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POSIÇÕES

Entrevista a Jean-Louis Houdebine e Guy Scarpetta

Jacques Derrida

Esta é a resposta à primeira pergunta que Jean-Louis Houdebine e Guy Scarpetta fizeram a Jacques Derrida. A entrevista completa está publicada no livro Posições, de Jacques Derrida, publicado recentemente pela Autêntica Editora. A Rubedo agradece a editora pela gentileza de nos permitir divulgar este texto. Visite nossa Revista de Literatura para obter mais detalhes do livro.

Derrida: O motivo da différance, quando marcado por um "a" silencioso1, não atua, na verdade, nem como "conceito nem simplesmente como "palavra". Eu tentei demonstrá-lo. Isso não o impede de produzir efeitos conceituais e concreções verbais ou nominais; os quais, de resto, são - embora, de forma alguma, não nos apercebamos disso imediatamente - ao mesmo tempo impressos e fraturados pelo ângulo dessa "letra", pelo trabalho incessante de sua estranha "lógica". O "feixe" que você relembra é um ponto de cruzamento histórico e sistemático; é, sobretudo, a impossibilidade estrutural de enclausurar essa rede, de deter sua urdidura, de traçar-lhe uma margem que seja uma nova marca. Não podendo mais se elevar como uma palavra-mestra ou como um conceito-mestre, barrando toda relação com o teológico, a différance encontra-se envolvida em um trabalho que ela põe em movimento, por meio de uma cadeia de outros "conceitos", de outras "palavras", de outras configurações textuais; e, talvez, eu tenha, mais adiante, a ocasião de indicar a razão pela qual essas outras "palavras" ou esses outros "conceitos" se impuseram sucessivamente ou simultaneamente; e por que foi preciso insistir neles (por exemplo, os "conceitos" de gramma, de reserva, de encetamento, de rastro, de espaçamento, de blanc2 - sens blanc, sang blanc, sans blanc, cent blancs, semblant3 - de suplemento, de pharmakon, de margem-marca-marcha etc.). Por definição, a lista não tem nenhuma clausura taxonômica; nem - menos ainda - constitui ela um léxico. Em primeiro lugar, porque não se trata de átomos, mas, antes, de pontos focais [foyers] de condensação econômica, de locais de passagem obrigatórios para um número bastante grande de marcas, de crisóis [creusets] um pouco mais efervescentes4. Depois, seus efeitos não se voltam apenas sobre si próprios por uma espécie de auto-afecção sem abertura; eles se propagam em cadeia sobre o conjunto prático e teórico de um texto e, cada vez, de uma maneira diferente. De passagem faço a seguinte observação: a palavra "suprassumida" [relevée], na frase que você citou, não tem, em razão de seu contexto, o sentido mais técnico que eu lhe reservo para traduzir e interpretar a Aufhebung hegeliana. Se houvesse uma definição da différance, ela seria justamente o limite, a interrupção, a destruição da suprassunção [relève] hegeliana onde quer que ela opere5. O que está aqui em jogo é enorme. Eu enfatizo "a Aufhebung hegeliana tal como interpretada por um certo discurso hegeliano", pois é evidente que o duplo sentido de Aufhebung poderia ser escrito de outra forma. Daí sua proximidade com todas as operações que são conduzidas contra a especulação dialética de Hegel.

O que me interessava naquele momento e que eu tenho perseguir agora, por outras vias, é, ao mesmo tempo que uma "economia geral", uma espécie de estratégia geral da desconstrução. Essa estratégia deveria evitar simplesmente neutralizar as oposições binárias da metafísica e, ao mesmo tempo, simplesmente residir, no campo fechado dessas oposições e, portanto, confirmá-lo.

É preciso, pois, fazer um gesto duplo, de acordo com uma unidade ao mesmo tempo sistemática e dela própria afastada, uma escrita desdobrada, isto é, múltipla dela própria, aquilo que chamei, em "La double séance", de uma dupla ciência6: por um lado, passar por uma fase de inversão. Insisto muito e incessantemente na necessidade dessa fase de inversão que se pode, talvez, muito rapidamente, buscar desacreditar. Fazer justiça a essa necessidade significa reconhecer que, em uma oposição filosófica clássica, nós não estamos lidando com uma coexistência pacífica de um face a face, mas com uma hierarquia violenta. Um dos termos comanda (axiologicamente, logicamente etc.), ocupa o lugar mais alto. Desconstruir a posição significa, primeiramente, em um momento dado, inverter a hierarquia. Descuidar-se dessa fase de inversão significa esquecer a estrutura conflitiva e subordinante da oposição. Significa, pois, passar muito rapidamente - sem manter qualquer controle sobre a oposição anterior - a uma neutralização que, praticamente, deixaria intacto o campo anterior, privando-se de todos os meios de aí intervir efetivamente. Sabe-se quais têm sido, sempre, os efeitos práticos (em particular, políticos) de passagens que saltam imediatamente para além das oposições, bem como das contestações feitas sob a forma simples do "nem isto / nem aquilo". Quando digo que essa fase é necessária, a palavra"fase" não é, talvez, a mais rigorosa. Não se trata aqui de uma fase cronológica, de um momento dado ou de uma página que pudesse um dia ser passada para podermos ir simplesmente cuidar de outra coisa. A necessidade dessa fase é estrutural; ela é, pois, a necessidade de uma análise interminável; a hierarquia da oposição dual sempre se reconstitui. Diferentemente de outros autores dos quais se sabe que estão mortos em vida, o momento de inversão não é jamais um tempo morto.

Dito isso, ater-se, por outro lado, a essa fase significa ainda operar no terreno e no interior do sistema desconstruído. É preciso também, por essa escrita dupla, justamente estratificada, deslocada e deslocante, marcar o afastamento entre, de uma lado, a inversão que coloca na posição inferior aquilo que estava na posição superior, que desconstrói a genealogia sublimante ou idealizante da oposição em questão e, de outro, a emergência repentina de um novo "conceito", um conceito que não se deixa mais - que nunca se deixou - compreender no regime anterior. Se esse afastamento, essa bi-face ou bi-fase, não pode mais ser inscrito senão em uma escrita bífida (e isso vale, sobretudo, para um novo conceito de escrita que provoca uma inversão da hierarquia fala/escrita e de todo o sistema adjacente e, ao mesmo tempo, faz explodir uma escrita no próprio interior da fala, desorganizando, assim toda a ordem herdada e invadindo todo o campo), ele não pode mais se marcar senão em um campo textual que chamarei de "agrupado": no limite, é impossível localizá-lo, situá-lo; um texto unilinear, uma posição pontual7 , uma operação assinada por um único autor são, por definição, incapazes de praticar esse afastamento.

Nesse momento, para melhor marcar esse afastamento (A disseminação, o texto que leva esse título, uma vez que você me coloca uma questão a esse respeito, é uma exploração sistemática e arteira de écart [afastamento], carré, carrure, cartre, charte, quatre8 etc.), foi preciso analisar, pôr a trabalhar, no texto da história da filosofia tanto quanto no texto dito "literário" (eu assinalei imediatamente certas delas; há muitas outras), que chamei, por analogia (eu enfatizo isso) de "indecidíveis", isto é, unidades de simulacro, "falsas" propriedades verbais; nominais ou semânticas, que não se deixam mais compreender na oposição filosófica (binária) e que, entretanto, habitam-na, opõe-lhe resistência, desorganizam-na, mas sem nunca constituir um terceiro termo, sem nunca dar lugar a uma solução na forma da dialética especulativa (o pharmakon não é nem o remédio nem o veneno, nem o bem nem o mal, nem o dentro nem o for, nem a fala nem a escrita; o suplemento não é nem um mais nem um menos, nem um fora nem um complemento de um dentro, nem um acidente nem uma essência etc.; o hímen não é nem a confusão nem a distinção, nem a identidade nem a diferença, nem a consumação nem a virgindade, nem o velamento nem o desvelamento, nem o dentro nem o fora etc.; o gramma não é nem um significante nem um significado, nem um signo nem uma coisa, nem uma presença nem uma ausência, nem uma posição nem uma negação etc.; o espaçamento não é nem o espaço nem o tempo; o encetamento não é nem a integridade [encetada] de um começo ou de um corte simples nem a simples secundariedade. Nem/nem quer dizer "ao mesmo tempo" ou "ou um ou outro" [Ni/ni c'ést à la fois ou bien ou bien]; a marca é também o limite marginal, a marcha etc.)9. De fato, é contra a reapropriação incessante desse trabalho do simulacro em uma dialética do tipo hegeliano (que chega ao ponto de idealizar e "semantizar" esse valor de trabalho) que me esforço por realizar a operação crítica: o idealismo hegeliano consiste justamente em suprassumir as oposições binárias do idealismo clássico, em resolver sua contradição em um terceiro termo que vem suprassumir, negar, ao suprassumir, ao idealizar, ao sublimar em uma interioridade anamnésica (Erinnerung), ao internar a diferença em uma presença em si.

É por se tratar ainda da relação com Hegel que é preciso elucidar (trabalho difícil que, em grande parte, resta ainda por fazer e que continua, de uma certa maneira, interminável, ao menos que quisermos conduzi-lo com rigor e cuidado), que eu tentei distinguir a différance (na qual o "a" marca, entre outros aspectos, o caráter produtivo e conflitivo) da diferença hegeliana. E isso justamente no ponto em que Hegel, na grande Lógica, só determina a diferença como contradição10 a fim de resolvê-la, interiorizai-la, de acordo com o processo silogístico da dialética especulativa, na presença a si de uma síntese onto-teológica ou onto-teleológica. A différance deve assinalar (em um ponto de proximidade quase absoluto com Hegel, como enfatizei, creio, nessa exposição e em outros locais11: tudo se joga aqui e, o que é mais decisivo, naquilo que Husserl chamava de "nuances sutis" ou Marx de "micrologia") o ponto de ruptura com o sistema da Aufhebung e da dialética especulativa. Uma vez que esse caráter conflitivo da différance12 - que não se pode chamar de "contradição" senão sob a condição de a demarcar, por meio de um árduo trabalho, da "contradição" de Hegel - não se deixa jamais suprassumir totalmente, ele marca seus efeitos naquilo que chamo de "texto em geral", em um texto que não se limita ao reduto do livro ou da biblioteca e não se deixa jamais comandar por um referente no sentido clássico, por uma coisa ou por um significado transcendental que regraria todo o seu movimento. Não é, como você pode ver, por uma preocupação com um apaziguamento ou com uma reconciliação que recorro de preferência à marca "différance" antes que ao sistema da diferença-e-da-contradição.

Sempre seguindo sua questão: então, com efeito, nessa cadeia aberta da différance, do "suplemento", do "gramma", do "pharmakon", do "hímen" etc., inseriu-se o motivo ou, se você preferir, o "conceito", o operador de generalidade denominado disseminação. Isso se fez notadamente, você o sabe, pelo movimento de uma espécie de leitura cooperativa do Nombres, de Sollers, no texto de Critique que você relembra. Em última instância, Disseminação não quer nada dizer, não podendo ser reunida em uma definição. Não tentarei fazê-lo aqui e prefiro remeter ao trabalho dos textos. Se não se pode resumir a disseminação, a différance seminal, em seu teor conceitual, é porque a força e a forma de sua ação perturbadora fazem explodir o horizonte semântico. A atenção dada à polissemia ou ao politematismo constitui, possivelmente, um progresso relativamente à linearidade de uma escrita ou de uma leitura monossêmica, ansiosa por se amarrar ao sentido tutelador, ao significado principal do texto, até mesmo ao seu referente primordial. Entretanto, a polissemia enquanto tal organiza-se no horizonte implícito de uma retomada unitária do sentido, até mesmo de uma dialética - Richard fala de uma dialética em sua leitura temática de Mallarmé; Ricoeur, sua teoria Essai sur Freud (e a hermenêutica de Ricoeur, sua teoria da polissemia, tem muita afinidade com a crítica temática, o que é reconhecido por Richard), de uma dialética teleológica e totalizante que deve permitir a um momento dado, por mais distanciado que ele seja, de voltar a reunir a totalidade de um texto na verdade de seu sentido, constituindo o texto em expressão, em ilustração, e anulando o deslocamento aberto e produtivo da cadeia textual. A disseminação, ao contrário, por produzir um número não-finito de efeitos semânticos, não se deixa reconduzir a um presente de origem simples ("A disseminação", "A dupla sessão", "A mitologia branca" são re-colocações em-cena - re-colocações práticas - de todas as falsas partidas, de todos os começos, incipits, títulos, exergos, pretextos fictícios, etc.: decapitações) nem a uma presença escatológica. Ela marca uma multiplicidade irredutiva e gerativa. O suplemento e a turbulência de uma certa falta fraturam o limite do texto, interditam sua formalização exaustiva e clausurante ou, ao menos, a taxonomia saturante de seus temas, de seu significado, de seu querer-dizer.

Nós jogamos, aqui, obviamente, com a semelhança fortuita, com o parentesco de puro simulacro entre o seme e o sêmen. Não existe entre os dois qualquer comunicação de sentido. E, entretanto, nessa derrapagem e nessa colisão de pura exterioridade, o acidente produz certamente uma espécie de miragem semântica: o desvio do querer-dizer, seu efeito-reflexo na escrita, põe a coisa em movimento.

Tentei não formalizar esse regime motriz do excesso e da falta, da falta em excesso, na neutralidade de um discurso crítico (eu disse por que razão uma formalização exaustiva, no sentido crítico, é impossível13 e "A dupla sessão" é uma "crítica" desconstrutiva da noção de "crítica"), mas re-escrever, inscrever e relançar seus esquemas. Trata-se de re-marcar, tanto em "A disseminação" quanto em "A dupla sessão" (esses dois textos são completamente inseparáveis), uma nervura, uma dobra, um ângulo que interrompem a totalização: em um certo lugar, em um lugar de uma forma bem determinada, nenhuma série de valências semânticas pode mais se fechar ou se juntar. Não que ela se abra para uma riqueza inesgotável do sentido ou para a transcendência de um excesso semântico. Por meio desse ângulo, dessa dobra, dessa re-dobra de um indecidível, uma marca marca ao mesmo tempo o marcado e a marca, o lugar re-marcado da marca. A escrita que, nesse momento, se re-marca ela própria (uma coisa completamente diferente de uma representação de si), não pode mais ser contada na lista de temas (ela não é um tema e não pode, em nenhum caso, vir a sê-lo): ela deve ser subtraída (cavidade) dessa lista e a ela anexada (relevo). A cavidade é o relevo, mas a falta e o excesso não podem jamais se estabilizar na plenitude de uma forma ou de uma equação, na correspondência imobilizada de uma simetria ou de uma homologia. Não posso retomar aqui o trabalho tentado nesses dois textos sobre a dobra, o branco, o hímen, a margem, o lustre, a coluna, o ângulo, o quadrado, o ar, o sobrenúmero, etc. Esse trabalho tem, sempre, entre outros, este resultado teórico: uma crítica do simples conteúdo (crítica temática - seja ela de estilo filosófico, sociológico ou psicanalítico - que tomasse o tema, manifesto no oculto, pleno ou vazio, pela substância do texto, por seu objeto ou por sua verdade ilustrada) seria tão incapaz de se medir por certos textos (ou, antes, pela estrutura de certas cenas textuais) quanto uma crítica puramente formalista que não se interessasse senão pelo código, pelo puro jogo do significante, pelo agenciamento de um texto-objeto e se descuidasse dos efeitos genéticos ou da inscrição ("histórica", se você preferir) do texto lido e do novo texto que ela própria escreve. Essas duas insuficiências são rigorosamente complementares. Não se pode defini-las sem uma desconstrução da retórica clássica e de sua filosofia implícita: eu a iniciei em "A dupla sessão" e tentei sistematizai-la em "A mitologia branca". A crítica do estruturalismo formalista é empreendida desde os primeiros textos de A escritura e a diferença.



1 Ela se propõe por uma marca muda, por um momento tácito, eu diria mesmo por uma pirâmide, pensando, assim não apenas na forma da letra quando se a imprime em tamanho grande ou maiúsculas, mas no texto da Enciclopédia, de Hegel, no qual o corpo do signo é comparado à Pirâmide egípcia". "La différance", in Théorie d'ensemble, p. 42. [Reproduzido em Marges de la philosophie, Éd. de Minuit, 1972, p. 4]. Essa alusão é desenvolvida num ensaio contemporâneo ("Le puits et la pyramide, introduction à la semiologie de Hegel", janeiro de 1968, in Hegel et la pensée moderne, P.U.F. [Reproduzido em Marges..., p. 79] que opõe também o discurso do logos, que extrai a verdade toda-falante do fundo de um poço à escrita, mais antiga que a verdade, que se marca na fronte de um monumento (NR)

2 As expressões que se seguem são, em francês, homófonas: pronunciam-se da mesma forma, mas têm significados diferentes. Tradução literal, pela ordem de sentido: sentido branco, sangue branco, sem branco, cem brancos, aparência. (N.T.)

3 Cf. "La double séance" (Tel Quel, nº 40-41) [Reproduzido em La dissémination, Éd. du Seuil, 1972] (NR)

4 "Foyer" está empregado aqui no sentido de "ponto focal", mas é também "lareira". Derrida joga aqui com o fato de que as respectiva etimologias de foyer e creuset têm a ver com luz, luminosidade: foyer vem do latim focus, e creuset, aqui traduzida por "crisol", de uma palavra gálico-romana que significava "lâmpada". (N.T.)

5 De la grammatologie, p. 40, "De l'économie restereinte à l'économie générale", in L'écriture et la différence, e passim (NR)

6 Cf. também "La différance", p. 58 [Marges..., p.21], "Les deux écritures", "L'écriture et l'économie génerale", "La transgression du neutre et le déplacement de l'Aufhebung", in L'écriture et la difference" (texto sobre Bataille, p. 385 ss.), "Ousia et grammè, Note sur une note de Sein und Zeit" [Reproduzido em Marge..., p.31] (a propósito das "fissuras" do "texto metafísico": "dois textos, duas mãos, dois olhares, duas escutas" ... "a relação entre os dois textos... não pode, de forma alguma, se dar a ler sob uma tal forma" (p. 256-7). Quanto a esse "duplo registro na prática gramatológica" e sua relação com a ciência, cf. "Sémiologie et grammatologie", (entrevista com Julia Kristeva) in Information sur les sciences sociales, VII (3), 1968, especialmente p. 148 [Cf. supra] (NR)

7 Sobre a posição e a pontualidade, cf. "La parole soufflée", in "L'écriture et la différence, p. 292. Sobre a crítica da pontualidade, cf. La voix et le phénomène e "Ousia et grammè" (NR). Eu acrescentaria: a assinatura está de si mesma afastada.

8 Enquanto a série anteriormente apresentada ("blanc") jogava com a homofonia, esta joga com a semelhança da pronúncia bem como com a etimologia de écart (afastamento), do latim quartus, sugerindo um parentesco etimológico (deliberadamente falso). A tradução literal da série, na ordem: quadrado, estatura (largura de ombros), cartão (carta, mapa), carta constitucional, quatro (N.T.).

9 Outra série de palavras foneticamente próximas: marque (marca), marge (em marginal) (margem), marche (marcha) (N.T.).

10 "A diferença em geral é já a contradição em si ("Der Unterschied überhaupt ist schon der Widerspruch an sich") (11, 1, cg. 2 C). Ao não se deixar subsumir simplesmente sob a generalidade da contradição lógica, a différance (processo de diferenciação) permite realizar um cálculo diferenciante dos modos heterogêneos da conflitualidade ou, se preferirmos, das contradições. Se falei mais freqüentemente de conflitos de forças que de contradições, foi, primeiramente, por desconfiança crítica relativamente ao conceito hegeliano de contradição (Widerspruch), o qual, além disso, como seu nome indica, é feito para ser resolvido no interior do discurso dialético, na imanência de um conceito capaz de sua própria exterioridade e de ter seu fora-de-si junto-de-si. Reduzir a différance à diferença significa estar muito atrasado relativamente a esse debate. A elipse do termo "contradição" se marca, por exemplo, nessa fórmula: "Escrição [scription] contra-dicção ao reler" (La dissémination", II, Critique, 262, p. 245 e em "La pharmacie de Platon" [La dissémination, p. 182 e 403]. Assim, definido, o "indecidível", que não é a contradição na forma hegeliana da contradição, situa, em um sentido rigorosamente freudiano, o inconsciente da oposição filosófica, o inconsciente insensível à contradição na medida em que ela pertence à lógica da palavra, do discurso, da consciência, da presença, da verdade, etc.

11 "La différance", p. 59 [Marges..., p. 21]. Cf. também a discussão que se seguiu, em Bulletin de la Société de philosophie (NR).

12 Sobre o caráter irredutivelmente conflitivo da différance e da alteridade que aí se inscreve, cf., entre muitos outros lugares, "La différance", p. 46 [Marges..., pp. 8, 21]. Quanto à relação com a dialética, cf., por exemplo, L'écriture et la différence, p. 364.

13 L'écriture et la différence, passim. "La différance", pp. 50-1. "La mythologie blanche", passim [Marges...., pp. 11 e 247] (NR).

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