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FELICIDADES
Um passeio à beira-mar

Maria de Lourdes Souza

Para tia Fiinha, In memoriam
e Luana


Eu caminhava a passos largos pela Avenida Delfim Moreira. O mar estava calmo, o sol pleno. Eu que venho de lugar humilde. Longe de ter, sequer, semelhança com a agitada orla marítima carioca. Onde se misturam pessoas de todo lugar, com múltiplas idéias, sonhos diversos. Nesse caminhar sem destino, me peguei pensando na vida.

*

Certa vez, lá pras bandas do interior mineiro, Dona Felícia, uma sertaneja que já trazia consigo as marcas de uma longa história cercada de lutas, vivia sua rotina. Acordar cedo, fazer o café que era todo fruto de seu trabalho. Daqueles que cheiram à longa distância. Preparar a broa de milho. Você sabe como se faz a broa de milho? É fácil, mas tem seus segredos.

Naquele dia, eu a observava de longe, como num conto de fadas.

Acordou cedo. Percebi, porque a fumaça vagarosamente começou a fugir pela chaminé, num caminho traçado pelo vento, entre a noite e o breve amanhecer. Instantes depois, o cheiro do café, e daí a pouco a janela se abria para ver o sol nascer. Se é que querem saber, o sol naquele lugar era o mais lindo que já pude ver. Lá naquelas terras, que lhe pertenciam por amor e cumplicidade, tinha de tudo que se imaginasse. Desde árvores enormes a ramagens rasteiras. Ali, tudo lhe era de serventia. Quando o sol já havia se levantado, ela foi até o quintal, chamou todos os animais de sua estimada criação. Alimentou-os com sobras de comida, milho, restos de frutas. Era uma festa só, e Dona Felícia parecia sentir-se entre os anjos. Enquanto se fartavam do saboroso banquete, ela foi até a cozinha e de lá saiu com uma xícara na mão e um prato de quitutes. Sentou-se no último degrau da escada que descia até o quintal e também fez sua refeição matinal. Era a calma em pessoa.

Eu, por um instante, deixei minhas observações e fui até o fogão apanhar meu café. Me dei conta de que minha mãe já cuidava da limpeza da casa e não tardaria a preparar o almoço. Ali mesmo, na cozinha, tomei o leite de cabra. Quando acabei, voltei ao meu observatório. Dona Felícia já não estava mais na escada e eu tive que procurá-la. Momentos depois pude vê-la. O pano surrado amarrado à cabeça para proteger do sol e da poeira, enxada a postos e uma cumbuca d’água na mão. Ela cantava e ia cuidando da terra, sua menina dos olhos. O marido e os filhos estavam na lida, no outro lado da roça.

Durante algumas horas, eu tive que esquecer Dona Felícia e ir para a escola. Quando voltei, fui visitá-la.
- Boa tarde, Dona Felícia.
- Boa tarde, Juliana.

Ela continuou seu trabalho. Percebi que já tinha roupas estendidas no varal, todas alvas e cheirosas. Ela me pediu que apanhasse uma caneca d’água na cozinha, pois a cumbuca já estava vazia. Eu fui. Quando entrei, vi a casa limpa e a comida pronta no canto do fogão à lenha. Este permanecia aquecido pelo braseiro que se formara. Não me demorei.

Agora, ela estava sentada à sombra de uma velha mangueira. Dei-lhe a água e, sem cerimônia, comecei a perguntar:
- Dona Felícia, a senhora nasceu aqui?
- Nasci e vivi nesse pedaço de chão.
- Tem vontade de morar noutro lugar?
- Acho que não.
- Já foi numa cidade grande?
- Belo Horizonte.
- Quantos anos a senhora tem?
- Mais de sessenta.

Tantas perguntas seguidas pareciam não incomodá-la.
- Do que a senhora mais gosta?
- De cuidar do meu marido, dos meus fios e desse meu pedacinho de chão.

Vi que havia muitas frutas amontoadas às margens da estrada.
- Por que a senhora pega essas frutas e deixa na beira do caminho?
- Ah, Juliana. Aqui tem fruta que não acaba mais! De modo que eu pego as que tá madura e ponho aí. As criança, quando vêm da escola, apanha e come. Minhas fruta num estraga e a meninada gosta.

Uma delas costuma dizê que as fruta é doce feito melado.
- Quem te deu todas essas coisas?
- Foi Deus, Nosso Sinhô.
- A senhora sabe muita coisa?
- Num sei nada, minha menina! O que sei aprindi na vida, com o tempo.
- A senhora sabe ler?
- Sei assiná meu nome.
- Por que a senhora não pede pra Seu Luiz fazer uma casa nova? Essa tá muito velhinha. Parece que quer cair.
- Nem pensá, minha fia. Eu tenho medo de dismanchá essa tapera que foi de minha vó, e minha alegria morrê com ela. Minha irmã dismanchô a casa véia, feiz uma casa nova e eu acho, cá pra mim, que a felicidade dela morreu de tristeza.
- Mas, Dona Felícia, felicidade não morre!
- Minina Juliana, a felicidade pra mim é que nem um passarinho. Se ela posar na sua janela, ocê dé de comê pra ela, tomá conta dela, passado uns tempo, tá que nem um vivero. Uma felicidade chama a outra e vai assim toda vida. Mas se ocê num cuidá, ela vem um dia, faia dois. Vem notro dia e faia treis. Até que cansa e vai simbora. Eu sempre fui feliz aqui, com as coisa que tenho. Eu fiz o meu vivero. Vorta-e-meia aparece um fiotinho novo da tal de felicidade. Quando ocê crescê pode tê um que nem o meu. É só tê carinho e amô no coração.

*

Nessa hora, um Tempra passou riscando o asfalto. Foi quando me dei conta de que já estava na Vieira Souto, perto do Arpoador. Parei, bebi uma água de coco. Deixei a alma fartar-se de doces lembranças. Olhei mais uma vez pro mar e voltei pra casa.



A autora

Maria de Lourdes Souza nasceu na cidade de Inhapim, Minas Gerais em 28 de agosto de 1967. Estudou na Escola Estadual Elias Januário e na Escola Estadual Alberto Azevedo, formando-se professora em 86.

Em 87, veio para o Rio de Janeiro onde participou da Oficina de Artes Literárias do Leblon, de 93 a 94. Freqüenta a Oficina de Literatura Cairo Trindade, desde agosto de 97.

A paixão pela Literatura começou na adolescência. E suas histórias foram surgindo. Em 97 lançou o conto “Amor de Viajante” na Antologia “Poesia Crônica & Conto AQUI” (Gang Edições).

“Dicionário de Lembranças” é seu primeiro livro individual. Um pouco de sua própria história, fantasias e reminiscências.

Para entrar em contato com a autora:
mlsouza@pontocom.com.br

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