No entanto, para o júri do concurso do El Nacional, presidido por Miguel Otero Silva, o conto não mereceu nem mesmo uma menção, da mesma forma que a reportagem romanceada apresentada por Plinio Mendoza sobre a vida e os milagres de Gustavo Machado, o fundador e secretário do Partido Comunista Venezuelano.
Sempre durante as noites e os fins de semana, García Márquez continuou trabalhando ao longo de 1958 nos outros contos de Os funerais da Mamãe Grande ("Um dia desses" havia sido entregue por ele a Néstor Madrid Malo em Barranquilla, para a Revista del Atlántico, onde apareceu em janeiro do ano seguinte): "Nesta terra não há ladrões", "A prodigiosa tarde de Baltazar", "A viúva Montiel", "As rosas artificiais". O que dá título ao livro, que é como a ante-sala de Cem anos de solidão, seria escrito em Bogotá em meados de 1959.
Graças à visita de Richard Nixon a Caracas, entre maio e junho, ele pôde dispor de seis semanas de ócio para continuar trabalhando em seus contos, pois a presença do vice presidente dos Estados Unidos precipitou sua saída – e também a de Plinio Mendoza – da revista Momento.
Nixon havia chegado no dia 13 de maio, quase quatro meses depois da queda de Pérez Jiménez e os setores mais paupérrimos da cidade não tinham esquecido a estrondosa condecoração que o governo do general Eisenhower havia outorgado ao ditador. Por isso o automóvel do vice presidente foi agredido na entrada de Caracas com paus, pedras e cusparadas. Da mesma forma que outros responsáveis pelos meios de comunicação, o diretor de Momento entendeu que deveria apresentar suas desculpas públicas ao governo dos Estados Unidos e, excepcionalmente, escreveu um editorial para o dia seguinte. Plinio Mendoza, então, mandou-o diretamente à merda e saiu batendo à porta de maneira definitiva. Na escadaria encontrou um García Márquez que chegava atrasado, subindo os degraus de dois em dois. "Gabo", disse a ele, "acabo de mandar esse velho à merda". E García Márquez garantiu que não havia nenhum problema: ele também estava de saída.
Com o tempo inteiro à sua disposição, ele pôde, além de avançar em seu livro de contos, finalmente desfrutar após cinco meses a cidade e a praia, ir ao cinema e ao teatro com Mercedes e aprofundar sua amizade com os jovens escritores do Grupo Sardio (Salvador Garmendia, Adriano González León, Luis García Morales, Ramón Palomares, Francisco Pérez Perdomo), tomando cerveja no café Iruña, na frente do Teatro Municipal e falando de William Faulkner e dos clássicos venezuelanos que, apesar de serem insignes antecessores de Jorge Luis Borges, quase ninguém conhecia: José Antonio Ramos Sucre e Julio Garmendia.
Sendo um escritor pobre e recém casado que não podia dar-se o luxo de um ócio prolongado, García Márquez teve que voltar logo, levado por Plinio Mendoza, à cadeia Capriles, em uma de cujas revistas, Élite, havia colaborado quando estava em Paris, com quinze artigos e reportagens. No entanto, desta vez Miguel Ángel Capriles mandou-o para o fim da fila, nomeando-o no dia 27 de junho chefe de redação da mais frívola de suas revistas: Venezuela Gráfica, mais conhecida popularmente por "Venezuela Pornográfica", por causa de seu buquê de moçoilas do mundo do espetáculo com suas roupas escassas. Por ser um trabalho cuja única função era dar de comer, García Márquez até que não achou tão ruim, sempre que não tivesse que assinar nada com seu nome e, excepcionalmente, chegou a assinar um par de textos com suas iniciais. Eram textos militantes, expressão de sua sensibilidade e de suas convicções políticas e sociais, como os de Momento, mas já sem aquela inspiração.
Do ponto de vista formal, as reportagens de Momento são, provavelmente, as melhores de seus dez primeiros anos de jornalista, com exceção de Relato de um náufrago. Recém casado e com 31 anos de idade, García Márquez havia adquirido uma grande maturidade (seus amigos e familiares coincidem em assinalar que ele já nasceu maduro) humana e intelectual, política e ideológica, literária e jornalística e se dava o luxo de escrever com profusão, fluidez, graça e beleza, tratando os temas mais sérios com total familiaridade e falta de solenidade. Textos como "Kelly sale de la penumbra", "El clero en lucha", "La generación de los perseguidos", "Sólo doce horas para salvarlo", "Caracas sin agua" ou as duas que dedicou ao seu país naquele ano – "Colombia: al fin hablan los votos" e "Lleras" – colocam o leitor mais perto do autor de Cem anos de solidão que do de A má hora. Se o García Márquez maduro estava quase completo, então por que motivos a escrita de sua obra-prima iria atrasar quase uma década? A resposta não é nada simples, entre outras razões porque seria preciso primeiro esclarecer se Cem anos de solidão atrasou sua escrita ou simplesmente foi escrita quando tinha que ser. No entanto, a impressão (e, às vezes, convicção) que se tem é que a escrita do romance "atrasou" todos aqueles anos por motivos mais extraliterários que literários propriamente ditos. Se for assim, o primeiro desses motivos teria que ser procurado em Cuba, onde os barbudos da Sierra Maestra acabavam de colocar um ponto final na tirania de Fulgencio Batista, irradiando por toda a América Latina a alvorada da primeira revolução socialista do continente.
Pelas suas convicções políticas e pela profissão, García Márquez e Plinio Mendoza tinham se identificado sempre com o Movimento 26 de Julho, desde aquela tarde em Paris, em 1956, quando tomaram café com o poeta Nicolás Guillén em seu quarto do Grand Hôtel Saint-Michel e ele comentou com os dois que a única esperança que via para Cuba estava nos esforços de um rapaz muito espigado, cabeça-dura e meio maluco chamado Fidel Castro, que estava se movendo rápido lá para os lados do México. O nome não era totalmente desconhecido para os dois colombianos, pois oito anos antes tinha ficado famoso em Bogotá, por causa do acontecimento do dia 9 de abril de 1948, quando o governo conservador da época quis apresentá-lo, junto a outros estudantes cubanos, como o suposto responsável pelo assassinato de Jorge Eliécer Gaitán. Agora, no dia primeiro de janeiro de 1959, Castro havia conduzido a bom porto a revolução que não pôde dirigir em Bogotá e García Márquez e Plinio Mendoza celebraram com alvoroço no terraço do Bello Monte, como fez Caracas inteira e todo resto do continente.
Após uma década de ditaduras e atropelos, os patriarcas começavam a cair como fruta madura. Primeiro tinha sido Juan Domingo Perón, em 1955; depois, Manuel Odría, em 1956; logo chegou a vez de Gustavo Rojas Pinilla, em 1957; e a de Marcos Pérez Jiménez, em 1958. E agora chegara a hora de Fulgencio Batista. Mas a revolução cubana era o único movimento que supunha um salto qualitativo radicalmente diferente: não se tratava de burguesias ou oligarquias derrubado o ditador de plantão que lhes havia arrebatado o poder, mas de guerrilheiros barbudos que, à frente de um povo inteiro, haviam conquistado o poder partindo das montanhas, o que causou admiração, solidariedade e profunda preocupação em toda a América Latina.
Como muitos outros latino-americanos, Plinio Mendoza e García Márquez desejaram estar em Havana para presenciar aquele fervor revolucionário, aquela explosão de esperanças e sonhos adiados. A ocasião apresentou-se pouco depois, no dia 18 de janeiro: García Márquez arrumava sua mesa na Venezuela Gráfica para ir embora para casa e um cubano do Movimento 26 de Julho entrou e disse que havia chegado um aviso expresso de Cuba, para levar os jornalistas que quisessem ir a Havana se informar sobre o processo da "Operação Verdade", montado por Fidel Castro para julgar publicamente os criminosos de guerra da ditadura de Batista. Para García Márquez, que já havia escrito sobre o processo revolucionário cubano numa entrevista com Emma Castro, irmã de Fidel, o convite era uma ocasião feliz. De imediato telefonou para Plinio Mendoza e embarcaram naquela mesma noite, com pouca bagagem, no avião bimotor cubano, uma velharia capturada do exército de batista que exalava "um fedor insuportável de urinas ácidas". Após uma escala de emergência em Camagüey, chegaram a Havana na manhã seguinte, mergulhando de imediato num fervor de bandeiras, uniformes verde-oliva e multidões insones que não encontravam tempo para dormir porque a festa da liberdade não deixava. Fidel Castro era simplesmente Fidel, o líder indiscutível e a esperança de todos. Até os não-fidelistas clamavam seu nome em coro, elevando-o em seus corações e confiscando-o para seus melhores sonhos.
Depois de percorrerem Havana, conversarem com as pessoas e tomarem o pulso da revolução escutando Fidel Castro diante de um milhão de cubanos, García Márquez e Plinio Mendoza puderam então acompanhar a "Operação Verdade". Para que o mundo soubesse que só estavam sendo julgados e executados criminosos de guerra e não todos os seguidores de Batista, como dizia a imprensa norte-americana, Castro tinha convidado observadores e jornalistas de vários países para os julgamentos sumários. Por aqueles dias os julgamentos estavam sendo feitos no estádio esportivo. O réu era Soza Blanco, um dos maiores criminosos de guerra do regime derrotado. Era acusado de Ter matado friamente vários camponeses, que considerou cúmplices do exército rebelde e agora era julgado por um tribunal de barbudos fardados. O estádio estava lotado e, no quadrilátero central, o réu estava na frente do tribunal, vestido com seu macacão azul de prisioneiro. Plinio Mendoza e García Márquez ficaram na primeira fila, quase que aos pés de Soza Blanco, sentindo seu terror glacial de morto iminente. Algemado e abobalhado pela gritaria, os palavrões e o riso do público ansioso por justiça, o condenado congelou o olhar e depositou-o na ponta de seus mocassins italianos até que, ao amanhecer, escutou a sentença que o condenou à morte.
García Márquez, Plinio Mendoza e outros jornalistas assinaram uma inútil petição de revisão do processo, atendendo aos rogos da mulher e das filhas do condenado. Não havia nenhuma dúvida sobre a culpa do réu e a sentença era possivelmente justa, mas o julgamento tiveram falhas evidentes de um tribunal inexperiente e apressado. Então, no dia seguinte os jornalistas assinaram no Hotel Riviera a petição apresentada pela mulher de Sosa Blanco. As filhas, duas belas gêmeas de doze anos, haviam acabado de despertar sua solidariedade com a vida do condenado, embora ele fosse um impiedoso criminoso de guerra que, mais além da justiça revolucionária, tinha se convertido numa apetitosa e carnavalesca presa da morte.
O julgamento e a sentença deixaram nos dois jornalistas colombianos uma impressão que nada iria apagar. García Márquez jamais escreveria sobre isso de forma direta, o que talvez seja um sinal de sua profunda e estremecedora impressão. O julgamento, as testemunhas e a farta documentação surgida contra Soza Blanco lhe serviriam de inspiração para esboçar uma primeira estrutura de O outono do patriarca, o romance que no princípio haveria de ser um longo monólogo do ditador latino-americano, enquanto é julgado publicamente num estádio. Dez anos depois, a estrutura seria mudada e enriquecida, conservando a mesma de O enterro do diabo: monólogos alternados ao redor de um cadáver.
Apesar da impressão permanente de circo romano que aquela experiência deixou nos dois, eles regressaram a Caracas quatro dias depois com o melhor dos ânimos e dispostos a continuar contribuindo com seu grãozinho de areia para que a revolução cubana concretizasse seus propósitos anunciados, de justiça, democracia, paz, igualdade, educação e saúde, pilares sobre os quais haveria de ser construído o "novo homem" latino-americano.
Enquanto García Márquez continuava trabalhando em Venezuela Gráfica e escrevendo e polindo pelas noites sua obra literária, Plinio Mendoza regressou para a Colômbia no final de fevereiro, impelido pelos longos anos de ausência de seu país. Embora acabassem de oferecer-lhe a direção técnica da revista Élite, ele voltou para a Colômbia empurrado pela xenofobia crescente que havia na cadeia Capriles (um reflexo da endemia nacional que já invadia a Venezuela). Consciente da situação adversa que se apresentava, García Márquez continuou em Caracas, mas não por muito tempo: sua idéia era ir para o México, onde seu amigo Álvaro Mutis estava encarcerado, para continuar escrevendo e se dedicar ao cinema.
Sem trabalho fixo em Bogotá, Plinio Mendoza transformou-se em jornalista free-lance, publicando colaborações esporádicas nas revistas Cromos e La calle, até que um belo dia de abril, através de Guillermo Angulo, conheceu um mexicano bêbado e divertido que se apresentou como enviado especial de Havana para toda a América Latina, com a missão de montar a Prensa Latina, a nova agência noticiosa da revolução. Plinio Mendoza disse que estava disponível e que, além disso, tinha um amigo em Caracas, com a mesma disposição. Os dois foram contratados, Plinio como diretor e García Márquez como redator, mas com o mesmo salário. Tendo recebido o mesmo orçamento, dez mil dólares, Plinio se apressou em chamar seu amigo. Disse que ele deveria regressar logo para a Colômbia, que não podia explicar nada em detalhes, mas que era uma agência de notícias na qual os dois iriam ser os chefes. Só quando García Márquez chegou com Mercedes ao aeroporto El Dorado, em Bogotá, ficou sabendo de que agência se tratava e achou a idéia formidável. Pela primeira vez em seus onze anos como jornalista, aparecia a ocasião de fazer um trabalho independente dos centros capitalistas internacionais de opinião e de acordo com suas convicções ideológicas e políticas, o que compensava de sobra o sacrifício de Ter de voltar como jornalista para a andina e fria Bogotá.
Com um bom salário e bons recursos, os dois pioneiros da Prensa Latina montaram seu escritório em plena Sétima avenida, entre as ruas 17 e 18, na frente do café Tampa. Encerrados com um telex, um receptor de rádio que funcionava ininterruptamente e várias máquinas de escrever, sua missão era receber e enviar notícias para Havana. Um trabalho paralelo era o de Serviços Especiais, através do qual deveriam enviar reportagens sobre a história, a política e a cultura da Colômbia. García Márquez desempoeirou algumas de suas velhas reportagens da época de El Espectador e enviou-as para Havana de forma resumida. Mas sua missão mais árdua e meritória estava fora da agência, pois através de amizades e de uma certa astúcia diplomática, tinham de vencer a resistência da imprensa colombiana em aceitar os despachos da Prensa Latina, tarefa que se complicava à medida que a revolução cubana ia se radicalizando.
Naquele momento de fervor revolucionário, a agência converteu-se de repente na Meca da esquerda colombiana, passando por ela, quando ainda compartilhavam pelos mesmos sonhos, ministros, embaixadores e chefes guerrilheiros dos anos 60 e 70. Faziam reuniões, conferências, leituras e surgiam algumas discussões que continuavam depois no café Tampa. Como nem tudo podia ser simples teoria e simples discussões, chegaram a ser organizadas, naquele mesmo escritório, as juventudes do Movimento Revolucionário Liberal (MRL), dirigido por Adolfo López Michelsen, que era então o filho pródigo e travesso da oligarquia liberal. Mas houve ações mais concretas e comprometidas no escritório da Prensa Latina, como o recrutamento de voluntários para desembarcarem na República Dominicana e derrubar o ditador Trujillo Molina. Todas essas atividades paralelas ou adjacentes, bem como sua solidariedade frontal com Cuba, eram ventiladas por Plinio Mendoza e García Márquez numa revista de velho título, mas de nova inspiração: Acción Liberal, cuja direção era dividida pelos dois.
Jovem ainda, mas de uma maturidade sem resquícios, com um trabalho coerente e bem remunerado, jornalista esplêndido e escritor singular, García Márquez era na época um homem feliz, muito mais que no ano anterior, quando, como muito de seus compatriotas, tinha sido em Caracas um colombiano "feliz e indocumentado". Nem mesmo a apreensão crônica que Bogotá causava nele, com seu céu encoberto e sua garoa eterna, sua sina fatalista e suas maneiras engomadas, podia enevoar a felicidade transparente do escritor. Pela primeira vez tinha um apartamento decentemente mobiliado, no alto de Chapinero, na rua 59 com a Terceira Avenida, onde brilhava um quadro de seu amigo Álvaro Obregón mostrando um peixe prateado, em contraste com a cidade cor-de-cinza que entrava pela janela. Como em Paris e Caracas, García Márquez usava jeans, suéteres de cores berrantes, sapatos com um ligeiro reforço nos saltos e ternos escuros e gravatas solenes nas ocasiões especiais. Ainda muito magro, com seu cabelo crespo e seu bigode negro, estava sempre enevoado pela fumaça de seus inumeráveis cigarros baratos e a nicotina se estratificava nos dedos da sua mão direita. Mercedes, a poucos meses de dar à luz, usava cabelos curtos, negros como seus olhos e se resguardava entre cachecóis e calças compridas do frio bogotano. Recatada, séria, amável e distante, mas ao mesmo tempo com um ar de travessura feminina, Mercedes tinha se revelado uma mulher serena, sensata e bem informada: a melhor companhia do escritor.
Em seu escritório pequeno, García Márques tinha poucos livros (a maioria havia sido deixada mundo afora), destacando-se as edições encadernadas de Dickens, García Lorca e Grahan Greene. Junto da escrivaninha, onde trabalhava todas as noites, jaziam empilhadas centenas e centenas de folhas amarelas de papel-jornal: ele sempre foi um dilapidador de papel, pois cada vez que cometia um simples erro de datilografia arrancava a folha e tornava a começar. Tinha feito isso desde O enterro do diabo, o primeiro e distante romance que agora, em meados de agosto, via finalmente ser resgatada do esquecimento graças ao Primeiro Festival do Livro Colombiano.
A promoção dos festivais do livro era uma idéia do escritor peruano Manuel Scorza, que vinha percorrendo o continente, do Brasil e do Peru até Cuba e o México. Com muito bom critério e excelente divulgação, o festival escolhia dez títulos literários de cada país, entre clássicos e contemporâneos e os lançava em tiragens individuais de dez mil exemplares. A idéia teve uma acolhida entusiasta em todos os países e Scorza chegou a ficar francamente rico, até que a proibição de Fidel Castro de tirar dinheiro do país agarrou-o com todos os seus dólares invertidos no Primeiro Festival do Livro Cubano. Segundo o jornalista Alberto Zalamea, coordenador editorial do Festival do Livro Colombiano, este fiasco econômico foi determinante para que Manuel Scorza se transformasse depois em escritor. Seja como for, O enterro do diabo foi beneficiado pela idéia do peruano, já que teve três edições com uma tiragem total de trinta mil exemplares. Foi então que García Márquez adquiriu certo renome nacional como escritor e até mesmo certa popularidade, nove anos depois de ter escrito seu primeiro romance e quatro depois de tê-lo publicado. Foi também a primeira vez que apareceu em público autografando exemplares de um livro dele, ao lado de seu amigo, colega e mestre Eduardo Zalamea Borda, o subeditor de El Espectador que havia publicado seu primeiro conto e prognosticado que com ele nascia o futuro gênio do romance colombiano.
Porém, mais que esse tardio reconhecimento de escritor, o que mantinha García Márquez pleno
de felicidade era o nascimento de seu primeiro filho, no dia 24 de agosto. De compleição forte e
um grande sentido de humor, Rodrigo transformou-se num instante no melhor brinquedo do casal, um brinquedo que
compartilhavam com o padrinho Plinio Mendoza, que chegou a ser um membro a mais da família. Sempre entre
amigos, que é como o escritor mais gosta, Rodrigo foi batizado em seguida por Camilo Torres. Mais que pastor
de almas, quem batizou o primogênito dos García Márquez foi o sonhador e poeta que havia em
Camilo Torres.
Camilo foi o único padre realmente amigo de García Márquez. Os dois tinham se conhecido na universidade e, antes que o direito e a política, os unia a paixão exaltada pela poesia, junto a Gonzalo Mallarino e Luis Villar Borda. Formavam o quarteto literário universitário da época, a ponto de o jornal liberal La Razón Ter cedido a eles uma página semanal para que expusessem suas inquietações literárias e humanísticas. Mas Camilo Torres foi varrido pelo vendaval místico em meados de 1947, abandonou a universidade, deixou a namorada e foi para o seminário. Sua mãe alcançou-o na estação do trem e o reteve uma semana a mais. García Márquez e outros companheiros foram despedir-se em sua casa e ele confessou-lhes que não tinha jeito, que sua vocação era sincera e profunda e que iria para o seminário de qualquer maneira. Camilo Torres formou-se sacerdote quando o escritor estava no El Espectador e depois estudou sociologia na Universidade de Lauvaine, coincidindo na Europa com García Márquez, Luis Villar Borda e Plinio Mendoza. De volta à Colômbia, combinou a cátedra de sociologia na Universidade Nacional com sua dedicação aos pobres dos bairros marginalizados ao sul de Bogotá. Quando o escritor o reencontrou, em 1959, Camilo Torres já era um padre entregue de corpo e alma aos pobres e aos mais desprotegidos. Com freqüência ia almoçar no apartamento dos García Márquez e até comparecia a algumas festas dos fins de semana. Certo dia, apareceu com um ladrão e pediu-lhes o favor de escondê-lo em casa. É uma história ilustrativa do grande coração de Camilo Torres e da realidade que nutre as ficções do autor.
O ladrão era um saqueador inveterado e contumaz de casas, mas na maneira saudável dos ladrões de As mil e uma noites. Cada vez que saía da cadeia a polícia o perseguia, tirava tudo o que ele tivesse, mesmo que não fosse roubado e tornava a metê-lo preso. Era uma espécie de chantagem contínua. Então, para protegê-lo, Camilo Torres levou-o para a casa dos García Márquez, enquanto procurava um emprego para ele. O homem tinha o ar misterioso e o espírito sombrio da sua profissão e na mesa contava ao casal as venturas e desventuras de seu ofício em domicílio. O mais curioso é que às vezes eles saíam e o ladrãozinho ficava cuidando da casa. Até que um dia Camilo Torres conseguiu um emprego para ele e levou-o embora. Semanas depois, a empregada dos García Márquez abriu o jornal na página policial e encontrou a fotografia de um homem morto e exclamou: "Mas esses sapatos são do me patrão!" Lá estava a notícia: um policial havia matado o ladrão. Camilo Torres recolheu o cadáver e enterrou-o, pagando do próprio bolso. Segundo García Márquez, este foi um dos fatos que começaram a transformar a consciência caritativa do sacerdote em uma consciência revolucionária radical, a mesma que levou-o anos depois para a selva, onde morreu combatendo como guerrilheiro nas filas do Exército de Libertação Nacional. Depois, sua mãe, Isabel Restrepo, exilou-se em Cuba, onde se converteu numa espécie de mãe adotiva de Fidel Castro, que seria outro dos grandes amigos do escritor.
Desses episódios circulares, como serpentes que mordem a própria cauda, estaria cheia não
apenas a vida do escritor, confundindo-se também com a de seus familiares e amigos, mas a própria
história da Colômbia. Foi o caso, por exemplo, do pacto da Frente Nacional, o acordo espúrio
entre liberais e conservadores que alentou, por volta de maio e junho daquele ano, a escrita de "Os funerais
da Mamãe Grande".
No momento em que se recuperava a democracia na Venezuela e em outros países do continente e se consolidava em Cuba a revolução, A Frente Nacional foi uma grande decepção para García Márquez. Foi provavelmente quando o escritor, que vinha estudando com muita tenção a história política e militar de seu país para documentar o pano de fundo de Cem anos de solidão, terminou de captar esse particular sentido circular e imutável da história colombiana. Neste e em outros sentidos, "Os funerais da Mamãe Grande", escrito em pleno furor da Frente Nacional, foi o elo decisivo que o conduziu à sua obra maior.
Fundindo história e política, mito e lenda, memória local e memória familiar, García Márquez recuperou em sua concepção a imagem da tia Francisca Cimodesea Mejía (a tia Mama que o criou e que mandou na casa dos avós como uma perfeita coronela) e da matriarca de Sucre, María Amalia Sampayo de Álvarez (que empresta ao relato suas fazendas, sua mansão de dois andares, seu anacronismo e sua ignorância supina). Tomou da tradição local a lenda da marquesinha de La Sierpe (a "grande mamãe" colonial espanhola) e a história de poderio e exploração da United Fruit Company (a "Mãezinha Iunái), enquanto tirava da história nacional os acordos políticos da Regeneração e da Frente Nacional.
Para García Márquez, a solidão será sempre o contrário da solidariedade. Em seus aspectos histórico, social, político e econômico, a solidão já aparecia esboçada em O enterro do diabo e agora, em "Os funerais da Mamãe Grande", trata-se de aprofundá-la em seus aspectos histórico e econômico: agora, ele sabia que a peste suprema da solidão é, acima de tudo, um mal histórico, que vem desde os tempos da Colônia. A fortuna da primeira Mamãe Grande havia começado com três encomendas concedidas por célula real, o que, em virtude dos intrincados matrimônios incestuosos e de conveniência, permitiu à última Mamãe Grande acumular uma enorme fortuna material e moral, visível e invisível, que englobava desde cinco municípios, onde viviam trezentas e cinqüenta e duas famílias de parceiros, até os partidos tradicionais, a moral cristã e a soberania nacional, passando pelas cores da bandeira, pela pureza da linguagem da Atenas Sul-americana, o perigo comunista, os direitos do homem, as rainhas de beleza e todo o havido e o por haver da nação.
Mais que em O enterro do diabo, esta história é contada a partir da perspectiva do rumor popular que, ao exagerá-la e manipulá-la, a converte em mito e lenda, na realidade hiperbólica, torrencial, atingindo a sonoridade de um riso carnavalesco. No entanto, este talvez seja o riso mais grave que vamos encontrar na obra de García Márquez, pois constitui, em si, a raiva disfarçada e a visão mais crítica do autor sobre a história e a política de seu país. Além da anedota, o que lemos em "Os funerais da Mamãe Grande" é que o tempo da história de Macondo foi congelado graças ao absoluto poder econômico, político e espiritual de Mamãe Grande e de seus familiares, ficando apenas um tempo paradoxal, sem base histórica, que corrói a mata para que tudo continue igual.
Assim, o cenário desse relato e de Cem anos de solidão já não seria o de ma violência vizinha e iminente, como acontece em Ninguém escreve ao coronel, A má hora, e na maioria dos contos de Os funerais da Mamãe Grande, mas, conforme havia sido postulado originalmente em O enterro do diabo, o da ampla realidade mítico-lendária, ancestral e essencial, que na vida diária se traduz em uma cotidianeidade imóvel, onde sempre parece que é segunda feira, onde os dias acabam passando sem passar.
Em suma, o García Márquez mais politizado e comprometido, que agora trabalha para a agência Prensa Latina e expressa sem disfarces sua solidariedade com a revolução cubana, converteu-se em um criador mais sutil, procurando que seu compromisso político e sua filiação ideológica de cidadão não "contaminem" sua arte.
Desta maneira, após o grande salto qualitativo de "Os funerais da Mamãe Grande", o García Márquez maduro está quase completo, às portas de sua obra prima (o que também pode ser apreciado nas reflexões contidas em dois breves ensaios dessa época: "Dos o tres cosas sobre la novela de la violencia" e "La literatura colombiana: una fraude a la nación"). No entanto, isso seria adiado por mais sete anos. Em meados de 1959, o autor voltou ao sempre adiado "romance dos panfletos", concluindo um ciclo de sua obra praticamente encerrado em Caracas. Conforme recordaria Plinio Mendoza, o escritor tirou a poeira das quinhentas páginas ainda sem título, fez um severo corte nos personagens e tramas dispersas, driblou a influência inicial de Faulkner e, trabalhando sempre pelas noites e durante os finais de semana, em três ou quatro meses terminou uma primeira versão do "tijolaço", como era chamado o romance entre os amigos, embora já tivesse um título provisório: "Os catorze dias da semana". Após um período de quarentena, continuou trabalhando no romance até o final de setembro de 1960, quando Jorge Ricardo Masetti, o fundador da Prensa latina, passou por Bogotá e os dois combinaram que García Márquez fosse primeiro para Havana, de onde seria enviado para outro lugar.
O cinema, enquanto isso, continuou sendo uma de suas grandes prioridades. Pouco antes de viajar até Havana,
andou considerando a possibilidade de pedir demissão da Prensa Latina, voltar para Barranquilla e fundar
uma escola de cinema à imagem e semelhança do Centro Experimental de Cinematografia de Roma. Chegou
até mesmo a redigir um esboço do que seria essa escola e fez com que circulasse em certos ambientes
intelectuais de Bogotá. Durante aqueles dias de setembro, García Márquez viajou para Barranquilla,
convidado pelo Centro Artístico da cidade, que era dirigido pelo seu amigo Álvaro Cepeda Samudio,
para discutir com outros delegados os estatutos da futura Federação Colombiana de Cineclubes. O escritor
participou na condição de delegado do Cineclube de Bogotá, na companhia de seu fundador, Hernando
Salcedo silva. O resto dos delegados eram de Medellín, Cali e Barranquilla.
Trancados dia e noite no Centro artístico, os delegados chegaram a um acordo de princípios e de estatutos, de cuja redação ficaram encarregados García Márquez e Alberto Aguirre, o delegado do Cineclube de Medellín. Na reunião final, Barranquilla foi designada sede da Federação e Álvaro Cepeda Samudio, seu secretário. Mas tudo terminou ali, porque no pileque seguinte Cepeda Samudio perdeu, num táxi, os estatutos e o acordo de princípios.
Alberto Aguirre haveria de recordar que, no dia seguinte, cansados de esperar por Cepeda Samudio, que os havia convidado para almoçar, García Márquez e ele decidiram ficar e comer no próprio Hotel del Prado. Durante o almoço, o escritor comentou que Mercedes havia telefonado de Bogotá, pedindo seiscentos pesos, pois estavam a ponto de cortar a água, a luz e o gás da casa. Alberto Aguirre era advogado, cinéfilo, livreiro e um editor de boa vontade: havia publicado alguns livros e estava editando a obra completa do poeta León de Greiff, mais por amor à arte que pelo negócio em si. Tinha lido, dois anos antes e com verdadeiro deleite, Ninguém escreve ao coronel, na publicação feita pela revista Mito, de Bogotá. Como o texto ainda não tinha sido aceito por nenhuma editora e como estava claro que o autor andava curto de dinheiro, Aguirre achou que era duplamente oportuno propor a García Márquez a edição da obra. Então, depois do almoço, deixou escapar: "Gabo, eu quero editar Ninguém escreve ao coronel". García Márquez, surpreendido, respondeu: "Você está completamente louco. Sabe que na Colômbia ninguém vende livros? Lembre-se do que aconteceu com a primeira edição de O enterro do diabo". Havia, além do mais, um inconveniente legal: García Márquez tinha assinado um contrato com uma editora peruana para editar o primeiro livro. Como aquela edição era um fato remoto, Aguirre insistiu: "Não só vou editar, como vou adiantar alguma coisa dos direitos autorais". E ali mesmo fecharam um contrato verbal, pelo valor de oitocentos pesos, dos quais duzentos seriam pagos adiantados.
Um ano depois, quando o editor anunciou a saída do livro, García Márquez se queixaria dizendo que ele era "o único editor do mundo que faz contratos verbais de pileque, estendido numa cadeira de balanço feita de taquara e no mormaço dos trópicos". Apesar da boa vontade do editor e da excelente acolhida pela crítica nacional e internacional, as previsões do autor se cumpriram fatalmente: daquela primeira edição de dois mil exemplares, só foram vendidos oitocentos.
A passagem de Jorge Ricardo Masetti por Bogotá, no final de setembro, iria entortar (ou endireitar) uma
vez mais o destino do escritor.
Masetti era amigo e compatriota de Che Guevara e Fidel Castro havia depositado uma grande confiança nele desde que se conheceram em Sierra Maestra. Um comentário ocasional de Masetti na televisão cubana, durante os primeiros meses da revolução, tinha sido o ponto de partida da fundação da Prensa Latina, cabendo a ele o privilégio de ser seu primeiro diretor. Da mesma forma que Guevara, Masetti era vital, imaginativo, audaz e estava visceralmente em guerra com a burocracia dos comunistas pró-soviéticos. Desde o primeiro momento sonhou em fazer da Prensa Latina a melhor agência do mundo, evitando que aqueles burocratas se apoderassem dela. Era um trabalhador insone a serviço da revolução cubana. Fazia freqüentes viagens pelos países latino-americanos para conhecer pessoalmente os representantes e correspondentes da agência e dar novas instruções; e, por isso, naquele momento estava passando dois dias em Bogotá, a caminho do Brasil. Plinio Mendoza haveria de recordar que, certa noite, enquanto conversavam no apartamento de García Márquez, Masetti de repente disse aos dois que não podia tê-los na mesma cidade, porque precisava de gente em outros lugares e que deveriam decidir qual dos dois iria com ele. Decidiu-se que seria García Márquez, pois Plinio Mendoza desejava retomar a vida em seu país, depois de vários anos de ausência.
A idéia era que o escritor passasse alguns meses em Havana para ficar em dia com o funcionamento da agência, antes de mandá-lo a outro lugar. García Márquez viajou no final de setembro, via Barranquilla, fazendo uma pequena escala em Camagüey, onde pela primeira vez encontrou-se com Fidel Castro. O comandante estava vindo do interior da ilha, onde havia inaugurado uma granja de frangos, chegou ao pequeno aeroporto morrendo de fome e pediu um frango – que não havia. Então Fidel armou um longo e incandescente discurso sobre os inconvenientes de os aeroportos não terem frango, principalmente nos lugares por onde ainda passavam passageiros norte-americanos. Através de Celia Sanchez, García Márquez cumprimentou-o e disse rapidamente que era da Prensa Latina.
Graças à sua seriedade, à sua capacidade de trabalho e à sua indiscutível qualidade de escritor, García Márquez rapidamente fez amizade com Jorge Ricardo Masetti e com Rodolfo Walsh, o escritor argentino encarregado dos Serviços Especiais. Na realidade, o que mais agradava García Márquez era a possibilidade de estar perto de um escritor que ele já admirava desde os tempos de El Heraldo. Havia tido um primeiro contato com Walsh no ano anterior, quando o argentino fez uma breve escala em Barranquilla, vindo da argentina, do Uruguai e do Brasil e García Márquez foi de Bogotá encontrá-lo, para receber instruções sobre os Serviços Especiais. O que mais interessava, porém, não era o trabalho na agência e sim poder conhecê-lo e falar de suas magníficas histórias policiais, dos contos de Variações em Vermelho, cujas estruturas perfeitas o tinham entusiasmado fazia anos. Walsh, porém, evitou falar de seus próprios contos e deu algumas breves instruções ao seu discípulo e subordinado enquanto tomavam café ali mesmo, no aeroporto.
Apesar da desilusão de escritor, García Márquez percebeu que Rodolfo Walsh era, além de tudo, um excelente jornalista e não perdeu a esperança de tornar a vê-lo. E agora, no coração da agência, veria como seus desejos se cumpririam, à medida que o escritor foi abrindo as portas de suas reservas e começou a aceitá-lo como o autor de O enterro do diabo e de Ninguém escreve ao coronel. Entre o fervor revolucionário, a paixão pelo trabalho e o sarampo literário, os dias e as noites passaram voando para o jovem escritor durante aqueles três meses em que permaneceu em Havana.
A cidade tinha se transformado numa imensa barricada, pois a contra-revolução era um câncer cotidiano e os cubanos esperavam uma invasão norte americana a qualquer momento. Com os sacos de areia nos edifícios, as grossas tábuas no pavimento e os fuzis em guarda permanente, La Rambla, onde ficava a sede da Prensa Latina, era menos uma rua e mais uma trincheira pronta para a luta. Havana era uma cidade insone, como toda Cuba e como todos os jornalistas nacionais e estrangeiros. Os trabalhadores da Prensa Latina mal fechavam os olhos e isso quando caíam mortos de sono aos pés do teletipo, da máquina de escrever ou da câmara fotográfica.
Orientado pelo seu cicerone Ángel Augier, um redator muito próximo a Masetti, García Márquez foi alojado no próprio edifício do Retiro Médico onde funcionava a agência, dividindo um apartamento do vigésimo andar com o jornalista brasileiro Aroldo Wall. Era um apartamento pequeno, com uma sala, dois quartos e um terraço aberto ao mar encantado do Malecón e da baía Muelle, enquanto ao leste via-se a imagem fantástica da Havana Velha coroada pelo Capitólio, como um imenso bolo de aniversário.
Na desordem daqueles dias, García Márquez e seus companheiros comiam a qualquer hora no restaurante Las Cibeles, no térreo do edifício, ou no Maracas, a um quarteirão e meio de distância. Esses dois lugares e o quinto andar, onde funcionava a Prensa Latina, são praticamente a única paisagem que o escritor conheceu naqueles três meses, pois passava o tempo inteiro trabalhando, enquanto, com seu bom humor caribenho, comentava com Masetti: "Se alguma coisa é capaz de afundar essa revolução, é o excesso de gasto de luz". Os jornalistas podiam ir dormir às cinco da manhã, ou acordar às cinco da tarde. O que importava era o trabalho até o limite de sua resistência.
García Márquez era um jornalista insone e itinerante, que tomava nota de tudo no complexo funcionamento da agência, para poder cumprir a missão de montar uma nova sucursal no lugar para onde fosse enviado, enquanto Walsh queria que ele fosse seu ajudante nos Serviços Especiais. Os três ficaram tão amigos que quando Walsh conseguiu decifrar as mensagens cifradas da CIA sobre os preparativos da invasão da Baía dos Porcos, Masetti chamou o colombiano para que compartilhasse com eles aquela felicidade suprema de jornalista. Foi o auge e García Márquez recordaria aquele momento como um dos mais felizes de toda a sua vida.
A descoberta ocorreu graças a uma afortunada casualidade, quando Masetti, de seu quarto de Babel, acompanhava, como todos os dias, os despachos das diferentes agências de notícias para avaliar seu trabalho e poder melhorar o da Prensa Latina. De repente, surgiu num dos teletipos um monte de parágrafos caóticos da Tropical Cable, filial da All American Cable na Guatemala e Masetti pensou que aquilo podia Ter alguma lógica oculta. Passou o material para Rodolfo Walsh, que com o auxílio de um Manual de Criptografia, conseguiu decifrar tudo depois de várias noites em claro: era realmente um relatório da CIA, mandado da Guatemala para Washington, no qual se falava dos preparativos para o desembarque armado na Praia Girón, em abril do ano seguinte. O entusiasmo de Masetti foi tão grande que ele não sossegou enquanto não inventou um jeito de enviar Walsh aos campos de treinamento contra-revolução, disfarçando-o de pastor protestante e vendedor de bíblias a domicílio. Mas o plano ficou no papel, porque o governo cubano informou que já tinha seu próprio projeto.
É compreensível que naqueles dias de emergência a literatura tenha ficado relegada a um segundo ou terceiro plano. Ángel Augier recordaria Ter ouvido García Márquez falar de seu desencanto com a literatura como meio de expressão do homem de sua época. Suas preferências estavam centradas no cinema. O colombiano, porém, era um escritor nato e não podia se safar assim facilmente do sarampo literário. Uma de suas maiores distrações naqueles dias fragorosos era poder falar de literatura, sobretudo de estruturas narrativas, com Rodolfo Walsh e com sua esposa, Poupée Blanchard, em conversas que eram extremamente discretas, quase clandestinas. Por isso, quase ninguém na Prensa Latina se lembraria de tê-lo ouvido falar de literatura ao longo dos três meses em que ficou na agência. Acontece que falou e continuou lendo como sempre, gota a gota, nas poucas horas de folga que tinha no apartamento 202 do Retiro Médico. E mais: também quase que clandestinamente, visitou naqueles dias Félix B. Caignet, o famoso autor de O direito de nascer, que o escritor tanto havia escutado na infância e adolescência.
Caignet foi um de seus mestres secretos e convenceu-o da necessidade de que suas narrativas não fossem apenas legíveis, mas audíveis, como nas novelas orais. Foi assim que García Márquez, com toda sua admiração diante do velho mestre das radionovelas, apresentou-se um belo dia em sua casa com o tijolaço impossível dos originais de La casa, aquele tronco protéico que não se concretizava, mas do qual haviam se descolado total ou parcialmente O enterro do diabo, Ninguém escreve ao coronel, A má hora e a maioria dos contos de Os funerais da Mamãe Grande. Caignet ouviu, leu e admirou e aconselhou-o sobre aquilo que considerava os dois grandes segredos da arte da narrativa. Disse que, para manter cativa a atenção do leitor, era preciso acontecer sempre alguma coisa em cada parágrafo (uma mosca que voa, um copo que quebra), porque as pessoas gostam mesmo é de que lhes contem histórias e não que lhes façam descrições prolixas e divagações tediosas. O segundo conselho foi este: a licença do hipérbato, ou seja, da inversão da ordem da frase, nem sempre casa com a felicidade da narrativa, porque o autor e o leitor encontrarão em cada parágrafo frases incômodas, confusas, sobre as quais acaba querendo passar como quem esquiva obstáculos. Quando isso acontece, não existe outro remédio a não ser colocar as frases de acordo com a rigorosa ordem da sintaxe castelhana e que os complementos circunstanciais sejam colocados de menor a maior, segundo seu número de palavras. Por exemplo, não se deve escrever "na casa de Maria, ontem", mas "ontem, na casa de Maria". Caignet concluiu dizendo que isso, que parecia bobagem, no fundo não era, porque são truques para impedir que o leitor se canse evitando frases incômodas, contrárias ao ritmo natural da respiração e consegue-se que ele aceite fluida e naturalmente o parágrafo inteiro.
García Márquez já vinha fazendo isso em suas melhores páginas, mas os conselhos de Félix B. Caignet se fariam mais presentes a partir de Cem anos de solidão.
O único desencanto que García Márquez iria sofrer durante aqueles meses fervilhantes de Havana
foi ver os sectários comunistas de Aníbal Escalante irem se apoderando de uma revolução
na qual tinham se arriscado muito pouco. Mas não havia nada que pudesse ser feito, porque era uma usurpação
anunciada desde o momento em que, empurrada pela agressão norte americana, Cuba começava a entregar-se
ao braços da mãe União soviética.
García Márquez conhecia-os muito bem em seu próprio país. Eram revolucionários de salão, comunistas de gravata, pastores de Moscou que pregavam um marxismo esclerosado dentro do qual queriam meter, como numa forma de gesso, a realidade nacional, sem se importar em ver se ela cabia ou não, se aquilo era procedente ou um mero dogmatismo de sectários. Na Colômbia, a esquerda imaginativa os chamava depreciativamente de "mamertos", por causa da sua incapacidade de pensar a realidade concreta como verdadeiros marxistas, ou talvez por causa de sua inabilidade para lançar-se em qualquer façanha revolucionária. García Márquez havia tido uma tímida aproximação com suas fileiras, até que um belo dia se atreveram a sugerir-lhe a maneira como devia escrever ou não e até que no verão de 1957 conheceu in situ o socialismo dos países do Leste.
Ao contrário de muitos de seus contemporâneos e colegas, nunca diria nem faria nada contra os comunistas, mas sua identificação com eles não iria muito além de suas simpatias de juventude. Se agora apoiava sem reservas a revolução cubana e iria trabalhar dois anos na Prensa Latina, era porque acreditava que dirigentes como Fidel Castro e Che Guevara haviam encontrado finalmente um caminho diferente do estereotipado ranço proposto por Moscou para Cuba e para a América Latina.
No entanto, lá estavam outra vez os mamertos, tomando posições de maneira implacável e sigilosa em todos os setores da sociedade, da política e da cultura, com a permissividade do Movimento 26 de Julho, pois se não houvesse um partido à soviética, não haveria ajuda soviética. Era assim e ponto final. A Prensa Latina, portanto, tornou-se um objetivo prioritário para a nova classe sectária de Aníbal Escalante, que começara um assédio gradativo e sistemático. Para García Márquez e Plinio Mendoza, tudo isso era previsível desde que o próprio Masetti lhes havia comunicado que o partido os vigiava através de um espião nos escritórios de Bogotá. "Eles", como eram chamados pelos próprios fidelistas, sabiam muito bem que Masetti, Walsh, García Márquez e Plinio Mendoza, por mais de esquerda que fossem, nunca seriam de sua seita burocrática. Certa noite, ocuparam a Prensa Latina, com o pretexto de fazerem uma reunião política, mas Masetti, que acabava de fechar o escritório com García Márquez, disse a eles que não queria nenhuma reunião sem o resto de seus companheiros e mandou-os dormir. Mais tarde, segundo conta Plinio Mendoza, tiraria muitos deles da agência e mandaria outros para serem correspondentes em países do leste Europeu. Mas a brecha entre "eles" e os revolucionários, que eram a imensa maioria, seria cada vez mais larga e irreversível. Com os ventos da história a seu favor (a contra-revolução continuava mais ativa que nunca, enquanto Tio Sam preparava sua invasão), seus olhos e ouvidos esparramaram-se por todos os lados, introduzindo a cultura da suspeita como primeira forma de comportamento social. Qualquer coisa – uma piada, uma brincadeira, uma palavra a mais ou menos, uma gravata norte americana ou um par de sapatos italianos – era motivo de suspeita para os mamertos. A Prensa Latina começou a encher-se de silêncios, olhares significativos e o humor e o caráter expansivo dos cubanos começaram a ser contidos. Sua onisciência ouvia, via e previa tudo. Assim, até o próprio García Márquez ficou transtornado quando soube que "eles" tinham ficado sabendo ao mesmo tempo que ele qual seria seu próximo destino: Montreal.
Depois de ter sido treinado durante três meses em todas as tarefas da agência, Masetti havia acabado
de propor a ele, de forma confidencial, que fosse para o Canadá abrir a sucursal da Prensa Latina. García
Márquez, mesmo sabendo que não iriam durar muito mais em seus postos, regressou a Bogotá no
final de dezembro, para apanhar Mercedes e Rodrigo e viajou a Nova York no começo de 1961, a caminho de
Montreal. Pouco antes de abandonar Havana, deu um pulo de três dias até o México, para ver
seu velho amigo, o poeta Álvaro Mutis, que já tinha saído da prisão de Lecumberri e
que ele não via há cinco anos e meio. Em sua casa na Rua Adolfo Prieto, na Colonia del Valle, falaram
dia e noite da vaina,
como tinham feito sempre e García Márquez sentiu a possibilidade concreta de morar no México
algum dia. Iria conseguir muito antes do que pensava.
A temporada em Nova York tinha sido prevista como uma escala enquanto conseguiam os vistos para ele e para sua família continuarem até Montreal. Mas os vistos não chegaram nunca e o escritor acabou ficando por lá, pois havia falta de pessoal na sucursal da agência. No dia 13 de março de 1961 ele estava na Casa Branca, como correspondente, escutando o discurso histórico no qual o Presidente John Kennedy anunciou seu projeto espetacular da Aliança para o Progresso, "um emplastro de emergência para fechar a passagem aos novos ventos da revolução cubana". Mas os quase seis meses em que permaneceu nos Estados Unidos foram passados em Nova York, vivendo os momentos cada vez mais tensos e difíceis de sua vida. Na medida em que a revolução cubana ia se radicalizando, mostrando sua verdadeira face ideológica, a campanha anticartista da imprensa e do governo dos Estados Unidos tornava-se cada vez mais histérica, acendendo os ânimos e facilitando a coesão da numerosa colônia de exilados, que ameaçavam todos os dias os correspondentes da Prensa Latina. García Márquez e seus companheiros tinham que trabalhar, na falta de armas, com tubos e pedaços de ferro ao alcance da mão. As ameaças telefônicas incluíam todo tipo de insolência e chegaram a ser tão numerosas e monótonas que García Márquez e seus companheiros costumavam respondê-las de maneira rotineira e desapaixonada: "Vai dizer isso à tua mãe, seu sacana" e continuavam trabalhando como se não tivesse acontecido nada. Um dia, porém, as ameaças foram mais longe: alguém recordou ao escritor que ele tinha mulher e filho e que sabiam perfeitamente onde moravam e que, por isso, o melhor era ele ir dando logo o fora.
No entanto, García Márquez continuou trabalhando de dia naquele escritório lúgubre de um velho edifício do Rockefeller Center, enquanto de noite trabalhava nos originais de A má hora em seu quarto de um hotel de Manhattan, perto da Quinta Avenida. O pedido de demissão de García Márquez não aconteceu por causa das ameaças dos anticartistas, como alguns afirmariam anos depois, mas pela ameaça interna dos comunistas sectários de Aníbal Escalante que, ocupando os postos-chave na administração, tinham tornado insustentável a posição de Masetti, obrigando-o a pedir demissão.
Pouco depois, no dia 18 de abril, aconteceu a invasão da Baía dos Porcos (dois dias depois da proclamação socialista da revolução) e Fidel Castro, que se veria obrigado e denunciar publicamente o sectarismo e a prepotência dos velhos comunistas, pediu a Masetti que continuasse durante mais algum tempo em seu posto e depois pediu que participasse das entrevistas públicas feitas pela televisão com os prisioneiros da Praia Girón. García Márquez tinha renunciado em solidariedade ao seu chefe e amigo. Com a invasão, porém, ele não apresentou seu pedido de demissão para não dar a impressão de estar abandonando o barco na hora do naufrágio e resolveu ficar até que a crise passasse. Por isso, quando Plinio Mendoza chegou a Nova York no final de maio, vindo de Havana e disse a ele que já tinha pedido demissão ao novo diretor Fernando Revueltas, García Márquez respondeu que ele também estava com seu pedido pronto e que só estava esperando a sua chegada para apresentá-lo. Com o tempo, a carta manuscrita de sua demissão passaria para as mãos de Conchita Dumois, a viúva de Masetti, que a devolveria ao escritor no final de 1988, por ocasião de seu sexagésimo (na verdade sexagésimo primeiro) aniversário. É o único documento que se salvaria de seus dois anos de trabalho na Prensa Latina, pois os mamertos fizeram uma limpeza tão drástica da época de Masetti que queimaram, inclusive, seus trabalhos e os de Rodolfo Walsh. Levando em consideração que trabalhou dois intensos anos e que ele era o encarregado na Colômbia de enviar artigos e reportagens para os Serviços Especiais, podemos supor que ali desapareceu uma parte muito importante da obra jornalística de García Márquez. Tanta e tão boa deve Ter sido, que até o próprio escritor quis resgatá-la muitos anos depois, quando já era uma glória universal e alguém lhe deu uma explicação evasiva: os arquivos da época de Masetti e Rodolfo Walsh tinham se extraviado em uma das mudanças da agência.
Com mulher e filho e diante da perspectiva de ir para o México, García Márquez tentou que a Prensa Latina lhe pagasse alguma indenização e desse as passagens aéreas para ele e para a sua família. Mas os novos responsáveis pela agência lhe disseram que ele estava saindo por vontade própria, não porque tivesse sido despedido e que não poderia receber passagens para o México porque ele não havia sido contratado lá. Para a Colômbia, talvez. Podia ser que pudessem pagar alguma indenização, mas só nos escritórios da Colômbia, que naquele momento estavam sem ninguém. Quando o escritor percebeu que estava sendo enrolado porque não se atreviam a dizer não, em meados de junho apanhou Mercedes e Rodrigo e, com duzentos dólares no bolso, entrou num ônibus da Greyhound rumo a Nova Orleans, para onde Plinio Mendoza mandou de Bogotá, dois dias depois, cento e cinqüenta dólares.
Foi um percurso infernal, de desespero, através de "estradas marginais, ardentes e tristes" que se faziam intermináveis. Em Atlanta e Alabama viram a discriminação racial mais desumana, com bebedouros públicos para brancos e outros para negros. Eles próprios perderam quase que uma noite inteira em Montgomery, procurando um lugar para dormir, pois ninguém se atrevia a alugar-lhes um quarto pensando que fossem mexicanos e em vários lugares do Sul encontraram um letreiro reiterando "Proibida a entrada de cães e de mexicanos". Quando chegaram a Nova Orleans, estavam estragados pela comida artificial dos hambúrgueres, dos cachorros quentes e do leite maltado e, depois de Ter apanhado no Consulado da Colômbia os cento e cinqüenta dólares providenciais enviados por Plinio Mendoza, entraram num bom restaurante francês, o Vieux Carré, para ressarcir suas fomes peregrinas.
Quando chegaram à poeirenta Laredo dos filmes mexicanos, tinham completado duas semanas de viagem de ônibus pelo fictício e real condado de Yoknapatawpha, cuja alma e geografia o escritor conhecia como a palma da mão nos romances de William Faulkner. Desta forma, essa travessia de judeu errante serviu para que ele chegasse ao México, a terra prometida; e também para constatar quanto realismo patético havia nos romances de seu mestre e para descrever, cinco anos depois, em Cem anos de solidão, a viagem de trem sem retorno de seu amigo Álvaro Cepeda Samudio. De resto, não deixa de ser curioso que, para chegar à sua obra maior, García Márquez tivesse que fazer uma dupla e longa viagem pelas terras de Yoknapatawpha: a literária e a real.
Conforme evocaria anos mais tarde, chegaram no Domingo, 2 de julho de 1961 (o mesmo dia em que seu outro mestre, Ernst Hemingway, tinha se matado), num entardecer de malva, à estação central da Cidade do México, em entardecer de malva como tantos outros de Caracas aos pés do Monte Ávila, cuja imagem perene ele trazia na avultada mochila de suas nostalgias. No entanto, a capital mexicana recordou-lhe mais Nápoles, Paris e, de certa maneira, Bogotá. Justamente um bogotano, imerso no espírito de Paris, os esperava na estação de trem: o poeta e romancista Álvaro Mutis. Com sua amizade sem sombras e os vinte dólares que lhe sobravam no bolso, García Márquez começaria ali uma nova vida. Na verdade, a mesma de sempre.