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INSTITUIÇÕES E INVERSÕES
Jonathan Culler
| Este texto faz parte do livro Sobre a Desconstrução, de Jonathan Culler. A Rubedo agradece a Editora Record e a Editora Rosa dos Ventos por terem autorizado sua reprodução em nossas páginas. Conheça outros livros da Editora Record visitando a Revista de Literatura. |
Em "The Conflict of Faculties", Derrida escreve:
"O que é, um tanto precipitadamente, chamado de desconstrução não é, se é que isso tem qualquer conseqüência, um conjunto especializado de procedimentos discursivos, muito menos as regras de um novo método hermenêutico, que trabalha com textos ou enunciados no abrigo de uma dada e estável instituição. É também, no mínimo, um modo de tomar posição, em seus trabalhos de análise, no que diz respeito às estruturas políticas e institucionais que possibilitam e governam nossas práticas, nossas competências, nossas realizações. Precisamente porque nunca concerniu apenas ao conteúdo significado, a desconstrução não deveria ser separável dessa problemática político-institucional e deveria buscar uma nova investigação de responsabilidade, uma investigação que questionasse os métodos herdados da ética e da política. Isso significa que, política demais para alguns, ela parecerá paralisante para aqueles que só reconhecem políticas pelos mais conhecidos sinais de estrada. A desconstrução não é nem uma reforma metodológica que deveria tranqüilizar a organização que tem lugar, nem um floreado irresponsável e um desconstruir irresponsável, cujo efeito mais certo seria deixar tudo como está e consolidar as mais imóveis forças dentro da universidade."
A afirmação é que, uma vez que a desconstrução nunca se preocupa apenas com o conteúdo significado, mas especialmente com as condições e hipóteses do discurso, com os enquadramentos de indagação, ela compromete as estruturas institucionais que governam nossas práticas, competências e realizações. O questionamentos dessas estruturas, sejam quais forem as conseqüências - e elas não têm se provado fáceis de calcular -, pode ser visto como uma politização do que de outra forma poderia ser pensado como um enquadramento neutro. Questões de força e estrutura institucional provam estar envolvidas nos problemas aos quais a desconstrução se dirige. "The Conflict of Faculties", de Kant, que Derrida analisa no ensaio que tem esse nome, discute a relação entre faculdade de filosofia e as outras faculdades da universidade (direito, medicina e tecnologia) e o poder do Estado. A tentativa de Kant de definir a esfera de operações da faculdade de filosofia e as limitações que os direitos e poderes das outras poderiam impor prova incitar uma distinção entre a linguagem constativa e a performativa: a primeira, num âmbito com o qual a filosofia pode ficar à vontade; a última, reservada ao Estado e seus agentes da universidade. E os problemas que surgem, quando uma teoria dos atos da fala tenta definir e sustentar essa oposição, são precisamente as questões que animam as batalhas institucionais da universidade de Kant e, de forma diferente, a nossa. "Il n' y a pás de hors texte" no que as realidades com que a política se preocupa, e as formas como são manipuladas são inseparáveis das estruturas discursivas e dos sistemas de significação, ou o que Derrida chama de "o texto geral". Dependentes das nossas oposições hierárquicas de nossa tradição, elas são passíveis de serem afetadas por inversões e deslocamentos dessas hierarquias, embora tais efeitos possam se dar vagarosamente.
O envolvimento mais público de Derrida com as instituições e a política foi seu trabalho com o Groupe de Rechersches sur l'Enseignement Philosophique (GREPG), que empreendeu uma ampla batalha contra reformas educacionais que reduziriam o papel da filosofia nas escolas francesas e orientariam a educação para as supostas exigências tecnológicas do futuro mercado de trabalho. A defesa da filosofia pelo GREPH inclui uma crítica à concepção de filosofia promovida por várias instituições; uma análise filosófica do envolvimento da filosofia com interesses e forças considerados marginais a uma investigação puramente filosófica expande a noção de filosofia como discurso crítico explicitamente preocupado com as políticas do conhecimento, da representação, do aprendizado e da comunicação. Contestando as oposições hierárquicas dentro das quais a filosofia e seu papel foram concebidos, o GREPH tenta alterar o território e interesses dessa batalha. Como Christopher Fynsk escreve em uma crítica de Qui a peur de la philosophie? , do GREPH, a questão não é apenas a situação de uma disciplina chamada "filosofia", mas "uma batalha entre forças mais ou menos determinadas funcionando como filosofias, tanto dentro quanto fora da instituição" ("A Decelebration of Philosophy", p. 81).
A combinação entre a sofisticada reflexão sobre a natureza da filosofia e a batalha por objetivos políticos específicos não é, de maneira alguma, fácil de manter, como a heterogeneidade das contribuições para Qui a peur de la philosophie? Sugere. Em uma entrevista, "Entre crochets", Derrida enfatiza o supremo interesse desse projeto "primeiro, porque ele é sempre difícil, porque não sei como levá-lo adiante: não há nenhum projeto já construído; ele deve ser estabelecido ou identificado para cada ato; ele sempre pode falhar; em cada caso, em certa extensão, ele falha mesmo". Mas o que me interessa mais, continua ele, é tentar reduzir uma certa lacuna ou atraso:
"por exemplo, entre esse trabalho sobre ou contra a instituição (para dizer de modo simples) e, pelo outro lada, o que percebo (para simplificar novamente) como a mais avançada versão da desconstrução filosófica ou teórica... Nós devemos levar em conta certas lacunas e tentar reduzi-las, mesmo que, por razões essenciais, seja impossível eliminá-las: lacunas, por exemplo, entre os discursos ou práticas dessa desconstrução imediatamente política e uma desconstrução de aspecto teórico ou filosófico. Essas lacunas são com freqüência tão grandes que escondem as conexões [lês relais] ou as tornam irreconhecíveis para muitos" [p. 113].
Muitos teóricos têm um forte desejo de eliminar essas lacunas. Em Marxism and Desconstruction, por exemplo, Michael Ryan esboça, com notável verve polêmica, os modos pelos quais a desconstrução poderia ser subordinada diretamente a fins políticos. Tais projetos arriscam bathos - alguém precisa de Derrida para desvendar as contradições da retórica da direita política? - e, mais importante, tomam como certas numerosas questões sobre o que é verdadeiramente progressivo e o que não é. Não existe nenhum programa já estabelecido, diz Derrida, porque as tentativas de reverter, e assim deslocar, importantes oposições hierárquicas do pensamento ocidental abrem possibilidades de mudança que são incalculáveis. O que parece, em um estágio, os mais abstratos ou recônditos problemas pode ter conseqüências mais perturbadoras do que debates políticos imediatos e intensos, e esse potencial radical pode depender de uma vontade de adotar investigações teóricas não controladas pela necessidade de predizer benefícios políticos. Se, como argumenta Derrida em Gramatologia, o futuro que a desconstrução vislumbra - um futuro que rompe com a normalidade constituída - "só pode ser proclamado ou apresentado como um tipo de monstruosidade" (pp. 14/15), então as buscas teóricas deveria talvez, ser permitido aumentar o monstruoso ou o grotesco, e não estarem sujeitas a uma tecnologia de ganhos políticos na esperança de eliminar a "lacuna"que Derrida descreve. Para que a persistência necessária daquela lacuna não desculpe uma complacência institucional conservadora, deve-se, escreve Derrida, continuar "batalhando como sempre em duas frentes,em dois estágios e em dois registros"- a crítica das instituições correntes e a desconstrução de instituições filosóficas - enquanto, no entanto, se contesta a distinção entre as duas ("Où commence et comment finit um corps enseignant", p. 67).
As análises desconstrutivas, é o que se afirma, têm implicações institucionais potencialmente radicais, mas essas implicações, freqüentemente distantes e incalculáveis, não substituem a ação crítica e política imediatas, com a qual podem parecer apenas indiretamente relacionadas. Seu radical potencial pode basear-se nos surpreendentes recursos que revelam em uma excessiva, incalculável busca teórica. Se a força da teoria depende das possibilidades da institucionalização - torna-se politicamente eficaz na medida em que pode informar as práticas pelas quais constituímos, administramos e transmitimos um mundo - , seus aspectos mais radicais são ameaçados pela institucionalização e emergem precisamente em uma reflexão teórica, que contesta institucionalizações particulares de um discurso teórico. Isso é o que se encontra, por exemplo, no caso da teoria freudiana: seu poder está ligado a capacidade de suas reversões hierárquicas de transformar o pensamento e e o comportamento, mas as instituições da psicanálise têm sido bastante conservadoras, e a força radical da teoria freudiana está ligada não à essas instituições, mas aos recursos que elas fornecem para uma crítica teórica contínua - uma crítica de instituições e hipóteses, incluindo aquelas da prática psicanalítica.
Com efeito, a teoria freudiana é um excelente exemplo do modo como uma investigação aparentemente especializada ou perversa pode transformar um domínio inteiro, por inverter e deslocar as oposições que fizerem seus interesses marginais.Uma das empreitadas mais produtivas dos anos 70 foi o estudo dos escritos de Freud - de uma perspectiva desconstrutiva - como teorias e exemplos de textualidade. Detalhando a notável desconstrução e força autodesconstrutiva de seus textos, essas leituras deram-nos uma visão diferente da teoria freudiana.
Um modo de compreender as conquistas de Freud é nos termos que estivemos explorando neste capítulo. Freud começa com uma série de oposições hierárquicas: normal/patológico, sanidade/insanidade, real/imaginário, experiência/sonho, consciente/inconsciente, vida/morte. Em cada caso o primeiro termo foi concebido como prioritário, uma plenitude da qual o segundo é uma negação ou complicação. Situado à margem do primeiro termo, o segundo termo designa um desvio indesejável e dispensável. As investigações de Freud desconstroem essas oposições, identificando o que está em jogo em nosso desejo de reprimir o segundo termo e mostrando que, de fato, cada primeiro termo pode ser visto como um caso especial dos fundamentos designados pelo segundo termo, que nesse processo é transformado. O entendimento do termo marginal ou desviante torna-se uma condição para o entendimento do termo supostamente prioritário. As operações mais gerais da psique são descobertas, por exemplo, através da investigação de casos patológicos. A lógica dos sonhos e das fantasias prova-se central para se dar conta das forças que trabalham em todas as experiências. A investigação das neuroses é a chave para a descrição da adaptação sã; tornou-se um certo lugar comum que a "sanidade" é apenas uma determinação particular da neurose, uma neurose que está de acordo com certas exigências sociais. Ou, mais uma vez, no lugar de tratar a sexualidade como um aspecto altamente especializado da experiência humana, uma força em ação nas vidas das pessoas em certos momentos, Freud mostra sua infiltração, fazendo de uma teoria da sexualidade uma precondição para entender o que poderia ser eminentemente não-sexual, tal como o comportamento das crianças. O não-sexual torna-se uma versão particular do que Freud chama de "sexualidade alargada"(Three Essays on The Theory of Sexuality, vol. 7, p. 134). Essas reversões desconstrutivas, que dão lugar privilegiado ao que fora considerado marginal, são responsáveis por muito do impacto revolucionário da teoria freudiana. Tornar aquele singular monstro, Édipo, no modelo do amadurecimento normal, ou estudar a sexualidade normal como perversão - uma perversão instintiva - é um procedimento que até hoje não perdeu sua força de escândalo.
O exemplo mais geral da desconstrução de Freud é, certamente, o deslocamento das oposições hierárquicas entre o consciente e o inconsciente. Freud escreve:
"É essencial abandonar a supervalorização da propriedade de ser consciente, antes que seja possível formar qualquer visão correta da origem do que é mental... o inconsciente é esfera maior, que inclui dentro de si a esfera menor do consciente. Tudo o que é consciente tem um estágio inconsciente preliminar, enquanto que o que é inconsciente pode permanecer naquele estágio e, ainda assim, exigir ser visto como tendo valor pleno de um processo psíquico. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica"(The Interpretation of Dreams, vol. 5, pp. 612-13).
Para uma tradição humanista poderosa, da qual Descartes é apenas o mais óbvio representante, o ser humano foi definido em termos de consciência: o "eu"é aquilo que pensa, percebe e sente. Ao revelar e descrever a força determinante de fatores e estruturas inconscientes na vida humana, Freud inverte a hierarquia tradicional e faz da consciência um caso particular, derivado dos processos inconscientes.
Mas há dois modos de pensar sobre essa operação freudiana. No primeiro, freqüentemente preferido quando se discute a cura psiquiátrica, temos uma inversão que enfatiza a força superior do inconsciente, mas ainda o define em termos de consciência, como consciência reprimida ou diferida. As experiências são reprimidas, relegadas ao inconsciente, onde exercem determinada influência. Durante a psicanálise, sua presença oculta é revelada; elas são trazidas de volta à consciência e, como postulava a tradição humanista, os analisandos livram-se do controle dessas idéias anteriormente reprimidas, por meio dessa nova autoconsciência, em que o self se torna maximamente presente a si mesmo. Nesse modo de pensar, a inversão freudiana privilegia o inconsciente,mas o faz apenas tornando-o uma realidade oculta, que pode, em princípio, ser revelada, reapropriada na e por uma consciência superior.
As formulações de Freud são freqüentemente abertas a essa interpretação, mas ele também insiste em uma distinção entre o inconsciente psicanalítico e o que ele chama de "pré-consciente", cujas memórias e experiências não são conscientes em um dado momento, mas podem, em princípio, ser recuperadas pela consciência. O inconsciente, por outro lado, é inacessível à consciência. Além disso, particularmente nos trabalhos que elaboram teorias de repressão primária, fantasias primárias e Nachträglichkeit, ou ação diferida, Freud enfatiza que o inconsciente não é de modo algum simplesmente uma camada de experiências reais que foram reprimidas, uma presença oculta. Ele é constituído pela repressão e é, também, o agente ativo da repressão. Como différance, que designa a impossível origem da diferença no diferimento na diferença, o inconsciente é uma origem não-originária, que Freud chama de repressão primária (urverdrängung), em que o inconsciente tanto inicia a primeira repressão quanto é constituído pela repressão. Se a descoberta do inconsciente é uma demonstração de que nada no ser humano é jamais simples, de que já pensamentos e desejos são duplos e divididos, revela-se que o inconsciente em si não é uma realidade oculta, mas sempre, nas especulações de Freud, um produto complexo e diferencial. Como Derrida escreve:
"o inconsciente não é, como sabemos, uma presença em si mesmo oculta, virtual e potencial. Ele diferencia/difere de si mesmo [Il se diffère ], o que sem dúvida significa que é tecido de diferenças e também que emite ou delega representantes, mas que não há modo de um delegado 'existir' , estar presente, ser 'ele mesmo' em algum lugar, muito menos de tornar-se consciente. Nesse sentido... o 'inconsciente' não pode ser absolutamente classificado como 'coisa', assim como uma consciência virtual oculta. Essa alteridade radical com respeito a todo modo de presença possível pode ser vista nos efeitos irredutíveis da ação diferida... Na alteridade do 'inconsciente', estamos lidando não com uma série de presentes modificados - presentes que são passados ou estão ainda por vir - mas com um 'passado' que nunca esteve e nunca estará presente, e cujo futuro nunca será sua produção ou reprodução na forma de presença" [Marges, pp. 21-22/ "Differance" , p. 152].
Nachträglichkeit nomeia uma situação paradoxal, que Freud freqüentemente encontra em seus estudos de casa, na qual o evento determinante de uma neurose nunca ocorre como tal, nunca está presente como um evento, mas é construído depois pelo que só pode ser descrito como um mecanismo textual do inconsciente. No caso do Homem dos Lobos, a análise de sonhos-chaves conduz Freud à conclusão de que a criança testemunhara seus pais copulando, com idade de um ano e meio. Essa "cena primária" não teve nenhum sentido ou impacto na época; foi inscrita no inconsciente como um texto em uma linguagem desconhecida. Quando ele tinha quatro anos, no entanto, um sonho ligado a essa cena por uma corrente de associações transformou-a em um trauma, embora ela permanecesse reprimida, exceto como um sintoma deslocado: um medo de lobos. A experiência crucial, o evento determinante na vida do Homem dos Lobos, foi algo que nunca ocorreu. A cena original não era em si traumática, e pode até ter sido, admite Freud, uma cena de animais copulando, transformada por ação diferida em uma cena primitiva. Não se pode localiza e tornar presente o evento ou causa porque ele não existe em lugar nenhum.
O caso de "Emma" é outra ilustração clássica do funcionamento textual e diferencial do inconsciente. Emma segue seu medo de lojas até um incidente na idade de doze anos, quando ela entrou numa loja, viu dois vendedores rindo, e fugiu apavorada. Freud o segue até uma cena aos oito anos, quando um vendedor bolinara seus genitais através das roupas. "Entre as duas cenas", escreve Jean Laplanche, "um elemento inteiramente novo apareceu - a possibilidade de uma reação sexual" (Life and Death in Psychoanalysis, p. 40). O conteúdo sexual não está na primeira cena, quando ela não estava consciente de nenhuma implicação sexual, nem na segunda cena. "Aqui", escreve Freud, "temos um caso de uma lembrança excitando um afeto que não excitava como experiência, porque nesse meio tempo as mudanças produzidas pela puberdade haviam tornado possível uma compreensão diferente do que era lembrado... a memória é reprimida, a qual só se tornou um trauma por ação diferida ("Project for a Scientific Psycology", vol. 1, p. 356).
"A irredutibilidade do 'efeito de diferimento' ", escreve Derrida, "é sem dúvida, a descoberta de Freud" (L' Ecriture et la différence, p. 303/203). "O texto inconsciente já é um tecido de traços puros, diferenças em que sentido e força estão unidos - um texto presente em lugar nenhum, consistindo em arquivos que já são sempre transcrições. Originárias impressões. Tudo começa com a reprodução. Sempre já: quer dizer, repositórios de um sentido que nunca esteve presente, cuja presença significada é sempre reconstituída por diferimento, nachträglich, adiadamente, suplermentarmente: pois nachträglich também significa suplementar"(p. 314/212). A maior confirmação da possibilidade de entender a teoria freudiana em termos de différance vem dos vários modelos diferenciais de Freud da psique, que Derrida discute em "Freud et la scène de l'écriture", particularmente o modelo do bloco de escrita mística. Para representar a paradoxal situação em que as memórias se tornam inscritas ou reproduzidas no inconsciente, sem jamais terem sido percebidas, Freud evoca um complexo aparato de escrita. Traços que nunca aparecem na superfície perceptiva são deixados sob ela, como reproduções sem originais. Em geral, enquanto enfatiza a heterogeneidade dos textos de Freud, a desconstrução encontra em seus escritos propostas ousadas, que põem em questão as hipóteses metafísicas com que ele está ostensivamente operando. Como Derrida escreve, "que o presente em geral não é primitivo, mas antes, reconstituído, que ele não é a forma de experiência plena, viva, absoluta e constitutiva, que não existe nenhuma pureza no presente vivo - este é o tema, bastante formidável para a história da metafísica, que Freud nos convida a buscar, embora em um enquadramento conceitual inadequado a isso" (p. 314/212).
Um impressionante exemplo da especulação desconstrutiva é o relato, em Beyond the Pleasure Principle, do impulso de morte ou instinto de morte. Pode parecer que, se há qualquer oposição binária clara, ela deveria ser vida versus morte: vida é o tempo positivo e morte é a negação. No entanto, Freud argumenta que o instinto de morte, o impulso fundamental de toda coisa vivente de retornar a um estado inorgânico, é a força mais poderosa da vida; o organismo "deseja apenas morrer de sua própria maneira", e sua vida é uma série de diferimentos de seu objetivo de vida (vol. 18, p. 39). O impulso de morte, como manifestado na compulsão à repetição, torna a atividade dos instintos de vida um caso especial dentro do sistema geral da repetição e do gasto. Como Laplanche o coloca, nesse "trazer de volta a morte para dentro da vida... é como se houvesse em Freud uma percepção mais ou menos obscura de uma necessidade de refutar toda interpretação vitalista, de abalar a vida em seus próprios fundamentos" (Life and Death in Psycoanalysis, p. 123). A lógica do argumento de Freud efetua uma reversão desconstrutiva impressionante, em que "o princípio do prazer parece na verdade servir aos instintos de morte"(Beyond the Pleasure Principle, vol.18, p.63).
As leituras de Freud assumiram outra oposição, que está profundamente sedimentada em nosso pensamento e cuja desconstrução pode ter conseqüências sociais e políticas mais imediatas: a oposição hierárquica entre homem e mulher. Alguns escritores afirmaram que essa é a oposição primordial em que todas as outras se baseiam e que, como Hélène Cixous o coloca, o objetivo do logocentrismo , embora ele não pudesse ser admiti-lo, sempre foi fundar o falocentrismo, para assegurar uma racionalização para uma ordem masculina ("Sorties", pp. 116-19). Seja ou não o paradigma de oposições metafísicas, homem/mulher é certamente uma distinção, cuja estrutura hierárquica é marcada de infinitos modos, desde o relato genético da Bíblia, em que a mulher é criada a partir da costela do homem como um suplemento ou "consorte"do homem, até as relações semânticas, morfológicas e etimológicas de homem e mulher no inglês.
Esse é o caso em que os efeitos de uma hierarquia imposta são claros; e as razões para desconstruir tal hierarquia, palpáveis. Podemos também ver aqui quão certo Derrida está em insistir que não é suficiente negar uma relação hierárquica. Pouco adianta simplesmente reivindicar a igualdade da escrita com a fala ou do homem com a mulher: até mesmo os republicanos de Reagan falam de igualdade. "Eu insisto forte e repetidamente", escreve Derrida, "na necessidade da fase de reversão, que as pessoas, talvez muito rapidamente, tentaram desacreditar... Negligenciar essa fase da reversão é esquecer que a estrutura da oposição é de conflito e subordinação e, assim, passar muito rapidamente, sem obter qualquer ganho contra a oposição anterior, para uma neutralização que, na prática, deixa as coisas no seu estado anterior e priva-nos de qualquer modo de intervir efetivamente"(Positions, pp. 56-7/41). Afirmações de igualdade não rompem a hierarquia. Somente se incluir uma inversão ou reversão a desconstrução tem chance de deslocar a estrutura hierárquica.
A desconstrução dessa oposição exige a investigação dos modos como vários discursos - psicanalítico, filosófico, literário, histórico - constituíram uma noção de homem, caracterizando o feminino por termos que permitem que seja deixado de lado. O analista procura localizar pontos em que esses discursos se desfazem, revelando a natureza interessada e ideológica de sua imposição hierárquica e subvertendo as bases da hierarquia que querem estabelecer. A desconstrução derridana poderia auxiliar essas investigações, uma vez que muitas das operações identificadas, por exemplo, no estudo de Derrida sobre o tratamento que se dá à escrita, também aparecem es discussões da mulher. Assim como a escrita, a mulher é tratada como um suplemento: discussões do "homem" podem sem mencionar a mulher, porque ela é automaticamente considerada incluída, como um caso especial; pronomes masculinas a excluem sem chamar a atenção para a sua exclusão; e se ela é considerada separadamente, ela ainda será definida em termos de homem, como seu outro.
Celebrações da mulher que parecem contradizer essa estrutura, mostram-se obedientes à lógica que Derrida discerniu em celebrações da escrita. Quando um texto parece exaltar a escrita, em vez de trata-la como uma técnica suplementar, o objeto da exaltação mostra-se uma escrita metafórica, distinguida da escrita ordinária e literal. No Phaedrus, por exemplo, a escrita ou inscrição da verdade na alma é distinguida da escrita "sensível", "no espaço"; na Idade Média, a escrita de Deus no Livro da Natureza, que é exaltada, está longe de ser a mesma que a escrita do homem no pergaminho (De la grammatologie, pp. 26-27/15). Similarmente, discussões da mulher que parecem promover o feminino sobre o masculina - existem, é claro, tradições de elaborado louvor - celebram a mulher como Deusa (a Ewig-Weibliche, Vênus, Musa, Mãe Terra) e evocam uma mulher metafórica, em comparação com a qual mulheres verdadeiras serão consideradas deficientes. Celebrações da mulher com alguma força ou idéia poderosa - a verdade como mulher, a liberdade como mulher, as musas como mulheres - identificam mulheres reais como marginais. A mulher pode ser um símbolo da verdade somente se lhe é negada uma efetiva relação com a verdade, somente caso se presuma que aqueles que buscam a verdade são os homens. A identificação da mulher com a poesia através da figura da musa também supõe que o poeta será homem. Enquanto parece celebrar o feminino, esse modelo nega às mulheres um papel ativo no sistema de produção literária e as exclui da tradição literária.
A investigação do lugar da mulher em vários discursos revelará a lógica em funcionamento nessas sutis e não-sutis opressões, mas em nenhum lugar são os resultados mais interessantes e sugestivos do que no discurso da psicanálise, que tem especial importância, uma vez que se tornou nosso principal teoria da sexualidade e autoridade na diferença sexual.
O que tem a psicanálise à dizer sobre a oposição hierárquica homem/mulher? Ou melhor, como é essa oposição constituída na teoria psicanalítica? Não é difícil mostrar que nos escritos de Freud o feminino é tratado como suplementar, parasitário. Definir a psique feminina em termos de inveja do pênis é um indubitável exemplo de falocentrismo: o órgão masculino é o ponto de referência; sua presença é a norma, e o feminino é um desvio, um acidente ou uma complicação negativa que sobreveio à norma positiva. Até mesmo os lacanianos que rebateriam essa acusação argumentando que o falo não é o pênis, reconfirmam essa estrutura tomando o pênis masculino como modelo para seu falo puramente simbólico. A mulher, como título de Luce Irigaray expõe, é Ce sexe qui n'em est pás um - "esse sexo que não é um" - nada mais do que uma negação do masculino. A mulher não é a criatura que tem uma vagina, mas a criatura sem pênis, que é essencialmente definida por esta falta.
Em seu relato sobre a sexualidade das crianças, Fred apresenta bastante explicitamente o feminino como derivado. "Nós somos agora obrigados a reconhecer", escreve "que aquela menininha é um homenzinho." Os meninos aprendem "como extrair sensações agradáveis de seus pequenos pênis... As menininhas fazem o mesmo com seus ainda menores clitóris. Parece que com elas todos os seus atos masturbatórios são feitos sobre esse equivalente do pênis e que a verdadeira vagina feminina permanece desconhecida por ambos os sexos" ("Femininity", vol. 22, p. 118). A feminilidade começa como uma versão atenuada da sexualidade masculina; a distinção sexual surge quando a mulher identifica a si própria como uma versão inferior do homem. Freud fala de "uma enorme descoberta que as menininhas estão destinadas a fazer. Elas notam o pênis de um irmão ou amigo, impressionantemente visível e de grandes proporções, logo o reconhecem como a contraparte superior de seu próprio órgão pequeno e imperceptível, e daí em diante caem vítimas da inveja do pênis" ("Some Psychical Consequences of the Anatomical Distinction between the Sexes", vol. 19, p. 252). A menina é dita tomar o homem como norma desde o começo. Sem dúvida, ela imediatamente se define como uma aberração: "Ela faz seu julgamento e toma sua decisão em um lampejo", Freud continua. "Ela já ouviu e sabe que ela não o tem e quer tê-lo". Desse reconhecimento, seguem-se terríveis conseqüências. "Ela admite o fato de sua castração e, com ele, a superioridade do homem e sua própria inferioridade" (Female Sexuality, vol. 21, p. 229).
Mais tarde, a descoberta da vagina certamente tem outras conseqüências, mas a vagina é algo de um extra; ela suplementa seu órgão inadequado e, no relato de Freud, não lhe dá uma sexualidade autônoma ou independente. Ao contrário, a estrutura de dependência e derivação ainda é operante. A sexualidade feminina madura, focada na vagina, é constituída pela repressão da sexualidade clitoriana, que é essencialmente masculina. A mulher é um homem inadequado cuja sexualidade é definida como a repressão de sua masculinidade inicial, e a psique feminina continua a ser caracterizada,, acima de tudo, pela inveja do pênis.
Muito pode ser, e tem sido, escrito sobre o preconceito masculino de Freud. Sua linguagem sugere onde ele se situa: ele fala da mulher "reconhecendo o fato de sua castração", de sua descoberta de que ela é castrada" e de sua imediata "admissão" do "muito superior equipamento do menino" (Feminity, vol. 22, p. 126). Em Speculum, de l'autre femme e Ce Sexe qui n'em est pás um, Luce Irigaray lança um vigoroso ataque, argumentando que esse teórico radical, cujas descobertas rompem esquemas metafísicos fundamentais, é, em suas discussões da mulher, um prisioneiro das mais tradicionais suposições filosóficas e sociais. Mas invés de rejeitar Freud, pode-se, como Sarah Kofman faz em L'Enigme de la femme: La femme dans textes de Freud, levar seus escritos a sério e ver como sua teoria que tão claramente privilegia a sexualidade masculina e define a mulher como um homem incompleto, se desconstrói. Fazer isso, não é confiar em Freud enquanto homem, mas dar-se a máxima oportunidade de aprender com a escrita de Freud, suponho que, caso seu poderoso e heterogêneo discurso esteja em determinado ponto operando com hipóteses injustificadas, essas hipóteses serão expostas e solapadas por forças internas ao texto que uma leitura pode evidenciar.
Uma primeira linha de investigação é determinar o que as teorias de Freud têm a dizer sobre a construção de teorias da sexualidade. Em"Spéculer - Sur 'Freud' ", Derrida aplica o que Freud diz sobre o jogo de seu neto ao jogo do próprio Freud com o Princípio do Prazer, mas no caso que agora nos concerne a situação é um tanto diferente, pois as teorias de Freud discutem explicitamente a formação de teorias sexuais. Curiosamente, a teoria da mulher castrada é apresentada pela primeira vez em um artigo "On the Sexual Theories of Children", como uma teoria desenvolvida pela criança macho: uma dentre três "falsas teorias que o estado de sua própria sexualidade lhe impõe" (vol. 9, p. 215). Em sua "ignorância da vagina" a criança supõe que todos têm pênis e que o órgão da menina crescerá com o tempo. "A genitália da mulher, quando vista mais tarde, é percebida como um órgão mutilado" (p. 217). Essa teoria sexual infantil torna-se mais tarde a teoria do próprio Freud e, caso seja situada dentro da organização psíquica que Freud descreve, pode-se ver, como Sarah Kofman argumenta, que o efeito de uma teoria da sexualidade incompleta da mulher é não apenas fazer da sexualidade masculina a norma pela qual tudo deve ser julgado, mas especificamente tornar possível uma certa sexualidade masculina "normal". Dada a ênfase de Freud na inexorável força do complexo de castração e no medo da castração, a mulher seria um objeto de horror e repulsa, a prova viva da possibilidade da castração, ou então, como "On Narcissism" sugere, um ser de todo superior e autônomo, completa em si mesmo, sem nada a perder ou ganhar. Ambas as possibilidades são ameaçadoras para os homens. A teoria da sexualidade feminina e da inveja do pênis é um modo de controlar a mulher: quanto mais a mulher inveja o pênis masculino, mais certo é que o pênis está intacto, que ele é deveras um "equipamento superior". A inveja que a mulher tem do pênis tranqüiliza o homem quanto à sua sexualidade e torna a mulher desejável tanto como o repositório dessa tranqüilidade quanto como objeto sexual. Freud argumenta que "o freio posto no amor pela civilização envolve uma tendência universal em depreciar os objetos sexuais" e que, portanto, a mulher, por ser um objeto de atenções sexuais, deve ser depreciada. "Tão logo a condição de depreciação é cumprida , a sensualidade pode ser livremente expressa e importantes capacidades sexuais e um alto grau de prazer podem se desenvolver" ("On the Universal Tendency to Debasement in the Sphere of Love", vol. 11, pp. 187, 183). Como Kofman explica, a operação castradora, que atribui à mulher uma sexualidade incompleta e conseqüentemente a inveja do pênis, é a "solução" que Freud propõe para restabelecer ao homem civilizado seu pleno poder sexual (L'Enigme de la femme, pp. 97-103).
Poder-se-ia argumentar, como Juliet Michell faz em seu vanguardista Psychoanalysis and Feminism, que Freud está descrevendo o que é o caso nas relações entre os sexos. "Que Freud não tenha denunciado mais enfaticamente o que analisava é uma pena... No entanto, acho que só podemos ir mais adiante com a análise. Que o relato de Freud da mulher saia pessimista não é tanto um índice de seu espírito reacionário, mas da condição da mulher" (p. 362). Mas a teoria de Freud apresenta explicitamente a inveja do pênis, o complexo de castração e outros elementos da feminilidade como necessários em vez de contingentes, não como sintomas da história da mulher, mas como inelutáveis aspectos da constituição dos seres humanos; e desse modo sua teoria trabalha para validar, como uma necessidade histórica, a depreciação das mulheres e a autoridade dos homens. Além disso, uma vez que o próprio relato de Freud mostra que a situação sexual do próprio homem lhe dá interesse em formular teorias com esse tipo de estrutura hierárquica, temos toda razão em questionar a afirmação de que o relato de Freud é uma descrição neutra.
A teoria de Freud revela-se como uma imposição masculina motivada por forças internas à organização dos impulsos sexuais e medos, mas também se desfaz de outro modo. Para tornar a sexualidade feminina derivada e dependente, uma versão atenuada da sexualidade masculina e depois uma repressão da sexualidade fálica, Freud predica à mulher bissexualidade original. Se "a menininha é um homenzinho," que tem em si tornar-se uma mulher, ela é, desde o começo, bissexual e é nesses termos que Freud coloca a questão da feminilidade: a psicanálise procura compreender "como uma mulher se desenvolve a partir de uma criança com uma disposição bissexual" (Femininity, vol. 22, p. 116). Sem essa bissexualidade originária haveria simplesmente dois sexos separados: homem e mulher. Somente postulando tal bissexualidade Freud pode tratar a sexualidade feminina como derivada e parasitária: primeiro, uma sexualidade fálica inferior, seguida da emergência da feminilidade através da repressão da sexualidade clitoriana (masculina). Mas a teoria da bissexualidade - uma das contribuições radicais da psicanálise - ocasiona uma reversão da relação hierárquica entre homem e mulher , pois se revela que a mulher, com sua combinação der modelos masculino e feminino e seus dois órgãos sexuais, um "masculino"e outro "feminino", é o modelo geral da sexualidade, e o homem é apenas uma variação particular da mulher, uma realização prolongada de seu estágio fálico. Uma vez que a mulher tem, como Freud diz, uma fase masculina e uma feminina, em vez de tratar a mulher como uma variante do "homem", seria mais exato, de acordo com essa teoria, tratar o homem como um caso particular de mulher. Ou talvez se devesse dizer, mantendo-se com o modelo derridano, que tanto o homem quanto a mulher são variações da arquimulher.
Portanto é possível mostrar, por meio de uma cuidadosa e diligente leitura de Freud, que os movimentos pelos quais a psicanálise estabelece uma oposição hierárquica entre homem e mulher baseiam-se em premissas que revertem essa hierarquia. Uma leitura desconstrutiva revela que a mulher não é marginal, mas central, e que a descrição de sua "sexualidade incompleta" é uma tentativa de construir uma plenitude masculina, deixando de lado uma complexidade que prova ser a condição da sexualidade em geral. A oposição hierárquica implica a identidade de cada termo e, particularmente, a coerente e inequívoca auto-identidade do homem; mas, como Shoshana Felman argumenta, essa auto-identidade masculina, e "o controle que ela reivindica, mostra-se uma fantasia sexual tanto quanto uma fantasia política, subvertida pela dinâmica da bissexualidade e pela reversibilidade retórica de masculino e feminino" ( "Rereading Femininity", p. 31). Caso alguém se concentre nos textos que ocupam uma arqui ou proto mulher ou, como Sarah Kofman faz em outro trecho do L'Enigme de la femme, naqueles que revelam sob exegética pressão o determinante papel da mãe, os escritos de Freud podem ser vistos como rupturas da hierarquia sexual da psicanálise.
Em resposta a uma pergunta de Lucett Finas sobre "falogocentrismo" e sua relação com o projeto geral das desconstrução, Derrida responde que o temo assevera a cumplicidade entre o logocentrismo e o falocentrismo. "É um único e mesmo sistema: a ereção de um logos paterno... e a do falo como 'significante privilegiado' (Lacan). Os textos que publiquei entre 1964 e 1967 apenas preparam o caminho para uma análise do falogocentrismo" ("Avoir l'oreille de la philosophie " , p. 311). Em amos os casos, há uma transcendente autoridade e ponto de referência: a verdade, a razão, o falo, o "homem". Ao combater as oposições hierárquicas do falocentrismo, as feministas confrontam, em termos imediatamente práticos, um problema endêmico à desconstrução: a relação entre as discussões conduzidas em termos logocêntricos e as tentativas de escapar do sistema logocentrismo. Para as feministas, isso toma a forma de uma pergunta urgente: minimizar ou exaltar a diferenciação sexual? Concentrar-se num grupo de tentativas para desafiar, neutralizar, ou transcender a oposição entre "masculino" e "feminino", desde a demonstração da proficiência das mulheres em atividade "masculinas", até a busca da evolução histórica da distinção, desafiando a própria noção de uma identidade sexual oposicional? Ou, ao contrário, aceitar a oposição entre homem e mulher e celebrar o feminino demonstrando seu poder e independência, sua superioridade a modos "masculinos" de pensamento e comportamento? Para tomar uma questão específica que as feministas americanas debateram quando discutindo mulheres escritoras do passado e do presente, dever-se-ia procurar identificar uma realização distintivamente feminina, correndo o risco de contribuir para isolamento de um gueto de "escritos de mulher" dentro da cidade da literatura, ou dever-se-ia insistir na inconveniência da categorização de autores pelo sexo e descrever as grandiosas realizações gerais de mulheres autoras específicas? Para as mulheres escritoras, a questão tem sido entre adotar modos "masculinos" de escrita e provar-se "mestres" neles, e desenvolver um modo especificamente feminino de discurso, cujas superiores virtudes elas podem esperar demonstrar. Desacordos internos aos movimentos feministas freqüentemente alcançaram o ponto da hostilidade, como talvez seja inevitável, uma vez que escolhas devem ser feitas; mas o exemplo da desconstrução sugere a importância de trabalhar em duas frentes de uma só vez, mesmo que o resultado seja um movimento mais contraditório do que unificado. Escritos analíticos que tentam neutralizar a oposição masculino / feminino são extremamente importantes, mas, como Derrida diz, "a hierarquia da oposição binária sempre se reconstitui" e, portanto, um movimento que assevera a primazia do termo oprimido é estrategicamente indispensável ( Positions, p. 57/42).
Muitos teóricos, influenciados pela desconstrução, têm trabalhado para inverter a hierarquia tradicional e afirmar a primazia do feminino. Em "Sorties" , Hélène Cixous contrasta a neurótica fixação do homem em uma monossexualidade fálica, com a bissexualidade da mulher que, ele argumenta, deveria dar à mulher uma relação privilegiada com a escrita. A sexualidade masculina nega e resiste à alteridade, enquanto a bissexualidade é uma aceitação da alteridade interior ao self, como o é a escrita. "Para o homem, é muito mais difícil se deixar ser atravessada pelo outro; escrever é a passagem, entrada, saída, breve estada em mim do outro que sou e que não sou" (p. 158). A escrita das mulheres deveria afirmar essa relação com a alteridade; deveria tirar força do seu mais imediato acesso à literalidade e de sua capacidade de escapar aos desejos masculinos de controle e dominação. Luce Irigaray urge as mulheres a reconhecerem seu poder como "la terre-mère-nature (re)productrice" [a (re)produtiva terra-mãe-natureza] e procura desenvolver uma nova mitologia, ligando esses termos (Ce Sexe qui n'em est pás um, p. 99 e passim). Julia Kristeva promove a combinação do materno e do sexual na figura da mãe orgásmica ("la mère qui jouit") e descreve a arte como a linguagem de juissance maternelle (Polylogue, pp. 409-35). O feminino é o espaço não só da arte e da escrita, mas também da verdade, "lê vréel" [a "verrealidade" ou "elaverdade" (vrai-lle)]: a irrepresentável verdade, que está além e subverte as ordens masculinas da lógica, do controle e da verossimilhança (Folle vérité, p.11). Sarah Kofman, em L'Enigme de la Femme, demonstra a primaszia da mãe na teoria freudiana: ela não só é o enigma a ser decifrado, mas também a professora da verdade, e a "ciência" de Freud devota-se a atribuir uma falta à mulher, que é vista como perigosamente auto-suficiente. Assumindo as imagens freudianas e nietschianas da mulher como uma narcisista criminosa-mor ou uma terrível ave de rapina ela desenvolve a noção da mulher afirmativa, teimosa em não aceitar à castração como decidida ou decidível, mas asseverando sua própria sexualidade feminina dupla e indecidível .
Os escritores que celebram o feminino desse modo podem sempre ser acusados de estar fazendo mitos, de se opor a mitos do masculino com novos mitos do feminino; e talvez por essa razão as reversões hierárquicas provavelmente são mais convincentes quando emergem de leituras críticas de textos importantes, como na demonstração de Kofman de que os escritos misóginos de Freud secretamente identificam a ameaçadora potência e primazia do feminino. Mas a promoção do feminino deveria também ser acompanhada por uma tentativa desconstrutiva de deslocar a oposição sexual. A "feminilidade" conclui Shosshana Felman em uma leitura de La Fille aux yeux d'or de Balzac, "como a alteridade real, no texto de Balzac, é estranha no que é não o oposto da masculinidade, mas aquilo que subverte a própria oposição entre masculinidade e feminilidade" (p. 42). O romance revela isso como a distinta ameaça da feminilidade. Outras análises mostram como o feminino, ou a "mulher", é identificado com a alteridade radical - o que quer que esteja fora ou escape ao controle das narrativas centradas - no - masculino e suas categorias hierárquicas. Embora a mulher seja estritamente localizada e definida pelas línguas e pelas narrativas ideológicas de nossa cultura, a codificação dessa alteridade radical como feminina possibilita um novo conceito de "mulher", que subverte a distinção ideológica entre homem e mulher, assim como a proto ou arquiescrita desloca a distinção ordinária entre fala e escrita.
Esse novo conceito de "mulher"tem pouca relação direta como o que as feministas identificam como os problemas da mulher "real. Julia Kristeva explica em uma entrevista intitulada "La Femme, ce n' est jamais ça "[ A mulher nunca é isso ou nunca pode ser definida]:
"A crença de que 'se é uma mulher' é quase tão absurda e obscura quanto a crença de que 'se é um homem'. Eu digo 'quase' porque há ainda alguns objetivos que as mulheres podem alcançar: liberdade de aborto e contracepção, centros de cuidados diurnos para crianças, igualdade de emprego etc. Portanto, devemos usar 'nós somos mulheres' como um anúncio ou lema para nossas exigências. Em um nível mais profundo, no entanto, uma mulher não é nada que se possa 'ser'; isso nem mesmo pertence à ordem de ser... Por 'mulher' eu entendo o que não pode ser representado, o que não é dito, o que permanece acima e além de nomenclaturas e ideologias. Há certos 'homens' que têm familiaridade com esse fenômeno; é o que alguns textos modernos nunca param de significar: testando os limites da língua e da sociabilidade - a lei e sua transgressão, controle e prazer (sexual) - sem reserva um para os homens e outro para as mulheres..." [pp. 20-21/137-38].
As feministas estão justificadamente perturbadas que nessa paleonomia desconstrutiva "mulher" possa não mais se referir a seres humanos reais, definidos por representações históricas de identidade sexual, mas sirva antes como horizontes de uma crítica , identificando "identidade sexual", "representação", e "sujeito" como imposições ideológicas. Mas essa é a outra frente de uma batalha que também envolve a celebração da obra e da escrita de mulheres. No Capítulo Um, deparamo-nos com a mesma divisão na crítica feminista: entre aquelas interessadas em promover as distintivas experiências que leitoras mulheres têm ou podem ter, e aquelas preocupadas em expor leituras "masculinas " ou "femininas" como produtos da ideologia a ser desmanteladas. A questão como Derrida diz, é como reduzir a lacuna entre esses dois projetos não-sintetizáveis, sem sacrificar um ou outro; tanto quanto se possa dizer, será necessário continuar por algum tempo a batalha em ambas as frentes, simultaneamente.
Uma última oposição hierárquica com implicações institucionais é a distinção entre leitura e desleitura (misrading) ou entendimento e desentendimento (miscunderstanding). O sistema morfológico inglês torna o segundo termo dependente do primeiro, uma versão derivada em des-(mis-) - do termo principal. Desentender é um acidente que às vezes sobrevêm ao entendimento, um desvio que é possível apenas porque existe o entendimento. Que acidentes possam sobrevir à leitura ou ao entendimento é uma possibilidade empírica, que não afeta a natureza essencial dessas atividades. Quando Harold Bloom propõe uma teoria "The Necessity of Misreading" e põe em circulação A Map of Misreading, seus críticos respondem que uma teoria da necessária desleitura - uma afirmação de que todas as leituras são desleituras - é incoerente, uma vez que a idéia de desleitura implica a possibilidade de uma leitura correta. Uma leitura só pode ser desleitura se houver uma leitura verdadeira que ela não alcança.
Isso parece notavelmente razoável, mas quando nos aprofundamos mais, outra possibilidade surge. Quando se tenta formular a distinção entre leitura e desleitura, inevitavelmente se está baseado em alguma noção de identidade e diferença. Leitura e entendimento preservam ou reproduzem um conteúdo ou sentido, mantêm sua identidade, enquanto desentendimento e desleitura o distorcem; eles produzem ou introduzem uma diferença. Mas pode-se argumentar que, de fato, a transformação ou modificação do sentido, que caracteriza o desentendimento age também no que chamamos de entendimento. Se um texto pode ser entendido, pode a princípio, ser entendido repetidamente, por diferentes leitores, em diferentes circunstâncias. Esses atos de leitura ou entendimento não são, é claro idênticos. Eles envolvem modificações e diferenças, mas diferenças que são declaradas não importar. Podemos dizer, portanto, em uma formulação mais válida do que seu contrário, que o entendimento é um caso especial do desentendimento, um desvio ou determinação particular dos desentendimento. É o desentendimento cujas faltas não importam. As operações interpretativas em ação em um generalizado desentendimento, ou desleitura dão margem tanto ao que chamamos de entendimento quanto ao que chamamos de desentendimento.
A afirmação de que todas as leituras são desleituras também pode ser justificada pelos mais conhecidos aspectos da prática crítica e interpretativa. Dadas as complexidades dos textos, a reversibilidade dos tropos, a extensibilidade do contexto e a necessidade de selecionar e organizar uma leitura, toda leitura pode ser mostrada como parcial. Intérpretes são capazes de descobrir aspectos e implicações de um texto que intérpretes anteriores negligenciaram ou distorceram. Eles podem usar o texto para mostrar que leituras anteriores são na verdade desleituras, mas suas próprias leituras serão consideradas deficientes por intérpretes posteriores, que poderão astutamente identificar as pressuposições dúbias ou formas particulares de cegueira que testemunham. A história das leituras é uma história de desleitura, embora sob certas circunstâncias essas desleituras possam ter sido aceitas como leituras.
A inversão que trata o entendimento como uma versão do desentendimento permite que se preserve uma distinção variável entre duas classes de desentendimentos, aqueles cujo des (mis-) importa e aqueles nos quais não importa, mas ainda assim ela tem efeitos significativos. Ela contesta a hipótese de que o desentendimento surge como uma complicação ou negação do ato de entender, que o desentendimento é um acidente que, em princípio, poderia ser eliminado, assim como em princípio, poderíamos eliminar acidentes automobilísticos e permitir que todo o veículo alcançasse sua destinação correta. Wayne Booth, o grande paladino contemporâneo do entendimento, o define como se segue: "o entendimento é o objetivo, o processo e o resultado quando quer que uma mente consiga entrar em outra mente ou, o que é a mesma coisa, quando quer que uma mente consiga incorporar qualquer parte de outra mente" (Critical understanding, p.262). Nos termos de Booth, o desentendimento é simplesmente negativo, um fracasso em penetrar ou incorporar algo que está lá para ser penetrado ou incorporado. O desentendimento está para o entendimento assim como o negativo está para o positivo. As afirmações da necessidade da desleitura sugerem, por outro lado, que o contraste não é desse tipo, mas que tanto a leitura quanto a desleitura, o entendimento e o desentendimento são casos de incorporação e penetração. A questão de quais desleituras ou desentendimentos serão tratados com atos de entendimento é complexa, envolve uma hoste de fatores circunstanciais não redutíveis à regras. O que é aceito como um "entendimento" de uma parábola bíblica particular, por exemplo, variará imensamente de uma situação para a outra.
O próprio Critical Understanding, de Booth fornece uma excelente ilustração de leitura como desleitura. Para mostrar que o pluralismo poderia ser, Booth tenta aderir a expor a prática crítica de Kenneth Burke, R. S. Crane e M. H. Abrams. Ele tem um considerável interesse em demonstrar a possibilidade de adotar corretamente essas abordagens contrastantes e não mede esforços em conseguir um entendimento complacente e exato, mas tanto Burke quanto Adams rejeitam vários aspectos de seu relato. "Se não podemos provar nem mesmo que um crítico entendeu plenamente um outro", escreve Booth, "o que vamos dizer da afirmação pluralista de que entendeu e adotou mais de um?" (p. 200).
Poderíamos concluir, como Abrams e Burke sugerem, que o entendimento de Booth é uma forma de desentendimento:sua leitura é uma desleitura generosa e escrupulosa. Em algumas circunstâncias, confrontada com outras desleituras, poder-se-ia creditar a Booth um desses desentendimentos que contam como entendimentos, mas se isso acontecerá depende de uma hoste de fatores complexos e contingentes. Não precisamos concluir que o entendimento é possível, pois atos de interpretação que parecem perfeitamente adequados para propósitos e circunstâncias particulares ocorrem todo o tempo; mas essas leituras poderiam ser mostradas como desleituras tivéssemos nós motivo para faze-lo. Minha própria desleitura de Derrida pode, em alguns contextos, passar como entendimento suficiente, mas também será atacada como uma desleitura. "O trabalho", escreve de Man, "pode ser usado repetidamente para mostrar onde e como o crítico divergiu dele" (Blindness and Insight, p. 109).
Como Barbara Johnson coloca,
"A frase 'todas as leituras são desleituras' não nega simplesmente a noção de verdade. A verdade é preservada de forma residual na noção de erro. Isso não significa que há, em algum lugar lá fora, eternamente inatingível, a única leitura verdadeira, contra a qual todas as outras são testadas e percebidas como deficientes. Antes, isso implica 1) que as razões pelas quais uma leitura pode ser considerada correta são motivadas e atravessadas por seus próprios interesses, cegueira, desejos e fadiga, e 2) que o papel da verdade não pode ser facilmente eliminado. Mesmo se a verdade não é mais do que uma fantasia da vontade de poder, alguma coisa ainda marca o ponto a partir do qual os imperativos do não-self fazem-se sentir" ("Nothing Fails like Sucess"; p.14).
De acordo com a estratégia paleonímica frisada por Derrida, a "desleitura" retém o vestígio de verdade, porque leituras merecedoras de atenção envolvem reivindicações de verdade e porque a interpretação é estruturada pela tentativa de capturar o que outras leituras deixaram passar e desexplicaram. Uma vez que nenhuma leitura pode fugir da correção, todas as leituras são desleituras; mas isso deixa não um monismo, e sim um duplo movimento. Contra a afirmação de que, se há apenas desleituras, então qualquer coisa vale, assevera-se que desleituras são erros; mas contra a afirmação positivista de que são erros porque se empenham em direção a, mas falham em alcançar uma leitura verdadeira, mantém-se que as verdadeiras leituras são apenas desleituras particulares, desleituras cujas falhas não foram notadas. Essa definição de desleitura não é, talvez, uma posição coerente e consistente d, mas seus defensores afirmariam que ela resiste a idealizações metafísicas e apreende a dinâmica temporal de nossa situação interpretativa.
Como outras inversões, a reversão das relações entre entendimento e desentendimento rompe uma estrutura sobre a qual as instituições se têm apoiado.Os ataques aos desconstrutivistas e a outros críticos tão diversos como Bloom, Hartman e Fish freqüentemente enfatizam que, se toda leitura é desleitura, então as noções de sentido, valor e autoridade promovidas por nossas instituições estão ameaçadas. A leitura de cada leitor seria tão válida ou legítima quanto outra, e nem os professores nem os textos poderiam preservar sua autoridade habitual. O que tais inversões fazem, no entanto, é deslocar a questão,levando a considerar-se quais são os processos de legitimação, validação ou autorização que produzem diferenças entre leituras e habitam uma leitura a expor outra como uma desleitura. Do mesmo modo, a identificação do normal como um caso especial de desvio ajuda a se questionar as forças institucionais e as práticas que instituem o normal, marcando ou excluindo o desviante.
Em geral, inversões de posições hierárquicas expõem ao debate os arranjos institucionais que se baseiam em hierarquias e, assim, abrem possibilidades de mudanças - possibilidades que podem conseguir pouco, mas também, em algum ponto, se provar críticas. Richard Rorty observa que ainda não elaboramos as conseqüências para a cultura e para a sociedade da vasta, ainda que detalhada, redescrição de Freud da psique humana e do comportamento humano, mas estamos vivendo desassossegadamente com o "ainda não assimilado efeito da psicanálise sobre nossas tentativas de pensar em termos morais" ("Freud, Morality and Hermeneutics", p. 185). A desconstrução de Freud de oposições estratégicas criou problemas para a lógica da avaliação moral, que usa categorias, tais como generosidade/egoísmo, coragem/covardia ou amor/ódio. Não está claro quais ajustes ocorrerão na linguagem e nas instituições da moralidade: "estamos ainda no estágio de suspeitar que algo terá que mudar em nosso velho modo de falar, mas sem saber ainda o quê "(p. 177). Com a desconstrução o que está em jogo, diz Derrida, em "l'ébranlement actuel " [a ruptura atual], é a reavaliação da relação entre o texto geral e aquilo que pode te sido pensado como simplesmente exterior à linguagem, ao discurso e à escrita, como realidades de uma ordem diferente (Positions, p. 126/91). As rupturas conceituais "aparentemente locais", portanto, têm uma pertinência mais geral, embora os efeitos não sejam imediatamente calculáveis.