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O TREM LACRADO
Lenin, 9 de abril de 1917

Stefan Zweig


Este é um trecho do livro Momentos Decisivos da Humanidade, de Stefan Zweig. A Rubedo agradece a gentileza da Editora Record que autorizou sua reprodução em nossas páginas.



O hóspede do sapateiro

A Suíça, pequena ilha de paz, cercada por todos os lados pelas ondas da guerra mundial foi durante os anos de 1915, 1916, 1917 e 1918 cena constante de um romance policial excitante. Nos hotéis de luxo, os enviados das potências beligerantes, que um ano antes haviam jogado bridge juntos, amistosamente, e trocado convites recíprocos para suas residências, passavam agora uns pelos outros sem se cumprimentarem, como se nunca se tivessem conhecido. Figuras estranhas, impenetráveis, saem furtivamente de seus quartos São deputados, secretários, adidos, homens de negócios, senhoras veladas ou sem véus, cada um encarregado de missões misteriosas. Diante dos hotéis, param automóveis suntuosos com insígnias estrangeiras, nos quais sobem industriais, jornalistas, virtuosos e aparentemente turistas ocasionais. Mas todos com a mesma função: descobrir alguma coisa, espiar algo. E o porteiro que os conduzia aos quartos e a arrumadeira que cuidava dos quartos são subornados para observar e espreitar. Em toda parte, as organizações trabalham umas contra as outras em hotéis, em pensões, nos correios e cafés O que passava por propaganda exercia, na maior parte, a função de espionagem. A traição punha a máscara do amor. E, por trás da ocupação declarada de muitos desses apressados hóspedes recém chegados, ocultava uma segunda ou terceira função. Tudo era relatado, tudo vigiado. Dificilmente um alemão, de qualquer posição, entrava em Zurique sem que a embaixada adversa, já em Berna e, uma hora mais tarde, em Paris, o soubesse. Volumes inteiros de relatórios, verdadeiros ou não eram enviados diariamente por agentes, de maior ou menor importância, aos adidos e por estes passados adiante. As paredes eram transparentes como vidro, os telefones grampeados; das cestas de papéis dos mata-borrões, reconstituía-se cada correspondência meticulosamente. Esse pandemônio foi se tornando tão louco, que muitos deles mesmos não sabiam mais o que eram, caçadores ou caçados, espiões ou espionados, traídos ou traidores.

Apenas sobre um homem há poucas informações daqueles dias. Talvez por ser ato insignificante e não se hospedar em hotéis distintos, não freqüentar os cafés ou participar de reuniões de propaganda, mas viver retirado como hóspede na casa de um sapateiro. A casa ficava numa rua atrás do Limmat na Spiegelgasse, rua estreita, antiga e tortuosa. Morava no segundo andar, numa daquelas sólidas construções, abauladas na parte de cima, na cidade antiga, encardida em parte pelo tempo, e também pela fumaça de uma pequena fábrica de salsichas que funcionava no pátio embaixo. Seus vizinhos eram a mulher de um padeiro, um italiano e um ator austríaco. Os que viviam na casa, dada a sua introversão, pouco mais sabiam dele além do fato de que era russo e tinha um nome difícil de pronunciar .Já o fato de que havia fugido há muitos anos da sua pátria, de que não possuía riquezas não tinha negócios lucrativos, a anfitriã conseguira depreender das refeições frugais e das roupas gastas de Lenin, cujos haveres mal enchiam uma pequena mala que trouxera consigo ao chegar na hospedaria.

Esse homem baixinho em reservado e vivia tão discretamente quanto possível. Evitava companhias e raramente os outros moradores viam o olhar penetrante daqueles olhos oblíquos. Era raro receber visitas. Mas, regularmente, dia após dia, encaminhava-se todas as manhãs, às nove horas, à biblioteca, ali ficando até encerar o expediente às 12 horas. Às doze e dez chegava em casa; às dez para uma hora saía para ser novamente o primeiro na biblioteca. Ali ficava até às seis horas da tarde. Mas como os agentes de informação só reparam nas pessoas que falam muito e não sabem que as pessoas solitárias, que muito lêem e estudam, são sempre as mais perigosas e aptas para revolucionar o mundo, não escreviam relatórios sobre o homem que passa despercebido e que mora na casa do sapateiro. Nos círculos socialistas, por sua vez, só se sabia que ele fora redator de uma pequena revista radical de emigrantes russos e, em Petersburgo, fora chefe de uma facção qualquer de nome impronunciável; e mais, porque falara dura e desdenhosamente sobre os membros mais acatados do partido socialista, declarando que os seus métodos eram errados, acharam que era insociável e difícil de conciliar, e não se preocupavam muito com ele. Para as reuniões que ele convocava ao anoitecer num pequeno café para proletários, vinham no máximo de quinze a vinte pessoas, na maioria jovens. Dessa forma não se levava a sério essa figura solitária, como todos esses refugiados russos que esquentam a cabeça com muito chá e discussões. Assim, ninguém dava importância a esse pequeno homem de aspecto sério. Não havia em Zurique nem trezentas pessoas que julgassem importante saber o nome de Vladimir Ilich Ulianov, o homem que morava na casa do sapateiro. E se, naquele tempo, um dos carros sofisticados que corriam de embaixada a embaixada atropelassem por acaso esse homem na rua e o matassem, o mundo não o reconheceria, nem sob o nome de Ulianov, nem sob o de Lenin.

Satisfação

Um dia, 15 de março de 1917, o bibliotecário da biblioteca de Zurique ficou deveras surpreendido. O ponteiro do relógio indicava nove horas e o lugar que o freqüentador mais assíduo ocupava diariamente estava vazio. Passou nove e meia, dez horas, e o leitor incansável não vinha e nem tornaria a vir, porque, quando se encaminhava para a biblioteca, um amigo russo abordara-o, ou melhor, surpreendera-o com a notícia de que havia irrompido a Revolução na Rússia.

A princípio, Lenin não quis acreditar. Ficara como que atordoado com a notícia. Mas, em seguida, precipitou-se com seus passos curtos e enérgicos até o quiosque à beira do lago e, diante da desafio do jornal, começou a esperar hora após hora e dia após dia. Era verdade. A notícia era real e a cada dia que passava tornava-se mais maravilhosamente real para de. A princípio, apenas um boato de que teria sido uma revolução palaciana ou uma aparente mudança de ministério. Depois a notícia de que o czar fora deposto e a formação de um governo provisório, a Duma, a liberdade da Rússia, a anistia dos presos políticos. Era o que sonhava há anos, tudo pelo qual lutava há vinte anos em organizações secretas, na prisão, na Sibéria, no exílio, enfim concretizou-se. E, de repente, pareceu-lhe que os milhões de mortos que esta guerra exigira não haviam morrido em vão. Não foram mortos à toa, e sim tinham sido martírios em prol do novo reino de liberdade, de justiça e de paz eterna que se instalaria. O homem que, até então, aparentava ser um sonhador frio e calculista, sentia-se como que inebriado. Da mesma forma, os outros, mais de cem, que ocupavam pequenos alojamentos em Genebra, Lausanne e Berna, festejam jubilosos a venturosa notícia: poder regressar à Rússia! Voltar para casa, sem passaportes forjados, sem nomes falsos e sem correr perigo de morte no império do czar, mas sim como cidadãos livres voltar a um país livre. Rapidamente, todos reúnem os seus escassos haveres, pois nos jornais haviam publicado o lacônico telegrama de Gorki: "Voltem todos à pátria!" Foram enviados cartas e telegramas em todas as direções dizendo: voltem para casa, voltem para casa! Reunam-se! Agrupem-se! Uma vez mais, podiam devotar-se inteiramente à causa à qual, desde a primeira hora em que tomaram consciência, dedicaram suas vidas: a causa da Revolução Russa.

A decepção

Dentro de poucos dias, porém, chegaram notícias desoladoras. A Revolução Russa, cuja notícia lhes havia aliviado os corações, como se lhes desse asas de águia, não era a revolução sonhada por eles, e não fora, absolutamente, uma revolução russa. Fora um motim no palácio contra o czar, fomentado por diplomatas ingleses e franceses, com a intenção de evitar que o czar assinasse um acordo de paz com a Alemanha, e não a revolução do povo, que desejava a paz e firmar seus direitos. Não era a revolução para a qual tinham vivido e pela qual estavam prontos a morrer, mas sim uma intriga dos partidos de guerra, dos imperialistas e dos generais, que não queriam ser incomodados na execução dos seus planos. Lenin e seus amigos reconheceram logo que o convite para que todos regressassem não se aplicava aos que ansiavam por uma revolução genuína, radical e marxista. Miliukov e os demais chefes liberais já haviam expedido ordens para lhes barrarem a viagem de volta, enquanto socialistas moderados como Plechanov, considerados úteis para um prolongamento da guerra, foram embarcados gentilmente da Inglaterra, em torpedeiros, para Petersburgo, e promovidos com honrarias. Por outro lado, Trotski e os outros radicais foram retidos nas fronteira. em Halifax. Em todas as ententes, há nas fronteiras listas negras com os nomes de todos aqueles que participaram do Congresso da Terceira Internacional de Zimmerwald. Insistentemente, Lenin envia telegramas e mais telegramas para Petersburgo, mas são interceptados ou não são despachados. O que era desconhecido em Zurique ou quase não conhecido na Europa, sabia-se muito bem na Rússia —que Vladimir Ilich Lenin era forte, enérgico, determinado, altamente perigoso para seus adversários.

O desespero apossou-se, sem medidas, dos refugiados indefesos retidos nas fronteiras. Durante anos e anos o seu Estado-maior realizara inúmeras reuniões em Londres, Paris e Viena, para elaborar as estratégias da Revolução Russa. Cada detalhe da Organização era calculado, testado e discutido. Durante decênios, publicaram em suas revistas artigos onde expunham, teoricamente ou valendo-se de exemplos práticos, as dificuldades e os perigos, avaliando todas as possibilidades de uma revolução. Lenin passara a vida ocupando-se só com esse assunto complexo, pensando, revendo várias vezes o que planejara até formulá-lo sob uma forma definitiva. E agora, estando preso à Suíça, a sua revolução ia ser posta a perder por outros? Essa idéia sagrada para ele, a da libertação do povo, ser posta a serviço de nações estranhas e interesses estranhos? Por estranha analogia, Lenin tinha de passar, nestes dias, pelo mesmo destino de Hindenburg, por ocasião do início da guerra. Ele também passara quarenta anos preparando a Guerra Russa e, quando ela irrompeu, teve que acompanhá-la em casa, de pijama, seguindo no mapa com bandeirinhas os progressos e erros dos generais convocados. Passavam pela mente de Lenin os sonhos mais loucos e fantásticos nesses dias de desespero. Será que não se poderia alugar um avião e passar pela Alemanha ou pela Áustria? O primeiro homem que apareceu oferecendo ajuda, verificou-se depois, era um espião. As idéias de fuga tornaram-se cada vez mais desenfreadas e devastadoras: escreveu à Suécia pedindo um passaporte, dizendo ser mudo, só para não ter que dar informações. É claro que, pela manhã, o próprio Lenin reconhecia a inviabilidade desses sonhos fantasiosos da noite. Mas de uma coisa ele sabe também de dia: ele tem de regressar a Rússia. Ele, e não quaisquer outros, é que tem de regressar à Rússia. Ele, e não quaisquer outros, é que tem de fazer a sua Revolução, uma revolução verdadeira e honrada, em vez de mera manobra política. Ele tem que voltar logo à Rússia, o quanto antes e a todo custo!

Através da Alemanha: sim ou não?

A Suíça é cercada pela Itália, França, Alemanha e Áustria. Seu caminho através dos países aliados estava fechado por ser ele um revolucionário Lenin; através da Alemanha e da Áustria por ser súdito russo e, portanto, membro de uma potência inimiga. Entretanto, é uma situação absurda. Lenin podia esperar mais boa vontade do imperador Guilherme da Alemanha do que de Miliukov da Rússia e de Poincaré da França. A Alemanha, às vésperas da declaração de guerra dos Estados Unidos, precisa de um acordo de paz com a Rússia a qualquer preço. Sendo assim, só poderia ser vantajoso para ela ter um revolucionário coadjuvante que causasse embaraços aos embaixadores da Inglaterra e da França.

Mas seria uma responsabilidade enorme dar um passo desses e iniciar, de repente, negociações com a Alemanha Imperial, país que ele injuriara mais de cem vezes nos seus artigos. Em face de todos os padrões morais aceitos, considerava-se, em tempo de guerra, alta traição o fato de passar por um país inimigo com a aprovação do estado-maior adversário. Lenin, naturalmente, devia saber que, com isso, comprometeria o próprio partido e, em princípio, se tornaria suspeito de ter sido envido à Rússia como agente pago pelo governo alemão. É claro que a forma como Lenin anunciou estar disposto a seguir esse caminho perigoso e comprometedor chocou não só os semi-revoludonários mas também a maioria dos seus correligionários. Eles argumentavam, atônitos, que há muito já vinham sendo entabuladas negociações com os social-democratas suíços, no sentido de conduzir de volta os revolucionários russos pelo sistema legal e neutro da troca de prisioneiros. Lenin, no entanto, sabe que esse caminho será longo. O governo russo irá retardar propositalmente a volta deles, indefinidamente; contudo, ele sabe que cada dia e cada hora é decisiva. Vê diante de si apenas a meta a ser atingida, enquanto os outros, menos cínicos, menos audazes, não tinham coragem de tomar uma atitude que, de acordo com as concepções e as leis em vigor, representava uma traição. Mas Lenin decidiu mentalmente e assumiu, por seu lado, a responsabilidade das negociações com o governo alemão.

O pacto

Justamente por saber que o seu gesto era desafiador e que chamaria a atenção, Lenin negociou o mais abertamente possível. Fritz Platten, secretário da União Trabalhista da Suíça, seguindo as suas instruções, procurou o embaixador alemão, que já havia negociado antes com os emigrados russos e lhe expôs as condições de Lenin. Pois esse fugitivo baixinho e desconhecido—que agia como se previsse a sua autoridade vindoura—não formulou um pedido ao governo alemão, mas apresentou as condições sob as quais os refugiados estariam dispostos a aceitar a benevolência alemã: o vagão em que viajassem deveria ter direitos extraterritoriais; não deveria haver inspeção de passaportes ou de pessoas, nem ao entrar, nem ao sair; eles mesmos iriam pagar a viagem segundo as tarifas normais; e ficariam proibidos de sair do carro, fosse por ordem ou por iniciativa própria.

Romberg, o embaixador alemão, transmitiu as propostas ao governo alemão. Essas chegaram as mãos de Ludendorf, que, sem dúvida, as aprovou, ainda que em suas memórias não se encontre nenhuma palavra sobre essa decisão histórica, talvez a mais importante da sua vida. O embaixador ainda tentou modificar alguns detalhes, já que Lenin, propositalmente, formulou suas condições de forma ambígua, para que não só russos, mas também um austríaco, como Radeck, pudessem ir juntos sem ser revistado. Mas, assim como Lenin, o governo alemão também tinha pressa, pois no dia 5 de abril os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha.

No dia 6 de abril, Fritz Platten recebeu, por conseguinte, ao meio-dia, a resposta memorável: "Assunto decidido conforme desejado." No dia 9 de abril de 1917, às duas e meia, um pequeno grupo de pessoas mal vestidas saía do restaurante Zähringerhof, carregando a própria bagagem para a estação ferroviária de Zurique. Eram ao todo trinta e duas pessoas, incluindo mulheres e crianças. Dos homens, só Lenin, Sinoviev e Radeck se tornaram famosos. Almoçaram juntos modestamente. Assinaram em conjunto um documento, declarando que haviam lido no Peit Parisies a decisão do governo provisório russo de tratar como traidores os que regressassem via Alemanha. O texto, redigido e assinado, fora mal escrito, com uma caligrafia irregular, dizendo que se responsabilizariam inteiramente pela viagem e estariam de acordo com as condições. Empreendem, calados e decididos, a viagem que se tornou histórica.

A sua chegada à estação ferroviária não despertou a menor atenção. Não apareceram repórteres nem fotógrafos. Pois quem na Suíça haveria de conhecer esse senhor Ulianov, que usava um chapéu amarrotado, um casaco já gasto e ridículas botas pesadas de montanha que levou até a Suécia, esse senhor que, calado, procurava desapercebido um lugar no meio de um grupo de homens que estavam levando caixotes, sacolas e pacotes. Nada os distinguia dos inúmeros outros emigrantes de Zurique vindos da Iugoslávia, da Rutênia ou da Rumênia, que ficavam sentados em cima das suas malas de madeira para descansar algumas horas, enquanto não eram embarcados em direção à costa francesa, de onde tomavam um transatlântico.

O Partido Trabalhista Suíça desaprovara a viagem e não mandou nenhum representante. Vieram apenas alguns russos para entregar encomendas e mandar alimentos e lembranças para os que ficaram na pátria. Outros vieram, na última hora, para demover Lenin de fazer essa viagem criminosa e sem sentido. A decisão, porém, era irrevogável. Às três e dez o guarda dá o sinal e o trem parte em direção à Gottmadingen, estação da fronteira alemã. Três horas e dez minutos, e desde essa hora o mundo entrou num outro ritmo.

O trem lacrado

Milhões de tiros destruidores foram disparados nessa Guerra Mundial; os mais poderosos projéteis, os de maior alcance ate então imaginados pelos engenheiros. Mas nenhum deles fora tão fatal e de tão longo alcance como esse trem, carregado com os revolucionários mais perigosos e decididos deste século, e que, no momento, estava cruzando a fronteira da Suíça e atravessando, velozmente, toda a Alemanha, só parando em Petersburgo para quebrar a ordem do tempo.

Nos trilhos da estação de Gottmadingen estava esse estranho projétil, um vagão de segunda e terceira classes, em que as mulheres e as crianças ocupavam a segunda classe e os homens a terceira. Um risco feito de giz indicava, de um lado, a zona neutra, reservada aos russos, e, do outro, o compartimento dos dois oficias alemães que acompanhavam esse transporte de explosivos vivos. O trem percorre o trajeto durante à noite sem incidentes. Somente em Frankfurt alguns soldados alemães invadem a estação, porque ouviram falar da passagem dos revolucionários russos por lá. A tentativa dos social-democratas de falar com os viajantes foi recusada. Lenin sabia que se tornaria suspeito se trocasse uma só palavra com um alemão em território germânico. Na Suécia são recebidos festivamente. Famintos, lançaram-se sobre a mesa com o café da manhã. As iguarias suecas representavam para eles um milagre incrível. Lenin aproveitou o lugar para comprar sapatos e algumas roupas e desfez-se das botas pesadas. E, enfim, alcançaram a fronteira da Rússia.

O projétil atinge o alvo

O primeiro gesto de Lenin, ao pisar em solo russo, é característico: não presta atenção às pessoas, mas lança-se aos jornais. Nos quatorze anos em que estivera fora da Rússia, não vira a terra, nem a bandeira nacional, nem os uniformes dos soldados. Mas o idealista de ferro não derramou lágrimas como os outros, não abraçou os soldados surpresos como as mulheres. Queria ver os jornais primeiro, o jornal Pravda, para ver se a página, a sua página, mantinha firme o ponto de vista internacional. Encolerizado, amassou o jornal. Não, aquele nacionalismo bobo, mero patriotismo, ainda não trazia o sentido da verdadeira revolução por ele pretendida. Já era tempo de voltar —meditava ele—para tomar o leme nas mãos, virá-lo e dirigir a sua idéia de vida rumo à vitória ou para a destruição. Mas chegara ele a concretizar isso? Estava ansioso e inquieto. Não iria Miliukov prendê-lo já em Petersburgo?—a cidade ainda se chamava assim naquela época, mas por pouco tempo. Os amigos que vieram ao seu encontro, Kamenev e Stalin, riam misteriosamente no compartimento escuro da terceira classe, que estava fracamente iluminado. Eles não responderam ou não queriam responder. Sem precedentes, porém, foi a resposta dada pela realidade dos fatos. Quando o trem chegou à estação finlandesa, a enorme praga estava repleta com cerca de dez mil trabalhadores e tropas de todas as armas, à espera daquele que voltava do exílio. A uma só voz todos puseram-se a cantar a Internacional. Ao saltar do trem, Vladimir Ilich Ulianov, o homem que ainda há dois dias se hospedava na casa do sapateiro, foi erguido por centenas de mãos e colocado sobre um carro blindado. Das casas e da fortaleza, as luzes dos holofotes concentravam-se sobre ele e, de cima desse carro, ele faz o seu primeiro discurso ao povo. As ruas estremeceram ao clamor do povo e já se haviam iniciado os "dez dias que abalaram o mundo". O projétil acertou o alvo e destruiu um império, um mundo.


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