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JUNG: PRÍNCIPE HERDEIRO E FILHO AMADO

Richard Webster

Este texto faz parte do livro Por que Freud Errou, de Richard Webster, reproduzido aqui com a autorização da Editora Record.

CARL JUNG DEPAROU PELA PRIMEIRA VEZ com a obra de Freud, em 1900, ao ler A interpretação dos sonhos. Nessa época, Jung, medico suíço de 25 anos, acabara de ser contratado pelo hospital psiquiátrico Burgholzi, em Zurique. Parece que o diretor do hospital, Eugen Bleuler, recomendara com alguma hesitação o livro de Freud ao jovem assistente, e que Jung ficara devidamente impressionado. Aos poucos, a psicanálise ia sendo introduzida no Burgholzi. Em 1906, Jung enviou a Freud um exemplar do livro que escrevera sobre testes de associação de palavras (derivado originalmente de Galton), e Freud respondeu expressando sua gratidão pelo jovem médico ter endossado algumas de suas idéias e estar disposto a aceitar correções.

Mais tarde nesse mesmo ano, Jung saiu em defesa de Freud quando um professor de psiquiatria alemão, Gustav Aschaffenburg, atacou o histórico clínico de Dora feito por Freud num congresso de psiquiatras e neurologistas, em Baden-Baden. Jung respondeu ao ataque com um documento intitulado "Teoria da histeria de Freud: uma resposta a Aschaffenburg". O significativo, porém, é que seu trabalho continha algumas reservas. "Quando li pela primeira vez os textos de Freud", de dizia, "ocorreu comigo o mesmo que com todos os outros: só pude salpicar as páginas com pontos de interrogação.". Em seguida, Jung apresenta a opinião de que a teoria da histeria de Freud era uma teoria provisória, pois "ele não examinou todas as histerias existentes". Jung observou não apenas que talvez houvesse formas de histeria que Freud jamais examinara, mas chega mesmo a sugerir que o material dele poderia, em conseqüência de suas interpretações teóricas, ter ficado "um tanto parcial", e que nem todos os casos de histeria tinham origem sexual. Nessa ocasião, Jung ainda não tinha conhecido Freud. A ligação entre Zurique e Viena não foi estabelecida em qualquer nível pessoal até janeiro de 1907, quando Freud recebeu a visita de um dos colegas mais jovens de Jung, Max Eitingon. No mês seguinte, chegava o próprio Jung, junto com a mulher e um discípulo, Ludwig Binswanger. Jung ficou profundamente impressionado com Freud, descrevendo-o como "o primeiro homem de verdadeira importância que eu conhecera". Lembrou que "se haviam conhecido a uma da tarde e conversado praticamente sem sequer uma pausa durante treze horas".

Freud ficou ate mais impressionado com Jung, e muitos fatores extrínsecos o predispuseram a favor do jovem psiquiatra. Talvez o mais importante desses fosse a ansiedade de Freud, de que seus seguidores em Viena não o mereciam, aos quais não se podia confiar a conquista do reconhecimento internacional que almejava para a psicanálise. Ao mesmo tempo em que duvidava da qualidade de alguns seguidores vienenses, continuava ansioso em relação à própria posição na comunidade médica Desde os seus desastrosos ensaios sobre a cocaína, não faltavam quaisquer motivos à profissão médica em geral, e aos psiquiatras e neurologistas austro-germanos em particular, para tratar Freud e suas idéias com cautela. Em conseqüência, apesar de seu professorado, ele ainda se sentia um forasteiro sem verdadeiro acesso aos corredores do poder médico. O fato de ter recebido a visita de Jung, nessa época o segundo na hierarquia do Burgholzi, e portanto na vanguarda mesmo da psiquiatria acadêmica européia, significava que chegara mais perto do que até então estivera de conquistar o reconhecimento internacional. Não menos importante para o criador da psicanálise era que esse reconhecimento parecia vir de fora do círculo predominantemente judeu dos seus seguidores mais íntimos. Pois ele tinha a aguda consciência do anti -semitismo na Europa e nos Estados Unidos. Sonhando como sonhava com um futuro universalista para suas idéias, Freud era sensível à maneira como sua condição de judeu, como a de muitos dos seus seguidores mais íntimos, poderia ser uma desvantagem para a psicanálise. Não seria exagero algum dizer que, em Jung, Freud vislumbrou a possibilidade de um alter ego gentio que talvez ajudasse a redimir a psicanálise de suas origens judias e propagá-la pelo mundo não-judeu. "Eu chegaria quase a dizer", escreveu certa vez Freud a Abraham, "que foi só pelo seu aparecimento [de Jung] no cenário que a psicanálise escapou do perigo de se tornar um caso nacional judeu."

Os motivos da intensa reação de Jung a Freud parecem ter sido mais íntimos. Durante a maior parte de sua carreira como psicoterapeuta, Jung raras vezes revelou diretamente a profundidade e urgência de suas próprias necessidades religiosas. Mas próximo ao fim da vida, ficou menos circunspecto. Em 1952, falou a um jovem de clérigo de sua relação com Deus: "Acho que todos os meus pensamentos giram em torno de Deus, como os planetas em volta do sol, e são irresistivelmente atraídos por Ele. Eu sentiria como se fosse o maior de todos os pecados se tivesse de opor alguma resistência a essa forca." Em Memories, Dreams, Reflections [Memórias, sonhos, reflexões], livro autobiográfico publicado próximo ao fim de sua vida, Jung revelou quase pela primeira vez a profundidade da turbulência religiosa que sofrera na adolescência. Relatou em particular o papel desempenhado em seu desenvolvimento pelos sonhos obscenos e escatológicos que achava blasfemos, mas que ao mesmo tempo acreditava faziam parte de uma revelação pessoal que Deus lhe fizera. Num desses sonhos, viu o que mais tarde decidiu ser um falo gigante, que de algum modo identificou com Jesus. Numa visão que tivera aos doze anos, julgara ter visto Deus entronado na cúpula brilhante de uma nova catedral. Após agônicas dúvidas sobre se deixava um pensamento que julgava pecaminoso entrar em sua consciência, decidiu "que o próprio Deus planejava teste decisivo para mim, e que tudo dependia de eu compreendê-lo corretamente".

Reuni toda a minha coragem, como se estivesse prestes a saltar incontinenti no fogo do inferno, e deixei. vir o pensamento. Vi diante de mim a catedral, o céu azul. Deus sentado em seu trono dourado, altaneiro, acima do mundo—e saindo por baixo do trono um enorme cocô cai sobre o reluzente telhado novo, espatifa-o e desfaz em cacos as paredes da catedral.

Como resultado direto dessas visões, Jung diz-nos que, pelo menos na intimidade, sentiu que a graça caíra sobre ele, e sentiu "uma indizível bênção, que eu jamais conhecera". Ao mesmo tempo, contudo, sabia que o que julgara ser sua própria experiência de Deus era profundamente herética, e que não podia comunicá-la a mais ninguém. "Eu vivera um sombrio e terrível segredo. Isso obscureceu toda minha vida, e tornei-me profundamente pensativo."

Em um aspecto, as visões religiosas que Jung experimentara aos doze anos de idade levaram a um profundo sentimento de superioridade religiosa. Depois ele conta que foi "arrebatado por uma piedade quase veemente" pelo pai, um pastor protestante, cujo sentido de Deus ele achava deficiente. Em outro aspecto, contudo, suas vergonhosas visões religiosas acentuaram seu isolamento. "A experiência", ele escreve, "também teve a conseqüência de intensificar meu senso de inferioridade. Sou um diabo ou um porco, pensei; sou infinitamente depravado". Portanto, os conflitos internos de Jung seguiram o clássico padrão messiânico. Acima de tudo, ele foi colhido pela sensação de que desfrutara a intimidade com Deus de uma forma que não podia comunicar aos outros:

Com [essa] experiência (...) tive afinal alguma coisa tangível que fazia parte do grande segredo—como se eu sempre falasse de pedras caindo do céu e agora tivesse uma no bolso. Mas, na verdade, foi uma experiência. vergonhosa. Eu caíra numa coisa ruim, perversa e sinistra, embora ao mesmo tempo fosse uma espécie de distinção. Às vezes sentia uma urgência opressiva de falar, não disso, mas apenas sugerir que acontecia alguma coisa curiosa em mim que ninguém sabia. Eu queria descobrir se outras pessoas haviam passado por experiências semelhantes. Jamais conseguiu descobrir sequer um traço delas nos outros. Em conseqüência, tive a sensação de que era um proscrito ou eleito, amaldiçoado ou abençoado... [itálico nosso].

Na adolescência, Jung encontrou algum consolo no Novo Testamento, acima de tudo na ênfase que dava ao sacerdócio de Jesus para aqueles considerados impuros e pecaminosos. Ele lembra que lia "com certa satisfação a história do fariseu e o publicano, e que os réprobos eram os eleitos". Mas achava o cristianismo convencional desgastado e vazio, e durante toda a adolescência continuou sendo, em certo sentido, o único membro de uma igreja da qual ele fora o fundador. Parece razoavelmente claro que essas primeiras experiências religiosas desempenharam um papel importante em sua decisão de unir-se ao movimento psicanalítico. Não muito depois de seu primeiro encontro com Freud, na verdade, Jung confessou-lhe: "Minha antiga religiosidade encontrara secretamente em você um fator compensador (...)".À luz dessa admissão, se poderia sugerir que Jung foi atraído para a psicanálise pelos mesmos motivos já apresentados para explicar o apelo do confessionário de Freud. Pois Jung sofria muito nitidamente uma intensa ansiedade porque achava que sua identidade "verdadeira" era secreta, vergonhosa e impura, e que não podia admiti-la em público sem atrair a desconfiança de loucura, heresia ou as duas coisas. Na psicanálise, de parece ter encontrado um reconhecimento indireto, embora significativo, dessa parte de sua identidade. E no próprio Freud sentia que descobrira um pensador original, cujas heresias eram da mesma escala que as dele. "Jamais teria tomado o seu partido para começar", ele escreveu a Freud em 1912, "se não tivesse a heresia correndo no meu sangue."

A relação que acabou se estabelecendo entre Freud e Jung sem dúvida tinha grande força emocional e complexidade, e os dois repetidas vezes recorriam a metáforas para explicá-la. Segundo Ernest Jones, o entusiasmo de Jung por Freud nessa época era indiscutível. "Ele considerava o encontro com Freud o ponto alto de sua vida, e alguns meses depois de terem se conhecido, Jung lhe disse que todo aquele que adquiria um conhecimento da psicanálise comia da árvore do paraíso e alcançava visão." É significativo, contudo, que foi Freud quem tomou a maioria das iniciativas nessa relação. Quase tão logo conheceu Jung, começou a pensar nele como seu sucessor. Chamou-o de seu "filho e herdeiro", escrevendo que, "quando o império que fundei ficar órfão, ninguém senão Jung tem de herdar todo o negócio". Segundo esse modelo secular, Freud encarava Jung com bastante franqueza como seu "príncipe herdeiro". Mas por trás da visão secular havia outra mais forte, religiosa. Por isso a um determinado momento Freud se referiu à ocasião "em que formalmente o adotei como meu primogênito e o ungi— in partibus infidelium [nas terras dos descrentes]—como meu sucessor e príncipe herdeiro". Mais ou menos na mesma época, Freud identificava-se, como o faria em toda a parte final de sua vida, com Moisés: "Se sou Moisés", escreveu a Jung em 1909, "então você e Josué, e tomará posse da terra prometida da psiquiatria, que só conseguirei vislumbrar de fora."

Apesar do fato de referir-se repetidas vezes a Jung como seu "herdeiro", não estava disposto a esperar sua morte para entregar a liderança do movimento psicanalítico. Em 1910, num Congresso Internacional em Nuremberg, delegou a Ferenczi a tarefa de anunciar seu plano de formar uma associação psicanalítica internacional que deveria ter Jung como presidente permanente. Segundo a proposta de Freud, Jung receberia poderes extraordinários, que incluíam a nomeação e a destituição de analistas e o direito de vetar os textos deles antes que fossem publicados. A proposta, que deixou os seguidores vienenses sentindo-se insultados e rejeitados, desencadeou um grande distúrbio, e os vienenses chegaram perto da franca rebelião. Freud tentou convencê-los a aceitar seu plano num discurso ardoroso:

A maioria de vocês é judia, e portanto incompetente para conquistar amigos para o novo ensinamento. Os judeus têm de contentar-se com o papel modesto de preparar o terreno. É absolutamente essencial que eu estabeleça ligações no mundo geral da ciência. Estou envelhecendo e extenuado de ser eternamente atacado. Todos nós corremos perigo. (...) Não me deixarão um casaco nas costas. Os suíços nos salvarão—me salvará, e também a todos vocês."

Acabou-se selando um acordo em que Jung era nomeado para a presidência apenas por um período de dois anos, sem os poderes de censura que Freud exigira inicialmente.

O episódio foi curioso. E também não era a primeira vez que Freud tentava abandonar a liderança do movimento que fundara. Segundo Hans Sachs,

era desejo permanente de Freud aliviar-se das insígnias do poder. Esforçava-se tentando encontrar o homem certo a quem pudesse confiar a liderança do movimento psicanalítico; quando achava que o encontrara, tentava investir o homem de sua escolha—Adler, Jung, Rank—de autoridade total.

Na tentativa de justificar sua escolha de Jung, o próprio Freud certa vez explicou: "Eu desejava me retirar a mim e à cidade que em que a psicanálise viu a luz pela primeira vez para o pano de fundo."

Houve um interessante precedente dessa aparente timidez sobre o papel do líder. Foi, claro, em relação a Fliess. Pois ao longo dessa amizade, ele foi o mais apaixonado de todos os "casos amorosos" intelectuais a que Freud se submetia repetidamente como um discípulo. Numa ocasião, como já vimos, ele escreveu que esperava por Fliess "como o Messias", na solução de um determinado problema. Em outra ocasião, adotou um tom de humildade quase masoquista:

Pessoas da sua estirpe não deviam morrer, meu querido amigo; o resto de nós precisa demais de pessoas como você. O quanto não lhe devo: consolo, compreensão, estímulo em minha solidão, o sentido da minha vida conseguido através de você, e afinal até mesmo a saúde que ninguém mais me poderia ter devolvido. Foi sobretudo por seu exemplo que ganhei intelectualmente a força para confiar em meu julgamento. (...) Por tudo isso, aceite meus humildes agradecimentos! Sei que não precisa de mim tanto quanto eu de você, mas também sei que tenho um lugar seguro em sua afeição. (...)

Suas cartas, como mais uma vez a última, contém a riqueza de compreensões internas e intuições, das quais infelizmente nada mais posso dizer senão que me cativam e me subjugam.


Nos dois casos, podemos sentir a profunda insegurança de Freud e sua ansiedade para evitar assumir a responsabilidade total por suas próprias teorias. Mas há também uma diferença crucial. Pois enquanto no caso anterior ele parecia querer desaparecer no pano de fundo
abaixo de Fliess, no posterior, desejava desaparecer acima de Jung—de modo a manter o controle definitivo do movimento que fundara.

Talvez se esclareça melhor a diferença na atitude de Freud que isso sugere se examinarmos uma observação de passagem feita por Fritz Wittels numa memória sobre o fundador da psicanálise. Segundo Wittels: "O rosto de Freud se iluminava sempre que falava de Jung. 'Este é o meu filho muito querido, que me dá tanta alegria!'" As palavras citadas aqui são, claro, extraídas dos evangelhos. Por mais extraordinário que pareça em relação a um movimento que era não apenas judeu, mas também racionalista e ateu, são as palavras supostamente ditas por Deus na ocasião em que Jesus era batizado por João (Mateus 3:17). Em outro contexto, seria tentador relevar essa citação como sem qualquer significado real. Mas no contexto da imaginação profundamente religiosa de Freud é difícil fazer isso. O que essa citação parece indicar é que, na fantasia, ele se identificava não apenas com Moisés ou com outras personalidades proféticas ou messiânicas, mas com Deus. Que essa identificação fantasiosa não é tão incomum quanto se pode supor é sugerido por Ernest Jones em seu artigo sobre o complexo de Deus a que já nos referimos antes. Jones o introduz observando que a tendência a identificar o eu com o "objeto amado" ocorre em quase toda forma de afeto, e é sem dúvida encontrada muitas vezes nas atitudes dos filhos para com os pais. Após comentar que todo filho imita o pai, finge para si mesmo ser o pai, e em certa medida modela-se na verdade nele, conclui que "é portanto simplesmente natural que uma atitude semelhante se possa desenvolver em relação ao Pai Celestial mais perfeito, e num certo sentido isso é diretamente incutido no ensinamento religioso de que a pessoa deve esforçar-se o máximo possível como o modelo divino..." Em seguida Jones sugere que a fantasia em que as pessoas identificam sua personalidade com a de Deus "não é em absoluto rara", e "possivelmente ocorre aqui e ali entre todos os homens". O impressionante nesse artigo é que, como observou Paul Roazen, muitas das tendências identificadas com o "complexo de Deus" por Jones correspondem àqueles que, em outros trechos, ele também atribuiu a Freud. Poder-se-iam na verdade, ler partes de seu ensaio como uma crítica indireta e não intencional ao próprio homem que ele publicamente venerava e defendia:

A tendência ao isolamento manifesta-se no lado puramente mental de maneira bastante direta. Esses homens são ao mesmo tempo insociáveis e não sociais no sentido mais lato. Toda influência que exercem é portanto de maneira bastante indireta, por meio da estimulação de mais admiradores assíduos. O ideal deles é ser "o homem por trás do trono", dirigindo os negócios de cima sendo ao mesmo tempo invisíveis para a multidão. A adesão, a participação ou mesmo a liderança de um movimento geral lhes é em geral repugnante, e eles fazem qualquer esforço para manter uma política de magnífico isolamento...

Com grande freqüência, ocorre uma forma mais elevada de sublimação, e isso por sua vez adquire como característica a forma de
interesse pela psicologia. Se a pessoa em questão é dotada de uma intuição natural para adivinhar o que se passa na mente dos outros, é um juiz da natureza humana, fará uso disso em qualquer profissão que seja; se não é tão dotada, tende a ser psicólogo ou psiquiatra. (...) Adquire um interesse particular por quaisquer métodos que prometem um "atalho" para o conhecimento da mente de outras pessoas. (...) O método mais incomum é o que mais a atrai, proporcionando-lhe a sensação de ser dona de uma chave só acessível aos eleitos. (...)

Um dos mais lamentáveis traços da personalidade desse tipo sob observação é a atitude de aversão à aceitação de novos conhecimentos. Isso decorre de maneira bastante lógica da idéia de onisciência, pois naturalmente não se pode ensinar nada de novo a qualquer pessoa que já sabe tudo; menos ainda pode ela admitir que algum dia cometeu um erro de seu conhecimento. (...) Acima de tudo, os homens com esse tipo de personalidade falam ainda mais que os outros homens sobre sua capacidade de assimilar novas idéias. (...) Mas quando postos à prova do confronto com uma nova idéia, que não se originou deles mesmos, oferecem uma inflexível resistência a ela. (...)

O tema religioso é em geral de grande interesse para esses homens. (...) Na maioria das vezes são ateus, e isso naturalmente porque não conseguem suportar a existência de nenhum outro Deus...

Em seu contexto original, muitas das observações acima citadas são cuidadosamente qualificadas para não poderem ser interpretadas como uma crítica ao próprio Freud, ou à psicanálise. Mas parece provável que Jones tivesse isso em mente, pelo menos em alguns trechos do artigo. É sem dúvida digno de nota o fato de ele prosseguir salientando que o complexo de Deus nem sempre é negativo, e que, se "orientado e controlado por fatores mais elevados, pode proporcionar ao homem verdadeiramente semelhante a Deus sua grandeza e sublimidade". Também apresenta uma versão de uma variante do complexo de Deus que parece muitíssimo como um julgamento retrospectivo de Jung—feito muitos anos depois de Freud acusá-lo de anti-semitismo e proferir seu veredicto final de que ele era "incapaz de aceitar ou exercer a autoridade". Jones apresenta essa versão sugerindo que a mais importante variante do com plexo de Deus é a que depende da idéia do Filho de Deus ou Cristo:

Isso imprime um selo especial ao tipo em questão, que se deve logo indicar. As três principais características são: revolta contra o pai, fantasias de poupança e masoquismo, ou em outras palavras, uma situação de complexo de Édipo em que o filho herói e um salvador sofredor. (...) Portanto, vê-se a constante presença de intolerância à autoridade de qualquer tipo, e à luz desse complexo é possível julgar uma pessoa investida de [autoridade]... como a figura artificialmente distorcida na imago do pai perverso. Com essa espécie de Cristo vem invariavelmente uma tendência a anticristo, as duas religiões sendo divergentes e o velho Jeová hebraico substituído pelo jovem Cristo.

Se essas palavras são na verdade uma alusão a Jung, então fica claro que na explicação que dão acerca do conflito de Jung com Freud é tendenciosa em favor do último. Mas a indicação geral de que, por trás do grande cisma no movimento psicanalítico, se desenrola um drama religioso onde Freud tenta representar o papel do pai divino parece muitíssimo verdadeira. Jung, profundamente angustiado com Deus numa tenra idade, ficou sem dúvida angustiado com Freud de maneira quase dramática. Chegou mesmo a confessar a Freud que sua "veneração" por ele tinha "alguma coisa do caráter de uma 'religiosa' paixão" e também escreveu que Freud era "um herói humano e um deus superior". Desde o início, evidentemente, Jung tinha grande dificuldade para desemaranhar os aspectos emocionais dos intelectuais no relacionamento dos dois.

Mesmo antes de conhecer Freud, Jung desenvolvera uma filosofia por conta própria, significando que sua atitude para com a psicanálise era, como já vimos, longe de ser acrítica. A princípio, contudo, parece que esse lado do psiquiatra suíço foi simplesmente sobrepujado pela pura força da personalidade de Freud. Numa das cartas que escreveu logo depois de seu primeiro encontro com Freud, ele expressou considerável incerteza sobre a "concepção mais generalizada da sexualidade". Mas na mesma carta, prossegue escrevendo: "Não estou mais infestado de dúvidas quanto à correção de sua teoria. Os últimos fiapos foram eliminados com minha permanência em Viena, que para mim foi um acontecimento de primeira importância." Não muito depois, escreveu mais uma vez, e usou o vocabulário da religião para reafirmar a Freud que aceitava sua autoridade total:

Tenho a sensação de ter feito considerável progresso desde que passei a conhecer sua personalidade; parece-me que jamais se consegue entendê-lo e à sua ciência suficientemente bem, a não ser que conhecendo-o em carne e osso. Quanto ao muito que continua obscuro para nós, forasteiros, só a fé pode ajudar; mas a melhor e mais eficaz fé é o conhecimento de sua personalidade."

Até onde Jung ficou trancado na visão messiânica do próprio Freud talvez seja indicado por seu entusiasmo em partilhar da demonologia particular do fundador da psicanálise. Numa carta escrita em maio de 1910, Freud relata ao "filho" que recebera a visita em seu apartamento de Hofrat Friedlander, um dos mais acirrados críticos da psicanálise. Após informar que o visitante dera o nome incorreto de "Schottländer" para conseguir entrar, Freud refere-se a ele como "o demônio", escrevendo que quando tentou refutar uma de suas críticas, "Belzebu recolheu os chifres, desprendeu seu famoso fedor e pôs-se a denunciar". Em seguida, Freud conta que atacou o visitante com "uma fieira de observações ofensivas (...) eu lhe disse que de nada sabia da técnica analítica (...) que em essência era um bruto, um moleque de sarjeta (isso decerto numa linguagem mais educada)". A resposta de Jung é admirável, pois longe de opor-se aos excessos do linguajar de Freud, multiplica-os:

Fiquei pasmo com suas notícias. A aventura com Schottländer e maravilhosa; claro que o nocivo bastardo estava mentindo. Espero que o tenha ridicularizado, açoitado com tamanha ferocidade de gênio que o tenha feito sentir de uma vez por todas a eficácia da [psicanálise]. Assino embaixo com todo o meu coração o seu julgamento final. Essa é a natureza dos animais. Como pude sentir a imundície nele pelo seu rosto, que eu adoraria agarrar pelo cachaço. Espero em Deus que lhe tenha dito todas as verdades tão diretas, que mesmo o cérebro de galinha dele pode absorvê-las. Agora vamos ver qual será o próximo golpe. Estivesse eu em seu lugar, teria amaciado seu complexo de moleque de sarjeta com uma bela sova suíça.

A visão de Jung aqui, como a de Freud, é característica do pensador religioso apocalíptico que se vê a si e aos seus seguidores como ilhas de pureza cercadas por um mar de corrupção e imundície. Jung mais tarde escreveria com visível objetividade que Freud descrevia a psicanálise como uma verdadeira muralha "contra a negra corrente de lama". É claro, contudo, que nos primeiros dias de seu relacionamento de partilhava dessa mesma opinião. Desde que conseguiu convencer-se de que ele e Freud haviam estabelecido esse relacionamento para proteger e promover uma verdade científica "sagrada", seu ceticismo foi contido.

O momento decisivo ocorreu em 1909, na viagem que os dois fizeram juntos aos Estados Unidos, para onde haviam sido convidados para falar por ocasião do vigésimo aniversário da Universidade Clark. Durante essa viagem de um mês e três semanas, os dois adquiriram o habito de analisar os sonhos um do outro. Foi nesse momento que aconteceu alguma coisa, como disse Jung, "que revelou ser um grave golpe para. o relacionamento". Freud teve uns sonhos que o transtornaram muitíssimo e que, na opinião de Jung, se referiam ao seu caso sexual com a irmã mais moça de sua mulher, Minna:

Freud não tinha a menor idéia de que eu sabia do triângulo e de seu relacionamento íntimo com a cunhada. Então, quando me contou o sonho em que a mulher e a cunhada representavam papéis importantes, pedi-lhe que me dissesse algumas de suas associações pessoais com o sonho. Ele me olhou com ressentimento e disse: "Eu podia contar-lhe mais, mas não posso arriscar minha autoridade."

Na versão da história que aparece em Memórias, sonhos, e reflexões, Jung escreve que, a partir do momento em que Freud tentou tornar sua autoridade mais importante que a busca da verdade psicológica, "perdeu-a inteiramente. Aquela frase, 'Não posso arriscar minha autoridade', ardia em minha lembrança; e nela já se vaticinava o fim do nosso relacionamento".

Jamais se saberá com que precisão essa reminiscência capta exatamente a virada no relacionamento. Sem dúvida, houve outros fatores que enfraqueceram a relação, entre eles a insistência de Jung em sentir-se desconsiderado quando Freud visitou a Suíça sem se encontrar com de em 1912. 0 que parece claro é que Jung acabou perdendo a fé no homem a quem vinha adorando como um deus. Livre dessa atitude anterior de reverência religiosa, começou a expressar algumas das reservas e dúvidas que sentia em relação às teorias freudianas desde o princípio. Embora não tivesse logo procurado romper com o mestre, e na verdade valorizado sua posição no movimento psicanalítico, desviava-se cada vez mais da ortodoxia em suas formulações independentes.

Isso se tornou visível sobretudo em 1912, quando Jung voltou aos Estados Unidos dos sozinho para fazer uma série de palestras na Universidade Fordham, em Nova York. O objetivo dessas palestras era expor os princípios básicos da psicanálise, e grande parte do que Jung tinha a dizer não era original. Mas em relação a algumas questões cruciais, ele cuidadosamente sobrepunha os ensinamentos de Freud com reservas próprias. Rejeitava a visão de que a obtenção de prazer era a mesma coisa que sexualidade, e dissociava-se do que chamava de "extensão ilimitada do conceito de sexualidade" na psicanálise. Assim como repudiava a versão de Freud da sexualidade infantil, Jung também traduzia o complexo de Édipo para seus termos muito mais brandos. Após explicar corretamente que Freud tomara "a tendência ao incesto como sendo um desejo sexual absolutamente concreto", Jung sugeria em seguida que ele se inclinava "a reduzir quase toda a psicologia das neuroses (...) a esse único complexo". Jung achava que se o complexo de Édipo fosse julgado simplesmente como "uma fórmula para os desejos infantis em relação aos pais e para o complexo que esses desejos invocavam" então "o problema talvez parecesse mais aceitável".

Ao expressar essas opiniões, sabia muito bem que estava transgredindo o mais sagrado de todos os tabus psicanalíticos. Pois àquela altura já tivera a conversa com Freud em que este insistiu que se devia tratar sua teoria como "um dogma (...) um baluarte inabalável" (ver Capítulo 14). Jung depois manifestou a opinião de que a rigidez com que Freud defendia a teoria sexual era um substituto para a rigidez do Deus que ele não mais adorava:

No lugar do Deus ciumento que perdera, ele pusera outra imagem obrigatória, a da sexualidade. Essa em nada era menos insistente, retificadora, dominadora, ameaçadora e moralmente ambivalente que a original. (...) A vantagem da transformação para Freud era, aparentemente, "de que podia julgar o novo princípio numênico como cientificamente irrepreensível e livre de toda mácula religiosa.

O fato de encararmos Freud como tendo feito uma divindade de sua teoria ou de si mesmo faz afinal pouca diferença. O desenvolvimento crucial foi que Jung, após a princípio ter-se curvado, submisso, à psicanálise, e tratado seu fundador com veneração, começou cada vez mais a reivindicar para si mesmo a autoridade que inicialmente se prontificara a localizar em outra parte.

A reação de Freud à instabilidade de Jung foi característica: como no caso de Adler, Stekel e muitos outros, usou suas próprias teorias como uma arma defensiva imputando a Jung um complexo paterno não resolvido. Em dezembro de 1911, Freud já havia lhe escrito que "os problemas dos jovens parecem ser a falta de compreensão para lidar com seus complexos paternos". Freud retornou a esse tema em muitas ocasiões, e parece provável que tácita (ou mesmo assiduamente) estimulava seus seguidores a receber os pronunciamentos cada vez mais independentes de Jung com refutações psicanalíticas semelhantes. Em vez de deixar-se intimidar por essas táticas, Jung chegou próximo da rebelião aberta quando se opôs à tendência dos psicanalistas

ao mal emprego da psicanálise com a finalidade de desvalorizar os outros (...) com insinuações sobre complexos. (...) Um exemplo desse absurdo sobretudo ridículo que agora circula é que minha teoria da libido é conseqüência de erotismo anal. (...) Qualquer coisa que possa fazê-los pensar é interpretada como um complexo. Essa função protetora da PsA [psicanálise] necessita urgentemente ser desmascarada.

A essa altura, a crítica de Jung a Freud era indireta, e ele evitava com cuidado qualquer confronto mais pessoal criticando mais os outros analistas do que o próprio Freud. Mas depois que este o irritou, tratando um escorregão da caneta numa de suas cartas como uma ação sintomática, Jung escreveu-lhe a carta de desafio:

Posso lhe dizer algumas palavras com toda a seriedade? Admito a ambivalência de meus sentimentos para com você, mas estou inclinado a adotar uma visão honesta e absolutamente franca da situação. (...) Eu (...) salientaria que sua técnica de tratar seus alunos como pacientes é um erro crasso. Dessa maneira, você gera filhos escravos ou bonecos cínicos (Adler—Stekel e todo o bando insolente lançando agora seu peso em Viena). Sou objetivo o bastante para ver por trás do seu truquezinho. Você anda por aí bisbilhotando todas as ações sintomáticas em sua vizinhança e com isso reduzindo todos ao nível de filhos e filhas que, enrubescidos, admitem a existência de seus erros. Enquanto isso, você fica firme no alto como o pai, bastante assentado. Por pura obsequiosidade, ninguém ousa puxar o profeta pela barba e perguntar de uma vez por todas o que diria a um paciente com a tendência de analisar o analista em vez de a si mesmo. Certamente, você lhe perguntaria: "Quem é o neurótico aqui?"

Como vê, meu caro professor, enquanto larçar mão desse material, pouco estou ligando para minhas ações sintomáticas; elas se reduzem a nada comparadas ao brilho no olho do meu irmão Freud. Não sou nem de longe neurótico—bato na madeira! Submeti
lege artis et tout humblement à análise e estou muito melhor por isso. Você sabe, claro, até onde chega um paciente com a auto-análise; não sai de sua neurose—exatamente como você. Se algum dia se livrar inteiramente de seus complexos e deixar de representar o pai para seus filhos, e em vez de apontar o tempo todo para os pontos fracos deles, der uma boa olhada em si mesmo para variar, aí eu me corrigirei e ao mesmo tempo perderei o habito de vê-lo com ambivalência. Ama os neuróticos o bastante para identificar-se sempre com eles ? Mas talvez você odeie os neuróticos. Nesse caso, como pode esperar que seus esforços para tratar seus pacientes com tolerância e amor não sejam acompanhados de um sentimento mais ou menos contraditório? Adler e Stekel foram tapeados por seus truquezinhos e reagiram com insolência infantil. Continuarei ficando perto de você! publicamente e mantendo ao mesmo tempo minhas próprias opiniões, mas em particular passarei a dizer-lhe em minhas cartas o que realmente penso sobre você`. Considero essa maneira de agir simplesmente decente.

Sem dúvida, você ficará revoltado com este peculiar sinal de amizade, mas talvez lhe faça igualmente bem.

O tom de Jung transmite a impressão de continuada subserviência psicológica ao homem a quem ataca; seus modos são muito mais cínicos e rebeldes que calmos e seguros. Mas as críticas que então dirigia contra seu mestre continham uma parte desconfortavelmente grande de verdade. Freud ficou sobretudo ferido pela sugestão de Jung de que sua auto-análise fora ineficaz. Sua reação imediata foi buscar confirmação de seguidores mais dóceis. A 26 de dezembro, escreveu uma carta a Ernest Jones em que descreve Jung como "louco" e "fora de si". No mesmo dia, Ferenczi, que já sabia do ataque de Jung, e que até esse momento continuava completamente sob o fascínio de Freud, escreveu-lhe dizendo que ele era o único psicanalista que não precisava de análise alguma, e assegurando-lhe, com bajulação, que "você estava certo em tudo". No início de janeiro de 1913, Freud respondeu à carta de Jung, sugerindo-lhe que ao berrar daquele jeito sua normalidade "enquanto se comportava anormalmente", ele dava motivos para a suspeita de que lhe faltava uma compreensão interna de sua "doença". Em seguida, sugere que as relações pessoais entre eles deviam encerrar-se. Na verdade, Freud confirmava assim a análise de seus próprios métodos de liderança feita por Jung; pela ousadia de questionar a autoridade de Freud, Jung, de fato, foi rechaçado como doente mental O diagnóstico foi depois confirmado por Jones, que manifestou o sentimento de que Jung "não reage como um homem normal e está mentalmente desequilibrado em grave medida".

Só o rompimento da amizade, contudo, não trazia uma solução para o problema de Freud. Por ter cuidadosamente preparado Jung para ser seu príncipe herdeiro, e dando-lhe uma posição de poder no movimento psicanalítico, Freud viu-se diante da perspectiva bastante concreta de que talvez mais uma vez tivesse de apoderar-se do trono. A tarefa agora era reconquistar de Jung a presidência da Associação Psicanalítica Internacional, e tomar-lhe a editora do principal jornal psicanalítico, oJahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen. Seguiu-se uma campanha organizada de comum acordo contra Jung que um comentarista, François Roustang, caracterizou como "um complô de assassinato" destinado a eliminar um "traidor". Como Jung ainda podia contar com os votos do contingente de Zurique, não havia perspectiva alguma de destituí-lo da presidência no Congresso de Munique, realizado em 1913. Mas Karl Abraham sugeriu que os defensores de Freud deviam impor às suas sociedades uma manifestação de desaprovação a Jung através da abstenção em massa. Em conseqüência dessa pressão, 22 dos 52 participantes se abstiveram. Ao mesmo tempo, todos os membros do círculo interno de Freud distribuíram trabalhos contendo críticas a Jung.'

O primeiro fruto dessa campanha chegou em outubro de 1913, quando Jung renunciou à editoria do Jahrbuch . Mas continuou no cargo de presidente da Associação Psicanalítica Internacional. Freud, Ferenczi e Rank concluíram que deviam desligar-se da Associação Psicanalítica Internacional e formar um novo grupo, mas esse plano foi abandonado quando Jones sugeriu que eles seriam encarados como os forasteiros pelos seguidores de Jung nos Estados Unidos. Freud então decidiu que se podia garantir o futuro com um ataque polêmico a Jung, apresentado sob o título "Sobre a Historia do Movimento Psicanalítico". Trabalhando furiosamente nesse projeto, referia-se a ele como sua "bomba". Ao mesmo tempo, Abraham elaborava uma crítica da obra de Jung que Freud elogiou como uma afiada adaga: "excelente, de aço frio, clara, limpa e penetrante". O clima de ódio quase assassino com que agora Jung era perseguido foi bem captado por Freud numa carta a Abraham, em março de 1914. "Anexo a carta de Jones", ele escreveu. "É bastante admirável como cada um de nós sucessivamente está possuído pelo impulso de matar, de tal modo que os outros tem de contê-lo. Desconfio de que o próprio Jones vai apresentar o próximo plano."

Em 20 de abril, Jung, sem a menor dúvida, sabedor da hostilidade para com ele, talvez já estivesse informado da iminente publicação de Freud da polêmica renúncia à presidência de seu ex-herdeiro. Por enquanto, Jung continuava membro da Associação. Mas em julho de 1914, cerca de três semanas depois que a "bomba" de Freud foi afinal detonada, Jung renunciou à filiação. Alguns dias depois, todo o grupo de Zurique votou seguindo seu exemplo. Numa carta a Abraham, Freud, como lhe era característico, aproveitou a oportunidade para usar a traição de Jung, e o ódio que despertara, como um meio de jogar com os sentimentos dos discípulos que permaneceram:

Então estamos finalmente livres deles, o brutal e hipócrita Jung e seus discípulos. Tenho de agradecer-lhe pela imensidão dos aborrecimentos, a excepcional clarividência com que me apoiou e à nossa causa comum. Durante toda minha vida estive à procura de amigos que não me explorassem e depois me traíssem, e agora, não distante do fim natural dela, espero tê-los encontrado.

A história da saída de Jung do movimento psicanalítico foi contada muitas vezes, em geral do ponto de vista de um dos dois principais protagonistas. Para alguns seguidores de Freud, Jung continua sendo a encarnação da perfídia psicanalítica. No auge desse conflito, a aversão intelectual de Freud pelas opiniões do ex-filho amado transformou-se numa coisa semelhante à repulsa física, e Jung e seus seguidores foram perseguidos com uma atitude que quase lembra a mostrada por Stalin com Trotski. Grande parte do ressentimento sobrevivia muito tempo depois. Em 1975, Paul Roazen observou com muita acuidade que, de todas as acusações possíveis, a de "jungiano" continua sendo a mais devastadora entre os descendentes intelectuais de Freud. "Toda subcultura tem seus vilões", ele escreveu, "e Jung é sobretudo uma figura odiosa, em parte por Freud ter depositado nele esperanças tão elevadas."

Quando os freudianos o retratam à luz de maior antipatia, Jung emerge como uma espécie de figura invertida de Judas, que primeiro busca promover toda a missão científica do mestre, mas depois o trai e sucumbe à religião e ao misticismo. Enquanto Freud é retratado como um realista obstinado, que enfrenta com destemor os aspectos mais inaceitáveis da psique humana, não recuando diante da violência nem da sexualidade, Jung é descartado como um sábio desnorteado que, rejeitando as duras disciplinas do racionalismo , passou a vida tentando construir uma forma pessoal de misticismo psicoterapêutico, cuja finalidade confessa era substituir as crenças religiosas que perdera na infância. Acusam-no, como disse Victor White, "de abandonar a bata do médico pelo guarda-pó do professor, e o guarda-pó do professor pela sobrepeliz do clérigo, quando não as vestes do mago, do profeta, do mistagogo".

Se Jung e visto por seus adversários como destrutivamente regressivo, a psicanálise é às vezes julgada pelos de convicção jungiana como um meio de reduzir a riqueza e complexidade da alma humana à mera animalidade ou mecanicismo. A determinação de Freud em rejeitara religião não apenas como superstição, mas como neurose, é vista como sintomática da soberba do materialismo . A psicanálise, nessa visão, começa com a intenção de reduzir a instintos básicos as partes do comportamento humano que afirma compreender, e a descartar como irrelevante as necessidades espirituais e religiosas que não compreende.

Essas duas caricaturas contém um elemento de verdade. Pois está fora de questão que havia significavas diferenças entre as idéias dos dois homens. Enquanto Freud receava o tempo todo o Inconsciente, vendo-o como um resíduo da infância que devia ser reprimido e sublimado, Jung via nos elementos não racionais da experiência humana uma fonte de fertilidade obscura e de cura em potencial. Ele se recusou a seguir Freud na rejeição do ritual e do misticismo como neurose, e nem sempre partilhou do interesse terapêutico do mestre pelo passado. Enquanto Freud se interessava pela bolota—pelas supostas origens infantis de uma neurose—Jung passou a interessar-se cada vez mais pelo carvalho. Numa medida muito maior que a de Freud, começou a concentrar-se nos conflitos presentes e no futuro—na "tarefa da vida" que ainda restava concretizar-se.

As diferenças entre as posições freudiana e jungiana são verdadeiras. Mas os partidários dos dois lados que dão enorme ênfase a essas diferenças, mais que revelar, acabam obscurecendo. Pois essas diferenças acabam sendo importantes quando vistas na perspectiva das semelhanças por trás delas. Sem dúvida, não foi uma diferença fundamental de temperamento que uniu Freud e Jung, para começar, e que os levou a se dedicar a uma correspondência em que se escreveram, dia sim, dia não, ao longo de um período de sete anos. No próprio cerne da relação, reside um profundo sentimento de afinidade mútua, em que os dois tratavam um ao outro como uma espécie de alter ego intelectual. Em alguns aspectos, esse sentimento apaixonado de identificação mútua se baseava, como no caso dos affairs amorosos mais convencionais, numa ilusão. Mas uma ilusão tão poderosa precisava de alguns alicerces sólidos, e é claro que havia profundas semelhanças psicológicas entre os dois. Mas, de longe, a mais importante dessas semelhanças era a maneira como ambos, em conseqüência da influência paterna e da experiência infantil, haviam desenvolvido uma personalidade altamente messiânica. Nos dois casos, ademais, um temperamento de essência muitíssimo religiosa foi separado da tradição religiosa da qual evoluiu e em vez disso foi projetado num ambiente intelectual de positivismo racionalista, ostensivamente hostil a todas as formas de crença religiosa.

Encalhados nas praias do mar da fé em rápida vazante, Freud e Jung viram-se, como uma hoste de seus contemporâneos—de Edward Carpenter e D. H. Lawrence a Karl Marx e Vladimir Ilich Lenin—sob uma profunda compulsão psicológica a mergulhar mais uma vez na crença. Embora Carpenter e Lawrence houvessem buscado construir credos pessoais por meio de uma crítica ferrenha e às vezes extremamente radical à ciência moderna, as visões que vieram a ser desenvolvidas por Freud e Jung eram apresentadas como parte do progresso da ciência, e nesse sentido tinham alguma coisa em comum com o socialismo científico de Marx e Lenin.

Nem Freud em seu apogeu profético nem Jung em sua fase mais mística abandonaram a crença em que eram essencialmente cientistas, e que trabalhavam na mesma tradição intelectual originada pelas inovações modernas da física, química e biologia. Foi por causa da determinação dos dois de lançar uma visão em essência religiosa nos moldes da ciência moderna que foram obrigados a relaxar os padrões científicos de rigor, prova e consistência a um grau quase sem precedentes na história intelectual ocidental. Já vimos como a profunda necessidade de revelação de Freud, e sua relação com um homem que considerava tão visionário quanto profético, o levaram a abrasar, não-crítico, o ensaio de astrologia numerológica de Fliess. Deve-se sugerir que pressões muito semelhantes levaram Jung a pôr de lado sua reação cética inicial a A interpretação dos sonhos e abraçar a causa da psicanálise com um fervor que mais tarde o constrangeu profundamente. Em muitos aspectos, na verdade, a correspondência entre Jung e Freud, e o próprio rumo da relação dos dois, recapitulam as primeiras paixões e dependências de Freud.

Os leitores que desconhecem a biografia intelectual de Freud bem poderiam surpreender-se com a leitura do seguinte trecho numa carta que lhe foi enviada, a 12 de junho de 1911, pelo homem que foi seu mais íntimo colaborador, e aos cuidados do qual ele confiou o destino de todo seu movimento:

A maior parte das minhas noites é absorvida pela astrologia. Fiz cálculos de horóscopo em busca de uma pista do âmago da verdade psicológica. Revelaram-se algumas coisas extraordinárias que, sem dúvida, vão lhe parecer inverossímeis. No caso de uma senhora, o cálculo da posição dos astros no seu nascimento originou um quadro bastante definitivo, com vários detalhes biográficos não pertinentes a ela, mas à sua mãe—e as características se encaixam na mãe de ponta a ponta. A senhora sofre de um extraordinário complexo materno. Atrevo-me a dizer que um dia descobriremos na astrologia um enorme conhecimento intuitivamente projetados nos céus. Por exemplo, parece que os símbolos do zodíaco são imagens da personalidade, em outras palavras, símbolos da libido que reproduzem as qualidades da libido, num determinado momento...

Os mesmos leitores talvez se surpreendam ainda mais com a maneira como Freud recebeu a carta de Jung. Pois embora tenha a princípio reagido com ceticismo ao interesse do discípulo suíço pelo ocultismo, passou a encarar esse aspecto do trabalho de seu colaborador com quase exatamente a mesma credulidade que antes conferia às idéias de Fliess. "Em questões de ocultismo", ele responde, "tornei-me humilde desde a grande lição que me deram as experiências de Ferenczi. Prometo crer em qualquer coisa a que se possa fazer parecer racional". As palavras de Freud, "Prometo crer em qualquer coisa a que se possa fazer parecer racional", bem poderiam ser usadas para resumir o ethos intelectual da própria psicanálise. Pois sua conquista mais duradoura foi, como já se argumentou, tomar uma visão do mundo fundamentalmente supersticiosa e irracional, derivada diretamente da tradição judaico-cristã, e apresentá-la no vocabulário da ciência moderna. Em conseqüência da extraordinária capacidade com que fez isso, a psicanálise continuou a oferecer aos intelectuais o que também deu ao seu fundador—um meio de usar a ciência (ou melhor, a retórica da ciência) para fortalecer as tradicionais doutrinas religiosas contra o ceticismo da ciência.

O próprio Jung sentiu-se muitíssimo atraído apenas por esse aspecto do pensamento de Freud. Seria errado sugerir, contudo, que isso foi simplesmente uma fase passageira em seu desenvolvimento. Pois, assim como Freud quando veio a romper com Fliess transferiu sua credulidade para suas próprias teorias, Jung, quando se afastou da companhia de Freud, empregou um estilo científico muito semelhante ao que admirara em seu mentor para construir seu sistema visionário. As extraordinariamente complexas teorias jungianas, de animus e anima, de arquétipo e associação, foram elaboradas com tanto élan e aventureirismo quanto os antes mostrados por Freud, com o mesmo pouco caso pelos critérios científicos comuns de prova, argumento e consistência. Do mesmo modo que Freud, com sua teoria do inconsciente, criou um banco de provas pseudo-empíricas em que podia sacar à vontade para "provar" quase toda invenção teórica que se queria apresentar, Jung, também, pegando e modificando esse mesmo conceito, fornecia "provas" para qualquer preceito formulado em nome da "psicologia analítica".

Portanto, tanto a psicanálise como a psicologia analítica funcionavam como meios de restituir aos seus fundadores, e aos seguidores dos fundadores, os elementos de uma fé religiosa que haviam perdido. Apesar de todas as semelhanças, contudo, há um aspecto crucial—maior e acima dos já mencionados—em que o sistema psicológico de Jung difere do de Freud. Pois enquanto este desenvolveu a psicanálise em apaixonada oposição a todos os modos de pensamento supersticioso, e acreditava com sinceridade que os seres humanos mais "valiosos" tinham, como de, evoluído para um estágio de racionalidade em que não precisavam dos modos de pensamento religioso, Jung adotou uma visão diferente. Em vez de rejeitar a religião como parte do problema, viu-a como uma solução em potencial e uma fonte de cura. "Durante os últimos trinta anos", ele escreveu em 1932,

pessoas de todos os países civilizados da terra me consultaram. (...) Entre meus pacientes na segunda metade da vida—isto é, ao longo de 35 anos—não houve um único cujo problema em último caso que não fosse encontrar uma perspectiva religiosa na vida. É seguro dizer que cada um deles se sentia doente porque perdera o que as religiões de todos os tempos deram aos seus seguidores, e nenhum deles realmente curado deixou de recuperar essa perspectiva religiosa.

As afirmações que Jung fez sobre esse tipo de terapia de base religiosa são tão discutíveis quanto as afirmações feitas sobre a eficácia da terapia psicanalítica. Mas suas palavras sugerem claramente uma intuição muito maior de sua identidade religiosa do que revelada por Freud a algum dia. A compreensão de Jung de sua relação com a tradição religiosa é muitas vezes expressa em outras partes de seus textos, e ele é sobretudo interessante quando salienta a penetrante influência do cristianismo na cultura intelectual ocidental:

Sempre pensamos que o cristianismo consiste numa determinada confissão de fé, e pertencente a uma igreja. Não, o cristianismo é o nosso mundo. Tudo o que pensamos é fruto da Idade Media, e na verdade da Idade Media cristã. Toda nossa ciência, tudo que passa pela nossa cabeça, passou por essa história. Vive em nós, deixou-nos sua marca em todos os tempos, e sempre formara uma camada vital de nossa psique, assim como os traços filogenéticos em nosso corpo. Todo o caráter de nossa mentalidade , o modo como vemos as coisas, também e resultante da Idade Media cristã; se sabemos ou não disso não tem a menor importância. A era do Iluminismo racional nada erradicou. Mesmo nosso método de Iluminismo racional é cristão. A Weltanschauung é portanto um fato psicológico que não nos permite qualquer racionalização é uma coisa que aconteceu, que está presente. Somos inevitavelmente carimbados como cristãos, mas também o somos pelo que existia antes do cristianismo.

Tão próximas parecem ser as suposições que informam a crítica à psicanálise que aqui apresentei nos capítulos anteriores, que bem se poderia considerar idênticos os dois pontos de vista. Um dos motivos de não ser isso o que ocorre, assim, é o fato de Jung, na maioria das vezes, basear sua análise no mesmo tipo de argumento filogenético e psicolamarckismo que encontramos na obra de Freud. Ele supõe, em outras palavras, que as atitudes culturais adquiridas podem ser transmitidas por herança, e que esse mecanismo filogenético é o principal agente da continuidade cultural por ele apontada.

Sob esse argumento de bases biológicas insustentáveis, contudo, parece claro que Jung possui uma verdadeira compreensão interna de sua identidade religiosa, e da natureza religiosa das necessidades que procura encontrar através de suas pesquisas psicológicas. E talvez seja ele mesmo quem, numa serie de reflexões sobre o problema da realização pessoal, capta com mais clareza os motivos por que Freud o atacou com tanta exasperação, e um clima de tanto ódio e animosidade:

A relutância a ver nossos próprios defeitos e nossa projeção deles em outros é a origem da maioria das discórdias, e a garantia fortíssima de que a injustiça, a animosidade e a perseguição não desaparecem facilmente.

0 ódio do homem concentra-se sempre naquilo que o torna consciente de suas más qualidades.

Quando nos deixamos irritar a ponto de perder as estribeiras por alguma coisa, não devemos supor que a causa de nossa irritação está simples e unicamente fora de nós, na coisa ou na pessoa irritante. Desse modo simplesmente as endossamos com o poder de nos deixar irritados. (...) Em seguida nos viramos e sem hesitação condenamos o objeto da ofensa, ao mesmo tempo em que nos enfurecemos contra uma parte inconsciente de nós mesmos, projetada no objeto exasperador.

Um homem inconsciente do que faz age de maneira cega, instintiva, e além disso levado por todas as ilusões que isso suscita quando vê tudo aquilo de que não tem consciência em si mesmo vindo-lhe de fora, como projeções no próximo.

As projeções mudam o mundo e o transformam na réplica da face desconhecida da pessoa.

Enquanto Jung demonstrou sua religiosidade na adoração a Freud como um deus, o mestre julgou que sua atitude personificava a mais pura forma de racionalidade científica. Mas assim que Jung passou a mostrar interesse independente por outros sistemas religiosos, e a admitir em público sua natureza profundamente religiosa, a atitude de Freud mudou de maneira drástica. No espelho das idéias de Jung, viu de relance, quase pela primeira vez, o misticismo, a religiosidade de seu sistema de salvação do mundo. Incapaz de confrontar, ou mesmo reconhecer, a sua própria face desconhecida, voltou-se contra Jung, como se voltara contra Fliess, com ódio e desprezo. Na verdade, foi logo depois de Jung ter-lhe escrito a carta fatídica de dezembro de 1912 que Freud começou a falar da necessidade de "fazer uma divisão radical entre nós e toda a religiosidade ariana". Daí em diante, sua queixa constante contra Jung era que ele pregava "uma nova mensagem de salvação", e criara "um novo sistema ético-religioso" com base mais na "especulação" que na "observação," cientifica.1

Na raiz, do conflito entre Freud e Jung podemos, portanto, discernir a fuga de Freud de sua própria religiosidade. Quanto mais ele negava a realidade de sua personalidade religiosa, e tentava apresentar seu sistema teológico-simbó1ico como uma formulação puramente científica, mais revoltado se sentia ao ver o mais destacado dos discípulos exibindo a própria religiosidade que ele reprimia. Por fim, como sugere sua referência à religiosidade ariana, voltou contra Jung o reflexo do anti semitismo que Jung sem dúvida lhe demonstrara, e afastou-se dele com uma aversão quase física.




1 Só depois que este livro foi para o prelo é que pude consultar o fascinante novo estudo de Richard Noll sobre a identidade religiosa de Jung, The Jung Cult: Origens of a Charismatic Movement Princeton University Press, 1994. A obra de Noll contém uma profusão de provas diretamente relevantes para o argumento que formulei neste capítulo.

Obs.: As outras notas que fazem parte deste texto, não foram reproduzidas.

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