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MENSAGEM (1934)

Robert Bréchon

Este texto faz parte do livro Fernando Pessoa, Estranho Estrangeiro, de Robert Bréchon, reproduzido aqui com a autorização da Editora Record.

Em 1934 Portugal vivia havia um ano sob o domínio salazarista. Antônio de Oliveira Salazar (1889 – 1970), originário de Santa Comba Dão, ao Norte de Coimbra, de família modesta, professor de Economia Política, conseguiu, ainda jovem, reputação de brilhante especialista em Finanças Públicas e de perito em Economia Rural, ma também de ideólogo autoritário e homem virtuoso. "Revelou muito cedo", diz A. A. Bourbon, "aquela inteligência lúcida, aquela espantosa capacidade de trabalho, aquele bom senso que raramente se engana e aquela força de ânimo e de caráter que raramente impuseram sua personalidade. [...] Católico convicto, levando uma vida austera de seminarista, soube canalizar em seu proveito a ideologia de salvação nacional que dominava então o pensamento político português...". Nacionalista à maneira de Maurras, influenciado por Mussolini, anticomunista e antidemocrata, pretendia instaurar "uma sociedade corporativista e paternalista em que os interesses dos trabalhadores estariam associados aos dos proprietários e dos patrões"1. Ministro das Finanças em 1928, "Salazar conseguiu, a partir de 1929, equilibrar o orçamento, milagre que a estabilidade política iria tornar duradouro. [...] Livrou o país da dívida externa e apoiou a moeda, que passou a ser forte, com abundante lastro de ouro; para tal limitou os investimentos e instaurou autarcia a mais perfeita: mais valia, dizia ele constantemente, a pobreza do que a dependência, e antes a fidelidade às tradições, por muito rotineiras que fossem, que os perigos sociais engendrados pela modernidade e pela urbanização desenfreadas"2. Presidente do Conselho em 1932, estabeleceu em 1933 um sistema de controle completo da vida pública, a que chamou "Estado Novo", que irá funcionar ininterruptamente até sua partida, por razões de saúde, em 1968, e mesmo depois disso, até a Revolução dos Cravos, em 1974.

Não é fácil para um estrangeiro julgar esse regime. Tem certas características do fascismo: partido único, onipresença do exército e da polícia política, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), censura ou autocensura da imprensa, militarização da juventude, prisões arbitrárias e deportações, e até tortura (como a "estátua": a pessoa era obrigada a ficar de pé, imóvel, até o esgotamento). O ambiente de Portugal desse tempo não era, contudo, igual ao dos países "totalitários". O Prof. Salazar não era tribuno nem comediante, não suscitava adoração nem medo. Não organizou o culto da personalidade: dir-se-ia que, como Bernardo Soares, não é "ninguém". A maior parte dos portugueses a que governava nunca o viu. Tinha horror a multidão e vivia quase enclausurado, sem vida privada aparente, talvez tão casto quanto Pessoa. Se teve vícios secretos, secretos ficaram. O presidente Mário Soares afirmava que o "professor" era pessoalmente íntegro, mas gostava de se rodear de homens corruptos, a quem dominava. Foi sua própria eminência parda. Nos anos 60, em Portugal, tinha-se a impressão de um país governado com mão de ferro por um ausente. Ao lado de uma grande fera como Hitler, Salazar lembra mais uma aranha ou um polvo.

Salazar não quis que o país evolvesse perpetuamente; quis, ao invés, travando o progresso, fazer a nação voltar ao estádio de sociedade rural patriarcal, fazer reinar a ordem perfeita, que é a do sono, subtraí-la, em seu cantinho da Europa, ao fluxo da História. Também não houve no regime do Estado Novo a inquisição da vida privada e a violação das consciências que caracterizavam o poder de Hitler, de Mussolini, de Stalin e de Mao. E, sobretudo, a cultura, a literatura, as artes puderam conservar um espaço de liberdade relativa, que os intelectuais souberam ocupar, talvez graças à tolerância ou discreta cumplicidade de Antônio Ferro, amigo de Pessoa, verdadeiro homem da cultura, que Salazer teve a inteligência de manter no cargo de secretário da Propaganda Nacional, ou seja, de ministro da Informação e da Cultura. O Partido Comunista, clandestino, pôde exercer quase abertamente uma espécie de magistério moral e ideológico, impondo, a partir de 1940, o realismo socialista – crismado de "neo-realismo" – nas letras e nas artes, até nas barbas das entidades oficiais, sideradas.

É esse o Portugal paradoxal que os franceses descobriram pouco a pouco nos anos 50 e ainda mais nos anos 60, quando as vagas de turistas à procura de sol começaram a cruzar-se com as dos emigrantes em busca de trabalho3. As impressões ingênuas dos heróis de Mandarins, de Simone de Beauvoir (prêmio Goncourt de 1954), testemunham-nos o espanto embaraçado diante do espetáculo desse país de outra era, próximo pela geografia e distante pela história, no qual, dependendo das circunstâncias, era tão fácil ou tão cruel viver...

Como terá recebido Pessoa, em 1933, a chegada do Estado Novo, e que pensava de Salazar? Trata-se de uma questão controversa. Ángel Crespo é categórico: desde o princípio Pessoa recusou a ditadura. "O velho liberal que havia nele" não podia suportar a opressão. De início exprimiu sua oposição em segredo, nas notas que redigia para si mesmo; depois para os amigos, nas cartas e nas conversas, e finalmente em público. Alfredo Margarido é igualmente taxativo: Pessoa foi desde o início partidário convicto da ditadura salazarista, cujos valores coincidiam com os que ele exaltara a vida toda, desde o ensaio sobre Carlyle até o poema a Sidônio Pais. Ainda segundo Margarido, só no início de 1935 (a partir do mês de fevereiro) é que rompeu com o Salazarismo e se tornou opositor do regime; os anos 1933-1934 foram, pois, período de colaboração com o poder.

O poder. Ele refletiu muito sobre sua natureza ou essência, e também refletiu muito sobre a maneira como o poder é tomado, recebido ou dado. Há que notar que, de modo geral, as qualidades necessárias para a conquista do poder, seja pela intriga, seja pela eloqüência, seja, ainda, pela força das armas, não são apenas diferentes mas opostas às necessárias para governar o Estado. Um político impõe-se quase sempre por qualidades humanas aparentes, que permitem aos cidadãos do país reconhecerem-se nele; é-lhe essa a fonte do "prestígio", na qual há grande parte de emoção e imaginação. Mas pode depois decepcionar, porque foi escolhido pelo que é ou pelo que parece ser e não pelo que é capaz de fazer. O caso de Salazar é completamente distinto. É evidente que não tinha a aura de Sidônio Pais, e nunca Pessoa experimentou por ele fervor comparável ao que sentia pelo "Presidente-Rei". Salazar não era o tipo de chefe que se possa amar, mas um técnico do poder, que se pode admirar e em quem se pode ter confiança. Não era admirado, aliás, pelo que fazia: o prestígio viera do que se acreditara que era capaz de fazer. A originalidade desse prestígio consiste em que assentava numa competência que só ele detinha, e cujo alcance nem o povo nem os intelectuais tinham capacidade para verificar, de tal forma se tratava de matéria técnica. Suponho que Salazar tivesse surgido a princípio, tanto para Pessoa como para a maioria dos portugueses, como o melhor economista de Portugal, dotado do saber necessário para salvar a moeda. Mas, se entre o francês médio e um Pinay ou um Barre havia apenas diferença de nível de competência, entre o português médio e Salazar havia diferença de natureza. E foi precisamente por essa diferença que o sábio professor se soube impor. "Todo o prestígio consiste na posse, pelo prestigiado, de qualidades que o prestigiador não tem e se ente incapaz de ter. O povo português é essencialmente descontínuo na vontade e retórico na expressão: não há coisa portuguesa que seja levada avante com firmeza e persistência; não há texto genuinamente português que não diga em vinte palavras o que se pode dizer em cinco [...] Logo desde o princípio, Salazar marcou, e depois acentuou, uma firmeza de propósito e uma continuidade de execução de um plano; logo desde o princípio falou claro, sóbrio, rígido, sem retórica [...]. No meio de um povo de incoerentes, de verbosos, [...] o lente de Coimbra (Santo Deus! De Coimbra!) marcou como se tivesse caído de uma Inglaterra astral." (Lembremo-nos de que a Universidade de Coimbra sempre foi conhecida pelo gosto da eloqüência pomposa.) Mais ou menos ao mesmo tempo, em 1932 ou 1933, Pessoa resume em inglês seu pensamento num ensaio onde compara Salazar e Mussolini: "He establishedhis prestige at once whem he took office, by a single speech wich was so different from the usual political speeches that the country took to him at once."

De tudo isso se pode concluir que em 1932-1933 Pessoa não é salazarista fervoroso nem anti-salazarista convicto. Sua adesão ao Estado novo é racional, e provisória. Margarido parece-me resumir-lhe bem a posição ao dizer que "Pessoa, como tantos outros portugueses, hesitou perante a Ditadura, apoiando-a, antes de começar a duvidar, não da idéia da idéia de Ditadura, ma dos homens que a geriam". Como muitos dos compatriotas, ele esperava um salvador para o país. Tornou a ser mais ou menos monárquico, mas "para a Monarquia Nova, começa por faltar o rei; faltam os governantes, [...]; e faltam finalmente os próprios governados". Acrescenta que o mais urgente é encontrar "um fórmula de transição que sirva de declive natural para a monarquia futura, mas que esteja em certa continuidade com o regímem actual [republicano]". Essa fórmula, já experimentada por Sidônio Pais, é a "república presidencialista". No fundo, podemos pensar que Salazar representou para ele, a certa altura, a esperança de uma "transição" desse tipo, e que decepcionou pelo imobilismo e talvez também pelo "populismo".

Pessoa mantivera muito boas relações com Antônio Ferro, o jovem conpanheiro dos anos 1912-1916, o antigo gerente do Orpheu. Designado em 1933 para chefiar o Secretariado da Propaganda Nacional, que deppis passou a ser, mais discreta ou mais hipocritamente, o Secretariado Nacional da Informação, estava encarregado de divulgar o mais amplamente possível o pensamento de Salazar, dou trina oficial do regime. Em 11 de março de 1933 Pessoa acusa o recebimento do livro de Ferro Salazar, uma reunião de conversas suas com o presidente. Agradece-lhe, com a habitual gentileza irônica, exprimindo sua "inteira admiração pela firmeza subtil e a mestria publicitária" demonstradas pelo amigo. No ano anterior Ferro, em escrito encomendado, definira num artigo do Diário de Notícias uma Política do Espírito, referindo-se a Paul Valéry, que acabara de dar conferência na Universidade de Annales, em Paris, com esse mesmo título. Valéry mostrava um caminho para sair do "caos" contemporâneo, em grande parte criado pelo próprio homem. "O mundo moderno, com todo o seu poder, [...] não soube criar para si uma política, nem uma moral, nem um ideal..."4. O que vem ao encontro do famoso "suplemento da alma" de Bergson. Ferro, por seu lado, escreve em 22 de novembro de 1932: "Um povo que não vê, que não lê, que não houve, que não vibra, que não sai da sua vida material [...] torna-se um povo inútil..." Segundo Alfredo Margarido, Pessoa aceitou colaborar na implementação dessa "política do espírito", que equivalia, no fundo, a promover uma cultura popular de várias maneiras. Cita dois gestos que considera significativos. Em 1933, o poeta "autorizou" aos amigos ligados ao salazarismo a organizar uma campanha para que o poema Mar Português, de 1922, destinado a fazer parte da Mensagem, fosse integrado ao programa das escolas e dos colégios; e terá sido também nesse espírito de colaboração ativa que no ano seguinte concorreu ao prêmio de poesia do S. P. N. O outro gesto que, segundo Margarido, mostra a sua adesão à estética oficial do salazarismo foi o esforço para recuperar o filão popular das Quadras, abandonado havia mais de um quarto de século. Vimos que tinha escrito algumas na época do duplo exílio, quando, de volta à pátria, nelas redescobria com emoção a tradição poética antiga. Entre julho de 1934 e junho de 1935 escreveu centenas delas. Na edição francesa de Henri Deluy, que contém 325 quadras, ordenadas, na medida do possível, cronologicamente, salta-se bruscamente da quadra n° 8, datada de 1908, para a n° 9, datada de 1934 – mas não há solução de continuidade. A emoção e o caráter divertido são os mesmos. O jogo continua, se é que se trata mesmo de um jogo.

Na edição de 1965 Jacinto do Prado Coelho e Georg Rudolf Lind darão a esses pequenos poemas o título Quadras ao Gosto Popular. Deluy, na apresentação, mostra bem que esse poeta tão original, ao tentar "moldar a sua escrita num gênero e numa sensibilidade típicas de uma comunidade", triunfou em parte e falhou em parte. Mas tal mistura de inocência mais ou menos imitada e de sutileza mais ou menos disfarçada tem seu encanto. A maioria das quadras são poemas de amor, talvez os únicos, como eu já disse citando Deluy, que Pessoa escreveu. "O amor tímido, humilde, o amor maroto, sensual, o amor ciumento, nunca satisfeito, nunca partilhado, o amor sonhador, o amor gentil, o amor vingativo e a ausência, a amargura, o ressentimento, um tudo-nada de misoginia. [...] O poema organiza-se em torno dos elementos da vida cotidiana popular: o dedal, o novelo de lã, o vestido, o vaso de manjericão; [...] está-se no trabalho [...] está-se cosendo ou fazendo renda [...], prova-se o melão, o vinho e a canela. Admira-se o rio, o ribeiro, [...] sofre-se o fascínio dos braços, dos cabelos, da perna, do sorriso. Fitam-se os olhos para se tocar na alma, e para saber. Porque se ama. Ama-se, espera-se. Sempre como à distância. Bem perto."5 É certo que as quadras são desiguais; e acontece-me, diante de algumas das mais bem construídas, imaginar o que Pessoa teria podido fazer se, conhecendo melhor a tradição japonesa, tivesse tentado escrever haicai, com tom ainda mais ligeiro, com estilo ainda mais ágil.

"Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a ficar...
Ah, meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!"
6

"Tenho um livrinho que escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi."
7

"Há um doido na nossa voz
Ao falarmos, que prendemos:
É o mal-estar entre nós
Que vem de nos percebermos."
8

"Ó pastora, ó pastorinha,
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso."
9

"Boca que o riso desata
Numa alegria engraçada,
É como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata."
10

"Este é o riso daquela
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou."
11

"Saudades, só os portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm."
12

Mensagem é, como Fausto e o Livro do Desassossego , obra de quase toda uma vida. O poema mais antigo é datado de julho de 1913, e o mais recente, de 26 de março de 1934. A diferença está em que todas as outras obras, exceto The Mad Fiddler, que permaneceu inédito, ficaram inacabados. A Mensagem é o único livro que Pessoa Compôs, terminou, reviu e corrigiu, e finalmente publicou. Esse livrinho de algumas dezenas de páginas lhe é o mais importante e o mais representativo do gênio singular. Se de toda a sua produção multiforme apenas se pudesse guardar uma única obra, seria com certeza essa, que a posteridade, cumprindo a profecia do jovem crítico de A Águia em 1912, acabou por reconhecer como um dos dois cumes da poesia portuguesa, sendo o outro Os Lusíadas.

Vimos em que no dia em que escreveu Gládio, que passaria a chamar-se D. Fernando, Infante de Portugal, o poeta ainda não concebera o conjunto em que o poema se iria integrar. Parece que a idéia de um livro de poemas de inspiração nacional, centrado nos heróis da época dos Descobrimentos, lhe terá vindo ao espírito na época "sidonista", em 1917-1918. É então que escreve a seqüência de poemas publicados em revista em 1922 com o título Mar Português, a qual vai constituir a parte central do livro. Após um período de seis anos em que o projeto parece abandonado, escreve, entre setembro e dezembro de 1928, nova seqüência de poemas, que na maioria serão integrados na primeira parte, ao passo que alguns o serão na terceira e última. Ainda escreve alguns desses poemas entre 1929 e 1933. É provável que durante todos esses anos o projeto lhe tenha amadurecido no espírito, e que se tenha pouco a pouco afirmado seu caráter original, que é unir numa mesma inspiração a exaltação do sentimento nacional, os mitos do sebastianismo e do Quinto Império, o espírito da gnose e da tradição iniciática, em suma, a totalidade do que constitui a "visão Rosa-Cruz". Já em 1932, na carta a Gaspar Simões, ele fala de "Portugal, que é um livro pequeno de poemas (tem 41 ao todo)", como de livro "quase pronto"13. Podemos todavia supor que é apenas entre janeiro e março de 1934 que concebe definitivamente a estrutura global que faz desse conjunto de elementos diversos um todo perfeitamente coerente. Escreve ou reescreve então certo número de poemas. E é ainda depois, quase no último momento, que decide mudar de título, a pretexto de que "o nome da nossa pátria" estava então "prostituído e com os pés feridos", mas na verdade o faz para melhor salientar que a epopéia da salvação nacional é, em sentido figurado, a aventura da salvação da alma pessoal: esse livro épico e mítico é antes de mais nada espiritualista e místico.

Enquanto dá os últimos retoques na Mensagem, Pessoa redige o prefácio de um livro do amigo Augusto Ferreira Gomes intitulado Quinto Império. Esse jornalista, também especialista em artes gráficas, pertence, como Ferro e outros amigos do poeta, ao meio intelectual salazarista. O que o aproxima de Pessoa é o interesse pelo ocultismo. Ferreira Gomes (1892-1953) irá publicar, em 1941, outro livro, chamado No Claro-Escuro das Profecias, de S. João a Bandarra. É sobre a relação entre o claro e o escuro que incide o prefácio de Pessoa, que é de leitura extremamente difícil. Nele retoma algumas das idéias expressas nas dezenas ou centenas de páginas de notas que organizara tendo em vista um livro sobre As Profecias de Bandarra. Ele distingue nitidamente "o vidente de Trancoso" (o sapateiro do século XVI) e todos os que, designados por esse nome coletivo, "viram [...] à mesma luz". "As profecias são de duas ordens – as que, como a de Daniel e esta do falso Bandarra, têm em si uma grande luz; e as que, como as do vero Bandarra e as do livro presente, têm em si uma grande treva. Aquelas são o fio do labirinto, estas o mesmo labirinto. Umas e outras, porém, entre si se complementam. Por umas as outras se esclarecem, tanto quanto pode ser, porque a luz afasta as trevas, mas sem trevas se não veria a luz. Tão certo é o que se diz em certo passo secreto – que a melhor luz que temos neste mundo não é mais que treva visível..."14

Apercebemo-nos de que em 1934 seu pensamento está ainda quase inteiramente voltado para o "oculto", mas aplicado à história, à memória coletiva, ao mito nacional. É pois com toda a naturalidade que ele se deixa convencer pelos amigos Ferro e Ferreira Gomes, próximos do poder, a jogar o jogo do S. P. N., concorrendo ao prêmio Antero de Quental. Mas não pode perder tempo, já que o júri se reunirá em dezembro. A Mensagem, terminada em setembro, impressa em outubro, é distribuída comercialmente em 1° de dezembro, dia em que se comemora em Portugal a libertação em 1640 do jugo castelhano. É José Blanco quem chama a atenção para tais datas. Acrescenta que "os amigos de Fernando Pessoa que o tinham incitado a concorrer [...] estavam persuadidos de que a Mensagem ganharia indiscutivelmente o prêmio de cinco mil escudos destinado a 'um livro de versos'". Como o regulamento do cuncurso previa, nesta categoria, um mínimo de cem páginas, o impressor, aconselhado por Ferreira Gomes, tinha multiplicado as páginas em branco, dado que os 44 poemas enchiam apenas 55 páginas. Com este pretexto, e na realidade porque o júri, presido pelo poeta Mário Beirão, antigo participante da Renascença Portuguesa que passara a salazarista ferrenho, achava que o livro de Pessoa não se integrava na orientação do Estado Novo, o Grande Prêmio foi atribuído a uma coletânea do padre Vasco Reis intitulada Romaria, que todos os historiadores da literatura estão hoje de acordo em achar muito ruim. Pessoa recebeu pela Mensagem o prêmio da "segunda categoria", dotado com mil escudos15, destinado a recompensar já não um "livro", mas um "poema".

António Ferro não era membro do júri, mas era sua autoridade tutelar; era ele, ademais, que dispunha do dinheiro. E decidiu elevar o montante do prêmio atribuído a Pessoa para cinco mil escudos. Discutiu-se muito este assunto. Para Margarido é simples: o livro do missionário franciscano, feito para ilustrar a fé popular, era muito mais conforme a estética do salazarismo que o de Pessoa. "O júri mostrou compreender perfeitamente a intenção política do concurso." Quanto à intervenção de António Ferro, "permitiu, não corrigir um erro – como ainda se diz vulgarmente –, mas dar um prêmio substancial a um amigo, cujo talento era tão grande como as suas necessidades financeiras". O prêmio, segundo ele, correspondia a um ano e meio da receita de Pessoa. Este parece ter ficado satisfeito com a solução. Dá-se mesmo ao luxo, no Diário de Lisboa de 4 de janeiro de 1935, de falar do livro que o júri preferiu ao seu. O artigo é interessante e revelador. É certo que Pessoa prodigalizava ao "admirável artista" que é o padre Vasco Reis e a seu "poema adorável" lisonjas irônicas. Mas isso lhe permite voltar a um assunto que lhe é querido. A inspiração da Romaria de Reis é tipicamente católica romana, portanto pagã, de um paganismo bem português, ou seja, mais sentimental do que passional ou espiritual. "O nosso catolicismo é [...] uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do que em que realmente crê. Por isso o nosso vero Deus Manifesto é, não o Deus uno e trio, ou qualquer das pessoas da trindade, mas um Cupido católico chamado Menino Jesus. [...] Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele. A emoção não permitiria."16 Assim, a propósito de Mensagem, que é a obra mais característica da "visão Rosa-Cruz", deparamos com o oitavo poema do Guardador de Rebanhos, que é o centro da "visão Caeiro" de Pessoa.

Restaria agora analisar o texto de Mensagem. Mas seria necessário um livro inteiro, que, ao que eu saiba, não existe, nem sequer em Portugal. Deve dizer-se – e a isto voltarei – que esse livrinho de Pessoa foi incompreendido durante muito tempo, mesmo pelos admiradores mais fervorosos e mais próximos. Seja como for, se é difícil para os leitores portugueses, é quase totalmente incompreensível para os franceses. Seria necessário, como para a Divina Comédia, mais notas do que versos para esclarecê-lo. Limitar-me-ei, portanto, a algumas indicações sumárias, remetendo os leitores para as duas versões francesas existentes. Na edição Bourgois, a tradução de Patrick Quillier e Michel Chandeigne é precedida de um estudo de P. Quillier, intitulado Entre les Rives du Chagrin et les Îles Fortunées, e seguida de um estudo de Yvette K. Centeno sobre O Esoterismo da Mensagem17. Na edição Corti, a tradução de Bernard Sésé é apresentada por José Augusto Seabra e seguida de uma bibliografia de José Blanco18.

O título mensagem tem uma chave, dada pelo próprio Pessoa. A palavra portuguesa "mensagem" é, como diz J. A. Seabra, "derivada anagramaticamente" da fórmula de Anquises, quando explica a Enéias, descido aos infernos, o sistema do Universo: "Mens ag[itat mol]em": "O espírito move a massa". É uma maneira de o poeta afirmar de início seu idealismo absoluto, recordado aqui e ali por outras fórmulas:

"O mhyto é o nada que é tudo."19 (Ulisses)

"Deus quere, o homem sonha, a obra nasce."20 (O Infante)

"A alma é divina e a obra é imperfeita."21 (Padrão)

"Que importa o areal e a morte e a desventura,

Se com Deus me guardei?"22 (D. Sebastião)

"Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!"23 (O Quinto Império)

"É a busca de quem somos, na distância

De nós [...]."24 (Noite)

Em sua edição da Obra Poética De Pessoa, em 1960, Maria Aliete Galhoz pusera em epígrafe da Mensagem um fragmento inédito encontrado na arca. Desde então foi reproduzido várias vezes, e define bem o espírito com que o poeta escreveu o livro: "Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: navegar é preciso; viver não é preciso. Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para casar com o que sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar com minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha."25

Podemos dizer ,empregando a linguagem de Gide, que Pessoa pertence à raça dos que amam não o Homem, mas o que o devora. O que a Mensagem põe me cena numa série de 44 retratos – cada um dos quais, um brevíssmimo drama – é a "febre" de se perder no que é "grande", maior que tudo: o indizível e o incomensurável. E a ação de todos esses heróis – já que são todos conquistadores -, guiada por seu sonho, por sua fé e por sua esperança, é imagem do sonho, da fé e da esperança do poeta, cujo gesto de escrever se situa num espaço para além de toda a qualquer ação possível.

A organização do livro em três partes é aparentemente simples, e na realidade, como demonstrou Patrick Quillier, sutil. A primeira, Brasão, evoca os reis e os príncipes que foram os heróis fundadores de Portugal: Ulisses, epônimo de Lisboa (Olisipo); o pastor Viriato, chefe da resistência aos romanos; o Conde Henrique de Borgonha, que se tornou conde de Portugal em 1095 pelo casamento com a princesa de Leão, D. Teresa; seu filho Afonso Henriques, o primeiro rei português, vencedor dos mouros no Campo de Ourique, em 1139; o rei D. Diniz, administrador e poeta, fundador da primeira universidade, organizador da Marinha, criador da Ordem dos Templários; o rei D. João I, fundador da dinastia de Avis, vencedor dos castelhanos em Aljubarrota, em 1385, e a mulher, D. Filipa de Lencastre; o rei D. Sebastião; o condestável D. Nuno Álvares Pereira, herói de Aljubarrota, chefe guerreiro e homem virtuoso; o infante D. Henrique, o Navegador, o rei D. João II; e, por fim, o conquistador Afonso de Albuquerque, governador das Índias em 1910.

A evocação desses personagens emblemáticos, históricos ou lendários, não segue estritamente a ordem cronológica. Cada retrato é disposto, no espaço do livro, como os signos, as divisas e os ornamentos que compõem o "brasão" de Portugal. Encontraremos no estudo de P. Quillier e explicação minuciosa da composição heráldica da primeira parte da Mensagem, e no de Y. Centeno a análise de seu significado oculto. Sublinharei apenas a importância do primeiro poema Os Campos / Os Castellos (termos de heráldica), referência a um brasão, não de Portugal, mas da Europa, figurada como uma forma feminina deitada do Oriente para o Ocidente, "futuro do passado", é Portugal. A Europa, a que Pessoa sente veementemente pertencer, e a que também gostaria de arrimar mais solidamente seu país, para que se lhe torne a figura de proa, é portanto passagem obrigatória, na orla do Poema, para Portugal cumprir sua vocação histórica e espiritual.

A segunda parte de Mensagem retoma, com algumas modificações, a seqüência do Mar Português, de cuja forma e significado já falei e propósito de sua publicação em revista em 1922. Recordemos que contém os retratos dos heróis que, impulsionados pelos príncipes e pelos reis, foram os verdadeiros agentes da expansão portuguesa, os marinheiros descobridores das terras novas: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Magalhães, e o mais ilustre de todos, Vasco da Gama. A principal alteração em relação à publicação de 1922, é a substituição do poema sobre Cristóvão Colombo, intitulado Ironia, por um, ainda mais ironicamente depreciativo, em que o nome é posto no plural: Os Colombos.26 Sabemos que há todo um contencioso entre Portugal e Espanha a propósito de Colombo, que deveria Ter descoberto a América em nome do rei de Portugal se este, D. João II, não o tivesse dissuadido. Ele fizera sua aprendizagem em Portugal e na Madeira, e ali se casara. Há mesmo uma lenda segundo a qual ele seria português de nascimento, filho bastardo da rainha, e não genovês. Pessoa adota a seu respeito a atitude um pouco simplista que é a de seus compatriotas: o que quer que seja que Colombo tenha feito, faltava-lhe uma "magia", a única capaz de dar aos descobrimentos e às conquistas valor espiritual.

Como já vimos, o antepenúltimo poema do Mar Português evoca a partida de D. Sebastião na Última Nau de sua frota. A terceira parte da Mensagem é-lhe inteiramente consagrada à figura, ao destino, ao mito, e ao mito do Quinto Império, que para Pessoa lhe está indissoluvelmente ligado. Assim como o título Brasão vem acompanhado da epígrafe: "Bellun sine bello" (a guerra sem a guerra) e Mar Português da menção "Possessio Maris" (a posse do mar), o título da terceira parte, O Encoberto, tem por epígrafe "Pax in Excelsis" (paz nas alturas). Escrita em grande parte após as duas outras, ela exprime o pensamento do Pessoa extremo, tal qual a vida e a obra o moldaram. Menos galeria de retratos que as precedentes, ela é uma seqüência de meditações sobre o sentido anagógico da história e da lenda dourada dos heróis portugueses, que ele acaba de contar. Abrange três séries de poemas. A primeira, intitulada Os Símbolos compõe-se de cinco poemas: Dom Sebastião, O Quinto Império, O Desejado, As Ilhas Afortunadas, O Encoberto. A Segunda série, Os Avisos, contém apenas três poemas: Bandarra, Vieira, e um sem título, cujo lirismo contrasta com a tonalidade épica do conjunto. A série final, Os Tempos, abrange, como a primeira, cinco poemas: Noite, Tormenta, Calma, Antemanhã, Nevoeiro. A própria natureza desses títulos mostra bem que já não se trata propriamente da história, mesmo a lendária, de um povo, mas da aventura de uma alma empenhada em encontrar Deus. A esse respeito, o poema sem título, cujo tom pessoal destoa da tonalidade quase litúrgica do conjunto, é revelador:

"Screvo meu livro à beira-mágoa.
[...]
Só tu, Senhor, me dá viver.
[...]
Quando virás a ser o Christo
De a quem morreu o falso Deus,
E a dispertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
[...]
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
27

A essa pergunta angustiada o último poema, Nevoeiro, dá resposta. O primeiro verso, "Nem rei nem lei, nem paz nem guerra", é um eco da epígrafe de Brasão e define o estado do país sem chefe, sem ideal, e a um tempo o da alma, ainda nos pauis ou no limbo.

"Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem.
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."
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Parece que tudo está perdido. Mas não, porque é do mais espesso do nevoeiro, da indeterminação e da irresolução que virá a salvação, ainda que mal se saiba reconhecer o momento, apreender a ocasião, abrir a porta à graça. "Virei até ti na espessura da névoa", diz Iavé a Moisés, e é igualmente numa nuvem que ressoa, sobre a montanha da transfiguração, a voz que diz: "Este é o meu filho bem-amado."

A resposta à pergunta do poeta dirige-se ao mesmo tempo ao cidadão e ao crente, no último verso:

"É a Hora!"


-a que se acrescenta apenas uma fórmula de adeus em latim, simétrica das três epígrafes: "Valete, Fratres", citação de um ritual iniciático. É como a marca que os companheiros maçons da Idade Média inscreviam num lugar qualquer da catedral depois de terminada. Ela é aqui, no contexto nacional e pessoal, uma assinatura: é o Adepto quem fala, o novo Sebastião – assim como se diz o Novo Adão.

A "mensagem" de Pessoa é um apelo à unidade e à universalidade. Ele é cidadão de um mundo ecumênico, multirracial e transexual. Quer fundar "um império andrógino que unirá [...] todas as subtilezas do poder feminino e as estruturações do poder masculino". É essa a tarefa que atribui tanto a si mesmo como a Portugal e, por intermédio deste, à Europa; ele, Sebastião reencarnado no Super-Camões, acreditou que sua obra, uma vez espalhada pelo mundo como mais uma "boa nova", impeliria a cultura ocidental a um processo de unificação em torno da cultura portuguesa, portadora dos valores da universalidade. Tal era o orgulho desse tão humilde homem.



1 Histoire de Portugal.

2 Ibid.

3 Cf. Michel Drain, Portugal (Que sais-je?).

4 Paul Valéry, La politique de l'esprit, in "Varieté".

5 Quatrains complets, prefácio.

6 OPP, I, 517.

7 OPP, I, 527.

8 OPP, I, 535.

9 OPP, I, 537.

10 OPP, I, 552.

11 OPP, I, 559.

12 OPP, I, 558.

13 OPP, I, 527.

14 OPP, I, 535.

15 Cf. José Blanco in Oeuvres Complètes, t. I, éd. de la Defférence, p. 526.

16 OPP II, 1282.

17 Oeuvres, op. cit., t. II, pp. 61 e 63.

18 Message, pp. 9 e 147.

19 Pessoa, 72.

20 Pessoa, 78.

21 Pessoa, 79.

22 Pessoa, 84.

23 Pessoa, 84.

24 Pessoa, 88.

25 Pessoa, [ed. De 1960], 1.

26 Pessoa, 80.

27 Pessoa, 86.

28 Pessoa, 89.

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