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A SABEDORIA DE IBN MAINUN E
SUAS RECOMENDAÇÕES MÉDICAS

Tariq Ali

Este é um trecho do romance O Livro de Saladino, de Tariq Ali. A Rubedo agradece a gentileza da Editora Record que autorizou sua reprodução em nossas páginas.

Uma tarde, depois de dois longos e cansativos dias com o sultão. voltei para casa e encontrei Raquel, minha esposa, numa conversa animada com Ibn Maimun. Ela estava reclamando de mim com nosso grande mestre, já que ele impunha respeito e tinha influência em nossa casa. Quando entrei na sala, ouvi-a dizendo que, por causa do tempo que eu passava no palácio, estava mudando minha forma de pensar, minha personalidade e minha atitude em relação aos "mortais menos privilegiados". E, além do mais, minha mulher me acusava de estar negligenciando meus deveres com ela e com nossa família.

- Acho que esse é um problema para o cádi resolver - avaliou Ibn Maimun, confiando a barba, pensativo. - Quer que eu transmita sua reclamação e peça para Ibn Yakub ser castigado?

Achei graça e Raquel não gostou, saindo da sala com o rosto duro como o pão dormido que teve que servir ao nosso hóspede inesperado. Ibn Maimun estava cansado. Seu trabalho com o cádi era exaustivo, pois ele morava em Fustat, a cerca de três quilômetros do palácio do cádi, aonde ia todas as manhãs para cuidar dele, dos filhos e das pessoas do harém.

Assim, ele passava quase o dia todo no Cairo, voltando para casa no final da tarde. Lá, uma mistura de pessoas o aguardava: judeus e gentios, nobres e plebeus, amigos e inimigos, crianças e seus avós. Eram os seus pacientes. Todos procuravam seu atendimento. O número de doentes aumentava todo dia e, como bom médico, não podia recusar-se a atender ninguém.

Às vezes, quando precisava muito descansar, passava a noite em nossa casa na Juderia, a poucos passos do palácio. Ele me disse que lá podia encontrar uma paz absoluta e recuperar as energias. Pedi desculpas pelo desabafo de Raquel.

- Tome cuidado, Ibn Yakub. Sua esposa é uma boa mulher, mas sua energia e o amor que tem por você estão diminuindo aos poucos. Ela não vai agüentar suas ausências para sempre. Você parece passar mais tempo no palácio do sultão do que em casa. Por que não diz ao sultão que precisa estar com sua família no Sabat?

Dei um suspiro. Eu também estava aborrecido e cansado naquela tarde.

- Compreendo o que diz, meu amigo, mas não foi você quem me recomendou a Saladino? Admito que às vezes me sinto como um prisioneiro. Mas não seria sincero se dissesse que estou infeliz. O fato é que gosto do sultão. Gostaria de estar montado num cavalo ao lado dele quando nos aproximarmos do Reino de Jerusalém e de estar presente quando a cidade se render aos nossos exércitos, voltando a ser al-Kadisia e quando pudermos rezar no templo outra vez. Nós enterramos o sol que brilhava sobre Jerusalém, mas voltaremos a nos encontrar lá. Eu daria a vida para ver essa dia . Um tempo novo e brilhante está chegando à nossa cidade sagrada. Acredito em Saladino: com seu jeito tranqüilo, depois de pensar bem, vai conseguir retomar Jerusalém.

O sábio concordou.

- Entendo o que diz, mas a carência de Raquel é tão importante quanto a vontade que você tem de participar da História. Encontre um meio-termo. A felicidade é como a saúde; você só sente falta dela quando a perde.

Depois de nosso curto diálogo, Ibn Maimun foi para seu quarto.

Sozinho, refleti sobre seu conselho. Qual seria melhor forma de conciliar o trabalho com a família? Raquel queria que eu voltasse para casa e terminasse o livro sobre a história de nosso povo. Para ela, isso era muito mais importante do que ser escriba na corte.

Ela não entendia que Ibn Maimun quisesse me afastar desse livro por temer que minhas pesquisas me criassem problemas com os rabinos. Preocupado com a nossa delicada situação no mundo, ele não queria que eu provocasse uma briga com nossos grandes eruditos religiosos, cuja compreensão do passado baseava-se apenas nas Escrituras. Ibn Maimun concordava comigo que o deslocamento de nosso povo em direção ao Ocidente começara muito antes da tomada do templo ou do cerco de Massada. Discutimos isso várias vezes.

Saí para o pátio em busca de ar fresco e me surpreendi com o brilho do céu estrelado. Fiquei olhando as estrelas durante muito tempo. Vi que tinham formas diversas e, coisa estranha, podia jurar que vi a beleza simples de Halima refletida no brilho de uma constelação. Tinha ficado fascinado por ela. Não conseguia tirá-la do pensamento. Por que não foi almoçar comigo naquele dia, se Saladino tinha pedido? E por que ele pediu? Será que me considerava um eunuco? Será que estava na cama com ele naquela noite ou o sultão já teria se saciado de beber naquele oásis e teria procurado outro?

Já era tarde da noite, mas todas essas perguntas continuavam me atormentando enquanto ia para o quarto. Raquel estava acordada e ainda zangada. Falei com calma, mas ela não respondeu às minhas perguntas. Nem se submeteu ao meu desejo. Naquela noite, o sono deixou ambos frustrados e ficamos deitados em silêncio, esperando o dia nascer.

Ibn Maimun começava o dia tomando uma grande taça de água morna. Sempre que ficava em minha casa, eu tinha de assistir ao mesmo ritual. Ele garantia que a água morna limpava o interior de nosso corpo, preparando-o para enfrentar o novo dia. As receitas de Ibn Maimun eram principalmente preventivas. O segredo de seu sucesso como médico estava na importância que dava à alimentação - e na quantidade ingerida. Beber oito copos de água nos meses de inverno e o dobro no verão era fundamental para a boa saúde.

Ele era bem rígido nesses assuntos. Não adiantava discutir, seria mais fácil conversar sobre os defeitos e as qualidades da nossa religião. Este assunto não o incomodava em absoluto, ele só insistia na eficiência de suas receitas médicas. Nunca entendi o motivo de tanta firmeza. Talvez fosse porque ganhava a vida como médico, e, se os paciente soubessem que não tinha muita certeza sobre seus tratamentos, procurariam outro médico. Talvez não. Os paciente o procuravam porque sabiam que ele curava.

Naquele instante, ele estava ocupado em preparar um ungüento para o cádi. A sala ficou com cheiro de cebola e alho, aos quais estava juntando mostarda, arsênico, amêndoas amargas trituradas e vinagre. O cheiro de enjoou e fui abrir a porta do pátio em busca de ar fresco. Ele sorriu.

- O cádi está indisposto? - perguntei - Ou você está preparando um veneno para ele? Só com o cheiro eu já iria direto para a cova.

- Não está doente, mas muito nervoso.

- Porquê?

- Está começando a perder o cabelo e não quer ficar careca. É mais velho que nós, mas continua vaidoso. Talvez esteja interessado numa jovem.

- Se estivesse interessado numa jovem, ela lhe seria oferecida numa bandeja de outro. A falta de cabelo não teria muita importância. Mudando de assunto, que efeito vai fazer essa mistura fedorenta?

- O ungüento vai fortalecer e deixar mais encorpados os fios de cabelo que ainda restam. Pode ser até que faça nascer mais.

Por que o grande al-Fadil está tão preocupado com isso? Queda de cabelo é sinal de maturidade. Antigamente, num lugar não muito distante daqui, os antigos sacerdotes e reis costumavam raspar a cabeça para demonstrar poder.

- É verdade. Mas o profeta do islamismo tinha uma farta cabeleira. Não queira ficar grisalho, por isso pintava o cabelo com uma mistura de anêmona vermelha e óleo de murta. Pelo menos, é o que diz a tradição.

Eu estava prestes a contestar, mas o rosto do médico mostrava que ele não estava querendo responder mais nada sobre o tratamento rejuvenescedor do nosso cádi.

Então começou a falar da competência do cádi como administrador, seu sendo de justiça, sua habilidade para contestar até as decisões do sultão e, acima de tudo, os bons conselhos que dava ao soberano.

Quando saímos de minha casa em direção ao palácio, Ibn Maimun fez uma pergunta que me surpreendeu.

- Responda com sinceridade, Ibn Yakub: seu coração abandonou Raquel?

Neguei sacudindo a cabeça com firmeza. Mas meu coração começou a bater um pouco mais forte, como se quisesse me contestar. Fiquei confuso, não conseguia falar. Ele continuou perguntando.

- Tem certeza de que não ficou encantado pelas belas fartas tranças de uma nova moradora do palácio do sultão?

Sacudi a cabeça outra vez. Como é que ele podia saber de Halima? Não falei nada com ninguém. Nem sabia direito o que sentia. Mas, céus, como é que Ibn Maimun tinha chegado a essa conclusão? Por um instante, fiquei surpreso demais para falar. Quando me refiz, pedi-lhe que fosse mais claro, mas o médico deu de ombros e não respondeu. Insisti.

- No meu trabalho, tenho ocasião de ouvir os problemas de muitos lares. O que Raquel disse não é novidade. É uma velha história. Pediu-me que rezasse por ela, mas recusei: saber e dormir é melhor do que rezar e ignorar.

- Nós dois não conseguimos dormir na noite passada. Tenho a consciência limpa, minha alma não sente culpa.

- E seu coração?

- Ele sonha. Você sabe do que estou falando: um mundo sem sonhos não é pior que o inferno?

- Converse com ela, Ibn Yakub. Converse com Raquel, conte seus sonhos. O destino nunca permitiu que nosso povo saboreasse muito mel.

Nós nos despedimos.

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