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A DOENÇA DIVINA

C. A. Meier

Este texto faz parte do livro Sonho e Ritual de Cura de C. A. Meier. Agradecemos a Paulus Editora pela permissão de reproduzirmos este capítulo aqui na Rubedo. Conheça mais sobre este e outros livros da Paulus acessando a Revista de Literatura.

Nunca se investigou plenamente a questão da existência de protótipos antigos da psicoterapia moderna. Uma vez que, na antiguidade, tudo o que tinha que ver com a psique incorporava-se na religião, precisamos examinar esses protótipos na religião antiga. A primeira chave explícita que encontrei foi uma passagem de Galeno, onde esse médico famosíssimo da antiguidade chamava-se a si mesmo "terapeuta" de seu "deus paternal, Esculápio".1 Qual seria o sentido da palavra therapeutes? Só pode ser o nome dado originalmente aos que assistiam ao culto e serviam ao deus executando o ritual prescrito. Desse ponto de vista, portanto, psicoterapeutas seriam pessoas que se interessavam pelo culto da psique. Erwin Rohde2, em sua obra ainda insuperada Psyche, mostrou quanto as religiões da antiguidade eram cultos da psique e visavam ao bem-estar espiritual dos que participavam ativamente da vida religiosa.

Mas o que acontecia no caso da doença? Quanto a esse aspecto, tenho uma segunda referência que me vem de um sonho tido por uma paciente em fase crítica de seu tratamento. Constituiu na setença lacônica:

I. "A melhor coisa que ele criou é Epidauro".

Como costuma acontecer com "afirmações irrefutáveis" desse tipo, não se pode obter nenhum contexto. Eu sabia, porém, que minha paciente estivera na Grécia, e recordei-lhe que havia uma cidade com esse nome na Argólida. Ela lembrou-se então do teatro - talvez o mais belo de todos os teatros antigos3 - que vira aí, e pouco a pouco lhe voltou a lembrança do santuário local de Esculápio, a quem deve Epidauro a sua fama. Assim, o aparecimento do nome no sonho era uma espécie de criptomnésia.

Levou-me esse sonho a investigar o problema inteiro da incubação; e esse estudo de fato constitui amplificação um tanto pormenorizada da palavra-chave "Epidauro" que apareceu no sonho. Daí o enigma do Sonho que eu devia sempre ter em mente. Algumas das amplificações podem parecer bastante forçadas. Mas, ao se apresentar ulterior material da prática psicoterapêutica diária, pode-se mostrar que esses temas antigos continuam ainda muito vivos na psique do homem moderno. O conhecimento desses temas constitui ajuda valiosa para entendermos problemas modernos. Mas os problemas de nossos pacientes são os problemas da psicoterapia e conseqüentemente do psicoterapeuta. Assim acolhemos com prazer todas as chaves para os protótipos tradicionais de nossas atividades. Considero muito satisfatório que muitos destes se encontrem no campo "clássico". Mostrarei que a exploração da antiguidade nos recompensará com certos lampejos inesperados sobre a "arqueologia" da psique humana. E talvez tomem os documentos empoeirados do mundo antigo vida nova e surpreendente, iluminando vividamente muitos dos problemas complexos da psicologia moderna e realçando seu interesse.

Depois, partindo do estudo do que se praticava nos antigos santuários de Esculápio, consegui obter resposta à minha segunda questão acerca do que se fazia nos tempo antigos para o culto da alma em casos de doença. A resposta não foi, como nos inclinamos a crer, medicina antiga ou um médico, mas simplesmente um deus ou salvador chamado Esculápio, médico não humano mas divino. A razão disso era que o homem clássico considerava a doença como efeito de ação divina, que só poderia ser curada por um deus ou por outra ação divina.

Assim se praticava nas clínicas da antiguidade uma forma clara de homeopatia, sendo a doença divina eliminada pelo remédio divino (similia similibus curantur). Quando se reveste a doença de tal dignidade, tem-se a inestimável vantagem de poder dotá-la de poder curativo. A divina afflictio contém portanto seu próprio diagnóstico, terapia e prognóstico, contanto, por certo, que se adote a atitude correta a seu respeito. A atitude correta tornou-se possível pelo culto, que consistia simplesmente em deixar a arte da cura para o médico divino. Ele era a doença e o remédio. Essas duas concepções identificavam-se. Porque ele era a doença, ele próprio era afligido (ferido ou atormentado como Esculápio ou Trofônio)4, e porque era ele o paciente divino também conhecia o modo de curar. para tal deus aplica-se o oráculo de Apolo: "Aquele que fere também cura"5, ho trosas iasetai.

Os esculápios Macaon e Podalírio não foram capazes de curar Telefo, ferido na coxa esquerda por Aquiles. Aquiles então recebeu o oráculo supracitado. Ulisses interpretou-o assim: o remédio e a ferrugem raspada da ponta da lança de Quiron, com a qual Ulisses ferira Telefo. O fato de que Telefo, pobre e marginalizado6, é obrigado a buscar refúgio junto a seus ex-inimigos encontrando aí a cura, constitui sutil toque psicológico. Apuleu7 também narra que se tinha ferido Psique com a seta de Cupido, causando-lhe muitas dores, sendo, porém, curada pela mesma flecha. Sua cura começa com a catábasis8 seguida de uma anábasis, sua apoteose (viagem noturna pelo mar). Voltaremos a encontrar essa situação mitológica em conexão com várias outras divindades ou heróis que curam. Esses exemplos fazem parte de tema mitológico muito difundido também usado por Goethe9 e Ricardo Wagner.10

Hércules é outro doente e herói que sofre e cura e que envia enfermidade. Ele é capaz por isso de curar doenças. Sofria de epilepsia, morbus sacer. Foi chamado aleixikakos ("afastador de males") porque afastou uma epidemia de praga, e soter ("salvador") porque libertou a terra de outra epidemia. Isso pode explicar porque os esculápios de Coan sempre gabaram sua descendência, do lado paterno de Esculápio, mas do lado materno de Hércules.11

Esse tema mitológico é antigo protótipo da exigência moderna de que todo analista deve passar por análise de treinamento; embora seja errôneo supor que a análise de treinamento não passe de preocupação educacional.

O mito do pharmakon ou droga ambivalente, veneno e antídoto ao mesmo tempo, encontra-se também no inconsciente do homem moderno. A seguinte fantasia de uma paciente é exemplo:

II. Eu estava numa planície junto ao mar. Um homem feito de fogo veio dançando em minha direção. Ele dançava seguindo a músico que vinha de fonte invisível, e pediu-me que dançasse com ele. Dancei por longo tempo com meu parceiro de fogo sem ficar cansada e sem pegar fogo. Chegamos a uma árvore e dançamos ao seu redor. Olhei de repente para cima e vi um tigre olhando para baixo em nossa direção com olhos brilhantes. O animal causou-me medo. Mas o homem de fogo tocou logo na árvore que pegou fogo. A árvore e o tigre arderam em chamas. Continuamos dançando ao redor do fogo até acabar e só restou um monte de cinzas fumegando. Mexi nelas e encontrei um pedaço de ouro que tomei comigo.
O homem de fogo continuou dançando e descendo para o mar, e eu o seguia, fascinada pela estranha visão. Entrou na água. Hesitei em segui-lo, mas ele me acenava de maneira cada vez mais insistente. No fim eu também o segui rumo às águas. Movíamo-nos no começo facilmente sobre as ondas, mas veio de repente uma grande onda que se quebrou sobre nós, e ambos mergulhamos ao fundo. O homem de fogo ainda brilhava debaixo da água. Veio então um peixe grande e terrível, com dentes afiados, que nos engoliu. Não estava escuro em sua barriga, porque o homem de fogo produziu uma lua brilhante. Eu estava com fome e exausta, e por isso cortei um pedaço do coração do peixe e o comi. Isso me fortaleceu muito. Meu parceiro acendeu o peixe com seu fogo, ele estremeceu de dor e nos vomitou para fora. Então mergulhamos ainda mais fundo, deixando o peixe queimando atrás de nós, até chegarmos ao fundo do mar. Lá o homem me levou a uma
fonte de água venenosa esverdeada, e pediu-me que a estancasse com meu pedaço de ouro porque ela estava envenenando o mar. Ele disse que não era bom que a água jorrasse para o mar e sim para a terra. Combinado com a água do mar tornou-se veneno, ao passo que tinha sido na terra fonte curativa. Por alguma razão, porém, ela secara na terra e agora estava jorrando para o mar. Se ela fosse estancada aí, provavelmente voltaria a encontrar seu canal original. Ela fora outrora o ponto central de um templo, e sua água curara muitas pessoas.
Depois de me dizer isso, fui à fonte e tapei-a com o pedaço de ouro. Fi-lo com sucesso, mas ao fazê-lo fui envenenada pela água e só pude andar ainda uns passos antes de cair prostrada. Quando estava deitada com as costas no chão, o homem de fogo veio agradecer-me pelo que fizera. Beijou-me na boca, e senti seu fogo penetrar em meu corpo. Então ele apagou seu próprio fogo e desapareceu. Mas o fogo queimou o veneno em meu corpo, e fiquei curada. Também deu-me forte empurrão para cima, de forma que surgi na superfície do mar. Nadei para a praia e subi por uma estrada; encontrei pessoas aí e lhes falei. Ao falar, saía fogo de minha boca e acendia fogo em outras pessoas também, de modo que começavam a brilhar seu olhos.
Eles disseram que iam ao templo vizinho e que a fonte curativa no templo estava jorrando de novo. Quando ouvi isso, também fui para lá, pois doía-me o fogo e pensei que a água curativa podia aliviar essa dor.
Chegando ao templo, esperei até a noite, quando ninguém mais estava lá, e entrei. Era o templo redondo com doze pilares que é dourado por dentro
12, e no meio a água jorrava na forma de uma pequena fonte. Eu bebi um gole dela, e houve um estrondo dentro de mim; fui cortada em mil pedaços, que eram lançados contra as paredes do templo, e caí no chão. Somente meu olho esquerdo não ficou dentro do templo mas foi atirado de uma janela no alto com tão grande impulso que voou para uma estrela e ficou dependurado nela. Um visitante atrasado então entrou no templo. Era uma mulher pequena, velha, encurvada e vestida de preto. Andava trôpega e carregava um cesto no braço. Ela reuniu no cesto todos os pedaços de mim que estavam no chão espalhados por todo o tempo. Ao fazê-lo, ela encontrou uma grande pérola que estava no chão e que se formara em mim quando a água apagou o fogo. Ela colocou-a no bolso de seu vestido. Então esvaziou o conteúdo do cesto jogando-o na água e foi-se mancando.
O poder curativo da água, porém, juntou de novo meu corpo despedaçado, de sorte que, quando amanheceu o dia, saí novamente inteira da água.
O resto da fantasia trata da reintegração dos olhos. No decorrer de nossa pesquisa encontraremos essa fantasia surgindo em numerosas formas paralelas às da antiguidade.

A conexão interna entre a doença divina e o médico divino constituía o núcleo da arte de curar no mundo antigo. Mas a medicina científica grega antiga estava se desenvolvendo ao lado da medicina teúrgica. Desenvolveu-se para combater a enfermidade. A enfermidade agora estava separada do próprio médico. Hipócrates e Galeno foram os fundadores dessa forma de medicina. De modo bastante estranho, porém, a escola hipocrática de medicina em Cós não pode refrear-se, depois da morte de seu fundador, de estabelecer aí um santuário de Esculápio, mostrando assim que não podia dispensar por longo tempo a medicina teúrgica13. Basta dizer que, um século depois da morte de Hipócrates, o culto de Esculápio em Cós era o culto estatal e a vara da serpente de Esculápio era a insígnia da cidade14. Em Atenas também, já no século IV a.C., o archiater (médico oficial) considerava o santuário de Esculápio como seu centro15. Galeno era mais disposto para com Esculápio do que fora Hipócrates. Galeno procedia de Pérgamo, que só era superado por Epidauro, o que pode explicar seu favoritismo. Recebeu aí seu treinamento filosófico e o começo de seu treinamento médico. Um sonho de seu pai16 inspirou Galeno a tornar-se médico. Em sonho Esculápio também o curou de doença mortal (abcesso)17. Sendo assim, é Galeno também exemplo de doutor capaz de curar por causa de sua própria doença. Também usava sonhos para fazer diagnósticos. Foi provavelmente devido à influência de Pérgamo que ele insistia na obediência do paciente às instruções dos deuses mais que às dos médicos18. Ele executou operações comandadas pelos sonhos, ex oneiratón19. É verdade que seus colegas agiram de maneira semelhante, mas como eles eram rivais, agiram assim aischros, "injustificadamente". Em geral deixavam Esculápio aconselhá-los acerca do tratamento20 e faziam uso disso para realçar a autoridade de suas prescrições junto ao paciente. Em casos extremos o deus superava o ceticismo dos pacientes confirmando as prescrições de Galeno em seus sonhos21.

Hipócrates também, apesar de sua atitude estritamente científica, concedeu ao elemento divino seu lugar na arte de curar, pois em seu Peri euschemosynes22 (Referente à graça do comportamento que se requer para a profissão da medicina), ele diz, ietros gar philosophos isotheis ("o médico que é também filósofo é semelhante a deus").



1 Patrios theos Asklepios, Galeno vi. 41 e xix. 19 (ed. Kühn). Sou devedor a C. G. Jung pela informação de que nos escritos da patrística grega chama-se o monge de therapeuthes.

2 E. Rhode, Psyche: Seelencult und Unsterblichkeitsglaube der Griechen, 2 vols., Freiburg i.B., 1898

3 Pausânias ii. 27,5

4 Trofônio: (a) engolido pela terra quando fugia de Áugias, Apostólio 6. 82, citado de Gruppe in Roscher, Lexikon, V, 1268; (b) morto de fome, Escoliastes em Aristófanes, Nuvens 508. Mais sobre esse tema cf. também em Roscher, Lexikon, s. v. "Melampus" e "Iphikles", 2570

5 Apolodoro Epit. 3.20: hotan ho trosas iatros genetai: ele só será curado se "quem o feriu se tornar um doutro". Cf. também Suetônio, Claud. 93, e J. G. Graevii, Suetonius Tranquillus, Claudius 43 (Trajecti ad Rehnum, 1673), p. 520, com seus escólios

6 Pauper et exul, Horácio Ars Poetica 96

7 Apuleu Metamorphoses iv, 28-vi. 24

8 Eis Haidou

9 Goethe, Tasso, IV. iv:

Die Dichter sagen uns von einem Speer,

Der eine Wunde, die er selbst geschlagen,

Durch freundliche Brührung heilen konnte.

("Os poetas falam-nos de uma lança que podia curar com o suave toque a ferida que ela mesma infligira").

O mesmo "motivo" já se pode encontrar no libreto da primeira ópera da história da música, Il Ritorno d'Ulysse in Patria de Monteverdi. O texto é a obra de um nobre de Veneza Giacomo Badoaro (Veneza, 1641). Pisandro canta no Ato II:

Amor, se fosti arciero in saettarmi

or da forza a quest'armi

che vincendo dirò:

se un arco mi feri, un arco mi sanò.

(Amor, fizeste de arqueiro ao atirar em mim. Agora dá força a meu braço para que eu possa dizer ao ganhar que se um arco me feriu, um arco também me curou"). Petrarca também está familiarizado com esse "motivo", como se pode ver em suas "Rime" 164 (9-11):

Cosi sol d'una chiara fonte viva

move 'l dolce e l'amaro, ond'io mi pasco;

una man sola mi risana e punge.


10 Ricardo Wagner, Parsifal, III, ii: "Die Wunde schliesst der Speer nur, der sie schlug". ("A ferida só pode ser curada pela lança que a afligiu").

11 R. Herzog, Koische Forschungen und Funde, Leipzig, 1899

12 A referência é a um templo do qual a paciente fizera antes um modelo de barro.

13 Cf. pp. 127ss.

14 R. Herzog, "Heilige Gesetze von Kos", pp. 39ss, 46ss.

15 F. Kutsch, Attische Heilgötter und Heilheroen, pp. 26, 59, n. 21; p. 65, n. 30 (RGVV, XII, 3 [1913]).

16 Galeno xvi, 222 K.

17 Ibid. xix, 19 K.

18 Ibid. xvii, b 137.

19 Ibid. xiv. 220 K.

20 Ibid. xi 314 K.

21 Ibid., x. 972 K. (Cf. também a obra de Galeno, Peri tes ex enypnion diagnoseos: "Sobre a diagnose resultante dos sonhos")

22 Hipócrates, c. 5.

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