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Jaudeau
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O MAU DEMIURGO
Sylvie Jaudeau
CIORAN
| O Mau Demiurgo é um capítulo do livro Cioran: Entrevistas, de Sylvie Jaudeau, onde a autora, além da entrevista propriamente dita, faz uma pequena resenha de todos os livros do filósofo e pensador romeno. O livro foi publicado pela Editora Sulina, de Porto Alegre. Leia as informações completas do livro na Revista de Literatura. A Rubedo agradece a Editora Sulina por, amavelmente, ter-nos autorizado a reproduzir este trecho em nossas páginas. |
| Antes de tudo, é o mal o objeto desse livro. Em ação
por toda parte, derruba os deuses e inspira a idéia de uma improvável libertação. Essa
reflexão conduz Cioran a afirmar princípios gnósticos subentendidos no seu pensamento. O texto introdutório expõe rapidamente as visões de um dualismo radical que reconhece a existência de um princípio do mal na origem da criação. Esta, minada pelo nada, é fruto de um erro, de uma anomalia, e injuria a pureza do não-ser: "A bondade não cria", "saímos das mãos de um deus infeliz e mau, de um deus maldito". Se, em toda lucidez, admitimos esse ponto negro que é a criação, somos devorados pela sensação de nossa insignificância e pela incapacidade de coincidir com seja o que for; em resumo, somos ineptos à felicidade. Aquele para quem foi revelada a existência do mau demiurgo, se quer buscar a salvação, só tem uma solução, forçar a lucidez ao extremo e fazer dela o "equivalente negativo do êxtase". Em seguida, nos capítulos Os novos deuses, Cioran incursiona pelas origens do cristianismo para estudar a renovação inevitável das religiões à luz do princípio do mal, fonte de dinamismo de qualquer manifestação. Submetido às leis da existência, os deuses desgastam-se e morrem assim que introduzem um germe de tolerância entre os seus fiéis. Os deuses pagãos que engendraram uma civilização refinada e lúcida tiveram de ceder à força do monoteísmo cristão confiante; este, por sua vez, perdeu seu vigor quando aceitou as demais confissões: "Ninguém mais crê num deus que dilapidou seu capital de crueldade, nem o respeita". Quando se mantém os olhos abertos, como ignorar o princípio do mal? É ele que controla a putrefação da carne e submete tudo o que vive segundo a mesma lei da precariedade. O texto intitulado Paleontologia convida a adotar o espírito de um "coveiro tocado pela metafísica" confrontado à mais flagrante irrealidade: "Tudo parece existir e nada existe". "Visto de fora, cada ser é um acidente", tanto que "só é verdadeiro o nosso triunfo sobre as coisas". Assim, "a meditação sobre o horrível" prepara para duas atitudes: o suicídio físico ou o suicídio moral. Em Encontros com o suicída são consideradas todas as conseqüências do "nada é" enunciado acima: "Quando se compreendeu que nada é (...) se está salvo e infeliz para sempre". A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver nem morrer e cuja atenção nunca se afasta dessa supla impossibilidade. "Dado que nada é, todos os instantes são perfeitos e nulos e é indiferente gozar ou não." O budismo é a melhor escola para conduzir a essa indiferenca salvadora. Todo o capítulo O não libertado define a noção chave dessa doutrina: a vacuidade; esse "nada transfigurado" pelo qual o indivíduo liberta-se entregando-se ao suicídio do seu ego. O livro termina com uma série de aforismos reunidos sob o título Pensamento estrangulados, que retomam até a vertigem as interrogações suscitadas pela visão de um dualismo irreconciliável que nos condena ao "horror e ao êxtase da vida experimentados simultaneamente, no mesmo instante, em cada instante". |