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Vico
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DA LÓGICA POÉTICA
Giambattista Vico
| Este é um trecho do livro A Ciência Nova, de Giambattista Vico. A Rubedo agradece a gentileza da Editora Record que autorizou sua reprodução em nossas páginas. |
1
Da Lógica Poética
Ora – assim como a metafísica contempla as coisas em todos os gêneros do ser, e é lógica, enquanto considera as coisas em todos os gêneros para significá-las – da mesma forma, como a poesia foi, acima, por nós considerada uma metafísica poética, pela qual os poetas teólogos imaginaram os corpos terem sido geralmente divinas substâncias, assim também a mesma poesia é considerada, agora, uma lógica poética, pela qual as expressa.
"Lógica" vem do termo
(lógos), que antes e propriamente significou "fábula", que se traduziu
em italiano como "favella" – e a fábula dos gregos chamou-se ainda muqox, que chegou aos latinos como "mutus"1 – que nos tempos mudos nasceu mentalmente, sobre a qual,
numa áurea passagem, diz Estrabão ter existido antes da vogal, ou seja, da articulada2: donde
(lógos) significar
"idéia" e "palavra". E, convenientemente, foi assim pela divina providência ordenado
em tais tempos religiosos para aquela eterna propriedade: que às religiões importa mais meditar do
que falar; donde tal primeira língua, nos primeiros tempos mudos das nações, como se disse
nas Dignidades3,
teve de começar com gestos, ou atos, ou corpos, que tivessem naturais relações com as idéias:
donde
(lógos) ou "verbum" significou ainda fado
para os hebreus, e para os gregos significou também "coisa", como observa Thomas Gataker4, De Instrumenti stylo. E assim
(muthós)
foi definido como "vera narratio", ou seja, "falar verdadeiro", que foi o "falar natural" que Platão,
antes, e depois lâmblicos, disseram ter sido falado outrora no mundo; os quais, como vimos nas Dignidades5, porque o disseram, adivinhando, ocorreu a Platão
desprender um esforço inútil para ir encontrá-lo no Crátilo, e foi atacado por Aristóteles e Galeno: porque tal primeiro falar, que
foi o dos poetas teólogos, não foi um falar segundo a natureza dessas coisas (como deve ter sido
a língua sagrada criada por Adão, a quem Deus concedeu a divina onomathesia, ou seja, a imposição dos nomes às coisas, segundo a natureza
de cada uma)6, mas foi um falar fantástico por substâncias
animadas, a maior parte delas imaginadas divinas.
Assim Júpiter, Cibele ou Berecíntia, Netuno, tomados como exemplo, inicialmente como indicado, explicaram
ser tais substâncias do céu, da terra, do mar, que eles imaginaram animadas divindades, e por isso,
com exatidão de sentidos, acreditavam que fossem deuses: com essas três divindades, pelo que acabamos
de dizer acima dos caracteres poéticos, explicavam todas as coisas como pertencentes ao céu, à
terra, ao mar; e assim como as outras significavam as espécies das coisas pertencentes a cada divindade:
como todas as flores, a Flora; e todas as frutas, a Pomona. O que ainda fazemos, ao contrário, com as coisas
do espírito; com as faculdades da mente humana, das paixões das virtudes, dos vícios, das
ciências, das artes, das quais formamos idéias, sobretudo de mulheres, e àquelas reduzimos
todas as categorias, todas as propriedades e, enfim, todos os efeitos que a cada qual pertencem: pois, donde queiramos
tirar do entendimento coisas espirituais, devemos ser socorridos pela fantasia para poder explicá-las e,
como pintores, fingir humanas imagens7. Mas os poetas teólogos, não podendo fazer
uso do entendimento, com um mais sublime trabalho, completamente oposto, deram sentidos e paixões, como
há pouco se viu, aos corpos, e aos vastíssimos corpos tais como o céu, a terra, o mar; e,
mais tarde, diminuindo tão vastas fantasias e revigorando as abstrações8,
foram tomados em seus pequenos sinais. E a metonímia expôs, em forma de doutrina, a ignorância
dessas até agora sepultadas origens da coisas humanas: e Júpiter tornou-se tão pequeno e tão
leve que foi levado pelo vôo de uma águia; corre Netuno numa delicada carruagem pelo mar, e Cibele
está assentada sobre um leão.
Assim, pois, as mitologias devem ter sido os falares próprios das fábulas (que é o que o termo
significa), pois, sendo as fábulas, como acima demonstramos, gêneros fantásticos, as mitologias
devem ter sido suas próprias alegorias. Tal nome, como nas Dignidades9 se observou, chegou-nos definido
"diversiloquium",
enquanto, com identidade, não de proporção mas, para falar à maneira escolástica,
de predicabilidade, aquelas significam as diversas espécies ou os diversos indivíduos compreendidos
sob esses gêneros: tanto que devem ter uma significação unívoca, compreendendo uma razão
comum à sua espécie ou indivíduos (como Aquiles, uma idéia e valor comum a todos os
fortes; como Ulisses, uma idéia de prudência comum a todos os sábios); de modo que tais alegorias
devem ser as etimologias dos falares poéticos, que lhe deram origens unívocas, como a das falas vulgares
são mais freqüentemente análogas. E nos veio a definição desse termo "etmologia",
que corresponde ao mesmo "veriloquium", tal como a fábula nos foi definida "vera
narratio".
2
Corolários Acerca dos Tropos, Monstros e Transformações Poéticas
I
Dessa lógica poética são corolários todos
o primeiros tropos, dos quais a mais luminosa, e por ser luminosa, a mais necessária e a mais freqüente
é a metáfora, tanto mais louvada, quanto mais às coisas sensatas dá sentido e paixão,
pela metafísica explicada acima: pois os primeiros poetas deram aos corpos o ser das substâncias animadas,
capazes de quanto lhes pudesse conseguir, ou seja, de sentido e paixão, e assim fizeram as fábulas;
de modo que cada metáfora vem a se uma pequena fábula10.
Assim se dá a crítica sobre o tempo em que nasceram nas línguas: pois todas as metáforas
criadas com base nas semelhanças tiradas dos corpos, significam trabalhos de mentes abstratas que devem
ser as dos tempos nos quais se começaram a burilar as filosofias11.
O que se comprova assim: que, em cada língua, as palavras, de que carecem as artes cultas e as ciências
recônditas possuem rústicas origens.
Tal fato é digno de observação: em todas as línguas a maior parte das expressões
relativas a coisas inanimadas são feitas com o transporte do corpo humano e de suas partes e de seus humanos
sentidos e das humanas paixões. Como "cabeça" para ponta ou princípio; "face",
"costas", na frente e atrás; "olhos" das videiras e aqueles que se dizem "lumes"
ingredientes das casas; "boca", todo tipo de abertura; "lábio", beira do vaso ou de
outra coisa; "dente" do arado, do ancinho, da barreira, do pente; "barbas", as raízes;
"língua" de mar; "fauces" ou "foz" de rios ou montes; "garganta"
de terra; "braço" de rio; "mão" para pequeno número; "seio"
de mar, isto é, golfo; "flancos" e "lados", os cantos; "costeira" de mar;
"coração", por meio ("umbilicus" diziam os latinos); "perna" ou "pé" de países,
e "pé" por fim; "planta" por base, ou seja, fundamento; "carne", "osso"
[caroço] de frutas; "veio" d'água, pedra, mina; "sangue" de videira, o vinho;
"entranhas" da terra; "ri" o céu, o mar; "sopra" o vento; "murmura"
a onda; "geme" um corpo sob um grande peso; e os camponeses do Lácio diziam "sitire agros", "laborare fructus",
"luxuriari segetes"12,
e os nossos camponeses que "andam enamoradas as plantas", "enlouquecidas as videiras", "chorosos
os freixos"; e outras expressões que se podem recolher, inumeráveis, em todas as línguas.
O que decorre imediatamente daquela dignidade: que "o homem ignorante faz de si regra do universo", assim
nos exemplos aduzidos, ele de si fez um mundo. Porque assim como a metafísica raciocinada ensina que "homo intelligendo fit omnia",
assim esta metafísica fantástica demonstra que "homo
non intelligendo fit omnia"; e, talvez, esta seja mais verdadeira
do que aquela, pois o homem, ao entender, abre a sua mente e compreende tais coisas, mas ao não entender
ele de si faz essas coisas e nelas se transforma.
II
Por essa mesma lógica, fruto de tal metafísica, tiveram os primeiros poetas de dar nomes às coisas, da idéias mais particulares e mais sensíveis; que são as duas fontes; esta, da metonímia, e aquela, da sinédoque. Motivo pelo qual a metonímia dos autores pelas obras nasceu porque os autores eram mais citados do que as obras; aquela das coisas pelas suas formas e acréscimos nasceu porque, como nas Dignidades13 dissemos, não sabiam abstrair as formas e as qualidades das coisas; certamente, a das razões pelos seus efeitos são tão pequenas fábulas, com as quais as razões imaginaram ser mulheres vestidas dos seus efeitos, como são a feia Pobreza, a triste Velhice, a pálida Morte.
III
A sinédoque passou em transporte14 depois como ao elevarem-se dos particulares aos universais ou a compor as partes com as outras, com as quais completasse o todo. Assim, "mortais" foram, antes, propriamente ditos somente os homens que, sozinhos, devem sentir-se mortais. A "cabeça" por "homem" ou "pessoa", que é tão freqüente em vulgar latim, pois no meio dos bosques viam de longe apenas a cabeça do homem: cuja palavra "homem" é palavra abstrata, que compreende, como num gênero filosófico, o corpo e todas as partes do corpo, a mente e todas as faculdades da mente, a alma e todos os hábitos da alma. Assim, deve ter ocorrido com "tignum" e "culmem"15, que significaram propriamente "vigote" e "palha", no tempo dos palhais; depois, com o brilho das cidades, significaram toda a matéria e o acabamento dos edifícios. Assim "tectum" por toda "casa", porque, nos primeiros tempos, uma brigo bastava como casa. Assim "puppis" por "navio", que, alta, é a primeira a ser vista pelos habitantes das cidades; como nos tempos bárbaros regressados se disse uma "vela" por um "navio". Assim "mucro"16 por "espada", porque essa é uma palavra abstrata e, como num gênero, compreende botões, lâmina, corte e ponta; e eles sentiram a ponta, que lhes trazia assombro. Assim, a matéria pelo todo formada, como o "ferro" pela "espada", pois não sabiam abstrair a forma da matéria. Aquele traço de sinédoque e metonímia:
Tertia messis erat17
Nasceu, indubitavelmente, da necessidade da natureza, pois que deve ter transcorrido mais de mil anos para que nascesse, entre as nações, o vocábulo astronômico "ano"; assim como no território florentino, dizem ainda "tantas vezes colhemos" para dizer "tantos anos". E aquele grupo de duas sinédoques e de uma metonímia:
Post aliquot, mea regna videns, mirabor, artistas,18
Acusa excessivamente a infelicidade dos tempos bucólicos, nos quais diziam "tantas espigas", que são mais próprias das colheitas, para dizer "tantos anos", e, como fosse muito infeliz a expressão, os gramáticos supuseram excesso de arte.
IV
A ironia não pode começar senão nos tempos da reflexão, porque ela é formada pelo falso, em virtude de uma reflexão que veste a máscara da verdade. E eis que surge um grande princípio de coisas humanas, que confirma a origem da poesia aqui descoberta: que os primeiros homens da gentilidade, tendo sido tão simples como as crianças, as quais por natureza são verdadeiras, as primeiras fábulas não podiam fingir o falso; razão pela qual devem necessariamente ser, como acima vimos definidas, verdadeiras narrações.
V
Por tudo isso, demonstrou-se que todos os tropos (todos se reduzem àqueles quatro), os quais até agora se julgavam engenhosas criações de escritores, foram modos necessários para se explicar todas as primeiras nações poéticas, e em sua origem ter tido toda a sua nativa propriedade: mas, quanto mais se abria a mente humana, encontraram-se os termos que significam formas abstratas, ou gêneros que compreendem as suas espécies, ou compondo as partes com seus inteiros, tais falares das primeiras nações tornaram-se transportes19. E assim começam a remover aqueles dois erros comuns dos gramáticos: que o falar dos prosadores é próprio, sendo impróprio o dos poetas; e que primeiro veio o falar da prosa e, depois, do verso.
VI
Os monstros e as transformações20 poéticas originaram-se por necessidade de tal primeira natureza humana, como demonstramos nas Dignidades21, que não podiam abstrair as formas ou as propriedades dos sujeitos; donde, com a sua lógica, tiveram que compor os sujeitos para compor essas formas, ou destruir um sujeito para dividir a sua forma primeira da forma contrária nela introduzida. Tal composição de idéias dez os monstros poéticos: como na razão romana, conforme observação de Antônio Fabro, na Jurisprudência Papínia22, dizem-se "monstros" os partos nascidos de meretrizes porque têm natureza de homens e, ao mesmo tempo, com propriedade de animais, por terem nascido de vagabundos, ou seja, de incertos concúbitos; os quais encontraremos como os monstros, que a lei das XII Tábuas (nascidos de mulher honesta sem a solenidade das núpcias) ordenava que se lançassem ao Tibre.
VII
A distinção das idéias fez a metamorfose; como, entre as outras conservadas pela jurisprudência antiga, também os romanos nas suas frases heróicas deixaram aquela "fundum fieri" por "autorem fieri"23, porque, como o fundo sustém a propriedade ou o solo e quando nele é semeado ou plantado ou edificado, assim o aprovador24 sustém o ato, o qual sem a sua aprovação iria perdido, pois o aprovador, móvel como é, toma a forma contrária da coisa imóvel.
3
Corolário Acerca do Falar por Caracteres Poéticos das Primeiras Nações
A fala poética, como em virtude dessa lógica poética
meditamos, transcorreu por tão longo período no tempo histórico, como os grandes rios velozes
vertem muito dentro do mar e conservam doces suas águas, levadas com a violência do curso; razão
pela qual lâmblicos nos disse acima nas Dignidades25 que os egípcios, todas essas criações úteis à vida humana,
atribuíam-na a Mercúrio Trismegisto; cujas palavras confirmamo-las com aquela outra dignidade: que
"as crianças com as idéias e nomes dos homens, das mulheres e coisas que pela primeira conheceram
com essas idéias e com esses nomes, nomes aprendem e nomeiam todos os homens, mulheres e coisas que têm
com as primeiras alguma semelhança e relação"26,
e que essa era a natural e grande fonte poética, com as quais naturalmente pensaram e falaram os primeiros
povos. Sobre cuja natureza de coisas humanas, se tivesse refletido lâmblicos e se tivesse combinado tal costume
que ele mesmo refere dos antigos egípcios, como dissemos nas Dignidades27 ele, certamente, nos mistérios da sabedoria vulgar do Egito, não teria invadido
à força os sublimes mistérios da sabedoria platônica.
Ora, por tal natureza das crianças e por tal costume dos primeiros egípcios, afirmamos que a fala
poética, em decorrências desses caracteres poéticos, pode trazer muitas e importantes descobertas
sobre a humanidade.
I
[Que] Sólon deve ter sido algum homem sábio de sabedoria
vulgar, o qual fosse chefe da plebe nos primeiros tempos em que Atenas era uma república aristocrática.28. O que a história grega, de fato, conservou ao narrar que antes Atenas fora ocupada
pelos opmates – que é o que nós nesses livros demonstraremos universalmente de todas as repúblicas
heróicas, nas quais os heróis, ou seja, os nobres, por uma certa sua natureza, julgada de origem
divina, pela qual diziam serem eles mesmos os deuses, e por conseguinte, próprios os auspícios dos
deuses, em decorrência dos quais enfeixavam, dentro de suas próprias ordens, todos os direitos públicos
e privados das heróicas cidades, e aos plebeus, que julgavam ser de origem bestial, e, por conseguinte,
serem homens sem deuses e, por isso, sem auspícios, concediam, apenas, o uso da natural liberdade (que é
um grande princípio de coisas que serão meditadas por quase toda esta obra) – e que tal Sólon
tivesse instado os plebeus a que refletissem em si mesmos e reconhecessem serem da mesma natureza humana dos nobres,
e que, por conseguinte, deviam ser com eles equiparados em civil direito. Se é que tal Sólon, não
foi instado por esses plebeus atenienses, por este aspecto considerados29.
Porque também os romanos antigos devem ter tido um semelhante Sólon; cujos plebeus, nas lutas heróicas
com os nobres, como abertamente o narra a história romana antiga, diziam: os pais, de que Rômulo formara
o Senado (dos quais esses patrícios se originaram), "non
esse caelo demissos"30, ou seja, que não tinham tal divindade orogem
de que se vangloriassem e que Júpiter era igual para todos. Que é a história civil daquela
frase
...Iupiter omnibus aequus31
donde apresentarem mais tarde os sábios aquela sentença: que as mentes são por todas iguais e que se diferenciam pela diversa organização dos corpos e pela diversa educação civil. Dessa reflexão, os plebeus romanos começaram a equiparar com os patrícios a civil liberdade, até que, de fato, mudaram a romana república de aristocrática em popular, como o divisamos, por hipóteses, nas Anotações à Tábua Cronológica, e como o refletimos sobre a idéia da lei Publília, e mostraremos, com efeito, não ter isso acontecido apenas com a romana, mas com todas aquelas antigas repúblicas, e com razões e autoridades demonstraremos que universalmente, por semelhante reflexão de Sólon principiando, as plebes dos povos mudaram as repúblicas de aristocráticas em populares.
Portanto, Sólon tornou-se autor daquela célebre frase "Nosce te ipsum", a qual, pela grande civil utilidade que trouxera ao povo ateniense, foi inscrita em todos os lugares públicos daquela cidade32, e depois os adoutrinados os tomaram por um grande conselho, quando com efeito o é, tanto às metafísicas quanto às morais coisas, e Sólon foi considerado sábio de uma sabedoria oculta, e feito príncipe dos sete sábios da Grécia. De tal forma, de reflexão começaram em Atenas todas as ordens e todas as leis que formam uma república democrática; por isso, mediante essa maneira de pensar através de caracteres poéticos dos primeiros povos, tais ordens e tais leis, assim como os egípcios todas as investigações úteis à vida civil atribuíam a Mercúrio Trismegisto, os atenienses atribuíram-nas a Sólon.
II
Assim, devem ter sido atribuídas a Rômulo todas as leis referentes às ordens33.
III
A Numa [atribuídas] tanto em torno das coisas sagradas e às divinas cerimônias, nas quais surgiu, em tempos mais solenes, a romana religião.
IV
A Túlio Hostílio, todas as leis e ordens da militar disciplina.
V
A Sérvio Túlio, o censo, que é o fundamento das repúblicas democráticas, e outras leis em grande número em torno da popular liberdade, pelo que foi aclamado por Tácito "praecipuus sanctor legum"34. Porque, como demonstraremos, o censo de Sérvio Túlio foi a base das repúblicas aristocráticas, com a qual os plebeus obtiveram dos nobres o domínio bonitário35 dos campos; razão pela qual se criaram, mais tarde, os tribunos da plebe, para lhes defender esta parte de natural liberdade, os quais, pouco a pouco, lhe fizeram obter toda a liberdade civil; e assim, e censo de Sérvio Túlio, porquanto dele começaram as ocasiões e os levantes, tornou-se o censo da humana república popular, como se discutiu nas anotações à lei Publília, por hipótese, e mais tarde há de se mostrar ter sido verdadeiro de fato.
VI
A Tarquínio Prisco, todas as insígnias e divisas, com as quais, mais tarde, nos tempos mais luminosos de Roma, resplandeceu a majestade do império romano.
VII
Assim, devem ter sido atribuídas às XII Tábuas muitíssimas leis, que, dentro em breve, mostraremos terem sido ordenadas posteriormente; e (como se demonstrou em cheio nos Princípios do Direito universal36), porque a lei do domínio quiritário, pelos nobres tornada comum aos plebeus, foi a primeira lei escrita em pública tábua (pela qual unicamente foram criados os decênviros), por esse aspecto de popular liberdade todas as leis que igualaram a liberdade e que depois se redigiram em públicas tábuas foram atribuídas aos decênviros. Sirva como demonstração o luxo grego dos funerais, que os decênviros, pois que o proibiram, não o ensinaram aos romanos; o que não pôde ocorrer senão após a guerra com os tarentinos e com Pirro, nas quais começaram a conhecê-lo com os gregos; é, pois, a razão pela qual Cícero observa tal lei, traduzida em latim com as mesmas palavras com as quais fora concebida em Atenas37.
VIII
Assim Drácon, autor das leis escritas com sangue no tempo em que
a grega história, como acima dissemos38, narra que Atenas fora ocupada pelos optimates: fato
ocorrido, como veremos em breve, no tempo das aristocracias heróicas, na qual a mesma grega história
conta que os Heráclidas estavam dispersos por toda a Grécia, até mesmo na Ática, como
acima o propusemos na Tábua Cronológica39, os quais, finalmente, permaneceram no Peloponeso e estabeleceram o próprio reino
em Esparta, a qual encontraremos como tendo sido certamente uma república aristocrática. E tal Drácon
deve Ter sido uma daquelas serpentes da Górgona, fixada no escudo de Perseu, que se julgará significar
o império das leis, cujo escudo, com as assombrosas penas, petrificava aqueles que o olhavam, como na história
sagrada, pois que tais leis eram esses exemplares castigos, chamam-se "leges
sanguinis", e de tal escudo armou-se Minerva, a qual foi
chamada
(Athená), como será completamente
explicado, mais tarde; e dentre os chineses, os quais ainda escrevem por hieróglifos40
(que deve causar maravilha com semelhante maneira poética de pensar e de expressar-se comum a duas nações
tão distanciadas no tempo e no espaço), um dragão é a insígnia do império
civil. Pois que de tal Drácon nada mais saberemos de toda a grega história.
IX
Essa mesma descoberta dos caracteres poéticos nô-la confirma
Esopo, colocado bem antes dos sete sábios da Grécia, como prometemos, nas Notas à Tábua Cronológica41,
observá-lo aqui. Porque tal filológica verdade é-nos confirmada por essa história de
humanas idéias: que os sete sábios foram admirados ao começarem a dar preceitos de moral ou
de civil doutrina por máximas, como aquele célebre de Sólon (o qual foi príncipe):
"Nosce te ipsum",
que vimos acima como sendo antes um preceito de doutrina civil, logo depois levado à física e moral.
Mas Esopo dera antes tais conselhos por similitudes, das quais ainda antes os poetas se serviram para expressar-se;
e as ordens das humanas idéias é a de observar as coisas semelhantes, primeiro para expressar-se,
depois para provar, e isto antes com o exemplo que se contenta apenas de uma similitude, finalmente com a indução
que precisa de mais: donde Sócrates, pai de todas as seitas dos filósofos, Ter introduzido a dialética
com a indução, que, em seguida, complementou Aristóteles, com o silogismo, que não
se sustenta sem um universal. Mas às mentes pequenas basta que se lhes apresente um caso de similitude para
serem persuadidas; como com uma fábula, à maneira daquelas criadas por Esopo, o bom Menênio
Agrippa levou a plebe romana sublevada à obediência.
Que Esopo tenha sido um caráter poético dos sócios, ou seja, dos fâmulos dos heróis,
com um espírito de adivinho, o faz descobrir o bem culto Fedro, num prólogo42
de suas fábulas:
Nunc fabularum cur sit inventum genus,
Brevi docebo. Servitus obnoxia,
Quia, quae volebat, non audebat dicere,
Affectus proprius in fabellas transtulit.
Aesopi illius semitam feci viam43,
como a fábula da sociedade leonina evidentemente nô-lo confirma:
porque os plebeus eram chamados "sócios" das heróicas cidades, como nas Dignidades44 advertimos, e participavam das fadigas e dos perigos
das guerras, mas não dos despojos e das conquistas. Por isso, Esopo foi chamado "servo", porque
os plebeus, como logo será demonstrado, eram fâmulos dos heróis. E nos foi narrado como feio,
pois a beleza civil era estimada pelo nascimento dos matrimônios solenes, contraídos somente pelos
heróis, como, também, logo havemos de mostrar: precisamente como ele, Térsite era feio, o
que deve ser um caráter dos plebeus que serviam aos heróis na guerra troiana, sendo vencido por Ulisses,
com o cetro de Agamêmnon45; tal como os antigos plebeus romanos de espáduas
nuas foram derrotados pelos nobres com os bastões, "regium
in morem", segundo a narração de Salústio,
citado por Agostinho na Cidade de Deus46,
até que a lei Pórcia removeu os bastões das espáduas romanas.
Tais conselhos, portanto, úteis à vida civil livre, devem ser aspirações nutridas pelas
plebes das heróicas cidades e ditados pela razão natural: desses plebeus, Esopo tornou-se um caráter
poético, ao qual ligaram-se, mais tarde, as fábulas em torno da moral filosofia; e Esopo tornou-se
o primeiro moral filósofo, da mesma maneira que Sólon se tornou sábio, ao ordenar com as leis
a república livre ateniense. E pois que Esopo deu tais conselhos através de fábulas, fizeram-no
preceder a Sólon, que os deu por máximas. Tais fábulas devem ter sido concebidas primeiramente
como versos heróicos47, como depois, afirma a tradição que foram
concebidas em versos iâmbicos48, e que, como veremos em breve, foram falados pelas
gentes gregas entre o verso heróico e a prosa, na qual finalmente escritas chegaram até nós.
X
Dessa forma, aos primeiros autores da sabedoria vulgar foram atribuídos os inventos e a sabedoria oculta; e os Zoroastros, no Oriente, os Trismegistos, no Egito, os Orfeus, na Grécia, os Pitágoras, na Itália, de legisladores foram tomados finalmente por filósofos, como Confúncio hoje o é na China. Porque, certamente, os pitagóricos na Magna Grécia, como logo havemos de mostrar, consideravam-se na acepção de "nobres", os quais, ao tentar reduzir todas as suas repúblicas de populares para aristocráticas, foram assassinados. E o Carme Aureo de Pitágoras acima demonstramos ser uma impostura, como os Oráculos de Zoroastro, o Pimandro de Trismegisto, os Órficos ou os versos de Orfeu; nem por Pitágoras a esses antigos foi escrito qualquer livro de filosofia, e Filolau foi o primeiro pitagórico que o escreveu, como observa Scheffer, De philosophia italica.
1 Solução imaginosa.
2 Geografia, 1, 2, 6, cujo sentido é outro.
3 Dignidade LVII.
4 A citação muda o sentido da passagem.
5 Dignidade LVII.
6 Gênesis, 2, 19-20. Cf. Bacon, De Argumentis scientiarium.
7 Observe-se o papel da imagem, de sua relação como conceito e com a idéia, e todas as implicações que remontam aos palácios da memória, aos emblemas e empresas do século XVII.
8 Dignidades XXVI e XXVII.
9 Dignidade XLIX.
10 Rossi: "Cada metáfora é para Vico um mito ou uma personificação de conceitos abstratos. A linguagem metafórica é uma das características essenciais da mentalidade primitiva."
11 As metáforas permanecem nas idades sucessivas, cumprindo funções diversas.
12 Cícero, Orator, 24; Horácio, Odes, 1, 9, 2 e 2, 9, 6; Ovídio, Arte de amar, 1, 360. Respectivamente: "os campos têm sede"; "a colheita vai mal"; "os campos estão plenos".
13 Dignidade XLIX.
14 "Transporte": metáfora.
15 Nicolini: "caule, haste de palha"; por metonímia, teto de palha.
16 Nicolini: "extremidade pontiaguda"; por metonímia, ponta de espada. Cf. Quintiliano, Inst. Oratoriae, X, 1, 2.
17 "Tertia messis erat": "era a terceira messe".
18 Virgílio, Bucólica, 1, 69: "Depois, revendo os meus domínios, encontrarei tantas espigas".
19 Transportes, metáforas.
20 Os monstros da mitologia.
21 Dignidade XLIX.
22 Jurisprudentiae papinianeae scientia.
23 Cícero, Pro Balbo, 8; Aulo Gélio, Noctes Atticae, 16, 3.
24 Aprovador: aquele que garante o direito.
25 Dignidade XLIX.
26 Dignidade XLVIII.
27 Dignidade XLIX.
28 Sólon viveu, todavia, no século VII a.C.
29 Caráter poético dos plebeus de Atenas.
30 Livro 10, 8: "Não haviam descido do céu".
31 Eneida, 10, 111: "Júpiter é igual para todos".
32 Fora escrito no templo de Apolo, em Delfos, e não por Sólon: "Conhece-te a ti mesmo".
33 Algo próximo da idéia de classes, sem os horizontes, bem entendido, de Marx e Weber.
34 Tácito, Anais, 3, 26.
35 Cf. Dignidade IXXXIII.
36 Nicolini: De constantia iurisprudentis, parte 2, 36 e 37.
37 De Legibus, 2, 25.
38 Cf. o item 1 deste capítulo.
39 Está em jogo a relação Drácon e Draco (no italiano de Vico, dragão). Assonâncias, aliterações, quiasmos, dentre outras muitas figuras, estruturam, por vias diversas e reiteradas, o pensamento viquiano.
40 Hieróglifos e ideogramas se confundem na acepção de Vico.
41 Nota: XXXII.
42 Fedro, Fábulas, 3.
43 "Ensinai, então, em breves palavras, pois o gênero das fábulas foi inventado. Vencida a escravidão, pois não ousava dizer o que queria, transferiu seus próprios sentimentos para as fábulas. Ampliei a matéria daquele Esopo."
44 Dignidade, XXIX.
45 Ilíada, 2, 211-277.
46 De civitate Dei, 2, 18, 1. Haxâmetros. Fedro usara o iâmbico.
47 Haxâmetros.
48 Fedro usara o iâmbico.