www.rubedo.psc.br | artigos |
© Robert Stein
![]()
PSICOTERAPIA: FREUD E JUNG
Robert Stein
| Este texto faz parte do livro Incesto e Amor Humano de Robert Stein. Agradecemos a Paulus Editora pela permissão de reproduzirmos este capítulo aqui na Rubedo. Conheça mais sobre este e outros livros da Paulus acessando a Revista de Literatura. |
A psicoterapia ainda está muito longe de alcançar sequer o limitado objetivo de curar o relacionamento danificado do indivíduo com seus instintos. Enquanto os instintos do paciente estiverem em guerra com sua mente e seu espírito, a cura psicológica e a unificação de personalidade estarão obstruídas. Tanto Freud quanto Jung concordam que a integração da vida instintiva-emocional é a meta central da terapia. Não obstante, os sistemas analíticos de ambos tendem a perpetuar contínuo abuso dos nossos instintos animais em vez da resolução criativa do conflito.
Quando comecei a trabalhar como psicanalista junguiano, considerava-me superior aos colegas freudianos por me sentir capaz de ser aberto e natural com meus pacientes, enquanto eles precisavam se proteger atrás da persona de desapego científico do médico. Somente ao ser atingido por grave ataque de ansiedade e por doloroso sintoma físico é que comecei a compreender que me iludira com minha abertura.
Um dos meus pacientes, mulher extremamente perturbada, vinha se estendendo há semanas sobre o ataque sexual dos homens em oposição à sua pureza, inocência e doçura. Certo dia, ela relatou que havia aceito inocentemente uma carona de um homem que, a seguir, tentou obrigá-la a ter relações sexuais com ele. Com óbvio prazer, ela narrou cada detalhe do que o homem havia dito e feito a ela. Justamente naquela época, eu era suficientemente inteligente para perceber os elementos sedutores da necessidade que ela tinha de fornecer detalhes tão elaborados. Mas não tinha a menor idéia de como tudo isso me afetava, até ser dominado por terrível ansiedade e vertigem seguidas de uma intensa dor no pênis. O ataque logo passou, mas fiquei absolutamente extenuado, sentindo-me como se tivesse sido apunhalado por assaltante desleal.
Após essa experiência dolorosa e chocante, tentei imediatamente examinar meu relacionamento com essa mulher e analisar o que ela havia desencadeado em mim. Não foi fácil porque , fosse qual fosse o elemento, era obviamente alguma coisa que eu não tinha descoberto depois de todos os meus anos de análise e treinamento pessoal. Tudo parecia apontar para um problema sexual meu não resolvido, mas passou-se algum tempo antes que a natureza da minha dificuldade começasse a se revelar. Este livro é uma conseqüência direta da minha tentativa de compreender e curar a ferida que foi aberta por essa experiência.
Infelizmente, esse sintoma se repetia sempre que eu escutava certos tipos de narrações sexuais. De fato, eles continuaram durante mais ou menos dois anos e a situação era tão perturbadora - não tenho palavras para descrever meu horror e desespero - que cheguei a achar que teria que abandonar minha profissão; quem já ouviu falar de um analista que não pode ouvir o relato de experiências sexuais? Quero compartilhar com você a essência do que eu finalmente percebi a respeito de mim mesmo.
Logo ficou claro que meus ataques eram causados pelo medo de me abrir à experiência das minhas fantasias sexuais agressivas e libidinosas provocadas pelas histórias pornográficas da minha paciente. Mas por que eu tinha esse medo? Eu passara muitos anos explorando toda a gama das minhas fantasias infantis, heterossexuais, homossexuais e orgíacas, e não tinha mais nenhum medo consciente. Será que era por causa da situação? Será que tinha medo de me abrir às fantasias por achar que poderiam me dominar fazendo com que eu atacasse minha paciente? Sim, depois isso pareceu representar grande parte de meu medo. Racionalmente, eu sabia que era muito pouco provável que isso viesse a acontecer ainda que ficasse excitado, mas decorreu longo tempo antes que pudesse arriscar essa possibilidade na situação analítica.
Finalmente, fui capaz de recuar meu medo até suas origens incestuosas. O tabu sexual na situação analítica, acrescido do relacionamento pais/filhos que ele constela, ativa simultaneamente o horror e a fascinação pelo incesto sempre que sentimentos sexuais são vivenciados. Além disso, a inocência hipócrita de minha paciente desencadeou em mim a liberação de enorme quantidade de raiva reprimida contra minhas irmãs mais velhas, que, nos primeiros anos de minha adolescência, haviam me provocado sexualmente com muita intensidade e depois recuado. (Para provar como tudo isso é profundo, ontem à noite, enquanto estava trabalhando neste livro, tive um sonho no qual tentava fazer com que uma de minhas irmãs enfrentasse o que me fizera quando éramos jovens, e ela afirmava não se lembrar de que alguma coisa sexual houvesse acontecido entre nós.)
Na psicanálise, o paciente é encorajado a vivenciar emocionalmente e a expressar verbalmente todas as fantasias sexuais. Mas o que acontece ao analista, que, segundo se espera, deve permanecer desapegado e objetivo? Uma coisa é certa: sempre que o mistério do incesto é tratado, a sexualidade se torna extremamente carregada, e é impossível deixar de nos envolver, a não ser que sejamos capazes de nos desapegar da experiência - que é precisamente o que o analista precisa fazer para manter sua postura objetiva. Mas se é o relacionamento arquetípico entre o analista e analisando que ativa a sexualidade incestuosa, ela não pode ser coisa unilateral.
Enquanto o analista não estiver livre para experimentar e expressar verbalmente suas fantasias sexuais, é bem provável que o analisando tenha de carregar todo o fardo - tanto as fantasias inconscientes do analista quanto as suas. De acordo com minha experiência, é impossível saber o que pertence a quem, a não ser que analista e analisando estejam mutuamente abertos em relação às suas fantasias sexuais. Na ausência dessa possibilidade, duas coisas tendem a acontecer: 1) se o analisando revelar fantasias sexuais, elas tendem a ser fragmentadas e separadas das emoções; 2) a responsabilidade do paciente de ter de carregar a sexualidade inconsciente do analista recria o relacionamento patogênico pai/mãe-filho(a), que tem mais probabilidade de aprofundar do que curar a ferida do incesto.
Por ter trabalhado como médico durante vários anos antes de me tornar analista, estou muito familiarizado com o desapego que o médico precisa ter no seu relacionamento com o paciente. O médico precisa treinar para permanecer emocionalmente desapegado quando examina e trata de pacientes nus. Sem dúvida, o paciente que fica nu e vulnerável diante de um médico tem o direito de esperar que seu corpo não seja danificado ou violado. Analogamente, esse mesmo modelo clínico foi transferido para a situação psicoterapêutica, quando se espera que o paciente exponha sua alma nua e vulnerável. Mas a cura da alma pode exigir diferentes abordagens e princípios, particularmente quando as feridas da alma estiverem nas áreas do amor e do sexo, e da separação entre mente e corpo. Tentarei mostrar que a conexão da alma entre analista e analisando é fundamental para o processo de cura - e isso só é possível se o analista também estiver disposto a revelar sua alma e for capaz de fazê-lo.
Talvez no caso de médico, o desapego que ele assume em seu relacionamento com o corpo nu não seja realmente essencial. Não será isso apenas outra manifestação da desconfiança cartesiana e do medo da nossa natureza animal instintiva? Acho que sim. E isso levou a uma filosofia totalmente mecanicista da medicina, na qual o corpo é encarado como nada mais do que uma máquina desprovida de alma, que consiste de várias partes móveis e que precisa de um superespecialista para tratar de cada parte. Não acredito que a objetividade científica e o desapego emocional sejam o que realmente protege o paciente de ser fisicamente prejudicado pelo médico. Em vez disso, a própria natureza da situação terapêutica evoca instintos protetores para com a pessoa exposta e vulnerável. Até mesmo entre animais, como demonstrou Lorenz1, esses instintos parecem existir. Se houve algum dano, este foi causado pela fria distância imposta pela objetividade científica, que resultou nas mais terríveis violações ao corpo humano.
Um importante aspecto do trabalho analítico é a exploração e a reavaliação das antigas atitudes do paciente (conscientes e inconscientes). Neste caso, o analista funciona mais como um professor do que como um curador, e suas atitudes e valores pessoais provavelmente exercerão uma profunda influência no paciente. A idéia de que o analista funciona como guia e mentor espiritual, um guru, surge desse aspecto necessário do processo. Particularmente na análise junguiana, o papel do analista como psicopompo, aquele que mostra o caminho, é enfatizado. Consequentemente, a escola junguiana teve a tendência de se tornar sistema filosófico preocupado com a ética, a moral e com o dilema religioso do homem moderno, afastando-se das preocupações mais especificamente terapêuticas da psicopatologia: já perguntaram a alguns analistas junguianos se a psicologia analítica pertence à tradição das artes da cura. Embora os psicanalistas estejam teoricamente mais preocupados com a patologia, na prática seus métodos também são amplamente educacionais. Suas pressuposições básicas, de maneira não diferente da dos junguianos, são que, tornando consciente o incosnciente, desenvolvem-se novas atitudes do ego que ajudam a libertar o indivíduo do domínio opressivo do complexo patogênico. É claro que os valores e a orientação filosófica do analista têm peso considerável na determinação da direção que tomam as novas atitudes do ego do paciente; ainda que os padrões do analista não estejam abertos e expressos, ele está presente como modelo em virtude de seu papel. Mas seja como for, a suposição é que o complexo instintivo reprimido do paciente será curado através desse processo. Na prática, contudo, a mudança na atitude do ego, consciência e aceitação do complexo inconsciente, demonstrou com muita freqüência ser inadequada para causar verdadeira mudança ou cura. Este fato foi explicado de duas maneiras: ou houve apenas uma compreensão e aceitação intelectual, ou a compreensão não foi tratada na situação de transferência - uma situação na qual o indivíduo transfere uma experiência reprimida do passado para um relacionamento no presente. Não há dúvida de que existe alguma verdade nessas explicações. Mas poderíamos questionar essa hipótese, visto que houve muitos casos em que a aceitação não foi apenas intelectual, nos quais o complexo foi tratado na situação de transferência, e ainda assim não se deu verdadeira cura dos instintos.
Possuímos algum conhecimento, temos lei psicológicas disponíveis que podem nos conduzir a métodos mais adequados para curar nossa natureza animal-insitntiva doentia? Creio que sim. Sabemos, por exemplo, que a negligência, o abuso, a opressão e a repressão dos nossos instintos são amplamente responsáveis pela atual condição de abuso deles. à semelhança de qualquer outra criatura viva maltratada, o desenvolvimento deles tornou-se deformado e danificado; eles estão fracos agora, indefesos, servis ou zangados e sadicamente agressivos. Como nossa sociedade avançou progressivamente em direção ao controle do computador e à mecanização, esses instintos foram forçados a se ocultar em compartimentos secretos de nosso ser. Eles se assemelharam a animais perseguidos - indomados e selvagens, temerosos e separados da condição humana. Quanto aos instinto que permaneceram, eles perderam a vitalidade e tiveram de se submeter às ordens dos cérebros de robô de seus senhores anteriormente humanos.
Mas nossa qualidade humana depende da nossa vitalidade e do nosso calor animais. Paradoxalmente, a natureza animal em todos nós precisa do abraço de sangue quente e da ligação humana solidária a dim de ser curada, e isso não pode ocorrer sem a ajuda dos próprios animais. Está é a dificuldade. É como se precisássemos nos submeter aos nossos instintos, agora precários e perigosamente negligenciados, para que seu calor vital pudesse voltar a penetrar nas nossas almas antes que nos tornássemos capazes de dar a eles o que precisam.
É realmente difícil. Ousaremos pôr nossa fé e nossa confiança em aspectos doentios, deformados, corrompidos e talvez monstruosos do nosso ser? Talvez a idéia não pareça tão ameaçadora e impossível se nos lembrarmos de que esse é tema comum nos contos de fada; amiúde a redenção do herói depende totalmente de ele confiar ou fazer amizade com um animal perigoso, repulsivo ou aparentemente insignificante. Ainda assim, existe perigo: precisamos fazer certos preparativos, satisfazer certas condições e receber bênçãos protetoras e santificação dos poderes superiores, antes de estarmos prontos para empreender a jornada. Acredito que o ritual analítico possa satisfazer essas pré-condições e exigências de modo que, quando chegar a hora de confiarmos no animal, já tenhamos melhor relacionamento com ele, e ele já não seja tão ameaçador ou perigoso quanto antes.
Quando somos capazes de nos submeter à disciplina e ao ritual analíticos - tendo consciência de que muitos não o são - a principal parte do trabalho envolve trazer os animais e outros aspectos da personalidade para fora de seus compartimentos ocultos no inconsciente. Isso em geral tem, por si mesmo, efeito salutar. Os animais parecem se tornar gradualmente mais amistosos e agradáveis: isso pode ser visto claramente nas mudanças que ocorrem nos sonhos. Inegavelmente, os animais devem sentir ou saber que algum esforço está finalmente sendo feito para ajudá-los. Além disso, quando o analista tem bom relacionamento com os próprios instintos, seu calor e solidariedade humanos em relação a todos os animais frustrados e sofredores do seu paciente ajudam a transformar parte do medo e da raiva deles diante da condição humana. Mas a verdadeira cura e transformação não pode ocorrer enquanto o paciente não estiver pronto e for capaz de confiar na ajuda e na orientação deles, e não abandonar o controle opressivo que a mente racional tem sobre eles. O paciente, contudo, não pode avançar mais em seu desenvolvimento e em sua cura do que o analista. Portanto, tanto o analista quanto o paciente precisam ter a coragem de confiar em sua natureza animal.
No final, o animal não fica curado através da gratificação dos instintos, e sim ao ser capaz de ingressar numa conexão viva e calorosa com a essência espiritual do homem. Que garantia existe, então, de que o animal não se voltará contra suas maiores necessidades se nos submetermos a ele? Na verdade, nenhuma. Mas a longa preparação necessária no trabalho analítico antes que a pessoa esteja pronta para se submeter provoca certas mudanças definidas no animal, que diminuem a probabilidade dessa ocorrência. Examinemos algumas dessas ocorrências.
Podemos, por exemplo, não ter inibições quanto a gratificar o instinto sexual, mas isso não significa necessariamente que o instinto seja saudável. É, com efeito, essencial que esse instinto, como todos os instintos, seja refreado e regulado para que possa, aos poucos, se humanizar. No decorrer do trabalho analítico, com indivíduos que aparentemente não tiveram restrições morais quanto à sua atividade sexual, parece que o instinto em si começa a compreender que a contenção é necessária para que ele se torne humano. Tive uma considerável evidência desse fato na minha prática nas reações do corpo e nos sonhos: a vagina de uma mulher, por exemplo, se fecha de repente e resiste a todos os esforços dela para que ela se abra para o ato sexual; nos sonhos, os animais freqüentemente falam e comunicam à pessoa que está sonhando sua necessidade de calor e amor humano, em vez de gratificação sexual.
Por outro lado, ocorre outra coisa com indivíduos que forma inibidos e temem sua sexualidade. Parece que não é apenas o ego ou o superego que causa as dificuldades sexuais, mas que outras forças estiveram em ação reprimindo o animal. Quando esse indivíduo toma consciência da necessidade de satisfazer seus desejos sexuais, freqüentemente sente extrema dificuldade em fazê-lo, apesar das mudanças que ocorreram em suas atitudes conscientes. Poderá tentar, mas alguma forma de impotência, frigidez ou bloqueio torna o ato impossível ou extremamente insatisfatório. A pessoa freqüentemente descobre, no decorrer do trabalho analítico, que a alma, ou o poder que movo o indivíduo em direção à totalidade, reprima o animal. A percepção consciente desse fato possibilita que a pessoa se submeta ao animal com certa garantia de que ele não se acomodará a mera gratificação dos instintos.
O medo de nos entregarmos à nossa natureza instintiva animal está intimamente relacionado com o medo de perder o controle racional sobre nós mesmos. Isso, por sua vez, está relacionado com a desconfiança das expressões espontâneas do nosso ser quando esses instintos não estão mais sob o controle da mente racional.
A mente racional - a consciência do ego - funciona como instrumento mediador entre a realidade interna e a externa. Existe sempre o perigo de transgredirmos os modos de comportamento coletivamente aceitáveis quando permitimos que um centro distinto da consciência do ego assuma o comando. Os quatro impulsos animais instintivos - fome, sexo, luta e impulso - podem causar um considerável embaraço, perigo, ou ambos, tanto para o indivíduo quanto para as outras pessoas, se não forem regulados pela mente racional. Pelo menos essa pareceria ser uma declaração satisfatória a favor da resistência do ego em entregar o controle para nossa natureza sensual. O medo é que todas as virtudes humanas altamente consideradas desapareçam, e vicejem a ganância, a avareza, a luxúria, a fornicação sem inibições, a covardia e o assassínio.
Pois bem, durante um longo tempo nós nos permitimos ser governados pelo deus da razão, e as virtudes como a coragem, o amor, a bondade humana e a individualidade pareciam estar em seu nível mais baixo. Além disso, apesar do preconceito humano contra os impulsos instintivos não domesticados, estudos do comportamento animal indicam que até os animais mais selvagens são muito mais sensíveis em seus relacionamentos com seus semelhantes do que percebêramos anteriormente. Precisamos claramente reavaliar nossas opiniões e nossa interpretação dos instintos animais.
Posto que os animais não possuem tradição cultural, precisamos presumir que os padrões instintivos inatos são basicamente responsáveis pela regulação dos relacionamentos animais. Uma das funções mais importantes da mente racional do homem é a transmissão do ritual, dos costumes e da tradição de geração em geração. As crianças precisam ser instruídas e doutrinadas nos padrões da cultura, e muitos rituais primitivos são especificamente projetados para esse fim. Sabemos que os animais expressam certo comedimento, ritual ou até mesmo "educação" em seus hábitos de comer e alimentar, em suas manifestações de amor, sexo e agressão, e em seu respeito pelo território e, possivelmente, pelos direitos da antiguidade dos membros da sua espécie. Não obstante, quando dois animais são atraídos sexualmente um para o outro, não parece haver nenhum padrão instintivo, moderação ou inibição que impeça a satisfação do impulso. Até onde sabemos, não existe nenhum tabu contra as relações sexuais entre pai ou mãe e filho, irmão e irmã e assim por diante entre os animais. Um adversário mais poderoso ou um conflito de instintos pode inibir o impulso sexual num animal, mas não existe nenhuma evidência no reino animal de qualquer coisa semelhante ao tabu do incesto, ao tabu da menstruação, ao tabu da masturbação e às regras que governam a fidelidade sexual no casamento.
A vida sexual dos animais parece ser regulada e ritualizada basicamente pelos ritmos biológicos e padrões instintivos. No homem, o impulso sexual é universalmente restringido pelo que sua cultura particular considere incestuoso, assim como o é o que é considerado comportamento tradicionalmente aceitável na sexualidade pré-nupcial e pós-nupcial. Tudo indica, portanto, que o impulso sexual no homem é modificado por fatores extrínsecos pertencentes mais à cultura do que à natureza.
É difícil imaginar pessoa que, de boa vontade, permitiria que os centro inferiores da consciência física regulassem o fluxo e o refluxo dos relacionamentos humanos se ela acreditasse que sua natureza, libertada do controle do ego, certamente praticaria uma transgressão contra a sociedade. Não obstante, acredito que esse medo se fundamente em gritante má interpretação da natureza humana. Ele não leva em conta a evolução histórica dos instintos humanos e as transformações que ocorrem no desenvolvimento do indivíduo, de acordo com as quais os instintos não estão necessariamente em oposição aos valores culturais.
A consciência do ego funciona amplamente como o olho observador da mente, que tende a aumentar a distância entre o sujeito e o objeto. A consciência do corpo, por outro lado, nos arrasta para o contato direto e imediato com outra pessoa ou com um objeto. O medo e a desconfiança em relação ao seu ser físico-sensual são amplamente responsáveis pela nossa sensação de isolamento e alienação. Enquanto as naturezas espiritual e animal do homem não estiverem harmoniosamente sintonizadas, a submissão de uma à autoridade da outra resultará em fragmentação da personalidade - perda da unidade essencial e da totalidade do ser. A consciência do ego funciona como uma condutora dos valores culturais e introduz o ponto de vista objetivo na interação intrapsíquica subjetiva dentro do indivíduo. Quando existe grave conflito entre o espírito único do indivíduo e os valores éticos e espirituais da sua cultura, o ego tende a se pôr no caminho da união entre o espírito e a carne. Esta é essencialmente a condição na qual o homem moderno se encontra. E não existe possibilidade de ele recuperar a totalidade enquanto sua mente racional não for capaz de alcançar e incorporar nova atitude objetiva, um conjunto de valores que estão fundamentalmente de acordo com a direção e os esforços únicos do seu espírito individual. Assim, a conciliação suprema da separação mente/corpo só pode ocorrer em decorrência de mudança contínua e gradual nas atitudes e na orientação conscientes do ego.
Hoje, quando falamos da moralidade de um homem, temos a tendência de pensar imediatamente na sua moralidade sexual. Isso é compreensível se levarmos em consideração como a moderação do instinto sexual é fundamental para o desenvolvimento psicológico e cultural. O problema é que, com exceção dos dogmas rígidos de certas seitas protestantes e fundamentalistas, quase todos nós vivemos num estado de dúvida e confusão a respeito do significado e da natureza da sexualidade casta e pecaminosa. Sabemos quão prejudicial psicológica e espiritualmente é a repressão do desejo sexual, mas sabemos também que a completa liberdade sexual pode ser igualmente perniciosa. Se a virtude e a moralidade estão tão intimamente ligadas à moderação do instinto sexual, precisamos então alcançar nova moralidade sexual.
Embora muitos psicoterapeutas tenham se afastado das idéias dogmáticas de Freud sobre a sexualidade, e estejam inclinados a reconhecer outros fatores igualmente importantes como sendo responsáveis pelos distúrbios psíquicos, a exposição e a total exploração das vicissitudes do instinto sexual ainda são fundamentadas por várias razões. Já indicamos que o dilema moral do homem moderno só poderá ser resolvido quando for capaz de manter novo relacionamento com sua sexualidade. O desespero e o inexpressivo sofrimento que afligem o homem moderno são causados basicamente por seu relacionamento problemático com sua vida instintiva-emocional. Ele se afastou da qualidade de vida de sua existência física porque passou a temer a espontaneidade da sua natureza sensual. As origens dessa desconfiança, creio, são sua culpa, medo, negligência, abuso, difamação e rejeição da sua sexualidade instintiva. Tanto o próprio instinto quanto o relacionamento do homem moderno com ele foram danificados, e toda sua vida instintiva ficou contaminada por essa falta de confiança. Desse modo, é fundamental que a cura do instinto sexual se realize antes que nova harmonia entre o corpo e o espírito possa ser estabelecida.
Se o ritual analítico não conseguir efetuar aumento significativo na harmonia básica entre as naturezas espiritual e sensual do indivíduo, ele terá falhado em seu objetivo. Sabemos também que um relacionamento mais saudável com a sexualidade exerce efeito salutar sobre a totalidade da nossa vida instintiva. Poderia parecer então que talvez Freud, afinal de contas, estivesse certo: curemos as feridas sexuais, e curaremos o homem ou o tornaremos completo.
Ainda assim, tenho a impressão de que a psicanálise falhou completamente em sua função de cura. As limitações das orientações biológicas de Freud quanto à sexualidade e à psique humana, assim como o desenvolvimento mecanicista da sua escola, talvez sejam fundamentalmente responsáveis por esse fracasso. É lamentável que Freud não tenha sido capaz de avançar em direção à base espiritual mais ampla na qual Jung desenvolveu sua escola de psicologia analítica porque, parece-me, o relacionamento do homem com seus instintos é questão espiritual e religiosa que não pode ser resolvida dentro da cosmovisão puramente mecanicista.
Por outro lado, Jung pode ter desejado abarcar o mundo com as pernas, no sentido de que seu sistema também tende a perpetuar uma antítese espírito/natureza. Jung estava basicamente preocupado em ajudar o indivíduo a se religar às suas raízes religiosas. Para o homem moderno, isso significa afastar-se de uma base egocêntrica e avançar em direção a relacionamento ativo com a autoridade e sabedoria mais elevado do Self, ou do deus interior. Ao tornar o homem moderno consciente das limitações e da qualidade destrutiva da sua confiança unilateral na consciência do ego, Jung acabará por exercer influência tão grande (se é que já não exerce) quanto a que Freud exerceu com suas explorações da sexualidade. Mas a mente racional nunca entregará sua posição de controle à autoridade mais elevada do Eu enquanto temermos as reações espontâneas da natureza animal-sensual do Self.
A ênfase de Jung na conexão espiritual entre analista e analisando torna extremamente difícil explorar completamente a sexualidade. Isso se deve ao fato de que tão logo o analista abandone sua posição objetiva e desnude sua alma numa autêntica comunhão com seu paciente, a exploração da sexualidade ficará muito mais carregada e numinosa. Essa situação é amplamente responsável pela tendência existente entre os analistas junguianos para evitar discutir detalhadamente as questões sexuais. Por conseguinte, a sexualidade tende a ser suprimida e a se tornar espiritualizada.
Os psicanalistas, por outro lado, por tentarem permanecer objetivos e evitar o envolvimento, são muito mais capazes de manter uma discussão detalhada a respeito dos assuntos sexuais. A discussão nessa atmosfera de laboratório é muito menos carregada e tende, geralmente, a ser casual. Mas na minha opinião, é basicamente por isso que ela deixa de efetuar qualquer mudança e humanização fundamentais no instinto sexual. A cura de um instinto ferido e deformado não pode ocorrer fora da conexão humana.