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ESTRUTURALISMO E PÓS-ESTRUTURALISMO

 

Michael Peters

 

Este é o capítulo 3 (sem as notas e as referências bibliográficas) do livro Pós-estruturalismo e Filosofia da Diferença, publicado pela Autêntica Editora. A Rubedo agradece a editora por ter-nos permitido reproduzi-lo em nossas páginas.
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Revista de Literatura, maiiores informações sobre o livro.

Uma década de estruturalismo francês: 1958-1968

O estruturalismo francês tem sua origem na lingüística estrutural, tal como desenvolvida por Ferdinand de Saussure e por Roman Jakobson, na virada do século. Saussure ministrou um curso sobre lingüística geral, de 1907 a 1911; morreu em 1913. Seus alunos publicaram, em 1916, o livro Cours de linguistique, reconstituído a partir de suas anotações de aula. O Cours de linguistique concebia a linguagem como um sistema de significação, vendo seus elementos de uma forma relacional. Saussure distingue sua abordagem "científica" ou sincrônica do estudo diacrônico, histórico, das línguas, então dominante, ao fazer uma distinção entre la parole (a fala real ou os eventos de fala) e la langue (o sistema formal de linguagem governa os eventos de fala). Saussure estava interessado na função dos elementos lingüísticos e não em sua causa. Por exemplo, ele definia a "palavra" como um "signo", formado por conceito e som - o significado e o significante. Nenhum deles causa o outro; em vez disso, eles estão funcionalmente relacionados: um depende do outro. A identidade é definida de forma relacional, puramente como uma função das diferenças no interior do sistema. A relação entre significado e significante é inteiramente arbitrária. Saussure fala da "natureza arbitrária do signo". Não existe nada no mundo que faça com que um som seja associado com um conceito particular, o que é demonstrado pelo fato de que diferentes línguas têm diferentes significantes para o mesmo significado (ou conceito). Uma das características que distingue a lingüística de Saussure, constituindo um avanço em relação à gramática comparativa da época, é sua ênfase na autonomia do sistema, visto como um todo que compreende e organiza elementos fônicos e semânticos não diretamente acessíveis à experiência sensória. Jonathan Culler (1976, p. 49) assim descreve a concepção estruturalista de linguagem desenvolvida por Saussure:

    Não se trata simplesmente do fato de que a língua é um sistema de elementos que são inteiramente definidos por suas mútuas relações no interior do sistema, embora isso seja verdade, mas do fato de que o sistema lingüístico é constituído por diferentes níveis de estrutura; em cada nível, podem-se identificar elementos que contrastam e se combinam com outros elementos para formar unidades de nível superior, mas os princípios estruturais em cada nível são fundamentalmente os mesmos.

Parte do legado saussureano consiste no fato de que, como o pai da lingüística moderna, Saussure estabeleceu uma ciência geral dos signos, dando ao estudo da linguagem, considerada como um sistema de signos, uma firme base metodológica e promovendo a semiologia - como disse ele, o "estudo da vida dos signos na sociedade" - a uma posição central nas ciências humanas (GADET, 1989). Foram, entretanto, Roman Jakobson e o vínculo que ele criou entre, de um lado, a lingüística e a Genebra de Saussure e, de outro, o formalismo que florescia em Moscou, que se mostraram os fatores decisivos para tornar as visões de Saussure mais amplamente conhecidas, fazendo nascer o estruturalismo do século XX (SELDEN, 1995).

Roman Jakobson é uma figura central no desenvolvimento histórico da lingüística estrutural. Ele foi instrumental no estabelecimento do Formalismo Russo, ajudando a fundar tanto o Círculo Lingüístico de Moscou quanto a Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética (OPOJAZ), em São Petersburgo, antes de se mudar para a Checoslováquia, em 1920, para fundar o Círculo Lingüístico de Praga. Os anos formativos de Jakobson foram bastante influenciados pela tradição da Escola Kazan, por Saussure (cujo trabalho foi levado a Moscou por Sergej Karcevskij, em 1917) e pela forte tradição russa das dialéticas hegeliana e pós-hegeliana. Linda R. Waugh e Monique Monville-Burston (1990, p. 4) sugerem que "a influência mais forte sobre o pensamento de Jakobson foi o agitado movimento artístico do início do século XX, sobretudo as obras da avant-garde literária e artística: Picasso, Braque, Stravinsky, Joyce, Xlebnikov, Le Corbusier".

Jakobson ajudou, em 1926, a fundar o Círculo Lingüístico de Praga, tendo atuado como seu vice-presidente até sua partida da Checoslováquia, em 1939. Foi Jakobson que primeiramente cunhou, em 1929, o termo "estruturalismo", para designar uma abordagem estruturo-funcional de investigação científica dos fenômenos, cuja tarefa básica consistiria em revelar as leis internas de um sistema determinado. Jakobson (1973), após o sucesso do Primeiro Congresso Eslavo Internacional de Praga, expressou seu programa nestes termos:

    Se tivermos que escolher um termo que sintetize a idéia central da ciência atual, em suas mais variadas manifestações, dificilmente poderemos encontrar uma designação mais apropriada que a de estruturalismo. Qualquer conjunto de fenômenos analisado pela ciência contemporânea é tratado não como um aglomerado mecânico mas como um todo estrutural, e sua tarefa básica consiste em revelar as leis internas - sejam elas estáticas, sejam elas dinâmicas - desse sistema. O que parece ser o foco das preocupações científicas não é mais o estímulo exterior, mas as premissas internas do desenvolvimento: a concepção mecânica dos processos cede lugar; agora, à pergunta sobre suas funções.

Jakobson enfatiza que o Círculo Lingüístico de Praga está estreitamente ligado às correntes contemporâneas tanto da Lingüística ocidental quanto da lingüística russa: "as realizações metodológicas da lingüística francesa", a fenomenologia alemã (Husserl) e a pretendida síntese das escolas polonesa (de Courtenay) e russa (Fortunatov). É importante observar que Jakobson definiu sua teoria da estrutura da linguagem em contraste com a de Saussure, que ele considerava tanto demasiadamente abstrata quanto demasiadamente estática. Jakobson tratou as formulações dicotômicas (langue/parole, sincronia/diacronia) de Saussure de uma forma dialética, insistindo na estreita relação entre forma e significado, em uma situação de sincronia dinâmica (WAUGH & MONVILLE-BURSTON, 1990, p. 9).

Foi ao encontrar Jakobson, em Nova York, na New School for Social Science Research, no início dos anos 40, que Lévi-Strauss ficou conhecendo, por seu intermédio, a lingüística estrutural, publicando depois, em 1945, pela primeira vez, um artigo relacionando a lingüística estrutural com a etnologia, na recém-fundada revista de Jakobson, Word. Esse artigo se tornou um dos capítulos iniciais do livro Anthropologie Structurale, publicado em 1958, livro que era composto de uma coleção de artigos escritos em 1944 e 1957. Lévi-Strauss (1968, p. 21) reconhece sua dívida para com Saussure e Jakobson e trata de descrever seu método antropológico por meio da noção central de estrutura inconsciente:

    Se, como cremos, a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas a um conteúdo, e se as formas são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos, antigo e moderno, primitivo e civilizado [...] é preciso e basta atingir a estrutura inconsciente, subjacente a cada instituição ou a cada costume, para obter um princípio de interpretação válido para outras instituições e outros costumes.

Lévi-Strauss (1968, p. 33) sugere que podemos chegar à estrutura inconsciente por meio do emprego do método estrutural desenvolvido pela lingüística estrutural, argumentando que a fonologia (leia-se "lingüística estrutural") "não pode deixar de desempenhar perante as ciências sociais o mesmo papel renovador que a física nuclear, por exemplo, desempenhou no conjunto das ciências exatas". Ele define o método estrutural de acordo com a declaração programática feita por Nikolai Trubetzkoy (um dos membros da Escola Lingüística de Praga) em sua obra seminal, Princípios de fonologia:

    Em primeiro lugar; a fonologia lingüística estrutural passa do estudo dos fenômenos lingüísticos conscientes para o estudo sua infraestrutura inconsciente; em segundo lugar, ela se recusa a tratar os termos como entidades independentes, tomando, ao contrário, como base de sua análise as relações entre os termos; em terceiro lugar, ela introduz a noção de sistema; finalmente, ela visa à descoberta das leis gerais, quer encontradas por indução, quer deduzidas logicamente. (p. 33)

Utilizando esse método, Lévi-Strauss (1968, p. 34) sugere que as ciências sociais devem ser capazes de formular relações necessárias e que "novas perspectivas se abrem", permitindo que o antropólogo estude sistemas de parentesco da mesma forma que o lingüista estuda fonemas: "tal como os fonemas, os termos de parentesco são elementos de significação; tal como os fonemas, eles só adquirem esta significação sob a condição de se integrarem em sistemas". Os sistemas de parentesco, tal como os sistemas fonológicos, "são elaborados pelo espírito no estágio do pensamento inconsciente". Três anos mais tarde, em 1961, em suas conferências inaugurais no Collège de France, Lévi-Strauss reconhecerá publicamente sua dívida para com Saussure e definirá a antropologia como um ramo da semiologia.

Após a publicação de Anthropologie structucturale, a revolução estruturalista floresce na França, especialmente durante os anos 60: Roland Barthes, iniciado na lingüística por A. J. Greimas, no início dos anos 50, publica sua Mythologies em 1957 e torna-se Directeur d'études, em "sociologia dos signos, dos símbolos e das representações", da École des Hautes Études, em 1962; o jornal literário de vanguarda Tel Quel é fundado, em 1960, por Philippe Sollers; Michel Foucault publica Folie et deraison: histoire de la folie à l'âge classique, em 1961; em 1963, Louis Althusser convida Jacques Lacan para dar seu seminário na École Normale, iniciando um produtivo diálogo entre o marxismo e a psicanálise; o ano de 1966 vê a publicação do livro Pour Marx, de Louis Althusser, do Les mots et les choses, de Foucault, e dos Écrits, de Lacan (DOSSE, 1997).

Jean Piaget, o psicólogo, publica seu livro Le structuralisme (1968), no momento final da explosão estruturalista na França, quando o estruturalismo já tinha se identificado com atitudes políticas ultrapassadas e suspeitas. Muitos interpretaram os eventos espontâneos do Maio de 68 como uma refutação da crítica que o estruturalismo fazia ao humanismo burguês. O livro de Jean Piaget é, entretanto, interessante e também útil por sua definição do estruturalismo:

    Em uma primeira aproximação, podemos dizer que uma estrutura é um sistema de transformações. Na medida em que é um sistema e não uma simples coleção de elementos e de suas propriedades, essas transformações envolvem leis: a estrutura é preservada ou enriquecida pelo próprio jogo de suas leis de transformação que nunca levam a resultados externos ao sistema nem empregam elementos que lhe sejam externos. Em suma, o conceito de estrutura é composto de três idéias-chave: a idéia de totalidade, a idéia de transformação e a idéia de auto-regulação. (PIAGET, 1971, p. 5)

A idéia de totalidade surge da distinção entre estruturas e agregados. Apenas as estruturas podem ser consideradas como totalidades, enquanto os agregados são formados de elementos que são independentes dos complexos nos quais eles entram: "os elementos de uma estrutura estão subordinados a leis e é nos termos dessas leis que a estrutura qua totalidade ou sistema é definida" (p. 7). A natureza dos todos estruturais depende de suas leis de composição que, por sua vez, governam as transformações do sistema, sejam elas matemáticas (por exemplo, 1+1 "fazem" 2), sejam elas temporais. A idéia de auto-regulação implica tanto uma automanutenção quanto um fechamento e Piaget menciona três mecanismos básicos de auto-regulação: ritmo (como em biologia), regulação (no sentido cibernético) e operação (no sentido da lógica).

Piaget discute, então, os seguintes temas: as estruturas matemáticas; as estruturas físicas e biológicas; as estruturas psicológicas (a psicologia da Gestalt, a gênese da inteligência); o estruturalismo lingüístico (incluindo a gramática generativa de Chomsky); a análise estrutural nas ciências sociais (centrando-se na antropologia estrutural de Lévi-Strauss); e, finalmente, o estruturalismo e a filosofia. No capítulo 7, "Estruturalismo e filosofia", Piaget (1971, p. 120) discute as relações entre o estruturalismo e a dialética: "Na medida em que se opta pela estrutura e se desvaloriza a gênese, a história e a função ou até mesmo a atividade do próprio sujeito, não se pode deixar de entrar em conflito com os princípios centrais dos modos dialéticos de pensamento". Nesse contexto, Piaget entra, primeiramente, no debate entre Lévi-Strauss e Sartre, para concluir que não existe qualquer conflito inerente entre estruturalismo e dialética e, em segundo lugar, define o livro de Foucault, Les mots et les choses, como um "estruturalismo sem estruturas", buscando demonstrar que "não pode existir um estruturalismo coerente à parte do construtivismo" (p. 135). Ele sugere que, em vez de postular estruturas, Foucault fala de epistemes ligadas à linguagem e que, para Foucault, as ciências humanas não passam de resultados de mutações de epistemes que se seguem umas às outras no tempo, sem qualquer seqüência pré-ordenada ou necessária. Essa arqueologia das ciências humanas decreta o fim do homem. Em sua conclusão, Piaget discute especificamente essa pane mais radical do trabalho de Foucault. Ele argumenta que

    as "estruturas" não mataram o homem, nem aniquilaram as atividades do sujeito. [...] Em primeiro lugar, convém distinguir entre o sujeito individual [...] e o sujeito epistêmico [...]. Em segundo lugar, é preciso separar a tomada de consciência, sempre fragmentária e, com freqüência deformante, daquilo que o sujeito consegue fazer em suas atividades intelectuais: dessas últimas ele conhece apenas seus resultados, mas não seus mecanismos. (PIAGET, 1971, p. 139)

Foucault, em uma rara entrevista, na qual discute diretamente a.questão do estruturalismo e do pós-estruturalismo, deixa claro que o estruturalismo não era uma invenção francesa e que o momento francês do estruturalismo durante os anos 60 deveria ser visto, de forma apropriada, contra o pano de fundo do formalismo europeu. Foucault sugere que, à parte aqueles que aplicaram métodos estruturais na lingüística e na mitologia comparativa, nenhum dos protagonistas do movimento estruturalista sabia muito bem o que estava fazendo. Embora Foucault (1983, p. 205) declare nunca ter sido um estruturalista, ele reconhece que o problema discutido pelo estruturalismo era um problema muito próximo de seus interesses tais como ele os definiu em várias ocasiões: "o problema do sujeito e de sua reformulação".

Para Foucault, as investigações estruturalistas, muito diversas sob outros aspectos, convergiam em um único ponto: sua oposição filosófica à "afirmação teórica do primado do sujeito", que tinha sido dominante na França desde a época de Descartes e que tinha servido de postulado fundamental para uma ampla gama de abordagens filosóficas, dos anos 30 aos 50, incluindo o existencialismo fenomenológico, "uma espécie de marxismo às voltas como conceito de alienação" (FOUCAULT, 1991, p. 86), e as tendências no campo da psicologia que negam o inconsciente. Ele também se refere ao "problema do estruturalismo" na França como uma conseqüência de problemas mais importantes na Europa Oriental, uma história mais profunda, à qual a maior parte da comunidade acadêmica francesa estava cega (FOUCAULT, 1991, p. 88). E contudo, ele sugere, os comunistas e outros marxistas tinham tido a premonição de que o estruturalismo estava preste a dar um fim à cultura marxista tradicional na França: "uma cultura de esquerda que não fosse marxista estava prestes a surgir" (FOUCAULT, 1991, p. 90).

A posição de Foucault relativamente ao marxismo era uma posição influenciada por questões bastante locais: ele estava reagindo ao Partido Comunista Francês, de inclinação stalinista, e ao domínio filosófico de um marxismo existencialista, durante os anos 40 e 50. Abstraindo-se essas questões locais, entretanto, pode-se afirmar que não existe nada de necessariamente antimarxista ou pós-marxista seja no pós-modernismo, seja no pós-estruturalismo. Na verdade, da mesma forma que Louis Althusser fez uma leitura estruturalista de Marx, é possível fazer uma leitura pós-estruturalista, desconstrutivista ou pós-modernista de Marx. Na verdade, o marxismo estruturalista althusseriano teve urna enorme influência sobre a geração de pensadores que nós agora chamamos de "pós-estruturalistas" e cada um deles, à sua própria maneira, acertou suas contas com Marx: vejam-se, por exemplo, as Observações sobre Marx (1991) que Foucault fez em entrevista com o marxista italiano Duccio Trombadori; ou os Espectros de Marx, de Derrida (1994); ou a tese da mercantilização "marxista" no livro de Lyotard, A condição pós-moderna. No período que antecedeu sua morte, Deleuze estava escrevendo um livro sobre Marx - ele se via, claramente, como um tipo de marxista (DELEUZE, 1995, p. 171). Todos esses pós-estruturalistas vêem a análise do capitalismo como um problema central: eles tentam compreender a forma pela qual o capitalismo se transforma para não ter que agir contra suas próprias limitações, "decodificando" a nova axiomática capitalista que governa um sistema financeiro global, claramente evidente nas "sociedades de controle" baseadas em uma economia simbólica (JAMESON, 1997).

A emergência do pós-estruturalismo

O pós-estruturalismo pode ser caracterizado como um modo de pensamento, um estilo de filosofar e uma forma de escrita, embora o termo não deva ser utilizado para dar qualquer idéia de homogeneidade, singularidade ou unidade. O termo "pós-estruturalismo" é, ele próprio, questionável. Mark Poster (1989, p. 6) observa que o termo "pós-estruturalismo" tem sua origem nos Estados Unidos e que a expressão "teoria pós-estruturalista" nomeia uma prática tipicamente estadunidense, uma prática baseada na assimilação do trabalho de uma gama bastante diversificada de teóricos. De forma mais geral, podemos dizer que o termo é um rótulo utilizado na comunidade acadêmica de língua inglesa para descrever uma resposta distintivamente filosófica ao estruturalismo que caracterizava os trabalhos de Claude Lévi-Strauss (antropologia), Louis Althusser (marxismo), Jacques Lacan (psicanálise) e Roland Barthes (literatura).

Manfred Frank (1988), um filósofo alemão contemporâneo, prefere o termo "neoestruturalismo", enfatizando, assim, uma continuidade com o "estruturalismo", tal como o faz John Sturrock (1986, p. 137) que, centrando-se em Jacques Derrida, "o" pós-estruturalista (o crítico mais agudo e de maior peso que o estruturalismo teve) - interpreta o "pós" da expressão "pós-estruturalismo" como nomeando algo que "vem depois e que tenta ampliar o estruturalismo, colocando-o na direção certa". Segundo Sturrock, "o pós-estruturalismo é uma crítica ao estruturalismo, feita a partir ele seu interior: isto é, ele volta alguns dos argumentos do estruturalismo contra o próprio estruturalismo e aponta certas inconsistências fundamentais em seu método, consistências que os estruturalistas ignoraram". Richard Harland (1987), em contraste, cunha o termo "superestruturalismo" como uma espécie de expressão "guarda-chuva", tendo como base um quadro de pressupostos subjacentes, comuns a "estruturalistas, pós-estruturalistas, semióticos (europeus), marxistas althusserianos, lacanianos, foucaultianos et alii" (HARLAND, 1993, p. ix-x). Todas essas expressões ("pós-estruturalismo", "neoestruturalismo" e "superestruturalismo") mantêm como central a proximidade histórica, institucional e teórica ao movimento do "estruturalismo". Assim, o termo exibe uma certa ambigüidade: ele nomeia o novo, timidamente e sem grande confiança, simplesmente distinguindo-o do passado. Existem importantes afinidades entre formas de estruturalismo e pós-estruturalismo, bem como inovações teóricas distintas, como veremos mais adiante.

Entretanto, o pós-estruturalismo não pode ser simplesmente reduzido a um conjunto de pressupostos compartilhados, a um método, a uma teoria ou até mesmo a uma escola. E melhor referir-se a ele como um movimento de pensamento - uma complexa rede de pensamento que corporifica diferentes formas de prática crítica. O pós-estruturalismo é, decididamente, interdisciplinar, apresentando-se por meio de muitas e diferentes correntes.

Como uma atividade francesa e predominantemente parisiense, o pós-estruturalismo de primeira geração é inseparável do milieu intelectual imediato que predominou na França do pós-guerra, em uma história dominada por forças intelectuais variadas: o legado das interpretações "existencialistas" da Fenomenologia de Hegel, feitas por Alexander Kojéve e Jean Hyppolite; a fenomenologia do Ser de Heidegger e o existencialismo de Sartre; a redescoberta e a "leitura" estruturalista de Freud, feitas por Lacan; a onipresença de Georges Bataille e Maurice Blanchot; a epistemologia radical de Gaston Bachelard e os estudos da ciência de Georges Canguilhem. Provavelmente o mais importante é que o pós-estruturalismo inaugura e registra a recepção francesa de Nietzsche, o qual forneceu as fontes de inspiração para muitas de suas inovações teóricas. E também decisiva para a emergência do pós-estruturalismo, sem dúvida, a interpretação que Martin Heidegger (1991/1961) fez de Nietzsche, bem como as leituras de Nietzsche feitas por Deleuze, Derrida, Foucault, Klossowski e Koffman, desde o início dos anos 60 até os anos 70 e 80.

O pós-estruturalismo é inseparável também da tradição estruturalista da lingüística baseada no trabalho de Ferdinand de Saussure e de Roman Jakobson, bem como das interpretações estruturalistas de Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes, Louis Althusser e Michel Foucault (da primeira fase). O pós-estruturalismo, considerado em termos da história cultural contemporânea, pode ser compreendido como pertencendo ao amplo movimento do formalismo europeu, com vínculos históricos explícitos tanto com a lingüística e a poética formalista e futurista quanto com a avant-garde artística européia.

Foi, sem dúvida, central para a emergência do pós-estruturalismo a redescoberta, por um grupo de pensadores franceses, da obra de Friedrich Nietzsche. Foram importantes também a interpretação que Martin Heidegger fez dessa obra, bem como as leituras estruturalistas tanto de Freud quanto de Marx. Considerava-se que, enquanto Marx havia privilegiado a questão do poder e Freud havia dado prioridade à idéia de desejo, Nietzsche era um filósofo que não havia privilegiado qualquer um desses conceitos em prejuízo do outro. Sua filosofia oferecia uma saída que combinava poder e desejo.

A recepção estadunidense da desconstrução e a formulação do conceito de "pós-estruturalismo" no mundo de fala inglesa coincidem com o momento em que Derrida apresenta seu ensaio "A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas", no Colóquio Internacional sobre Linguagens Críticas e Ciências do Homem, na Universidade Johns Hopkins, em outubro de 1966. Richard Macksey e Eugenio Donato (1970, p. X) descreveram a conferência como "a primeira vez, nos Estados Unidos, em que o pensamento estruturalista foi considerado como um fenômeno interdisciplinar". Mesmo antes do término da conferência, havia claros indícios de que o reinante paradigma transdisciplinar do estruturalismo tinha sido superado, embora apenas um parágrafo das "Observações conclusivas" de Macksey assinalasse as "reavaliações radicais de nossos presssupostos [estruturalistas]" feitas por Derrida (p. 320).

No agora clássico ensaio "A estrutura, o signo e jogo no discurso das ciências humanas", Derrida (1978, p. 278-80) questionava a "estruturalidade da estrutura" ou a idéia de "centro" que, ele argumentava, operava para limitar o jogo da estrutura:

    [...] toda a história do conceito de estrutura [...] tem de ser pensada como uma série de substituições de centro para centro, um encadeamento de determinações do centro. O centro recebe, sucessiva e regularmente, formas ou nomes diferentes. A história da metafísica, como a história do Ocidente, seria a história dessas metáforas e dessas metonímias. A sua matriz seria [...] a determinação do ser como presença em todos os sentidos desta palavra. Poder-se-ia mostrar que todos os nomes do fundamento, do princípio, ou do centro, sempre designaram o invariante de uma presença (eidos, arche, telos, energeia, ousia [essência, existência, substância, sujeito], aletheia, transcendentalidade, consciência, Deus, homem, etc.).

Derrida colocava em questão, nesse parágrafo, o estruturalismo francês da década anterior e, ao mesmo tempo, apontava a direção de suas próprias ambições intelectuais. O "descentramento" da estrutura do significado transcendental e do sujeito soberano pode ser encontrado, sugere Derrida, nomeando suas fontes de inspiração, na crítica nietzscheana da metafísica e, especialmente, na critica dos conceitos de ser e de verdade; na crítica freudiana da autopresença, "da consciência, do sujeito, da auto-identidade e da autoproximidade ou da autopossessão"; e, mais radicalmente, na destruição heideggeriana da metafísica, "da determinação do Ser como presença". Derrida discute, ao longo desse ensaio, o tema do "descentramento", concluindo por distinguir duas interpretações de estrutura. Uma delas, de origem hegeliana e exemplificada no trabalho de Lévi-Strauss, sonha "decifrar uma verdade e uma origem que escapem ao jogo e à ordem do signo", buscando aí a "inspiração de um novo humanismo". A outra, "que já não está voltada para a origem, afirma o jogo e procura superar o homem e o humanismo..." (DERRIDA, 1978, P.292)

O humanismo tendia, como um motivo central do pensamento liberal europeu, a colocar o "sujeito" no centro da análise e da teoria, vendo-o como a origem e a fonte do pensamento e da ação, enquanto o estruturalismo, ao menos em uma leitura althusseriana, via os sujeitos como simples portadores de estruturas. Os pós-estruturalistas continuam, de formas variadas, a sustentar essa compreensão estruturalista do sujeito, concebendo-o, em termos relacionais, como um elemento governado por estruturas e sistemas, continuando a questionar também as diversas construções filosóficas do sujeito: o sujeito cartesiano-kantiano, o sujeito hegeliano e fenomenológico; o sujeito do existencialismo, o sujeito coletivo marxista.

A genealogia do pós-estruturalismo francês tem que ser compreendida, em parte, por suas filiações com o pensamento de Nietzsche. Em particular; com sua crítica da verdade e sua ênfase na pluralidade da interpretação; com a centralidade que ele concede à questão do estilo, visto como crucial, tanto filosófica quanto esteticamente, para que cada um se supere a si próprio, em um processo de perpétuo autodevir; com a importância dada ao conceito de vontade de potência e suas manifestações como vontade de verdade e vontade de saber. Esses temas filosóficos foram assumidos, adotados e experimentados pelos pós-estruturalistas franceses sob novas e estimulantes formas. Foucault, por exemplo, desenvolveu a genealogia nietzscheana como uma forma de história crítica que resiste à busca por origens e essências, concentrando-se, em vez disso, nos conceitos de proveniência e emergência. Ao analisar; por meio do uso de narrativas e da narratologia, a pragmática da linguagem, Lyotard demonstra a mesma aversão que tinha Nietzsche pelas tendências universalizantes da filosofia moderna. Derrida, seguindo Nietzsche, Heidegger, e Saussure, questiona os pressupostos que governam o pensamento binário, demonstrando como as oposições binárias sustentam, sempre, uma hierarquia ou urna economia que opera pela subordinação de um dos termos da oposição binária ao outro, utilizando a desconstrução para denunciar, deslindar e reverter essas hierarquias. Deleuze (1983, original de 1962) fixa-se na diferença como o elemento característico que permite substituir Hegel por Nietzsche, privilegiando os "jogos da vontade de potência" contra o "trabalho da dialética".

Todos esses pensadores enfatizam que o significado é uma construção ativa, radicalmente dependente da pragmática do contexto, questionando, portanto, a suposta universalidade das chamadas "asserções de verdade". Foucault vê a verdade como o produto de regimes ou gêneros discursivos que têm seu próprio e irredutível conjunto de regras para construir sentenças ou proposições bem formadas. Seguindo Nietzsche, todos eles questionam o sujeito cartesiano-katiano humanista, ou seja, o sujeito autônomo, livre e transparentemente autoconsciente, que é tradicionalmente visto como a fonte de todo o conhecimento e da ação moral e política. Em contraste, e seguindo a crítica da filosofia liberal feita por Nietzsche, eles descrevem o sujeito em toda sua complexidade histórica e cultural - um sujeito "descentrado" e dependente do sistema lingüístico, um sujeito discursivamente constituído e posicionado na intersecção entre as forças libidinais e as práticas socioculturais. O sujeito, outra vez sob a influência de Nietzsche, é visto, em termos concretos, como corporificado e generificado, ser temporal, que chega, fisiologicamente falando, à vida e enfrenta a morre e a extinção como corpo, mas que é, entretanto, infinitamente maleável e flexível, estando submetido às praticas e às estratégias de normalização e individualização que caracterizam as instituições modernas.

Devemos compreender o pós-estruturalismo, no seu desenvolvimento no contexto histórico francês, tanto como uma reação quanto como uma fuga, relativamente ao pensamento hegeliano. Essa reação ou fuga, para sintetizar a questão em termos deleuzianos, envolve, essencialmente, a celebração do "jogo da diferença" contra o "trabalho da dialética". O livro de Deleuze, Nietzsche e a filosofia, representa um dos momentos inaugurais do pós-estruturalismo francês, em uma interpretação de Nietzsche que enfatiza o jogo da diferença, utilizando esse último conceito como o elemento central de um vigoroso ataque à dialética hegeliana. Tal como sintetizado pelo próprio Deleuze:

    Três idéias definem a dialética: a idéia de um poder do negativo como principio teórico que se manifesta na oposição e na contradição; a idéia de um valor do sofrimento e da tristeza, a valorização das "paixões tristes", como princípio prático que se manifesta na cisão, na separação; a idéia da positividade como principio teórico e prático da própria negação. Não é exagero dizer que toda a filosofia de Nietzsche, em seu sentido polêmico, é a denúncia dessas três idéias (1983, p. 195-96).

Deleuze contrasta a força negativa da dialética e sua predisposição puramente reativa - o positivo é obtido apenas por meio da dupla negação, "a negação da negação" - com a força puramente positiva da afirmação inerente à "diferença", a qual é tomada como a base de um pensamento radical que não é nem hegeliano nem marxista. Em uma vigorosa passagem, Deleuze afirma:

    "A dialética hegeliana consiste, na verdade, em uma reflexão sobre a diferença, mas de imagem invertida. No lugar da afirmação da diferença como tal, ela coloca a negação daquilo em relação ao qual ela difere; no lugar da afirmação do eu, ela coloca a negação do outro; e no lugar da afirmação da afirmação, ela coloca a famosa negação da negação" (1983, p. 196). Em suma, a dialética hegeliana reflete uma falsa imagem da diferença.

A crítica nietzscheana da dialética, feita por Deleuze, uma das chaves para se compreender o pós-estruturalismo francês, deveria ser mais reconhecida como uma base legítima para uma teorização radical alternativa. A interpretação que Deleuze faz de Nietzsche torna-se, de fato, o ponto de virada para a filosofia francesa, abrindo novos espaços para o filosofar; ajudando a re-instaurar uma tradição banida e fornecendo as bases para um modo alternativo de pensamento crítico tanto dentro da França quanto fora dela.

Em sua primeira geração, o pós-estruturalismo é exemplificado pelo trabalho de Jacques Derrida, Michel Foucault, Julia Kristeva, Jean-François Lyotard, Gilles Deleuze, Luce Irigaray; Jean Baudrillard, entre muitos outros. Historicamente, sua formação e seu desenvolvimento institucional inicial podem ser ligados à influente revista Tel Quel, havendo fortes conexões com figuras literárias tais como Maurice Blanchot e Roland Barthes. Os pensadores pós-estruturalistas desenvolveram formas peculiares e originais de análise (gramatologia, desconstrução, arqueologia, genealogia, semioanálise), com freqüência dirigidas para a crítica de instituições específicas (como a família, o Estado, a prisão, a clínica, a escola, a fábrica, as forças armadas, a universidade e até mesmo a própria filosofia) e para a teorização de uma ampla gama de diferentes meios (a "leitura", a "escrita", o ensino, a televisão, as artes visuais, as artes plásticas, o cinema, a comunicação eletrônica).

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