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HOTEL BRASIL

Frei Betto

Transcrevemos, abaixo, os dois primeiros capítulos do novo romance de Frei Betto, Hotel Brasil. A Rubedo agradece ao autor pela gentileza de ter-nos autorizado a reproduzir estes textos. Conheça mais sobre o livro visitando nossa Revista de Literatura


Capítulo 1. A CABEÇA

Olhou de soslaio do corredor, viu sem querer ver e acreditou não ter visto o que vira. Enxergara o que seus olhos se recusavam a ver. Ali estava a cabeça atirada a seus pés.

Tinha a mente confusa. Sentiu uma pontada no ventre. As linhas das mãos afogavam-se em suor. Esforçava-se por reunir forças e encarar o horror. Não, não se atrevia a fixar os olhos nos detalhes. O rubor do sangue inundava o quarto e causava-lhe ânsias.

Contrastes

Sob o s Arcos da lapa, por onde passava todos os dias, abrigavam-se mendigo, cães, gatos. Observada de longe por Cândido, a paisagem miserenta serviria de motivo a traços de aquarela, fosse ele dado à pintura. Insuportável era parar ali, deixar o cheiro repulsivo impregnar as narinas, percorrer os olhos sobre as feridas abertas apinhadas de moscas, a baba escorrendo da boca flácida dos bêbados, crianças nanicas misturadas ao lixi.

Lembrou-se da antiga namorada com o cabelo dourado desatacando-se na assembléia devota, o dedo mindinho mordiscado, a entonação de voz. Fêmea que não atraía a voracidade dos homens nem a sutil inveja das mulheres e, no entanto, revelava pormenores de extraordinária beleza. O silêncio atento ao que dizia o parceiro, o modo jubiloso de sorrir, a arguta capacidade de atravessar a superfície de um fato e extrair-lhe o significado intrínseco.

Mas ele conhecia o outro lado da moeda, o que o tornava precavido frente ao sexo oposto. A exuberância do porte, a sensualidade à flor da pele, o encanto que faz de certas mulheres o centro das atenções onde quer que estejam. Na intimidade, entretanto, entre lençóis e panos de prato, o gênio irascível desperta, os caprichos volatilizam a formosura, a beleza pesa como um saco de carnes e ossos estirado inerte sobre a cama.

Inútil voltear a mente em recordações e imagens. O que enxergava agora estirava-lhe a pele em arrepios. Já não era senhor de si. paralisado pelo pavor, trazia o espírito dilacerado pelo cheiro de morte que agoura ameaças. Gotas de suor escorriam-lhe das têmporas. Mantinha-se ali imobilizado, como se apertado por uma multidão. Tivesse forças. poderia mover-se, retornar ao seu quarto ou mesmo sair à rua. Porém, algo o impedia de dar um passo. Estava congelado pelo pavor, malgrado o calor que o sufocava.

Medo

Para Cândido, o medo não era um sentimento, uma emoção, um descontrole das funções nervosas que produz insegurança e suscita a vergonha de saber-se frágil e limitado. Esses eram os efeitos. Convencer-ase de que a causa residia na conflitividade social que toma conta dos nervos e da mente das pessoas. No Rio, a violência forçava a maioria dos moradores a se tornar prisioneira de sua própria casa, trancada com dezenas de chaves, dotada de alarme, janelas e sacadas cobertas de grades.

Ali, à sua frente, estava a dolorosa prova de que ninguém escapava à ameaça. Por isso, os habitantes moviam-se como soldados em trincheira, na esperança de não serem atingido entre um abrigo e outro. Carros sofisticados pareciam tanques de guerra: portas blindadas, vidros à prova de bala, dispositivos eletrônicos de segurança.

Cândido sentia-se exposto em sua moto. A falta de recursos para dispor de veículo mais seguro o empurrava à lógica fatalista de que não haveria de morrer de véspera. Deus cria, Deus protege. A fé servia-lhe de capacete e escudo. Ajudava-o a evitar o pânico frente a situações como aquela com que agora ele se deparava. Irritava-lhe o contraste entre as casas abertas de sua cidade provinciana e os apartamentos do Rio, que mais pareciam presídios, com a diferença de que estes se abrem apenas de fora para dentro. Uma visita, um ritual: o porteiro a exigir identificação, o nome anunciado pelo interfone, o elevador destrancado no andar a que se destina, o visitante conferido pelo olho mágico, as fechaduras de roliças chaves dentadas abertas uma a uma.

Luz pálida da manhã

Havia experimentado igual paralisia quando seu colega de escola morreu atropelado. Era um garoto de sardas no rosto, cabelo de fogo e um modo efusivo de abrir os braços para contar peripécias, como se a vida fosse uma produção de efeitos especiais que só ele enxergava.

Naquela sexta-feira, saiu da escola aflito para chegar em casa o quanto antes. Iria com os pais para a fazenda. Cândido o acompanhou no ônibus, pois moravam no mesmo bairro. O ponto do colega antecedia o seu. Os dois, sentados do lado esquerdo, bem atrás do motorista, repararam na rua deserta. O colega desceu e cruzou à frente do veículo. Desapareceu tragado pelas rodas da caminhonete de entrega de queijos que dobrara a esquina. O motorista não poderia ter adivinhado que, da frente do ônibus, surgiria uma criança afobada.

Era uma manhã fria, com o céu coberto por nuvens cinzas. Os pais do menino, em estado de choque, foram socorridos por vizinhos e parentes. A polícia levou o motorista que, transtornado, parecia ter ceifado a vida do próprio filho. A vítima jazia na rua, coberta por um plástico preto. Em volta, os curiosos formavam uma roda de silente perplexidade. Cândido chorava um choro raivoso, misto de ódio e impotência, cercado pela aglomeração de pessoas que, sob a luz pálida da manhã, pareciam velar um morto cuja a solidão os instigava a um último preito.

Foi naquele dia que, pela primeira vez, Cândido se perguntou pelo sentido da vida. E a idéia de Deus lhe pareceu um desafio.

Testemunha

Não era hora de soltar as amarras dos demônios que o habitavam. Mas não podia deter a imaginação nem o aluvião da memória provocado por sentimentos confusos. Retraiu a razão. A tensão o oprimia. O coração, acelerado, bombeava medo. O silêncio, entrecortado pelo movimento da equipe de investigação - tão cautelosa que parecia recear acordar o morto -, engendrava-lhe insegurança.

Nervoso, levou à boca meia laranja que trazia à mão. Mordeu a polpa. O sumo inundou as gengivas, impregnando as papilas, ativou o paladar e escorreu pelo queixo. Uma semente pousou na língua. Num sopro, foi cuspida.

Cândido suspendeu à altura dos olhos a fruta engastada na mão direita. Com o dorso da esquerda, limpou a boca. Só então deu-se conta de que seu maxilar tremia. Ainda bem que não era ele o alvo das atenções. Conhecia o tamanho de sua covardia. O que diriam os demais hóspedes se percebessem que ele sentia as pernas bambas e o coração em sobressalto? Por que essa obrigação de parecer forte quando se sabe que a vida é feita de medos? Medo de morrer, de ser abandonado, de ficar esquecido. Era o que lhe vinha à cabeça quando, no refeitório, ouvia Pacheco, assessor de políticos, desfiar bravatas. A ambição do poder soava a Cândido como o paroxismo do medo. Neste caso, patológico, por se temer ser o que se é e lutar por adereços - fama e fortuna - que encubram aos olhos alheios o pavor ao anonimato.

O armário

Criança, Cândido não gostava de brincar de esconder. Num domingo, em casa de um amigo, seu vizinho, passou a tarde trancado no armário da mãe do aniversariante.

Ela preparara um bolo confeito, coroado por uma bola de futebol. No quintal, as crianças brincavam. "Um... dois e... três!" Quando o aniversariante afastou o rosto da jabuticabeira e abriu os olhos, todos os meninos já haviam se escondido. Cândido correu para dentro de casa. Meteu-se entre as saias e blusas, vestidos e camisolas, respirando forte cheiro de naftalina. Ficou ali no escuro, à espera de que o encontrassem.

Ao escutar o vozerio alegre do Parabéns, acordou assustado e tentou sair. A porta do armário emperrara. Esmurrou, gritou, sem que lhe dessem atenção. Sentiu-se humilhado por ninguém ter notado sua falta.

À noite, ao perceber que alguém entrara no quarto, bateu na porta e pediu socorro. Apavorada, a vizinha pôs-se a correr de anágua e sutiã, convencida de que um fantasma invadira seus aposentos. Vieram os parentes e, só então, Cândido foi libertado.

Sarcófago

A perícia tirava fotos no quarto em tons evanescentes. As rachaduras das paredes configuravam mapas de terras desconhecidas. Nem a janela aberta dissipava o cheiro de umidade e mofo. O facho oblíquo de luz enfeixava o torvelinho de poeira. Dali da porta, Cândido podia distinguir, entre as palmeiras do calçadão do largo da Lapa, uma das quatro serpentes que coroam o obelisco dos tempos em que o Rio era Prefeitura do Districto Federal.

A mobília, desigual e triste, ocupava quase todo o recinto. Nas prateleiras da escrivaninha, cadernetas amarelecidas tombavam sobre revistas pornográficas e livros de mineralogia, com suas capas perfuradas e as paginas recortadas em trilhas pela voracidade analfabética das traças. O pó algodoava-se por cantos e reentrâncias. Estojos de papelão forrados exibiam, através das tampas de plástico transparente, esmeraldas, ágatas, águas-marinhas, topázios e turmalinas. Fora a claridade que se projetava pela janela, eram os únicos pontos de luz dentro daquele reduto sombrio.

Sobre a cama de mogno, alta como um sarcófago, o cadáver ensangüentado parecia recoberto de uma mistura de vinho com molho de tomate. Para além da borda do colchão, a mão pendia sobre o vazio à espera de apoio. No dedo anular, sobressaía um anel. A outra mão dobrava-se junto ao peito perfurado, como se à procura do botão do paletó. As pernas estendiam-se tesas e exibiam os sapatos de solas gastas. O morto calçava meias brancas encardidas.

Apertados no corredor, os hóspedes sussurravam penas em tom lamurioso. Falavam entre os dentes, como se temessem acordar o falecido. Espiavam de viés, de modo a evitar que o olhar pousasse no alvo da atenção dos peritos. Cobriam-se de pudor frente à nudez escancarada da morte. Viam sem enxergar, miravam sem observar.

Atirada no chão, a cabeça trazia a face virada para a porta. Os cabelos ralos grudavam-se numa pasta de sangue. Os olhos haviam sido arrancados. A boca, máscara de Mefistófeles, esboçava um sorriso sarcástico de quem se compraz com a própria dor.

Parecia tenebroso a Cândido o contraste entre o corpo acéfalo sobre os lençóis encharcados de sangue e a cabeça no assoalho de tábuas corridas, como se o primeiro estivesse mais morto do que aquele perfil de João Batista redimido pela glória do martírio.

Sorriso de Gioconda

Nenhuma pista do criminoso, nenhum sinal da arma do crime, nenhum indício que explicasse o requinte da decapitação. A implacável certeza de um cadáver cobria-se de interrogações.

Segundo os peritos, morrera com uma estocada no coração antes de ter a cabeça cortada. O rosto não estampava a expressão de pânico das vítimas que encaram o agressor. O sorriso de Gioconda sugeria que o assassino fora recebido como amigo.

A vítima com certeza sequer tivera tempo de surpreender-se, tão rápido e preciso teria sido o golpe que lhe perfurara o coração. Eram óbvios, entretanto, os sinais de que havia sido degolada - num trabalho lento e difícil - por uma lâmina bem mais espessa que uma navalha, porém não tanto quanto a de um machado, pois o corte era irregular como o que se imprime às juntas de um animal destrinchado com faca cega.

Parado à porta, consternado, com a boca entupida pela metade da laranja, Cândido não conseguia desviar os olhos da cena que lhe amargava o espírito. Tinha a mente saturada e a respiração retida. A pele banhava-se de suor. O estômago revirava-se, o peito comprimia-se, as pernas vacilavam. Talvez o prendesse ali a simpatia que nutria pela vítima; ou a compaixão própria dos corações contritos. Via-se incapaz de conceber a morte como ato pleno de reverência sem que houvesse um defunto acomodado no caixão, a face fria maquiada em tons roxos, as flores apertadas em volta, castiçais em sentinela. Aquele cadáver profanado refluía-lhe o olhar e, ao mesmo tempo, suscitava fatídica atração, pois o mantinha debruçado sobre a pavorosa visão de uma cabeça atirada a seus pés, enquanto sugava o caldo adocicado de uma laranja-lima.


Capítulo 2. O HOMEM DAS PEDRAS

- Não se interessa por topázios ou ametistas? - indagou sussurrante seu Marçal, na sala de tevê, ao meter a mão no bolso do paletó e, em seguida, abri-la para exibir um punhado de gemas, poucos dias depois que Cândido se instalara no hotel.

Além do refeitório, conjugado com a cozinha, aquele era o único lugar onde os hóspedes, vez ou outra, dividiam o mesmo espaço, atraídos pelo televisor emoldurado por uma caixa de verniz escuro. Nas paredes, uma gravura das pirâmides do Egito, um cocar indígena de penas sem viço, cobertas de poeira, e uma reprodução da paisagem carioca pintada por Debret, acima do sofá e poltronas revestidos de algodão amarelo pálido, estampados por velhas manchas de graxa e gordura. Cinzeiros de latão repousavam sobre o vidro fosco de um console que ocupava o centro da sala, iluminada de dia por duas janelas de peito e, à noite, por uma lâmpada bojuda que pendia do teto, presa a uma corrente de argolas douradas.

Chamou a atenção do novo inquilino o modo sutil como o velho caçador, com seu corpanzil desajeitado, e sempre atento a uma virtual presa, acercou-se dele, primeiro observando-o às refeições, dobrando-se em gentilezas, solícito em servi-lo, os dedos grossos dobrados no cabo da concha mergulhada no caldo espesso do feijão, derramado lentamente no prato de Cândido sobre o arroz fumegante.

Seu Marçal era todo ouvidos ao que Cândido contava de sua ocupação com os meninos de rua; avizinhava-se dele nos espaços comunitários do hotel; e, por fim, abordava-o no tom melífluo de quem vende e lucra, mas transfere ao comprador a sensação de vitória.

Cândido, ao contrário de hóspedes como Pacheco e Rosaura, não o repelia. Apreciava-o à distância, tratava-o com gentileza, sem intimidades que viessem a estreitar entre eles laços de amizade. Precavia-se, não por desconfiança, mas por sentir-se além daquela idade em que a cumplicidade entre duas pessoas nasce da confiança recíproca e da suprema tolerância.

Reparara na jóia que o velho mascate exibia no dedo: um anel com uma crisólita olho-de-gato. Arredondada e multifacetada, reluzia um verde-limão sobre a incrustação de ouro.

Antes de escutar a resposta à sua oferta, seu Marçal puxou uma caixinha de papelão do bolso do paletó preto polvilhado de caspas - o velho paletó que não tirava nem nos dias de muito calor, e no qual morrera abotoado. Destampou a caixa e mostrou-lhe, sobre a alvura do algodão, um punhado de gemas coloridas. Os olhos de Cândido estremeceram ao brilho do caleidoscópio de seduções.

- São boas para presente - disse seu Marçal com um sorriso de vendedor que se diverte com a compulsiva ilusão do freguês.

Cândido permaneceu com o olhar debruçado sobre as pedras.

- Para você, faço um preço bem camarada - acrescentou o velho num esforço para imprimir leveza ao tom da voz.

O empenho aliciador acentuava-lhe a cintilação do olho esquerdo, cristal engastado no rosto de covas profundas, emoldurado por uma tresnoitada barba de pêlos oxidados.

Cândido espalmou as mãos contra a mercadoria, agradecendo.

- Ora, se precisar - disse seu Marçal recolhendo a caixa -, sabe onde encontrar.

Quimeras

Hóspedes insones movimentavam as madrugadas do hotel, e Cândido não era exceção. Preferia não sair à noite, a menos que tivesse atividades na Casa do Menor ou fosse convocado por alguma emergência. Nos outros dias, recostava-se à cabeceira da cama, entretido com seus livros, e escutava música clássica, enlevado pelas sonatas de Albinoni e por peças de Bach. Educado no interior, onde os telhados são baixos e as montanhas altas, oprimia-lhe a metrópole com seus edifícios gigantescos. Temia intrometer-se na efervescência urbana, onde se sentia como um cego no centro com confluência de várias avenidas.

De dia, movia-se de moto pela cidade. Atento aos riscos, cauteloso nas curvas, poupava tempo e perfurava espaços com a segurança de quem incorpora a máquina ao corpo repleto de olhos. À noite, entretanto, não contava senão com o par de olhos acima do nariz. Não considerava suas pernas suficientemente ágeis para caminhar com desembaraço entre os transeuntes apressados. E temia ser assaltado.

O quarto servia-lhe de abrigo. Relaxado pelo banho, entregava-se a devaneios. Se suas mãos viravam as páginas da leitura sem que a cabeça pudesse acompanha-las, ele se retirava para a sala de tevê, de onde observava o movimento dos que saíam ou entravam.

Madame Larência, salpicada de cremes, passava irrequieta, cruzava a porta da rua e, diligente, percorria boates e cabarés, encontrava clientes, acertava demandas, como a do fazendeiro do Paraná que exigia "uma potrancazinha de carnes firmes e olhos claros, e uma lata de sorvete de pistache". Anotada a encomenda, retornava ao hotel e procurava, entre papéis desordenados, o telefone de uma garota adequada ao capricho do cliente. Quase sempre o mais difícil eram os acessórios, como o sorvete. Poucas sorveterias ficavam abertas até tarde da noite; mesmo aquelas que ofereciam uma sortida coleção de sabores, nem sempre dispunham de pistache.

Certa madrugada, vira-se obrigada a acordar o dono de uma sorveteria no Jardim Botânico, a única que possuía o produto. A fúria do comerciante fora aplacada pela generosidade do fazendeiro.

Retocada a maquiagem, madame Larência tornava a sair, num ir e vir incessante, que costumava só ter fim quando o sino do convento das carmelitas, próximo ao hotel, anunciava as matinas.

Marcelo chegava tarde, trazia os bolsos do paletó estufados de latas de cerveja, aboletava-se diante da tevê e bebericava uma por uma entre baforadas de cigarro. Olhos no filme coruja, trocava interjeições com os vizinhos de modorra. Dava-lhe singular prazer antecipar hoje, à sua seleta platéia, notícias que só amanhã apareceriam nos jornais. Como se ele vivesse um dia adiantado em relação ao comum dos mortais.

Quase todos ali o consultavam em períodos de crise econômica, convencidos de que o jornalismo lhe propiciava acesso à informações secretas e fidedignas quanto à alta do dólar e dos preços. Só Pacheco não lhe dava ouvidos, pois considerava Marcelo - segredava ele a Diamante Negro - "um catador de notícias, e eu, um produtor".

Com a gravata afrouxada no pescoço, Pacheco ingressava nervoso, rumo ao quarto, como se o tempo fosse curto para o tamanho de sua importância. Poucos minutos depois, saía afobado para telefonar de um dos orelhões na esquina da travessa Mosqueira com a avenida Mem de Sá. Ao encontrar os aparelhos quebrados, retornava aturdido:

- Este é um país de vândalos! Só tem mestiços e vagabundos!

Ninguém reagia, o que fazia do hotel um aerópago daquela forma singular de democracia em que as palavras pouco condizem com os atos, e as emoções afloram sem romper a suposta redoma em que cada um abriga sua individualidade, vitrine de frustrações e carências.

Pacheco tomava assento na sala de tevê e oscilava os olhos entre o monitor e o relógio. Erguia-se, caminhava em passos marciais, batia a porta da rua e, pouco depois, reaparecia indignado:

- Vivemos numa selva! Não temos população, só fauna e flora!

Entrar na fila do orelhão atrás de travestis e prostitutas era, para ele, uma fatalidade ignóbil. Não fosse a urgência de suas chamadas, a seu ver decisivas para a salvação da pátria, jamais se misturaria "àquela gentalha que, na falta de cabeça, exibe o traseiro". Todos o escutavam sem tecer comentários, preservando o próprio direito de também expressar suas diatribes, imunes ao significado das palavras.

Diamante Negro regressava ao alvorecer, quando a tevê emudecida e fria cedia a vez aos galos e pássaros que ouriçavam as redondezas. Sentava-se só na sala escutar, desabotoava a camisa, conferia os pêlos avulsos do peito, arrancava-os, aninhava Osíris em seus braços, beijava-lhe o focinho, fechava os olhos, falava com seus orixás até que um pouco de paz o recolhesse à cama. O silêncio do hotel ressoava nele como profundo aconchego de liberdade.

Trajetória

Cândido e seu Marçal esperavam o último telejornal da noite. O velho ajeitou-se desconfortável no sofá que lhe apertava os flancos. A mão direita, de veias tão realçadas quanto raízes desbordando do solo, trazia entre os dedos o palito que, vez ou outra, subia à boca e dançava entre os dentes espaçados.

- Até me aposentar - contou seu Marçal - trabalhei na coletoria de Governador Valadares. Depois, meti-me no negócio das pedras, que eu comprava em Teófilo Otoni para revendê-las aqui no Rio, onde joalheiros e turistas pagavam bem. A concorrência ainda não se sentia ameaçada pelos falsificadores, e o mercado não apreciava bijuteria. O crescimento do negócio coincidiu com a repentina doença da minha mulher. Em poucas semanas ela partiu desta para melhor. A morte dela apressou a minha decisão de mudar de cidade.

Cândido desviou os olhos de seu Marçal e fitou a tevê. Clipes publicitários brilhavam no aparelho sem som. O velho fixou a atenção nas pernas da modelo da propaganda do refrigerante que, desnuda, corria na praia. Entrou o anúncio de um banco. Dois esquimós saíam de um caixa eletrônico coberto de neve. A gula concupiscente de seu Marçal ainda mascava mentalmente as coxas da moça da praia. Cândido pensava no infortúnio de seu Marçal, obrigado a trabalhar após a aposentadoria. Os clipes pipocavam em sua retina sem penetrar a mente. A velhice... o desamparo... pedrinhas...

Súbito, Cândido voltou-se para o homem espremido no sofá. Seu Marçal tinha a cabeça pendida sobre o pescoço, entortada pela sonolência. Cândido bocejou, produzindo um ruído de vogais ascendentes. Seu Marçal abriu os olhos, incomodado.

- Por que não vai dormir? - perguntou a Cândido.

- Se não estivesse tão cansado... - murmurou em resposta. Enquanto não esfriar a cabeça, não consigo dormir. Passei a tarde numa delegacia de Copacabana, empenhado em liberar dois menores que furtaram a Nikon de um fotógrafo italiano.

Enquanto Cândido contava os detalhes do caso, Rosaura entrou. Ocupou a ponta do sofá, junto à tevê, e estendeu as pernas. Os dedos apertados nas sandálias recortavam-se qual flauta andina. O rosto jovem exprimia cansaço. Tinha os olhos pesados. Sobre o nariz, as sobrancelhas formavam um arco delicado. Pediu licença, dobrou o corpo sobre a cintura, estendeu a mão e aumentou o volume. Cândido interrompeu sua narrativa. O telejornal abria-se em fanfarras.

Seu Marçal era dessas pessoas que se julgam interessantes a qualquer interlocutor. Pouco lhe importava se o consideravam inoportuno. Marcelo ironizava-o e, à boca pequena, comentava que matara a mulher "de surdez por estafa auditiva". Ao recordar a malícia do jornalista, Cândido bocejou de novo, erguendo o punho fechado junto à boca. Seu Marçal. agora, parecia animado.

- Sempre sonhei viver à beira-mar e curtir ao vivo essas moças em trajes sumários - disse com uma ponta de malícia nos olhos atentos à reação de Rosaura.

Ela fingiu não escutar, interessada no noticiário.

Ele prosseguiu:

- Gosto de apreciar a beleza que sacia os olhos e apetece o coração com o sabor agridoce do pecado - suspirou, como se o esforço para cunhar metáforas lhe exigisse pausas periódicas e respiração profunda.

Com as pernas agora encolhidas sobre o sofá, Rosaura tinha o corpo dolorido pelos movimentos constantes que o trabalho de faxineira lhe impunha. Temia encerrar-se em seu quarto antes que o sono se apoderasse dela. Não convivia bem com seus fantasmas. Carregava consigo um medo indefinido. Rodava pelo hotel em busca de companhia, sem no entanto entabular conversas. Bastava-lhe a presença de um ser vivo, ainda que fosse o gato de dona Dinó.

A aparição

Menina no interior de Goiás, Rosaura cuidava dos irmãos mais novos enquanto os pais, verdureiros, deixavam a casa na roça, de madrugada, para estar a postos na feira pela manhã. Sobre o colchão de palha seca, ela mantinha os ouvidos tão atentos que não conseguia pregar os olhos. Lá fora, o vento soprava esquivo, um balde tombava sobre o piso de cimento do tanque de lavar roupa, um galho de amendoeira partia-se, o choro dos gatos lembrava uma criança recém-nascida abandonada no mato.

Rosaura cobria a cabeça com o lençol e, com o corpo trêmulo, rezava: "Santa Mãe de Deus, valha-me sua proteção!"

Certa noite, pouco depois de os pais partirem com a carroça estufada de hortaliças, Rosaura, ao esquentar a mamadeira do irmão caçula, escutou um ruído estranho no terreiro. Levou o leite para o menino, soprou a lamparina, armou-se de um facão e, com o coração apertado, ajoelhou-se junto à janela. Olhou arregalada para fora, tentando vencer as trevas que rodeavam a casa. Um suor frio umedeceu-lhe a pele. "Santíssima Trindade - suplicou -, tenha piedade de mim!"

O som de cascos se arrastando pela terra prosseguiu. Rosaura debatia-se entre o medo e a curiosidade. Arrastou a mesa e as cadeiras de fórmica para junto da porta. O irmão caçula começou a chorar. Os outros dormiam a sono solto. Após acudir o menor, voltou à janela e agachou-se. Vislumbrou o vulto de um cavalo em contraste com o céu estrelado. Ou seria uma égua perdida? Do perfil do animal não avistou o focinho. Sim, logo pôde vê-lo melhor. Pelo tamanho, tratava-se de um burro. Trotara da cerca para o pomar, retornara pelos fundos da casa, tropeçara em garrafas vazias. Agarrada ao facão, a menina adivinhou-lhe os movimentos pelos ruídos. Vez por outra, o animal passava defronte à janela, sem que Rosaura pudesse distinguir-lhe a cabeça.

Pouco depois, a menina avistou-o de perto. Estava ali diante dela, de costas, a silhueta das ancas de frente para a janela. Era uma mula. Virou-se como se percebesse alguém à espreita. Rosaura dilatou a vista, pois via o corpo do animal sem conseguir vencer a escuridão que lhe escondia a cabeça. Súbito, ele relinchou, empinou-se, as patas dianteiras digladiando-se com o vazio e, à altura do focinho encoberto pela noite, soltou fogo pelas ventas e fugiu a galope. O clarão permitiu a Rosaura decifrar o enigma: era a mula-sem-cabeça!

A menina, tomada pela febre, delirou oito dias. O pai não deu ouvidos e atribuiu a visão ao medo. A mãe, entretanto, confirmou que dona Maria das Mercês, diretora da Filhas da Santíssima Virgem, irmandade da capela do distrito, tomara veneno quando descobriram que, ao hospedar em seu sítio o padre que vinha para a missa do último domingo de cada mês, oferecia-lhe mais que comida farta, lençóis limpos e cálices de catuaba.

- O castigo para mulher de padre - segredou ao ouvido da filha doente - é virar mula-sem-cabeça.

Sonolência

Ao escutar seu Marçal falar das fantasias eróticas, Rosaura abriu os olhos preguiçosos, fitou-o com desdém, olhou para a imagem da tevê, tornou a cerrar as pálpebras, cruzou os baços, ajeitou os pés junto às coxas, virou-se de lado e recostou a cabeça na almofada.

Cândido bocejou mais uma vez. Sua desatenção deixara escapar a prosódia floreada do mascate de pedras. Algo sobre diamantes. Ergueu-se, pediu licença, deu boa-noite e retirou-se.

Labirintos

- Alguém viu o Marçal? - perguntou madame Larência no almoço de domingo.

As argolas multicores que pendiam de seus braços quase tocavam a comida. A voz estridente irritava os ouvidos de Pacheco. Cândido continuou mastigando, os olhos presos ao jornal que lhe cobria o rosto. Diamante Negro fez que não escutou, entretido em escorrer o azeite sobre a salada de folhas à sua frente. Rosaura levantou-se e dirigiu-se ao fogão para servir-se de mais um bife. Jorge, o faxineiro do hotel, manteve-se ocupado em lavar panelas. Dona Dinó, a senhoria, quebrou o silêncio:

- Acho que viajou.

Sob a vasta peruca loura, rugas impregnadas de cosméticos, sobrancelhas adensadas a lápis, madame Larência tinha por hábito ignorar os presentes e perguntar pelos ausentes. Jamais dava conversa aos comensais. Nem lhes fixava o olhar. Se alguém dizia algo à sua direita, ela desviava a atenção para a esquerda, respondia por monossílabos, desconversava. Preferia falar sozinha, embaralhar temas, nomear pessoas cuja existência talvez se restringisse ao espaço de sua imaginação.

O mundo no qual se encerrava tinha as janelas apenas para a luxúria dos homens cuja apetência da genitália saliva pelos olhos. Entregava-se também à frivolidade de retalhos que fazem da vida o repetir dos dias: o creme para a pele, a conversa descosturada com as poucas amigas, o espírito sombrio pincelado pela aquarela das imagens da tevê, o bater pernas por lojas e perfumarias.

A senilidade afetiva fazia dela uma dessas pessoas que fogem do diálogo por temer que lhe dirijam indagações impertinentes. De dia, refugiava-se no silêncio ou no monólogo, entretida em seu canto, acariciando Osíris - belo gato de olhos amarelos - enquanto arquitetava planos para aperfeiçoar seus métodos de aliciamento.

Marcelo, ao chegar da redação e deparar-se com seu Marçal na sala de tevê, hipnotizado pelo último filme da noite, dependurava o cigarro nos lábios, afrouxava a gravata, abria os braços em cruz e cumprimentava-o aos brados:

- Grande Marçal!

O velho pulava de susto. A exclamação repercutia pelo corredor, acordava os mais próximos, assustava os notívagos, arregalava os olhos transparentes de Osíris e arrancava de Diamante Negro um sonoro palavrão.

Se a noite avançava sem que o grito do jornalista quebrasse a calmaria, todos se davam conta da ausência do caixeiro-viajante com aspecto de agente funerário. Ele próprio não fazia mistério de que suas freqüentes viagens a Minas visavam "reabastecer o estoque".

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