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Hollis
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A UBIQÜIDADE DA CULPA
James Hollis
Este texto foi retirado do livro Os Pantanais da Alma, de
James Hollis. É aqui reproduzido mediante expressa autorização da editora Paulus. Conheça
outras publicações da editora visitando a Revista de Literatura.
Quando Ilse telefonou para marcar uma consulta, ela especificou duas condições. A primeira era que ela teria duas horas consecutivas, que seria a única vez em que nos encontraríamos, e a segunda que me mandaria pelo correio a cópia xérox de uma fotografia para que eu a estudasse antecipadamente. Concordei. Três dias depois, a foto chegou.
A foto era velha e estava rachada, porém nítida. Mostrava uma mulher segurando a mão de duas crianças. Aparentemente era extraída de um arquivo, porque na parte inferior havia uma descrição datilografada com as letras desiguais e ocasionalmente apagadas que nos lembram as máquinas de escrever da nossa infância: "Uma desconhecida de Lublin conduz seus dois filhos para o Crematório de Majdanek (possivelmente março de 1944)".
Na foto, uma mulher, talvez perto da casa dos trinta, vestida com um casaco fino de algodão, com meias de lã e sapatos pretos, tem o rosto voltado para a esquerda; seu braço direito envolve uma criança de cerca de seis anos de idade, e seu braço esquerdo puxa de trás de si uma criança de talvez quatro anos. Eu não conseguia tirar os olhos da foto de uma foto. O rosto da mulher estava tenso, alerta, obviamente ansioso, porém fixo e voltado para a frente. A criança que ela abraçava parecia envolvida no abraço e se movia com ela como se fosse um só. A mais nova parecia aterrorizada. Os olhos arregalados, o corpo claramente tentando recuar. Talvez ela estivesse assustada com o barulho, com a multidão ou com o que ela poderia estar vendo à esquerda da foto.
Era um momento no tempo, para sempre congelado. Senti a terrível ironia de saber o que as pessoas da foto ainda não podiam saber que esses seriam os últimos momentos da sua vida, que elas seriam lançadas em uma ducha junto com inúmeras outras pessoas e que logo estariam se dilacerando mutuamente, junto com os céus ausentes, em busca de ar puro. Poderiam elas saber, poderia a mulher saber, o que as crianças não sabiam? A exterminação, o percurso no trem, a confusão, o pai perdido em algum lugar no caminho, o cheiro terrível que pairava no ar, e, uma vez sentido, empedernido nos neurônios, jamais esquecido por aqueles que foram embora fiquei perturbado com o quanto eles sabiam. Se ao menos eles não soubessem no momento dessa foto, se ao menos esse momento pudesse ainda sustentar alguma esperança, a coisa com asas frágeis e brilhantes.
Levantei cedo no dia da consulta e soube que eu estivera sonhando com o lugar onde as ferrovias convergiam, onde a Europa encerrou para sempre a quebradiça noção de progresso moral. Um detalhe da foto me perseguia. A menina menor, a que estava mais atrás a meia de lã da sua perna esquerda estava rasgada. Ela deve ter caído e rasgado a meia. Eu me perguntava se seu joelho teria sangrado, se ainda estava doente e se sua mãe a havia confortado. Por que eu deveria me preocupar com o joelho dela quando aquelas terríveis portas se abriam na frente dela fazia pouco sentido. Talvez fosse uma forma de metonímia moral. Quando não conseguimos assimilar o todo, podemos nos concentrar no pequeno, no particular, no compreensível1. Eu queria pegar aquela criança e abraçála, tocar aquele joelho e mentir para ela dizendo que aquilo era como um sonho mau e que logo tudo estaria bem. Mas eu jamais poderia alcançála, e o medo dela persevera neste terrível século de costelas salientes, olhos apáticos e nervos completamente abalados.
Ilse estava no final da casa dos setenta anos. Ela falava inglês perfeitamente, corretamente, mas eu sabia que sua língua materna estava por trás de um levíssimo sotaque. Ela vestia uma saia preta e uma blusa e suéter brancas, apesar de ser verão; dava para perceber que era um tipo de uniforme, ou que era o que ela sempre usara. Ela disse: "Reservei duas horas com você hoje para lhe contar uma história. Você pode me interromper se quiser, fazer perguntas, mas no fim não vou pedir nada de você, e essa é a última vez que virei aqui".
Não é assim que a terapia funciona, mas me senti levado a concordar com as condições dela porque algo me parecia bem mais importante naquele momento do que as regras do jogo.
"Você estudou a foto que eu lhe enviei?" perguntou ela.
"Sim, estudei. Eu até sonhei com ela."
"Eu também. É sobre isso que eu quero conversar. Eu sou a mulher da foto."
"Mas... eu pensei que ela estivesse morta. A legenda diz que elas estão caminhando em direção ao Crematório..." Mas enquanto eu falava pude ver que a mulher que estava diante de mim era de fato a da foto. Cinqüenta anos é muito tempo, mas o rosto tinha os mesmos olhos; ela não engordara, a pele ainda estava tensa e repuxada sobre os ossos debaixo dos olhos.
"Eu era filha de um médico de Lublin antes de os transportes começarem. No início, não prestamos atenção. Minha família não era judia. Meu pai era velho demais para servir no exército e a guerra não poderia nos tocar. E era jovem e ela ainda estava muito distante. Eu queria conhecer alguém, me apaixonar, me casar e ter uma profissão. Quando essa foto foi tirada, eu tinha vinte e seis anos, já passando da idade de casar e preocupada com a possibilidade de não encontrar ninguém."
"Mas como você foi parar em Majdanek? Você não era judia. Você estava a salvo."
"Eu penso nisso agora como a mais tola das coisas. Eu tinha ido ao mercado ao ar livre em uma manhã de sextafeira para comprar legumes para minha mãe. Foi nesse dia que o Einsatzkommando teve seu Aktion. Eles sabiam que os judeus estariam no mercado antes do Sabá começar. Eles cercaram o mercado ao mesmo tempo em que outras unidades se dirigiram ao bairro judeu e fecharam quarteirões inteiros de uma vez. Eu fiquei presa."
"Você não disse a eles..."?
"É claro, desde o início, eu disse `eu sou cristã, nicht Jude'; mas outras pessoas estavam dizendo a mesma coisa. E eles riram e nos empurraram para os caminhões.
Enquanto falava, ela parecia estar de volta ao local. Não posso dizer que ela estivesse assustada, mas ela estava mentalmente lá. Talvez ela estivesse dissociada de alguma maneira, mas ela estava realmente lá. Ela me contou como fora levada com os outros, protestando o tempo todo, para o Hauptbahnhof e jogada em um vagão de trem. Algumas horas mais tarde, apavorados porém estupefatos, eles chegaram a um viaduto do lado de fora de um lugar chamado KZ Lager Majdanek, um dos centros de exterminação dos chamados Endlõsung a falência de séculos da cultura civilizada em uma louca projeção do intolerável dentro de nós mesmos sobre "os que estão lá fora".
Eu soube ficar calado. Ela prosseguiu e me contou como eles foram empurrados diante de um oficial que os dirigia para a esquerda ou para a direita. Qual a fila que conduzia aos fornos, e qual que levava a uma vida pestilenta no quartel com o tifo, o trabalho pesado, as oitocentas calorias por dia, e finalmente o colapso do espírito em um corpo já abatido?
Na frente de Ilse uma mãe segurava as duas filhas, uma aturdida e em silêncio, a outra chorando. Quando elas se viram diante do oficial, ele sorriu para ela e apontou para a direita, mas as crianças para a esquerda. A mulher gritou e se agarrou às filhas, mas foi forçada a se unir ao grupo menor à direita. As duas crianças ficaram lá, com medo de se mexer, confusas com o grito da mãe. Ilse então colocouse diante do oficial. No momento crítico, na "Seleção", ela gritou no meu consultório, como deve ter gritado naquele momento: "Eu sou cristã; Ich bin nicht Jude!" O oficial retrucou que era tarde demais para uma conversão e que muitas pessoas estavam dizendo que eram cristãs. Ilse disse então o nome do pai, do avô e da extensa lista de médicos conhecidos na região, em homenagem a quem um hospital em Lublin fora nomeado.
O oficial fez uma pausa e disse: "Ja, stimmt, mas você já viu demais para poder voltar. Leve as duas crianças para a porta da sala de banhos, ponhaas do lado de dentro, e vá se juntar aos outros. Mas você vai trabalhar com eles, e nunca sairá daqui".
"Não tenho palavras para expressar o quão feliz eu fiquei naquele momento", disse Ilse. "Eu não teria de entrar ali. Eu ia trabalhar. Eu iria viver um pouco mais. Empurrei as crianças. Uma se agarrou a mim; a outra, eu tive de puxar. Foi naquele momento que alguém tirou a foto. Eu, não me lembro de ter visto ninguém com uma câmera. Eu estava tão feliz por saber que ia viver. Puxei as crianças e as levei até a entrada da casa de banhos. Lá, Capos dos próprios prisioneiros puxaram as crianças através das portas. Foi a última vez que as vi".
Novamente, naquele momento, pude perceber que ela estava lá, de certo modo aliviada pelo adiamento que estava tendo. Ela afundou de volta na cadeira e ficou em silêncio talvez durante dois ;minutos, e depois prosseguiu. Ela me falou a respeito da vida no campo de concentração, de como, apesar de ter apenas um adiamento, ela havia sobrevivido ao trabalho brutal, à cabeça raspada, ao mingau de todo dia recorrendo à energia do seu corpo jovem. Quando os russos chegaram para liberar o campo, restavam apenas algumas centenas de esqueletos ambulantes, e muitos morreram pouco depois de alguma doença ou por causa dos efeitos da fome.
"Eu me mudei para Varsóvia depois da guerra. Grande parte da família do meu pai morava nos Estados Unidos, de modo que consegui um visto para ir morar em Detroit. Durante anos, não consegui pensar naqueles dias. Nunca me casei. Eu tinha medo de engravidar. Eu sabia que perdera a possibilidade de amar. Trabalhei em bibliotecas todos esses anos até o dia, há quatro anos, em que deparei com essa foto em um livro de história da guerra. Jamais poderei descrever como tudo voltou, o barulho, o cheiro, o medo... mas, acima de tudo, a alegria por saber que eu ia viver um pouco mais."
Agora eu sabia por que ela estava aqui. Eu trabalhara antes com sobreviventes, e pior do que hoje chamamos de "distúrbio de estresse póstraumático" era a culpa do sobrevivente. Freqüentemente a culpa era tão grande, que a pessoa decidia, consciente ou inconscientemente, morrer para a vida. Assim, eles andavam por aí emocionalmente anestesiados, vivendo em silêncio e na suspeita, nunca sentindo a alegria e o prazer de estarem vidos.
Mas ela disse: "Eu não quero nada de você. Eu não quero que você me diga nada. Eu só quero que você tenha ouvido. Eu me tornei judia há alguns anos, ou tentei, mas não deu certo. Eu não consegui acreditar no Deus que os traiu. Mas eu ouvi a respeito da tradição dos melamed vounikim, da crença de que por piores que as coisas estejam na terra, que Deus deixou vinte quatro, pessoas justas na terra, e que se você contar sua história para elas você será ouvido nos céus".
"Não posso dizer que eu sou um dos Justos, Ilse."
"De qualquer modo, vou continuar a contar a história da fotografia. Talvez você seja um deles, talvez não. Eu ainda tenho algum tempo e existem outros que eu preciso encontrar."
Quando ela foi embora, eu disse a ela que não poderia aceitar seu dinheiro, pois eu achava que não tinha sido capaz de ajudar. Ela me pediu então que eu ficasse com a foto. Eu aceitei, e a tenho até hoje. Ela saiu do meu consultório e eu nunca mais a vi, embora eu pense nela todos os dias.
Viktor Frankl comentou certa vez que por mais terrível que Auschwitz tenha sido, ele foi apenas uma hipérbole da vida cotidiana2." Frankl tem o direito de fazer esse comentário; eu não tenho. Mas eu acho que compreendo sua opinião de que todos os dias grandes questões da alma estavam em debate, e os melhores, disse ele aqueles que dividiam sua comida e se recusavam a brutalizar os companheiros como eram brutalizados não sobreviveram. Assim, a foto de Ilse é a história de todos nós, mesmo daqueles que viveram vidas seguras. Nenhum de nós pode dizer o que teria feito em uma circunstância como a que o destino a colocou; todos temos nossas memórias de momentos de covardia moral, e nenhum do nós pode culpála pelo seu intenso desejo de viver. E, no entanto, todos compreendemos por que ela ainda vaga, um marinheiro moderno, com a foto da sua culpa ao redor do pescoço, procurando os Justos, procurando ter sido ouvida, e talvez absolvida.
A culpa se senta como um grande pássaro negro nos ombros de quase todos nós. O conceito junguiano da sombra nos faz lembrar da nossa participação no proibido, do nosso egoísmo, narcisismo e covardia. E quem não se lembra das palavras do poeta latino Terêncio, "Ego sum humanum. Nilail a me humanum alienum". Sou humano, e nada que é humano me é estranho. Mas esse grande pássaro negro ainda permanece sentado sobre nosso ombro, grasnando cacofonicamente, exatamente quando queremos celebrar, ficar livres, soltos dos grilhões do passado. Ele grasna e corrói o momento, e tudo escorrega de volta ao passado com sua vergonha apensa.
Pode ser útil em nossa reflexão diferenciar ainda mais o conceito da culpa, pois, à semelhança de tantos conceitos, muitos tipos diferentes de experiências podem ser agrupadas sob um termo comum. Precisamos distinguir cuidadosamente entre:
1. A verdadeira culpa como uma forma de responsabilidade.
2. A culpa como a defesa não autêntica contra a angústia.
3. A culpa existencial.
A culpa como responsabilidade
Embora os sistemas judiciais de todas as nações reconheçam a possibilidade da diminuição da culpa, quando alguém tem menos do que certa idade ou é mentalmente incapaz, nenhum leitor deste livro se encaixará nessas categorias. Se a tarefa da individuação obriga a expansão da consciência, nenhum de nós pode se dar ao luxo do conforto casual da inocência. Nenhuma pessoa consciente pode se dizer inocente, seja no nível pessoal, ou, como Albert Camus deixou tão claro em The Fall, seja no coletivo. Cada um de nós é uma parte da urdidura da mesma sociedade que criou o Holocausto, que perpetua o racismo, o sexismo, a superioridade da idade, a homofobia, quer participemos ativamente ou não dela.
Assim, parte do legítimo desenvolvimento do indivíduo é o reconhecimento adequado da culpa, o que significa a aceitação da responsabilidade pelas conseqüências da própria escolha, por mais inconsciente que ela tenha sido na ocasião.
A essência da tragédia grega foi o reconhecimento de que existem forças dentro da cultura, ou dentro do indivíduo, que levam a pessoa a fazer escolhas através das quais outros podem sofrer. Na maioria das tragédias o Coro, representando não apenas a perspectiva do autor, mas também a sabedoria coletiva, testemunha a atuação do destino estabelecendo possibilidades e ferindo o protagonista. Em decorrência de o que os gregos chamavam de hamartia freqüentemente traduzido como "o fluxo trágico", mas que eu prefiro chamar de "a visão ferida" o indivíduo faz escolhas cujas conseqüências não podem ser previstas. Através do sofrimento, a pessoa pode então alcançar a redenção através do reconhecimento, da penitência e da reconstituição do relacionamento correto com os deuses.
Em A Passagem do Meio, sugeri que essa visão ferida era uma concomitância inevitável da experiência da infância e conduzia o indivíduo, amiúde na meiaidade, a uma colisão com a realidade de muitas escolhas falsas. Dois breves exemplos poderão ser úteis.
Richard Nixon foi profundamente ferido em virtude das privações da sua infância. Ele reagiu a essas privações através de um impulso de poder exageradamente compensado de reconhecimento e respeito. Após conseguir o que queria, a visão ferida permaneceu inconsciente e ele fez escolhas que lhe acarretaram o repúdio da opinião pública. O terceiro ato de Richard Nixon jamais foi escrito. Ele nunca admitiu ter cometido mais do que uns poucos erros de julgamento, declarando que é assim que a política funciona. Ele nunca percebeu que era a fonte das suas escolhas inadequadas e, por mais humilhante que isso possa ser, lhe foi negada a paz oriunda do restabelecimento do relacionamento correto com a estrutura moral.
Por outro lado, como retrata o filme Quiz Show de 1993, Charles Van Doren era o herdeiro de uma famosa família acadêmica americana. Mas ele buscou em vão obter a aprovação de seu famoso pai e só conseguiu chegar em segundo lugar enquanto competia intelectualmente com ele. A tentação de um programa de perguntas fraudulento lhe proporcionou o dinheiro, a celebridade e a aclamação que seu pai jamais poderia ter alcançado; acarretou também seu desmascaramento diante do público e sua humilhação. Ele tem a seu crédito o fato de ter comparecido diante da comissão de investigação do congresso e não apenas ter aceito plena responsabilidade por suas escolhas, como também reconhecido onde ele violou seus limites morais.
Todos podemos encontrar algo familiar nesses dois exemplos. Declarar que eu errei, que eu sou culpado de escolhas inadequadas e das suas dolorosas conseqüências; não apenas é o início da sabedoria, como também o único caminho que pode, em última análise, conduzir à libertação.
Aqueles que crescem em uma comunidade de crença, conhecendo o sacramento da confissão, têm a oportunidade de se libertar do passado. O pássaro negro da culpa não apenas corrói a qualidade do presente, como também nos amarra sempre ao passado. Carregar o fardo do passado é exaustivo e prejudica nosso poder de fazer novas escolhas.
Mas a maioria das pessoas hoje em dia não encara a confissão como uma possibilidade, seja porque pertencem a uma outra tradição, seja porque não mais recorrem à fé implícita exigida por essa transação. Ilse ficará eternamente em busca dos Justos, pois, se encontrar. um deles, ela talvez nem mesmo tenha o poder da crença que torna possível a aceitação da graça. Não obstante, até mesmo aqueles fora da história sacramental da confissão podem ser instruídos através do que pode ser chamado de "os três Erres: reconhecimento, recompensa e remissão".
O reconhecimento é fundamental, para que possamos começar a lidar com a culpa de uma maneira adulta. A consciência envolve o reconhecimento do dano causado ao eu ou a uma outra pessoa. Pode ser que, no início, não compreendamos legitimamente o dano causado, mas quando esse reconhecimento está disponível, a consciência precisa reconhecer que, sim, eu fiz isso, ocasionei aquilo, sou responsável por aquilo outro. O sociopata, e aqueles com outros distúrbios de caráter, cuja capacidade do ego está de tal modo danificada que eles não são capazes de assumir a responsabilidade, podem mentir não apenas para os outros, como também para si mesmos, repetidamente, projetando a responsabilidade para o exterior.
Existe a difundida percepção errônea de que grande parte da psicoterapia é despendida culpando os pais, ou as condições socioeconômicas, em vez de lidar com o presente. Embora grande parte do nosso caráter seja efetivamente moldado por essas experiências formativas, a essência da terapia é o reconhecimento da responsabilidade das próprias escolhas, da própria vida. Qualquer outra coisa é uma evasão da genuína idade adulta. Esse reconhecimento pode ser humilde, até mesmo perturbador, mas uma posterior negação prende à pessoa ao passado sem uma esperança de mudança. Assim, grande parte do trabalho dos programas de Doze Passos se baseia na eliminação da negação, na aceitação da responsabilidade pela própria vida, e, quando possível, na recompensa das pessoas prejudicadas.
A recompensa só é possível na ocasião. Muitas coisas feitas não podem ser desfeitas. Ilse nunca poderia trazer as crianças de volta. Ela tentou adotar a doutrina delas, mas essa atitude sincera demonstrou no final ser ineficaz, até mesmo irrelevante. Ela evitou ter filhos, talvez por não ser capaz de ver os filhos de Majdanek no rosto deles, talvez por sentir a necessidade de punir a si mesma. Mas a recompensa direta não foi possível para ela. Quando a recompensa é possível, é fundamental reconhecer que ela só faz sentido no contexto do arrependimento genuíno. Qualquer coisa menor seria uma materialização da alma e, no final, ineficaz. Na maioria dos casos, a recompensa oferecida é simbólica, não sendo menos real por causa disso, porém claramente um ato de retorno psicológico por aquilo que foi tomado.
Como e por que nosso sistema penal é tão ineficaz, pode ficar parcialmente claro aqui. Até mesmo as palavras penitenciária e reformatório se baseiam na idéia de que se uma pessoa for exilada do apoio psicológico do aspecto coletivo, que ela seria "penitente" e que a "reforma" moral ocorreria. Mas o sistema que temos é na verdade punitivo e raramente aborda a questão de como uma pessoa legitimamente condenada pode ser ajudada a se tornar consciente do mal que praticou e assumir a responsabilidade pelos seus atos, em vez de culpar a sociedade ou simplesmente a má sorte.
Quando o arrependimento é genuíno, quando a recompensa efetiva ou simbolicamente transpirou, podemos vivenciar a graça da remissão. No caso daqueles que ainda conseguem recorrer ao sacramento da confissão, o padre é capaz de agir como um intermediário divino e levar a efeito o perdão, a remissão. Essa remissão é vista como um ato de Deus que não pode ser conquistado, mas que se baseia no arrependimento; isso se chama graça. Para aqueles que não pertencem a essa comunidade religiosa, não é nada fácil encontrar a graça. Ainda assim, o tríplice processo do reconhecimento, da recompensa e da remissão pode estar disponível para aqueles que buscam a expansão da consciência. Essa expansão obriga a pessoa a reconhecer a própria sombra, mas ao fazer isso, ao se responsabilizar por ela, a pessoa começa a agir no mundo de uma maneira diferente.
Jung escreveu eloqüentemente a respeito do saudável reconhecimento da culpa. Isso não significa uma fuga ou negação, e certamente não implica uma permanência no passado.
Esse homem sabe que seja o que for que estiver errado no mundo é dentro dele mesmo, e se ele aprender a lidar com a própria sombra ele terá feito algo verdadeiro para o mundo. Ele terá conseguido arcar com pelo menos uma parte infinitesimal dos gigantescos e não resolvidos problemas sociais dos nossos dias... Como pode uma pessoa enxergar corretamente quando ela nem mesmo enxerga a si mesma e a escuridão que ela, inconsciente, carrega consigo em todas as suas transações3.
A culpa como defesa contra a angústia.
Grande parte do tempo, talvez sempre, o que chamamos de culpa não é uma verdadeira culpa, como definido acima. Tratase mais freqüentemente de um sentimento desagradável, um enrijecimento das extremidades ou mesmo uma tontura. Curiosamente, amiúde essa experiência particular se expressa somaticamente, o que é sempre uma indicação de que um complexo foi atingido. Os sinais de um complexo ativado (o que será discutido em maior profundidade mais adiante, no capítulo 8) são que a quantidade da energia gerada é superior à exigência razoável da situação, e vivenciamos uma invasão somática, uma sensação no corpo. Tratase de indícios de que estamos efetivamente vivenciando um movimento da psique debaixo, no nível da consciência.
Além disso, grande parte do que chamamos de culpa é uma defesa contra uma angústia maior; tratase de uma reação epifenomenal à experiência da ansiedade com a qual ela está tão estreitamente identificada que se torna indistinguível naquele momento. Por exemplo, ouvimos pessoas dizerem que se sentem culpadas quando dizem não para alguém, ou quando ficam zangadas, ou por não serem pais perfeitos. Esses sentimentos foram lentamente condicionados desde a infância. O narcisismo natural da criança expressa espontaneamente todos os desejos, deparando imediatamente com a falange do mundo adulto com seu poder ilimitado de punir ou reter a aprovação e o afeto. Nenhuma criança consegue resistir muito tempo nesse terreno árido, e logo aprende a controlar os impulsos inaceitáveis.
Certo homem se lembra de ter estado cantando na varanda da sua casa quando tinha cerca de seis anos de idade. Sua mãe gritou dizendo para ele não fazer tanto "barulho". Ele jurou que nunca mais cantaria. Mais tarde, em uma aula de canto no segundo grau, ele não conseguia emitir um som. Quando o professor soube que ele era literalmente incapaz de cantar, permitiu que ele permanecesse em silêncio na última fila do coro durante todo o semestre, e deu uma nota para passar. Ao se tornar adulto, esse homem não arriscava nem mesmo cantar no chuveiro. A questão certamente parece bastante banal quando comparada com abusos mais graves de crianças, mas ilustra o poder de um encontro internalizado com o pai ou a mãe onipotente. A partir desses encontros com o princípio do poder, inevitáveis na socialização de todos nós, começamos a internalizar as restrições contra nossos impulsos. Com o tempo, podemos até ficar na defesa contra a primazia de qualquer tema afetivamente carregado, e, finalmente, chegar a perder contato com a realidade dos nossos sentimentos.
O que é chamado de culpa, portanto, amiúde é a sensação reativa e protetora da criança. O sentimento desagradável, a repentina frieza, são lembranças reflexivas de visitas ao terreno árido da desaprovação dos pais. É como se, ao surgir um impulso natural, a raiva, por exemplo, uma mão se estendesse como o regulador de velocidade de um carro sufocando o impulso. Essa reação reflexiva pode governar de tal maneira a vida de uma pessoa que ela sofrerá uma considerável autoalienação. Sentir-se culpado por dizer não, por exemplo, é na verdade uma defesa contra a possibilidade de que o Outro vá ficar aborrecido, ativando desse modo o imenso reservatório de emoções que carregamos.
Essa culpa não autêntica pode ser alinhada contra o ressentimento dos outros, do ciúme, da raiva, da luxúria e de todo o conjunto de material da sombra. Jung observou que uma pessoa sem sombra, o que quer dizer uma pessoa inconsciente da sombra e altamente defensiva com relação a esta, é uma pessoa superficial. Quase todos nós fomos condicionados a ser agradáveis em vez de sinceros, flexíveis em vez de autênticos, adaptáveis em vez de fazer valer nossas opiniões. Imagine um programa de Doze Passos para "recuperar pessoas agradáveis", no qual o indivíduo descreve como ele foi reflexivamente agradável durante a semana anterior e se arrependeu disso; ou, o quanto se sentiu culpado quando decidiu não ser agradável.
A culpa como uma defesa contra uma angústia mais profunda reflete uma ausência da permissão de sermos nós mesmos. Reflete o poder incalculável do condicionamento precoce. E oferece uma chance para que recuperemos a iniciativa na nossa vida. Nesses momentos de culpa, somos convidados a perguntar: "De que estou me defendendo?". Geralmente a questão se resume ao medo de que uma outra pessoa possa não ficar feliz com as nossas decisões.
No mundo real, para sermos uma pessoa de valor em vez de um camaleão emocional, escolhas forçosamente têm de ser feitas e agradar aos outros não pode estar no topo da lista das prioridades. A angústia que irrompe vinda de baixo é vivenciada como avassaladora precisamente porque ela data da época da nossa grande vulnerabilidade na infância. Como a energia nunca é perdida, residindo no inconsciente, ela pode vir à tona com um poder paralisante. Nesse momento, não estamos no presente, e sim no estado impotente da criança. Nós nos esquecemos de que, depois daquela época, surgiu um adulto que, quando age conscientemente, é perfeitamente capaz de tomar decisões de valor e consegue viver, se isso se fizer necessário, sem a aprovação dos outros.
Como essa culpa não é autêntica, não é a admissão corajosa de termos feito mal aos outros, é essencial trabalharmos através da angústia epifenomenal para alcançar a idade adulta. Ser bloqueado pela culpa significa, ainda estar preso na infância. Quando nos tornamos conscientes da origem daquele sentimento desagradável, essa prisão deixa de ser inconsciente e passa a ser inaceitável.
A culpa existencial
A última forma de culpa possui um caráter existencial; tratase de uma inevitável concomitância do fato de sermos humanos. Compreendemos, por exemplo, que o princípio que sustenta a vida é a morte. Não apenas a vida e a morte são a sístole e a diástole do cosmo, como também toda a vida depende da morte. Matamos animais para sobreviver. Se decidimos ser vegetarianos, matamos a vida vegetal. Se paramos de comer, cometemos suicídio. Por esse motivo, nossos ancestrais faziam uma prece de ação de "graças" às refeições, não apenas como agradecimento, mas também como um reconhecimento do princípio de que o que eles estavam para comer se originava em um ato de morte. As culturas da antigüidade, pelo mesmo motivo, diziam preces antes e depois da caçada, bem como durante a ingestão da comida, a fim de admitir sua participação no ciclo de morterenascimento do arquétipo da Grande Mãe4.
Mesmo se não dermos atenção à nossa participação no ciclo do sacrifício, todos competimos no mercado e tomamos alguma coisa para nós em detrimento de uma outra parte. Se os índices econômicos sobem, isso pode ser à custa do ambiente, e assim por diante. Esse dilema é inerente à condição humana. Ele está implícito em muitos dos mitos fundamentais das tradições religiosas. Na tradição judaicocristã, por exemplo, a culpa de Adão e Eva é inevitável e sistêmica. Eles comem o fruto da Árvore do Conhecimento. Logo que deixam o estado infantil, são obrigados a enxergar sua verdade desnuda, ou seja, o fato de que vivem à custa do outro, que sua sensibilidade é dividida, que são responsáveis por suas escolhas por mais que afirmem sua inocência. A expulsão do paraíso é na verdade o afastamento necessário da ingenuidade, da inconsciência infantil, das, escolhas desprovidas de conseqüências. Daqui para a frente, eles são obrigados a sofrer o fato de que muitas de suas escolhas não serão entre o bem o mal, e sim entre todos os tipos de cinzas morais. Eles terão de admitir sua ambigüidade moral e sua duplicidade pessoal e cultural.
Isso nos traz mais uma vez à lembrança o romance The Fall de Albert Camus. Apesar de ter nascido na Argélia, na qualidade de escritor francês Camus estava mergulhado na tradição judaicocristã, e ele não conseguia pensar em uma metáfora mais poderosa para o homem moderno que, por um lado, viu o Holocausto emergir da sua civilização, e, por outro lado, vivenciou sua astúcia moral. A partir desse reconhecimento necessário, tombamos do pináculo da autoinflação, sem dúvida, mas com esse tombo surge o início da consciência, a necessária humildade na descida em direção ao pantanal moral, a expandida capacidade de riqueza psicológica.
Essa pessoa, agora humilde, não apenas é mais interessante, como também totalmente humana. Deve ser isso que Blake viu quando leu Paradise Lost. "Milton", escreveu ele, "pertencia ao Partido do Diabo, embora não soubesse disso"5. Sem dúvida Satã era culpado de arrogância, mas sua psicologia é de fato bem mais parecida do que diferente da nossa, seu dilema e culpa existencial de certo modo mais ricos, apesar da sua ruína.
Luigi Zoja, em seu livro Growth and Guilt, segue o rasto do ritmo do hubris e da nemesis, da capacidade humana de apropriarse das prerrogativas dos deuses, e de sofrer a reação cósmica que acarreta a humilhação, o nivelamento e o restabelecimento do equilíbrio (chamado de sophrosyne pelos gregos). A história, argumenta Zoja, é a expressão da psicologia humana individual projetada em um palco mais amplo. As necessidades de segurança. do ego são supremas, mas o ego é capaz de enganar a si mesmo, de se inflacionar e de ter uma programação imperialistaesteja ele afastando a natureza do seu caminho para construir outro aglomerado urbano, tentando chegar às estrelas ou mesmo considerando a morte uma inimiga e tomando "medidas heróicas" contra ela.
Esse caráter arrogante do ego pode ser chamado de complexo de Fausto, em homenagem ao protagonista de Goethe que, por um lado é nobre em função de suas infinitas aspirações, mas que não deixa ainda de ir além da sua capacidade de compreender e controlar as conseqüências. Os descendentes de Fausto criaram o mundo moderno com suas maravilhas e seus horrores. Zoja sugere que carregamos a culpa por cada movimento que fazemos nos afastando do nosso estado natural, culpa essa que perturba o sono e causa um malestar no homem moderno. Como comentou Rilke no início do século vinte: "Não estamos muito à vontade no mundo que criamos"6. Assim, a marcha do progresso, como é tão freqüentemente chamada, é o avanço arrogante que é pago com esses sentimentos de malestar que formam a culpa existencial.
Não podemos evitar a experiência das escolhas bem intencionadas que às vezes têm conseqüências maléficas, de modo que a culpa é uma faceta onipresente da vida moderna. O conceito judaicocristão do "pecado" (que deriva da palavra hebraica que significa "errar o alvo", como na arte de manejar o arco) é análogo à dialética da hubris / nemesis. Inevitável em uma condição defeituosa, o indivíduo ainda tem de carregar o peso da culpa. Para compreendermos a inevitabilidade dessa hamartia, desse pecado, é preciso expandirmos a consciência. Saber que somos inevitavelmente defeituosos, inevitavelmente inconsciente, é o primeiro passo em direção à autoaceitação.
Talvez essa culpa existencial seja a mais difícil de suportar. Saber que somos responsáveis, não apenas pelas coisas que fizemos, mas também pelas inúmeras coisas que deixamos de fazer, pode expandir nossa compaixão humana, mas também aprofunda a dor. Em Tracking the Gods, descrevo como escritores como Dostoyevsky, Conrad e Camus retrataram o dilema do homem moderno, que, atordoado com a consciência, só puderam se erguer envergonhados diante do mundo que haviam escolhido. Esse encontro com a culpa é irônico. Ao contrário da trágica sensação da vida, ou da visão cósmica, o conhecimento da irônica sensibilidade não é capaz de curar. A consciência irônica consegue ver as escolhas imperfeitas, pode ver suas conseqüências, mas esse conhecimento não é nem reparador nem evitável. A pessoa sempre fica com a consciência perturbada, mas pelo menos, como salientou Jung, ela apresenta, desse modo, uma menor probabilidade de contribuir para o fardo da sociedade.
Com que freqüência somos obrigados a enfrentar nossa máfé. Não que sejamos culpados por sermos neuróticos ou absorvidos em nós mesmos, mas ao sermos neuróticos ou absorvidos em nós mesmos, e sabedores disso, deixamos de ter a coragem ou a vontade de mudar. Assim como a psique sabe quando a ferida da vida detém ou desvia o desejo da psique, ela também sabe, e registra em algum lugar, quando vivemos em máfé com nós mesmos. E quem não faz isso? E quem não sabe disso em algum lugar profundo? E quem não dá seguimento à má-fé? Essa é uma culpa existencial da qual a fuga não é possível, apenas a negação ou um reconhecimento mais profundo.
Considerandose o reconhecimento da nossa cumplicidade com o mal no mundo, e com o mal que nós mesmos praticamos, talvez perdoar a nós mesmos seja a meta mais difícil de todas. A primeira metade da vida é inevitavelmente vivida entre a consciência maciça da juventude; mas fundamental para o sofrimento que chega na meia-idade está a avaliação necessária do que fizemos aos outros e a nós mesmos. Aprender a perdoar a si mesmo é crítico, porém extremamente difícil. O eu perdoado fica livre para avançar, armado com a expansão da consciência que torna a vida muito mais rica. Mas esse perdão do eu, acompanhado de um arrependimento sincero, da recompensa simbólica e depois da libertação, é raro. A maioria de nós não alcança o perdão pessoal, e o elã da segunda metade da vida é seriamente corroído pelas conseqüências aderentes da primeira. É extremamente difícil, porém necessário, internalizar a definição de graça de Paul Tillich: "Aceite o fato de que você é aceito, apesar do fato de você ser inaceitável"7 Essa graça impressionante, essa libertação da alma de penetrar mais profundamente no mundo.
Existe ainda uma outra forma de culpa existencial que constringe a alma. A fim de nos desenvolvermos como uma pessoa, precisamos às vezes cruzar linhas antes consideradas extremamente difíceis de ser transpostas. Toda criança, para se tornar um adulto, precisa às vezes transgredir a vontade dos pais. Nenhum pai ou mãe pode sempre saber o que é certo para o filho, de modo que este precisa sair de casa, tanto literal quanto figurativamente.. Em um passado não tão distante era comum que os filhos fossem censurados por não ficarem e tomarem conta dos pais. Aqueles que ficavam, à custa da própria individuação, freqüentemente se tornavam amargos e deprimidos. Outros, libertandose, ainda se sentindo culpados, .como se algo fosse devido aos pais, consciente ou inconscientemente se limitavam a atingir o nível de desenvolvimento psicológico alcançado pelos pais.
Analogamente, a pessoa precisa às vezes romper um compromisso para poder crescer. Muitos permaneceram em relacionamentos extremamente abusivos por causa do que chamam de culpa, incapazes de compreender que eles, também, são chamados a percorrer sua jornada particular. Às vezes a pessoa precisa até se tornar o que o mito chama de Santo Criminoso, aquele que viola a norma da sociedade em prol de uma visão pessoal. Essa pessoa se vê obrigada a viver seu chamado enquanto carrega o fardo das conseqüências como culpa. Aquele que objeta conscientemente é um exemplo disso. A história pode perdoar ao transgressor, mas a sociedade raramente perdoa, e, freqüentemente, o indivíduo também não consegue perdoar.
Assim como a culpa nos liga ao passado, ela contamina o presente e o futuro, provocando até a destruição. Para podermos lidar com a culpa de uma maneira consciente, precisamos ser capazes de determinar o tipo de culpa que estamos sofrendo. A verdadeira culpa é uma maneira madura de assumir a responsabilidade. Não apenas a fuga dessa responsabilidade encerra um caráter regressivo, como também significa que nunca podemos ir além da experiência que não foi assimilada. Uma amiga minha disse certa vez: "A culpa não amanteiga o canabrás". Desconfio de que ela quis dizer que a boa energia da vida é desperdiçada com o passado, e é desviada da avaliação de novas direções. Somente através da integração a consciência necessária pode estar disponível para permitir que novos padrões se desenvolvam.
A assimilação amadurecida da culpa requer que as escolhas erradas sejam reconhecidas, para as quais a compensação será amiúde simbólica em vez de literal, bem como a capacidade de se soltar. A culpa não autêntica é uma defesa altamente repetitiva e racionalizada contra um nível inaceitável de angústia. Na maioria dos casos, a quantidade e a qualidade dessa angústia a caracteriza como se originando na experiência do início da infância onde o impacto da vida era freqüentemente maior do que a criança era capaz de compreender, avaliar e assimilar. Quando podemos desmascarar a ansiedade subjacente, somos amiúde capazes de recuperar a posição da escolha consciente e livre no presente.
A culpa mais difícil de carregar, e talvez a menos passível de ser resolvida, é a culpa existencial. Qualquer pessoa que tenha alcançado um grau de consciência e maturidade moral precisa ver o matagal moral através do qual temos de vagar. Não podemos fazer nenhuma escolha, nem mesmo a de não escolher, o que não flui naturalmente e exerce um impacto doloroso em outra pessoa, em algum lugar, de algum modo. Reconhecer essa teia de interstícios significa ficar preso na ambigüidade da condição humana. Viver sem arrogância, pecado ou auto-delusão é igualmente impossível. A partir desse cruzamento das linhas invisíveis, forças contrárias são desencadeadas, o que se avoluma de volta contra nossa costa. Precisamos meditar a respeito da ironia da vida, compreender, como São Paulo, que, embora queiramos fazer o bem, não o fazemos, que somos nosso pior inimigo, e que grande parte do que fazemos é evitar nosso eu mais completo, ficando, desse modo, empacados.
Esse conhecimento pode não trazer a libertação, mas é a característica de uma pessoa madura que, tendo diferençado as permutações da culpa, tem pelo menos a oportunidade de alcançar um grau de libertação com relação aos vínculos do passado. A energia exigida no processo pode ser reinvestida em um futuro mais amplo.
Não obstante, para quase todos nós, Ilse parece ser o protótipo do nosso problemático trajeto. Ela vaga pelo planeta da culpa buscando libertarse do passado, e de si mesma. Espero sinceramente que ela encontre pelo menos um dos Justos e conheça a libertação. Agora, eu também carrego o segredo dela. E, às vezes, eu também consigo sentir meu braço em volta de uma das crianças enquanto puxo a outra, a que tinha o joelho machucado, cuja mão se agarra à minha e cujo trajeto amedrontado nunca termina.
1 Ver abaixo, p.60: "The woodspurge", de Rossett.
2 Man's search for Meaning, p.92.
3 "Psychology and Religion", Psychology and Religion, CW11, par. 140.
4 Ver Tracking the Gods de minha autoria, pp. 59-65.
5 The Oxford Dictionary of Quotations, p.88.
6 Duino Elegies, número 1, linhas 11-12.
7 The Shaking of The Foundations, p.162.